domingo, 11 de setembro de 2016

CRÓNICA DE CRACÓVIA



CRÓNICA DE CRACÓVIA

10/9/16
Foi uma agradável surpresa.
Sendo a minha primeira vez na Polónia não me atrevo a falar neste país como um todo. Por isso restrinjo-me à experiência de Cracóvia e arredores, apesar de ser lá que está o coração dos Polacos.



 
A Polónia tem uma História de sangue, suor e lágrimas, que remonta ao ano de 966, data da cristianização do seu povo. A geopolítica explica o “karma”: uma maioria de terras de planície no caminho (se bem que no Sul existam montanhas cujos picos ultrapassam os 2.000 m) e circundada, de povos com um forte carácter belicoso, foi pasto de invasões e depredações. Uma conjuntura histórica adversa no século XVIII fê-la desaparecer do mapa dos países, mas não foi suficiente para liquidar a alma do seu povo, o qual readquiriu a independência em 1918, para voltar a ser esmagada em 1939 pela tenaz de circunstância, entre alemães e soviéticos.


Estes últimos, devido ao acordado nas costas de quase todos, nas cimeiras de Yalta e Potsdam, prolongaram a sua “estadia” até que uma nova conjuntura geopolítica, para a qual muito contribuíram, o Sindicato Solidariedade e o seu líder Lech Walesa, bem como o Papa João Paulo II - um verdadeiro ícone na Polónia dos nossos dias – os expulsou, em 1989.
Foi a lenta mas constante recuperação destes 45 anos de ocupação soviética, a realidade que fui descobrir na Polónia de 2016.
Esta realidade tem um território com 312.000 Km2 e 38,5 milhões de almas (123 hab./km2), sendo um dos maiores países membros da UE, porém com fronteiras frágeis.
Praticamente tudo o que vi na cidade, aldeias e campos, está bem preservado e limpo, predominando o verde da vegetação, jardins e floresta.
Quanto aos edifícios as cores dominantes são os diferentes matizes de cinzentos e castanhos, numa urbanização cuidada, sem prédios altos e absoluto domínio das casas de família (vulgo vivendas), nas aldeias e arredores da cidade.
Cracóvia é a antiga capital da Polónia, com os símbolos que formataram a alma das gentes: o Castelo Real e Cripta dos Reis, cidadela de referência, sobre um ponto estratégico do Rio Vístula; a Catedral que domina a maior praça medieval da Europa; uma das mais antigas universidades da Europa (fundada em 1347) e uma multitude de igrejas magnificamente preservadas e recheadas de mil riquezas, que são o espelho da profunda religiosidade cristã católica, do povo polaco. [1]
   


CRACÓVIA – PRAÇA CENTRAL

Cracóvia não foi bombardeada na II GM, pois pela sua beleza e importância, todos os contendores queriam preservá-la para com ela ficarem…
Servida por uma língua que não se parece com nenhuma outra, a população polaca aparenta ser moderadamente simpática e acolhedora (embora me tenha confrontado com uma guia turística excepcional que estudou em Lisboa e falava um português perfeito) e aparenta uma satisfação pela vida, bem - disposta, que aproveita massivamente o bom tempo e passeia e se diverte na rua.
Cracóvia pode ser uma excepção na Polónia pois é uma grande atracção turística, não sei, mas que o ar que se respira é agradável, isso é.


