quinta-feira, 12 de dezembro de 2019


HISTÓRIAS DA GUERRA DA RESTAURAÇÃO
ROMANCE HISTÓRICO
05/12/19
“Os lugares mais obscuros do inferno estão reservados para aqueles que se mantêm neutrais em tempos de crise moral”
                                                  Dante Alighieri
                                          (A Incógnita do Homem)
                Era uma vez em Santo Aleixo.
                Tinha rebentado a guerra com Castela, então já Espanha, e lavrava a devastação nas terras raianas.
                Manuel Alegria Destarte (que, segundo uns, teria sido o inspirador das églogas de Rodrigues Lobo e segundo outros, também não) vilão, que começou por carregar a lança a D. Álvaro Cunha Leve, neto de um aristocrata russo que tinha ficado por Lisboa depois de ter perdido o navio em que viajava, quando fugia da guerra civil que abalou Castela, ao tempo da Beltraneja, passando-se mais tarde, para o campo do nobre Mário dos Ares e Re Pim Pim, da discreta Lusitana Casa (com origens remotas no Oriente) que pelo seu republicanismo feroz apoiou a ditadura de Cromwell, quando este mandou cortar a cabeça ao Rei Carlos I, e se opôs em seguida ao casamento da infeliz princesa Catarina com o filho daquele, que veio a reinar com o título de Carlos II.
                O dito Destarte, não gostando dos Braganças resolveu contactar o augusto corruptor - mor de Filipe I – aquele que afirmou sobre Portugal “este reino herdei - o, comprei - o e conquistei - o”, de sua graça Moura, Cristóvam de Moura, em busca de apoios contra a ordem estabelecida, após a luminosa alvorada do 1º de Dezembro de 1640.
                Mobilizado para uma praça ultramarina, a estratégica Fortaleza de Massangano, Destarte logo tentou revoltar a guarnição, o que não conseguiu.
                Para lá confluíram as Justiças do Mordomo-Mor da nova Dinastia, um tal D. António de Oliveira Sanlúcar, ainda aparentado aos Condes do Vimieiro, mas o vilão Manuel conseguiu atravessar a fronteira a salto, acabando por se estabelecer na povoação de Aracena, antiga comenda da Ordem do Templo, que ficou para Castela aquando do Tratado de Alcanizes, celebrado no glorioso ano de 1297.
              Passando então a ser conhecido pelo “Manolo de los versos”.
                De lá passou a conspirar contra o seu Rei natural e como os apoios do traidor da causa nacional, Cristovam de Moura não eram suficientes, estabeleceu contactos com a Berberia, onde teve trato com o Bei de Argel a fim de implementar a pirataria nas terras do Algarve de aquém e além-mar em África.
                Estabeleceu ainda uma rede de estações de sinais de fumo, baseada em atalaias nos pontos mais altos que conduziam à fronteira para passarem mensagens para o lado de cá da mesma e, outrossim, uma rede de correios que passariam dissimuladamente, mensagens para o interior dos domínios da Terra de Santa Maria, que o oitavo Duque da Casa Senhorial mais antiga do país, alçou a Rainha de Portugal, em 1646. Deus seja louvado.
                E foi assim que nas ofensivas dos vizinhos que nos caíram em sorte, Santo Aleixo foi atacada em 1641 e 1644 e em muitas outras alturas foi ameaçada.
                Defenderam-se bem e com garbo, os de Santo Aleixo e muitos verteram o seu sangue e viram a sua fazenda destruída e pilhada pelas invasões de quem não queriam na sua terra. E fizeram tudo isto resistindo ainda às insinuações torpes e metafisicas vindas de Aracena através do fumo e dos mensageiros, em que prometiam loas e benesses aos habitantes da margem esquerda do Guadiana se passassem para o lado do inimigo, abandonando as espadas e as escopetas e desmoralizando-os com notícias falsas, quando não a congratulação vil, pelas mortes dos combatentes que cumpriam o seu dever de bons portugueses.
                Foi a paz finalmente restabelecida (veio ainda a ser quebrada muitas vezes depois e nada garante que o não seja novamente) após 28 longos anos de lutas em quatro continentes e outros tantos oceanos.
                Uma paz que não foi lá grande coisa e a Santa Sé ainda levou dois anos a reconhecê-la. Mas estavam todos cansados da guerra… e tudo se esqueceu rapidamente.
                Manolo de los versos, de vilão passou a Dom e de versejador a erudito. Não se sabe se alguma vez trabalhou na vida. Casou, teve filhos e foi muito galardoado. Consta que viveu desconsolado por não ter sido mais reconhecido. Passeia-se muito e chegou a ser vitoriado em Massangano.
                Uns anos mais tarde, por indicação de um monge cavaleiro pertencente a uma antiga e nobre Ordem Militar, entretanto transviado nos seus ideais e juramentos, foi Destarte indicado para falar sobre o significado do 1º de Dezembro (de 1640), na praça central de Santo Aleixo! E que oração patriótica ele fez!
               Mas já ninguém se recordava dos sinais de fumo, nem das mensagens…
                Será que já teria ido dar uma aula no âmbito da nova disciplina da História? [1]
                E com romances e bolos (e muita falta de espinha e vergonha) se enganam os tolos.
               Dante já ninguém te lê!
                Ó Tempora, Ó Mores!


