quarta-feira, 26 de abril de 2017

O MITO DE ARISTIDES SOUSA MENDES,OS NOVOS HERÓIS E O ANIVERSÁRIO DE ABRIL…




O MITO DE ARISTIDES SOUSA MENDES,OS NOVOS HERÓIS E O ANIVERSÁRIO DE ABRIL…


25/4/17

“Navegar é preciso, viver não é preciso”;
“Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”
“Senhor, falta cumprir-se Portugal!”.

                   Fernando Pessoa

            O Mito de Aristides Sousa Mendes (ASM) que o actual PR resolveu agitar de novo, ao condecorá-lo no passado dia 3 de Abril, a propósito do 63º aniversário do seu passamento (!), também se pode relacionar com a efeméride anual do golpe de estado militar, florido a cravos, que virou revolução, conduzida pelo PC (fazemos apócope do segundo “P”, pois chamar “português” a uma organização subversiva, que esteve ao serviço de uma potência estrangeira, desde 1921 - a URSS - causa-nos alguns pruridos) e anarquizada por outras forças de extrema - esquerda.
            Após o incompleto 25 de Novembro de 1975, assentou arraiais, um regime úbere            em mazelas, baseado numa Constituição peca, palavrosa e até antidemocrática, regime que se sedimentou através de distribuição de dinheiro emprestado e muitos negócios ruinosos e corruptos.
            Lavaram o cérebro aos cidadãos através de muita mentira política, social e histórica, e estribilhos de grande efeito sonoro e “progressista”, como “liberdade”, “antifascismo”, “abaixo a reacção”, “democracia”, “modernidade”, “direitos e mais direitos”, etc..
            Sem nunca se ter intuído e interiorizado o verdadeiro significado dos termos, doutrinas e conceitos.
            E sem nunca terem julgado ninguém![1]
            As pessoas passaram, de facto, a viver melhor mas com riqueza que não produziram, não lhes pertencia e pelo desbarato de todas as reservas acumuladas. Que não eram pequenas.
            Sem embargo, o regime não tinha heróis.
            Passado o fugaz deslumbre dos “capitães” – cuja maioria nunca se deu conta verdadeiramente daquilo em que se metera – e de dois generais que emergiram do golpe, Spínola e Costa Gomes que, célere, foram promovidos a Marechais.
            Direi que indevidamente, o primeiro por ter ajudado a desencadear um evento que não conseguiu controlar e que o ultrapassou e, ainda, pela vaidade que lhe embotou o senso; o segundo por falta de carácter e lealdade, como as duas alcunhas por que era conhecido, tão bem ilustram: “rolha” e “judas”. (Ainda hoje ninguém sabe ao certo o que é que este oficial de cavalaria – que não gostava de montar a cavalo – foi, na realidade, e para quem “trabalhou”).
            Ambos por terem grandes responsabilidades na leviana destruição de um conceito de Nação Portuguesa que tinha cerca de 600 anos.
            Sem embargo de o terem obrado defender militarmente, com uma competência técnica acima da média.
            Porém, o que falta ao actual regime em heróis sobra-lhe em traidores, desertores, infamados e desclassificados.
            A legião de corruptos perde-se de vista bem como os de vira - casacas (assim a modos como os “adesivos”, no dia 6 de Outubro de 1910…).
            Fora isto, restavam uns pseudo heróis de pacotilha, que se tinham entretido a colocar bombas nas ruas, ou a tentar prejudicar o esforço de guerra; assaltar bancos e piratear aviões e navios (entretanto recompensados com pensões e medalhas).
            Seguiu-se um general que tinha participado no golpe de estado de 28 de Maio de 1926, servido com extremoso entusiasmo o regime que se seguiu e depois veio a atraiçoar, por razões menos nobres.
            Já o encafuaram no mausoléu de Santa Engrácia, mas só foi fazer má companhia aos que lá estão.
            Espero que, ao menos, não o tenham colocado ao lado do Aquilino Ribeiro…
            Restam as “Catarinas Eufémias” da propaganda leninista, agora transmutada na subversão mais adequada à psicologia da burguesia, com origem no Gramsci e na Escola de Frankfurt. Mesmo assim o PC não simpatiza nada com esta moda…[2]