CASTELO WAWEL, JUNTO AO RIO VÍSTULA

As mulheres polacas são, numa anormal elevada percentagem, bonitas e elegantes o que é sempre agradável à vista, lobrigando-se – uma verdadeira excepção na Europa – um número muito grande de casais jovens com filhos.
A comida é boa, bem como a cerveja e espanta o número inusitado de restaurantes existentes.
Lembro-me de ter conhecido um casal de polacos, em Portugal, no início dos anos 90. Diziam que a única fruta que comiam eram peros e maçãs e quando partiram iam carregados de bens que por lá escasseavam ou eram apenas acessíveis a poucas bolsas. Recordo a especial atracção que tinham por laranjas e bananas…
Agora, felizmente vê-se de tudo.
Transportes públicos relativamente baratos (o nível de vida é ligeiramente inferior a Portugal), boas estradas e infraestruturas modernas (ex. o aeroporto – ainda não terminado – estação de caminhos de ferro, etc.).
Finalmente outro aspecto que salta à vista é o de uma vida cultural intensa, com “mil” manifestações por todo o lado.
A Polónia é um país com o qual Portugal poderia e deveria, estreitar os laços culturais e económicos.
O facto de já existir uma camara de comércio Polaco/Portuguesa, fundada em Varsóvia, em Março de 2008, e que já conta com 200 empresas associadas, é um bom augúrio.
Porém, as trocas comerciais ainda têm um volume reduzido, apesar de equilibrado: Portugal exportou bens para a Polónia, no valor de 403,5 milhões de euros (ME), em 2011 e 552,8 ME, em 2015; ao passo que importou nos mesmos anos, respectivamente, 405,1e 583,4 ME
Creio haver um amplo espaço onde o nosso país poderia investir (existem já cerca de 1200 empresas portuguesas que exportam para aquele país: na oferta turística; no sector agro-alimentar (não visitámos nenhum supermercado “Biedronka’” da Jerónimo Martins, mas não vimos um único produto português em nenhum lado) [2]; nos serviços – foi com gosto que encontrei uma filial do BCP na aldeia onde permaneci; na construção civil – em grande parte dominada pelos alemães; nos têxteis e calçado, até nas máquinas e equipamentos mecânicos e eléctricos, plásticos etc. Pode ser até um bom mercado para combustíveis refinados nas nossas refinarias, já que a questão energética é um dos principais problemas que pesam na economia polaca.
Já no campo dos “Serviços” a balança é nitidamente favorável a Portugal: em 2015 exportámos serviços no valor de 138,7 ME e apenas importámos 46,3 ME.
A língua ainda é uma barreira importante, mas o inglês está a tornar-se rapidamente na língua franca nas gerações polacas abaixo dos 40 anos.
Enfim, a Polónia, um país em desenvolvimento sustentável, com uma taxa de desemprego a estabilizar nos 7%; um PIB "per capita" ainda baixo (cerca de 13.000 US Dólar); uma dívida externa e pública moderada (69,3% e 51% do PIB, referente a 2015); inflação quase inexistente e um saldo da balança comercial equilibrado. A Polónia foi ainda um dos países que menos afectado foi pela crise financeira iniciada em 2008.[3] Em súmula, um mercado importante, pacífico (mas que não esquece as ameaças), aparentemente harmonioso e, definitivamente, um nome a reter, caso a geopolítica venha novamente e em força, tornar a zona pasto da instabilidade e, no pior dos casos, guerra.[4]
Uma agradável surpresa, num mundo onde há tão poucas.



                                                                        João José Brandão Ferreira
                                                                           Oficial Piloto Aviador


           
           


[1] Não estou a ver este povo aceitar fantasias multiculturais que incluam muçulmanos, até porque têm bem vivas as memórias das lutas que travaram contra os turcos, no passado. Ao contrário de um certo povo do ocidente da Península Ibérica, que tem um historial de contendas, bem mais longo e antigo…
[2] Esta cadeia é um líder de mercado na Polónia, com cerca de 2700 lojas, um volume de negócios da ordem dos 9200 milhões de euros de vendas, comercializando cerca de 90% de produtos polacos.
[3] Números retirados de relatórios da “AICEP Portugal Global”.
[4] Ainda tive tempo de dar um salto a Auschwitz, onde visitei o campo de concentração de Birkenau; assunto que fica melhor noutra crónica…

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O CAOS NO VATICANO?




O CAOS NO VATICANO?
01/09/16

“No fim, o meu imaculado coração triunfará”.

Nossa Senhora, Fátima, 1917.


