domingo, 13 de outubro de 2013

AS “COMEMORAÇÕES” DO 5 DE OUTUBRO

“O Regime (republicano) está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicano português – o encarnado do sangue que derramou e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se.”
Fernando Pessoa, “Da República”.[1]

O dia 5 de Outubro era, desde 1911, feriado nacional.
Era feriado por ser, de facto, uma data incontornável da História Nacional e porque os vencedores dessa contenda política foram os republicanos.
Venceram, não porque as razões e o “modo faciendi” que levaram ao golpe de estado que impôs o novo regime, fossem razoáveis, representassem alguma mais-valia ao governo da cidade, corrigissem injustiças ou tiranias, ou acrescentassem algo à soberania e grandeza da Nação.
Resultou apenas de uma ilusão ideológica e de ter havido umas centenas de republicanos (se é que sabiam o que isso significava) que não se importaram de arriscar conforto, fazenda e até a vida, por uma causa em que acreditavam e não ter havido idêntica vontade do lado monárquico.
É só neste âmbito que os republicanos tiveram mérito e, por isso, ganharam.
É no que dá as questões mesquinhas da luta política e das ambições humanas e não aprender nada com os erros e acertos da História e da evolução das ideias políticas.
Assim se destruiu uma instituição (a realeza) com sete séculos de História e que nos acompanhava desde o início da nacionalidade, fazendo convergir na Família Real os males da Pátria, quando a responsabilidade se encontrava no sistema político que vigorava e nas pessoas que dele se serviam, em vez de servir.
Muito semelhante, aliás, com a actualidade, só que neste momento não há “monarca” onde fazer confluir o descontentamento… 
O Professor Salazar, que de republicano não tinha nada – acabou por nunca pensar seriamente em restaurar a Monarquia, não só porque o equilíbrio das forças políticas e sociais não o aconselhava como, sobretudo, porque os monárquicos nunca se entenderam – causa que já tinha sido a principal razão da sua derrocada – e nunca surgiu um líder à altura.
Além do que, a estrutura do Estado Novo não deixava de ser uma espécie de Monarquia sem o ser, em que o Presidente da República fazia figura de Rei Constitucional e o Presidente do Conselho dispunha de poderes alargados, porém longe de “absolutos” – em que cada órgão se sustentava mutuamente – e em que o Parlamento estava mais próximo das Cortes de antanho do que daquelas forjadas após a Revolução Francesa.
Não se pode dizer que a fórmula não tenha sido engenhosa.
Infelizmente o regime estava demasiado dependente do brilho de um homem que morreu sem descendência…
Deste modo a data de 5 de Outubro foi-se mantendo como feriado, sempre com comemorações discretas até que um governo, sem a mínima noção do que anda a fazer, decidiu que a data deixasse de ser feriado (para se poupar uns cobres à pala da “crise”!), mas em que os órgãos de soberania – estes sim, orgulhosos herdeiros da I República – fizeram gala em continuar a comemorar, embora a custos reduzidos como o estado das finanças públicas impõe (para alguns).
Daí a coisa ter passado quase despercebida, não fora uns apupos exteriores.
O que nos parece estar verdadeiramente em causa, independentemente da data – uma data que divide os portugueses – ser considerada feriado ou não, é o modo como se a vive.
Ora o que não faz sentido algum, é comemora-la pela simples razão que os erros não devem ser comemorados, muito menos exaltados.
A data não deve ser apagada da História – como algumas pessoas ou governos de matriz totalitária têm tentado fazer ao longo dos tempos, com outras efemérides ou figuras – mas sim lembrada, refletida e devidamente enquadrada, de modo a ser correctamente interiorizada no todo nacional.
Do mesmo modo que não se comemora o início de qualquer guerra civil (quanto muito o seu termo), antes se deve aprender a evitar que se repita…
Comemorar o 5 de Outubro tem sido o mesmo do que existir uma família em que um dos filhos mata o pai (ainda por cima um bom pai) e todos os anos a mesma se reunir para festejar o evento, não trabalhando e abrindo garrafas de espumante...
Devíamos, porventura passar o dia em recolhimento, em templo, meditando e pedindo perdão pelos pecados que os de agora não cometeram, mas herdaram.
Seria a melhor maneira – diria única – de assinalar tão funesta data.
Veremos qual o fulgor dos poderes públicos (que há 39 anos deixaram de a festejar) relativamente ao 1º de Dezembro (de 1640), essa sim, uma efeméride luminosa da nossa História que um decreto-lei aleivoso aboliu como feriado.
Pode ser, desta vez, “constitucional”, mas não deixa de ser um verdadeiro crime de lesa-Pátria!