            Além disto o regime nasceu aviltado por uma Junta de Salvação Nacional que não fez (e não conseguiu fazer) nada do que se tinha proposto – o célebre Programa do MFA – e rapidamente se alienou.
            Um regime, cujos próceres, infligiram ao próprio país uma derrota política e militar, quando se estava a controlar e a ganhar a guerra em todas as frentes e que estava a ser combatida de uma forma competente e patriótica, como já não se assistia desde que Afonso de Albuquerque entregara a alma ao criador, frente a Goa, em 1515 (e mesmo este fartou-se de ser atraiçoado em Lisboa…).
            E não contentes em terem provocado uma debandada de pé descalço, vergonhosa, ainda ficaram ufanos dela![3]
            A Primeira República tinha-se fundado num crime de regicídio, num levantamento armado civil/militar, ilegal, organizado por um Partido legalmente constituído (o Partido Republicano) e por uma organização paramilitar clandestina – a Carbonária – mancomunada com aquele e com o Grande Oriente Lusitano. Regime que nunca se referendou.
            A Terceira República alicerçou-se na tragédia inominável da “Descolonização” e na utopia dos “amanhãs que cantam”, atroando os ares com a cançoneta da liberdade. A liberdade dos cemitérios.
            Vivemos melhor? Materialmente vive-se melhor, é certo. Mas temos uma dívida impagável, crescemos em média 1,5% a 2% ao ano, temos 10% de desemprego 120.000 emigrantes/ano e demografia negativa.
            E deixámos de ser donos do nosso destino (afinal onde está a liberdade?).
            Mas vivemos melhor…
            O que não quer dizer que se não houvesse golpe de estado em 25/4/74, também não o conseguisse - mos.
            Pelo menos, na altura, o país crescia a 7% (no Ultramar era mais); o escudo era a 6ª moeda mais forte do mundo e estava escorada em 850 toneladas de ouro e 50 milhões de contos em divisas).
            O desemprego era quase inexistente bem como a dívida externa. Não havia dificuldade de crédito e os recursos eram imensos…
            Esquecia-me de dizer que tudo isto acontecia “apesar” de existirem 230.000 homens em armas, espalhados por quatro continentes e quatro oceanos e a combater há 14 anos em três teatros de operações distintos (Angola, Moçambique e Guiné).
            Convenhamos que o prato da balança era mais favorável…
            Na altura o “espelho” da Nação era o Exército.
            Agora o espelho (muito baço e riscado) é o futebol.
            Daí não ser de estranhar que muitos dos “heróis” estejam a ele associados.
            E nem vou entrar nos aspectos morais e cívicos que impregnam a sociedade que este regime enformou e promoveu.
            Havia pois, uma necessidade desesperada, de arranjar um herói.
            ASM caiu neste cenário como mel na sopa.
            E que perfil ideal lhe arranjaram: perseguido pelo Regime “obscurantista “do Estado Novo e pelo “tenebroso” chefe de governo que o edificara; um desobediente por uma justa causa; um homem corajoso que se manteve fiel à sua consciência; um humanista; um lutador pela paz; uma alma sofrida por uma causa humanitária; um injustiçado que acabou na miséria; enfim, um justo. E só tardiamente reconhecido! [4]
            A sua mistificação continua pois, de vento - em - popa e ainda há muito a esperar deste filão, sobretudo se tiver a ajuda de uns rabis fervorosos e uns católicos ingénuos (alguns nada ingénuos).
            É caso para o Pessoa, se fosse vivo e observasse o quadro, afirmasse:
            -“Olha, toda a gente a querer viver e ninguém a querer navegar”;
            -“Eh pá continua uma morzeta dos diabos, não vejo nada…”;
            -“Ó Portugal, quando é que tu te cumpres?”
            Ainda não é a hora…



                                                    João José Brandão Ferreira
                                                         Oficial Piloto Aviador