Definamos “caos”: a ausência ou desintegração de qualquer ordem.
Porém, segundo correntes tidas como progressistas, revolucionárias ou relativistas, o conceito terá evoluído para a coexistência igualitária de opostos.
Este igualitarismo tenderá para o absoluto.
Não parece que estejamos, em termos do que se passa no Vaticano, num cenário como o definido no primeiro parágrafo. Pelo menos para já.
Mas já quanto à definição mais avançada, as coisas não são claras e deixam as maiores dúvidas.
Tudo começou com a renúncia do Papa Bento XVI, em 11 de Fevereiro de 2013. Até hoje não é nada líquido a, ou as razões, porque o fez.
Não quero com isto dizer que não fosse lícito fazê-lo e o direito canónico é bem explícito sobre isso.
Mas alegar-se a idade e razões de saúde, não parece convincente. Mesmo tendo em conta ou, sobretudo tendo em conta, o exemplo dado pelo seu antecessor, a quem as entidades competentes contemporâneas, se apressaram a elevar aos altares.
Morrer no seu posto é o destino natural dos Reis e por maioria de razão, o dos Papas.
E, se de alguma forma, o Papa foi coagido a tomar tal decisão – sobre o que sopraram rumores – então tal decisão terá que ser tida como ilegítima.
Passados três anos, a boa aparência que o anterior sucessor de Pedro denota, quando aparece nas pantalhas e o facto de estar a ultimar um novo livro, fazem parecer as alegadas razões de saúde, algo longínquas…
Sejam, porém, quais foram as razões que levaram Bento XVI a renunciar, o que se constata é que tal se tornou um facto consumado (“consumatum est”).
Assim sendo, o que seria natural, legítimo e, até, legal, seria que o Papa resignatário passasse novamente a Cardeal Ratzinger, deixasse de vestir de branco e de ser tratado pelo nome papal e apelidado de “Sua Santidade”, ou dê bênçãos apostólicas a quem lhe escreve. E não tivesse passado pela cabeça de ninguém, criar a figura de “Papa Emérito” sobre a qual não existe qualquer tradição na Igreja, nem doutrina que o suporte.
Tal evitaria qualquer confusão sobre a possível existência de dois Papas – o que o aparecimento público do Papa Francisco e do Papa Emérito Bento XVI, juntos, apenas reforça – pondo em causa o princípio fundamental da hierarquia e do magistério da Igreja.
O que leva a pensar que existem “de facto” dois Papas, um que actua como Papa sendo o outro um Papa orante, que não teria renunciado a ser Papa, mas apenas ao seu exercício.
Já bastam as épocas em que houve cismas com mais do que um Papa a reivindicar a legitimidade e o trágico que tudo isso representou.
Mas como tudo isto não fosse já suficientemente grave e estranho, o Arcebispo alemão Georg Gänswein – que é, pasme-se, o Secretário pessoal do Papa Emérito, acumulando com o cargo oficial de Perfeito da Casa Pontifícia, para cujo cargo foi designado em 7/12/12, e confirmado no mesmo, pelo Papa Francisco [1]- numa palestra pública, em 20 de Maio passado, em Roma, afirmou claramente, sem o afirmar, que havia dois Papas!...
Disse ele nomeadamente: “que os Papas Bento e Francisco não são dois Papas em competição um com o outro, mas representam um “expanded Petrine Office” com um membro activo e outro contemplativo. O Arcebispo acrescentou que Bento XVI não abandonou o Papado como o Papa Celestino V, no século XIII, mas pensou continuar o seu ofício de Pedro numa maneira mais apropriada dada a sua fragilidade”. E ainda que “desde 11/2/13, o ministério papal não é o mesmo como antes”; “é e continua a ser o fundamento da Igreja Católica”; “e, sem embargo, é um fundamento que Bento XVI transformou profunda e duradouramente, pelo seu excepcional pontificado”.
As declarações foram depois “ratificadas”…
Mas será que o Arcebispo pode falar pelos dois Papas?[2]
Ora esta situação configura uma confusão enorme, a coexistência dos opostos onde o grande mal do mundo é justamente considerar-se a distinção, diferenciação e discriminação das coisas e dos homens. O tal caos…
É a noção instilada nos laboratórios da revolução social, sobre a “teoria do caos”, que defende que a ordem pode advir da desordem e que, concomitantemente, a ordem pode incluir a desordem.
Deste modo para os mais finos revolucionários o caos consistirá na coexistência dos opostos que supostamente existiriam no primitivo magma, uma diamétrica e constante violação do princípio da não contradição.
Tudo se passando numa altura – embora tal seja verdade em todos as épocas – em que a Igreja precisa desesperadamente de uma liderança forte, inequívoca e esclarecedora.
Oxalá a profecia de Malaquias não se cumpra tão cedo…[3]
Mas até para isso, a Nação dos Portugueses, a Terra de Santa Maria, tem de estar preparada.
As antigas e veneráveis Ordens Militares de Cristo, Santiago e Avis, têm de deixar, urgentemente, de serem apenas honoríficas.