[1] Porque será que raramente se transcrevem as frases politicamente incorrectas (e são muitas) de tão incensado poeta?

4 comentários:

Anónimo disse...

Sr. TC Brandão Ferreira

Esquecer o 1º de Dezembro de 1640 é uma falta imperdoável a qualquer português.

Mas infelizmente, segundo algumas estatísticas, que de vez em quando são divulgadas, cerca de 1/3 dos Portugueses aceita ou tolera a formação de uma só nação na Península!... e muitos dos outros 2/3 aceitariam por serem da raça dos inertes, dos indiferentes e dos incultos, desconhecedores da História pátria.
Estes tanto lhes faz, são do tipo: "Maria vai com as outras...".

Isto é grave, muito grave.

Bem sabemos que depois de 1580, muita da fidalguia portuguesa traiu a nossa Pátria mas não creio que chegasse aos 33%.

Ora assim, com massa desta, acho difícil continuar uma Nação velha de quase nove séculos.

Os interesses imediatos, o desamor ao nosso torrão, a emigração forçada,a maneira desconcertante como se aceita a mentira sem a contestar, enfim a pusilanimidade que grassa neste Povo, faz-me pensar que não quer senão o grilhão.

Deplorável, simplesmente deplorável.

Manuel A.

Ricardo disse...

Não esquecendo o 5 Outubro de 1143 que esse é que devia ser comemorado.A não ser que a noção de nação já não nos(povo em geral)diga nada.

Anónimo disse...

Senhor T.C. Brandão Ferreira

A "miopia" parece estar a alastrar na classe dirigente portuguesa:

O Senhor Presidente da República içou a Bandeira Nacional ao invés no ano transacto.

O Senhor Primeiro Ministro discursou recentemente, diante de uma Bandeira de contrafacção.

http://www.tvi24.iol.pt/503/politica/bandeira-portugal-mexico-passos-coelho-visita-tvi24/1500212-4072.html

Parece-me não ser descabido sugerir:

1º- Que os nossos Governantes se acautelem destes desaires, recebendo lições de: o que é e como se respeita a Bandeira Nacional, dadas por alguma entidade Militar se ainda a houver para o efeito.

2º Quando os nossos Governantes se deslocarem a qualquer parte em visitas oficiais, nomeadamente ao Estrangeiro, deviam fazer-se acompanhar sempre da Bandeira Nacional OFICIAL e apresentá-la, quando necessário.

Assim se evitavam situações constrangedoras como aquela que aconteceu outrora, quando o Símbolo de Portugal foi espezinhado como um tapete, em Inglaterra, por outro "míope".

Manuel A.

Nuno Filipe disse...

Ex. mo Sr. Coronel Brandão Ferreira,
Infelizmente o mal da Nação portuguesa não vem daí, não de 1910, mas sim, de 1834, ano em que foi implementado o Liberalismo Maçónico, importado de França, pela força das armas estrangeiras da Quadrupla-Aliança. A partir desse fatídico ano, começou Portugal a entrar em declínio e nunca mais parou, a não ser durante o interregno do Estado Novo, claro.


Um respeitoso abraço,
Nuno Ramos.