[1] Minto, houve um “julgamento” do Almirante Tenreiro e absolveram-no.
[2] A pobre da Catarina (outro mito) não tinha nada a ver com qualquer protesto nem era militante de coisa alguma. Estava no sítio errado, na altura errada e morreu acidentalmente, com uma bala perdida da pistola-metralhadora do comandante da força da GNR presente, Tenente Carrajola, que caiu no chão e se disparou inadvertidamente. Consta que os militares quotizaram-se, até, para pagar o funeral à vítima.
[3] Enfim, este aspecto até acaba por ser o mais mirabolante de tudo o que se passou!...
[4] Sobre este personagem favor ler o artigo “São Seguidas”, que publiquei em 14/4/17.
i em 14/4/17.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O DESMAZELO A QUE CHEGÁMOS



O DESMAZELO A QUE CHEGÁMOS
19/04/17


Porque non te callas?
Juan Carlos para Hugo Chavez.

            Já é público que o Governo da República anda preocupado com a situação na Venezuela, sobretudo pelo que possa vir a afectar a larga comunidade portuguesa – que deve rondar o meio milhão de almas – que vive no país, independentizado por Simão Bolívar, “de facto”, em 1821 (Batalha de Carabobo), mas cuja luta se iniciou em 1811, se autonomizou, em 1830 e reconhecida, em 1845.
            Numa época de frenética tentativa de correr com as potências europeias (leia-se Portugal e Espanha) da América Central e Sul, a que não foram estranhos os desígnios da grande potência do Norte (os EUA); a Maçonaria internacionalista e a Inglaterra, que se queria apropriar do comércio na parte sul daquele hemisfério.
            De realçar que, ao contrário, da vaga de autodeterminação lançada após a II Guerra Mundial, o objectivo nas Américas era apenas entregar o Poder aos colonos brancos.
            Os indígenas não tinham direito a nada, a não ser, serem dizimados, considerados cidadãos de segunda ou metidos em reserva!
            Eram os “Ventos da História” da altura…
            E a escravatura e o racismo levaram muito tempo a desaparecer: que o digam os americanos do norte, que sempre aparecem a querer dar lições de moral, democracia e liberalismo aos outros.
            Desta feita, os últimos governos portugueses, sobretudo os de maior cariz socialista, andaram aos beijos e abraços aos próceres da chamada Revolução Boliviana, entre um esgar de solidariedade ideológica; um olho num negócio que sobrasse e uma pitada de chico-espertismo.
             O “computador Magalhães” representa basicamente a súmula de tudo o que se conseguiu…
            A situação na Venezuela – aliás na esteira da sua tradição histórica de grande conflitualidade política e social – baseada em doutrinas erradas, decisões incompetentes, misturadas com muita corrupção e demagogia, nunca deixou de se deteriorar, sobretudo a partir da morte de Chávez, que ainda tinha, aparentemente, dois dedos de córtex cerebral e algum prestígio na tropa; para estar completamente de pantanas na actualidade, onde é difícil de definir a organização política e social existente e adjectivar um “maduro”, que se chama Maduro, que chegou ao poder por curta margem e muito contestado, em 14/4/2013, e que começou por ouvir a voz do seu querido líder Chávez, no chilrear dos passarinhos!
            Como é que criaturas destas chegam e se mantêm no Poder, no século XXI da era de Cristo, é que constitui um verdadeiro enigma e paradoxo!
            O problema é que com o estado de doença terminal, em que se encontra o Poder Nacional Português, não restam ao governo – já que aparentemente para o nosso sorridente PR tudo é Paz e Amor – grandes opções de fazer seja o que for, a não ser apelos….
            Mas ao menos que estejam preocupados, pois é de estar.
            E agora, se for preciso fazer algo, onde estão os meios?
            Estamos a falar de capacidade para evacuar e proteger nacionais que possam estar em perigo, ou queiram vir embora.
            Suponhamos que de todos os que lá estão, haverá 50.000 (estimativa por baixo) que queiram sair do país caso a situação se deteriore drasticamente?
            E tal pode acontecer caso Maduro, protegido por outros da mesma laia, seus vizinhos, persista em resistir a fazer as malas e ir passar os seus últimos dias em Varadero.