                                                                                                João José Brandão Ferreira
                                                                                                     Oficial Piloto Aviador


[1] A principal função deste cargo é o de organizar as audiências, tanto públicas com privadas, de Sua Santidade e tratar de todo a logística das cerimónias e viagens do papa em Roma e toda a Itália.
[2] Não deixa de ser curioso notar que o “motto ”escolhido por Ganswein é “ dar testemunho da verdade” (“Testimonium perhibere veritati”).
[3] Arcebispo irlandês do século XII, que deu a entender que o 112º Papa (o actual Papa Francisco) seria o último Papa (com o nome de “Petrus Romanus”) e veria a destruição de Roma.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

SERÁ A “TOLERÂNCIA “ A ANTECAMARA DA MORTE?







SERÁ A “TOLERÂNCIA “ A ANTECAMARA DA MORTE?
17/08/16
“Há três passos para a extinção de qualquer cultura:
1º A exagerada idealização da tolerância;
2º A instalação da apatia, o desinteresse geral;
3º A perda da razão de existência.”
Aristóteles (Tutor de Alexandre, o Grande).

Não há nada como começar por definir os termos em questão. Assim, por “tolerância” (do latim “tolerantia”) verificámos significar, indulgência, condescendência, complacência, transigência, qualidade de tolerante.
Já “tolerante” (lat. “tolerante”) é aquele que tolera ou desculpa; condescendente, indulgente, complacente, benigno.
E aquilo que é “tolerável” (lat. “tolerabile”) representa o que se pode tolerar, digno de indulgência, sofrível, passável. [1]
Em termos históricos o conceito de tolerância terá sido “ressuscitado” por alturas do século XVI, por causa das guerras religiosas, entre católicos e protestantes, que ensanguentaram a Europa.
Se há tema politicamente incorrecto na actual “civilização” ocidental este é seguramente um deles, até porque está directamente ligado, modernamente, ao malfadado conceito do relativismo moral e ao multiculturalismo.
Talvez apenas exista um tabu que se lhe assemelhe, o de falar em tudo o que esteja relacionado com judeus, judaísmo e sionismo.
Vamos ficar pelo primeiro e tentar definir-lhe o âmbito.
De facto o conceito de tolerância pode aplicar-se a todos os âmbitos da vida em sociedade, desde a Política, à Religião, da tolerância técnica (margem de erro aceitável) à Farmacologia (tolerância a medicamentos), às relações de trabalho, etc., ou às simples relações sociais - a mais comum.
Nestas existirá, à partida, certo grau de intolerância generalizada, quanto a práticas que ofendam os Dez Mandamentos, violem as leis existentes (mesmo estas têm margem de tolerância diferenciada), traição, etc.
A tolerância tem o seu âmbito mais elementar nas relações pessoais em sociedade e pode definir-se pelo grau de aceitação e inclusão que uma pessoa que saia fora da norma – entendendo-se os costumes em uso numa dada época – venha a ter.
O próprio bom senso devia regular estas relações, por exemplo: se o meu vizinho não gosta de batatas a mim não me custa nada tolerar tal facto; as coisas mudam de figura se ele me quiser impor que eu também não goste dos tubérculos ou, pior ainda, que eu não possa comê-los – o que se pode extrapolar, também por exemplo, para a guerra que um grupo de “intolerantes” pretende fazer com as touradas - ou me queira impor decibéis acima de 90, entre as quatro e as seis da manhã.
Mesmo assim eu ainda posso tolerar o barulho caso me afecte apenas a mim e não me importar com o ónus. O caso muda de figura se a minha família for atingida, já que tenho o dever de a defender. O mesmo se deve passar com as autoridades do Estado, quando os assuntos passam para esse nível.
Os exemplos podiam multiplicar-se.
Uma regra de ouro deve aplicar-se em todos os níveis onde se aplique a tolerância: a reciprocidade.
Daí não fazer sentido por exemplo, que os países cristãos permitam a existência (nalguns casos maciça) de mesquitas e direito de pregação e não haja a correspondente reciprocidade por parte de países de maioria muçulmana…
Mas, independentemente da reciprocidade existente há um sem número de coisas que não se podem tolerar: que os filhos batam nos pais; que os alunos maltratem os professores; que o vulgo tenha relações sexuais na via pública; que os drogados mostrem as suas mazelas na televisão; que digam mal da minha mãe; que se jogue à batota nos clubes de oficiais, sargentos ou praças; etc.
A lista não acaba.
Tornou-se mais curta, porém, por via da falta de censura social, derivada do desvirtuamento de princípios e, ou, da cobardia geral.
É esta falta de censura social, que exponenciou a pornografia; o vício; a homossexualidade; a droga (ao mesmo tempo que se instaurou um fanatismo contra o tabaco!); o desregramento familiar; urinar na rua ou, simplesmente deixar que os comunistas falem em democracia e liberdade, sem levarem logo com um pano encharcado na cara!
                                                                  *****
“A tolerância é a filha da dúvida”.
Erich Remarque

“Há um limite em que a tolerância deixa de ser uma virtude.”
Edmund Burke

A coisa complica-se quando a questão da tolerância passa para o âmbito da Moral, da Cultura, da Religião e da Política.
Aqui as coisas podem tomar o caminho apontado por Aristóteles e assistir-se ao fim de uma civilização, cujo exemplo mais conhecido é o da queda do Império Romano do Ocidente, seguido do Império do Oriente!
E é bom lembrar o mestre de Aristóteles, Platão, que alertou: “Quando um povo escorrega para o caminho da Democracia encontrará uma bifurcação, ou vai para uma ditadura ou directamente para o seu desaparecimento”.
A História de Portugal desde 1820 tem sido quase cópia decalcada deste enunciado…
Uma moral, uma cultura, uma religião ou uma política, que tudo tolera, deixa de acreditar em si, nos seus valores, tradições e esteios. Deixa de lutar e encolhe os ombros: passa a ser complacente. Daí verga, dobra-se e deixa-se subjugar.
A Europa – ou seja os países que a compõem – está quase a atingir o fim deste caminho.
Não é por acaso que, ainda como exemplo, a Igreja Católica, a Maçonaria e os Partidos Comunistas, são mutuamente exclusivos entre si. Onde é que neste caso se pode falar de tolerância?
O que pode ou deve, então, ser tolerado? Como definir os limites da tolerância?
Diria que o que pode ser tolerado não deve ofender os princípios e os valores fundamentais de uma sociedade, os símbolos dos países e das instituições; a honra de cada um; a dignidade nacional; a moral pública; o “Deus” dos outros; a verdade, a justiça, etc.
A tolerância pára no limiar do crime…
E, tão pouco, todas as opiniões são toleráveis ou devem ser toleradas, pois algumas não são respeitáveis! Dizer o contrário pode ser social ou politicamente correcto, mas não passa de uma falácia.
Como dizia Jean Rortand “ter um espírito aberto não é tê-lo escancarado a todas as tolices”.
Outra questão assaz pertinente tem a ver até que grau a tolerância vai afectar aquilo em que acredito, mesmo que não signifique aceitar o que se tolera…
Tão pouco se deve confundir tolerância com respeito: eu posso respeitar o costume que os beduínos têm de comer com as mãos, mas isso não me obriga a tolerar que tal aconteça em minha casa.
Para já não citar Roger Gard “uma convicção que começa por admitir a legitimidade de outra convicção adversa, condena-se à ineficácia”.
Se eu tolerar uma ideia, ou um estado de coisas que me contrariam, eu vergo-me, deixo de acreditar; deixo de lutar, serei no limite, absorvido, escravizado ou submetido: por outrem, por factos ou circunstâncias.
Quando tal passar para o nível dos países ou das civilizações, estas entram inevitavelmente em declínio e podem desparecer. É o que está a acontecer com a civilização ocidental, nomeadamente a europeia, caracterizada nos seus fundamentos pela Razão Grega, o Direito Romano e o Cristianismo.
Os germes da decadência começaram e expandiram-se, justamente por se ter começado a abandonar estas raízes. Porquê? Porque a partir do século XVIII – o chamado “século das luzes” (também do abuso do juro e da usura), o que passou a dominar na Europa tenham sido as ideias do Positivismo, em detrimento do Direito Natural; o império da razão e da ciência em vez da Fé; o laicismo e a centralidade da vida viraram 180º, isto é, do Teocentrismo (centrado em Deus) em favor do Androcentrismo (centrado no homem).