            E a nova administração americana pode abster-se de querer intervir para garantir uma vacina política, com a implosão a prazo do regime que por lá tem imperado.
            Sim, onde estão os meios e as capacidades para que o governo português tenha opções mínimas de actuar, num conflito destes, que a incompetência, desleixo, propósito e demagogia dos sucessivos governos têm vindo a destruir paulatinamente ao longo dos anos?
            Falamos de forças militares, planeamento civil de emergência, navios e aviões civis, etc. A única coisa em que se tem avançado alguma coisa foi nos meios de Protecção Civil, mas estes não estão vocacionados para operações destas.
            Destruída a Marinha Mercante, privatizada a TAP e reduzidas as Forças Armadas à sua expressão mais simples, em módulo de sobrevivência, o que nos resta para actuar?
            Com o Tesouro exaurido, sem reservas estratégicas de qualquer espécie (tirando petróleo) e sem capacidade industrial que possa responder a coisas simples, como seja produzir uma única munição, viaturas ou sequer 5.000 pares de botas se fosse necessário chamar 5.000 reservistas – o que nem sequer é possível, pois destruíram a organização que o permitia – de um momento para o outro?
            Como iríamos actuar, partindo do princípio que se conseguia montar uma operação de salvamento numa semana, pois não deve haver qualquer plano de contingência para tal?
            Com um esforço extremo o que resta de umas outrora, por vezes, respeitadas e respeitáveis, Forças Armadas, poderiam esgotar-se aprontando três fragatas, duas corvetas/patrulhas, o navio reabastecedor e um submarino, que transportariam ainda uma companhia de fuzileiros, quatro ou cinco helicópteros "Linx", o Destacamento de Acções Especiais e duas equipas de mergulhadores de combate. Poder-se-ia fretar meia dúzia de navios mercantes que seriam comboiados por esta força, que estaria no limite da sua capacidade de sustentação logística e levaria cerca de uma semana a chegar à Venezuela. Mas ignoro quanto tempo levaria a ser aprontada…
            Aviões civis teriam de ser fretados, pois não há reserva deles e claro ficariam sujeitos às regras do negócio…
            A Marinha teria, no entanto, que actuar sozinha, isto é sem o apoio do Exército e da Força Aérea.
            O que estou certo, a Briosa não viraria a cara.
            No entanto este apoio pode tornar-se indispensável caso haja ameaça militar para a força, ou seja necessário segurar defensivamente um ou mais locais a fim de evacuar os nacionais.
            Tal só se conseguiria obtendo um acordo para operar a partir das ilhas de Trinidad e Tobago e ou, das ilhas Curaçau e Aruba (Antilhas Holandesas).
            Mesmo assim nunca conseguiríamos lá colocar mais do que 1/2 P3P; 2/3 C130; uma companhia de pára-quedistas e 1/2 pelotões de operações especiais. Enviar F-16, seria quase impossível.
            A capacidade de sustentar todas estas forças seria muito limitada para além de poucas semanas e não haveria quase nenhuma capacidade de substituição ou recompletamento.
            Convém recordar que as Forças Armadas da Venezuela contam com cerca de 130.000 homens (com reservas de 600.000 homens, muitos deles paramilitares) e que foram reorganizadas e doutrinadas para serem o esteio da “revolução bolivariana”.
            Por isso qualquer acção a executar-se – e seria avisado avisado que já estivesse em preparação – deve ser feita combinada com a Espanha (que terá problemas semelhantes) à boa maneira de Navas de Tolosa (e não outra). Espanha de onde, aliás, já vêm as rações de combate e viaturas emprestadas.
            E não se esqueçam de continuar a mandar vir mais migrantes cá para o quintal.
            Quando tivermos de albergar “refugiados” portugueses, a gente pede ao Eng.º Guterres – mais um que julga que o Bom do Padre Américo acabou com os malandros todos … - para ele arranjar lugar algures na Antártida.
            Isto está nas últimas e a classe política não aprende mesmo.




                                               João José Brandão Ferreira
                                                  Oficial Piloto Aviador