Daqui ao Homem querer ser o seu próprio Deus, foi um fósforo…
Ora quem passou a defender e a veicular tudo isto, foi a Maçonaria, uma organização que virou especulativa e se mostrou à luz do dia em 1717, faz para o ano 300 anos.
Irá certamente, haver festejos, mas “discretos”, como convém. Ninguém sabe ao certo (nem eles) a origem desta organização de que as pessoas só falam à boca pequena e que vive no maior secretismo. Ora a nível de um Estado e por maioria de razão, um Estado - Nação, não é admissível haver organizações secretas, a não ser aquelas criadas e sustentadas pelo próprio Estado (supondo que é a emanação da Nação politicamente organizada), para a defesa e salvaguarda da segurança desse mesmo Estado e respectiva Nação.
Ora não é nada disto que se passa com a Maçonaria, nem com as “maçonarias financeiras” e de poder, que se lhes seguiram, no século XX.
A Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade não passam por isso de uma falácia, pois a liberdade sendo um conceito absoluto é de aplicação relativa; a igualdade é uma mentira monumental e a fraternidade resulta apenas numa amarra aglutinadora de quem é membro do clube.
Tudo o resto serve par iludir a figura de gato-sapato, que fizeram da Democracia, leia-se, como legitimar, iludindo, o exercício do Poder.
Mas isto representa outro patamar de discussão.
Quanto à “tolerância”, importa dar alguns exemplos, para colocar a questão ao nível do que pretendemos ilustrar.
O exemplo mais actual e expressivo, a nível social, é o caso dos homossexuais.
De “maricas e fufas” (termos reprobatórios da gíria popular) passaram a “gays”, um termo “respeitável” e de salão.
De ostracizados e, por vezes, perseguidos, passaram a tolerados ou indiferentes; daí a afirmativos; depois a incentivados e agora querem impor-se e trazer para a via pública aquilo que é da esfera privada.
Já estou como o outro: vou-me embora antes que seja obrigatório! (Resta saber é para onde!).
Querem - e têm conseguido - legitimar uma aberração da natureza (o que lhe vamos chamar?), de que eles não têm, à partida, culpa (mas não deixa de ser uma aberração), de modo a subverter as leis naturais da sociedade, da família, do casamento e da procriação.
Enquistam-se em “lóbis”; infiltram-se em funções e até profissões, e tudo isto nas barbas da mais estúpida “tolerância”…
Não querem ter filhos naturais mas exigem que lhos demos artificialmente, e um dia destes exigirão um sistema de quotas para cargos e funções, ao passo que os ensaios delirantes de educação sexual nas escolas públicas deviam ser considerados um crime público!
Afirmam-se e intimidam, pelo nojo das marchas de orgulho "gay" (importam-se de tolerar que ache aquilo um nojo?) e já se chegou ao cúmulo de se blindarem com leis de delito de opinião (por exemplo, na Bélgica) de modo a que não se possa criticá-los!
A coisa passou do “tolerável” a escabrosa (oito ou 80), estando uma parte considerável da população já rendida e derrotada.
                                                               *****
“Um povo que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos claramente anunciados.”
Bento XVI
Lisboa, 12 de Maio de 2010
               
O derradeiro exemplo é o da Igreja Católica.
A tolerância pregada e assumida pode ser o fim da Igreja. Não que a Igreja não tenha que ser tolerante para com as outras religiões e não possa ou deva comunicar com elas; o mesmo se passando para com os indivíduos que não sejam do seu credo, ou não tenham credo algum.
Mas não pode ser tolerante para com as ideias que não sejam as suas; que ponham em causa os seus princípios, o seu Evangelho.
Não pode ser tolerante contra si própria! Confundir estes dois planos vai – e já está – a custar-lhe caro.
Se continuarem nesta senda tal irá levar à sua exaurição e irrelevância, pois será a própria hierarquia da Igreja que deixará de acreditar na sua Fé e no que anda cá a fazer!
E não podem aceitar de modo algum, complacência com o relativismo moral, o moderno cancro que subverte a sociedade, nomeadamente aquelas de cultura ocidental.
A tolerância relativamente a Princípios e Doutrina devem ser mutuamente exclusivos. Aí a luta tem que ser radical. Não contra o outro, mas sim contra a ideia do outro e a seu favor!
A Igreja passa agora o tempo a pedir desculpa: do que fez, do que não fez, do que devia ter feito, tudo. Só falta pedir desculpa por existir.
Pedir desculpa não tem mal nenhum, quando é o reconhecimento de um erro e demonstra lucidez e humildade.
Mas “que diabo” convinha ter algum senso a fazer as coisas como, por exemplo, enquadrar os eventos e equilibrar o passivo com o activo.
E como o seu exemplo não tem arrastado mais nenhuma outra entidade, instituição ou religião, a fazer o mesmo relativamente aos seus erros e, ou, crimes, parece que só a Igreja é que é culpada de todos os males do mundo!
Eis mais uma questão em que havia de haver reciprocidade…
Outro âmbito onde a Santa Sé tem falhado redondamente é na actual crise dos “Migrantes”.
A Santa Sé e Sua Santidade andam a confundir questões humanitárias com problemas geopolíticos – e estes são gravíssimos.
A Igreja devia limitar-se à misericórdia e ao apoio humanitário, na desgraça que tudo isto representa, na medida das suas possibilidades. Não devia, de todo, pela sua acção de magnanimidade irrestrita, estar a ajudar a um caldo de caos social que irá a breve trecho explodir em tragédias ateadas por todo o lado e a pôr em causa os equilíbrios políticos e sociais existentes.
Vai ser pior para todos e a própria Igreja irá sofrer sobremaneira com tudo o que anda a ajudar a semear, em vez de tentar pôr tento nas parvoeiras políticas e cobardia moral que abundam no continente europeu.
A Igreja não pode ter medo. A Igreja ao aplicar o Evangelho como o está a fazer à vaga de migrantes, irá ficar sem Evangelho e sem Apóstolos…
Vejam as coisas desta maneira:
Sua Santidade o Papa “levita” acima da crosta terrestre devido à transcendência Divina da sua missão e à relação privilegiada que detém com a Terceira Pessoa da Trindade, que o inspirará em termos de Fé e da interpretação das Escrituras.
E está ligado à Terra através da Santa Sé – às vezes até demasiado ligado (o que não deixou de originar lutas de criar bicho).
Mas agora, aparentemente “levitam” os dois, Papa e Santa Sé.
Talvez tenham a noção de não terem ninguém que os defenda (tirando o poder da oração):
Lutero arrastou metade da Europa dividindo a Cristandade (até hoje) irremediavelmente; um rei devasso, algo viciado em casa/descasa e em mandar cortar cabeças na Torre de Londres, inventou uma Igreja à margem de Roma; ao Cristianíssimo Rei de França, guilhotinaram-no nos idos de uma Revolução insana e a França nunca mais atinou; a Áustria está reduzida à ínfima espécie; Sua Mui Católica Majestade tem a Marinha no fundo do mar, desde Trafalgar; vive rodeado de anarcas que o querem depor e tenta a todo o custo manter colados com mais ou menos cuspo, as diferentes nações do seu Reino; o Garibaldi acabou com a ajuda das italianíssimas repúblicas (que, aliás, nunca foi grande coisa) e a Nação Fidelíssima (que somos nós) já não tem Rei que responda a nenhum apelo de cruzada (nem a nada…).
Convenhamos que o pequeno batalhão da Guarda Suíça, sito no Vaticano, é curto para tantos perigos – deve até andar entretidíssimo a vigiar os muçulmanos convidados a habitar o espaço onde Pedro foi crucificado. Não imagino o que ele possa pensar de tal facto.
Temos porém esperança, que para o ano, durante a peregrinação do Sumo Pontífice, a Fátima, Maria, Padroeira da nossa terra, se condoa de nós, não tolere mais disparates e faça um outro qualquer milagre.
Bem precisamos.
Como disse Aristóteles, a nossa cultura (civilização) está a extinguir-se.


                                                                           João José Brandão Ferreira
                                                                                 Oficial Piloto Aviador


[1] Pinheiro, Eduardo, “Dicionário da Língua Portuguesa”, Livraria Figueirinhas, Porto, 3ª Edição.