                                                                João José Brandão Ferreira
                                                                Oficial Piloto Aviador (Ref.)







[1] Aquela de que ainda não se conhece o programa mas já dá vómitos só de ouvir falar!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

25 DE NOVEMBRO: UMA DATA FALHADA


25 DE NOVEMBRO: UMA DATA FALHADA
30/11/19
                       “Fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos
                         em traineiras.
                        A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irres-
                        ponsabilidade de todos, deu este resultado: o fim sem a
                        grandeza de uma grande aventura.
                        Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade.”
                        Miguel Torga (sobre a Descolonização).


    Apareceram por aí uns mistificadores a dizer que a data do 25 de Novembro (de 1975), não deve ser comemorada. Quer dizer, lembrada.
    Que não se devem evocar datas (isto é, eventos) que dividem, apenas as que unem; que não deve haver aproveitamentos políticos…
     Quem assim fala deve julgar que os portugueses têm uma massa encefálica do tamanho de um testículo e este último não deve ultrapassar o perímetro de uma ervilha. Bebé.
    Até o Presidente da República resolveu convidar o General Ramalho Eanes para almoçar por ser “o herói” da data – ou seria para evitar que ele fosse à cerimónia a que costuma assistir no “Regimento de Comandos”?
    Já agora podia ter convidado também, o General Rocha Vieira e matava dois coelhos com uma cajadada…
    E considerar o General Eanes “o” herói do evento é algo redutor, pois houve muitos “heróis” nesse dia, grande parte dos quais nunca são evocados.
    A talhe de foice (salvo seja) quero dizer que as cerimónias deste ano não tiveram “grande brilho” e foram pontuadas por alguns “pormenores” desagradáveis e evitáveis, o mesmo acontecendo durante o Juramento de Bandeira de 41 praças da oitava incorporação do Exército (das quais 24 se destinam a prosseguir a especialidade “comando”). Cerimónia distinta daquela, mas que se lhe seguiu.
    E faltando neste momento cerca de 5.000 praças no Exército, não deixa de ser notável o reforço conseguido…
     A propósito, alguém sabe dizer há quantas décadas um órgão de comunicação social não dá uma notícia sobre um Juramento de Bandeira? Será uma coisa menor, sem qualquer interesse ou significado?
    Enfim é o estado da arte e continuamos todos a assobiar para o lado (e não especifico o que vi e não gostei, digamos, por pudor).
    Mas voltemos ao 25 de Novembro.
    O 25 de Novembro (de 1975) é uma data histórica, porque a sua importância lhe confere relevância histórica.
    As datas históricas devem ser estudadas, compreendidas e lembradas, sobretudo as mais recentes pois estão vivas na memória e porque condicionaram e condicionam, o nosso devir.
    Para já não falar naquilo que é necessário aprender com o que de bom e mau ocorreu e suas consequências para o futuro. Não é para o passado.
    As datas que são consideradas as mais importantes podem passar até, a ser consideradas feriados (municipais ou nacionais).
    Ora o que se passou por alturas do 25/11 foi um confronto político e social de cariz violento, que poderia ter degenerado numa guerra civil. E não há pior guerra que a “civil”.
    Do confronto havido resultaram “apenas” três mortos (militares), mas podia ter havido um banho de sangue.
    Aqueles que estiveram do lado perdedor da contenda (e perderam assaz de pouco, aliás, não sendo devidamente castigados), seus “descendentes” e alguns ingénuos úteis, não querem agora, que se fale na data.
    Imaginem, por um momento apenas, que tinha sido ao contrário.
    Alguém acredita que se o resultado fosse o oposto, hoje não estaríamos (os sobreviventes) a pular de contentes em cima das campas de centenas ou milhares de mortos e incontáveis depredações?
    Observem o que se está a passar em Espanha com a inacreditável “Lei da Memória Histórica” onde se tem subvertido tudo o que se passou aqui mesmo ao nosso lado, e tudo feito pelas forças políticas que saíram derrotadas na hedionda guerra – civil entre 1936 e 1939, e que chegou ao ponto execrável e infamante da exumação e transladação dos restos mortais do general que comandou as forças vencedoras.
     Gesto que desqualificou o actual regime espanhol, tanto em termos políticos, como sociais e humanos.
    Imaginem se acaso um qualquer governo português em vez de oferecer os ossos de D. Pedro IV (vencedor da guerra civil, entre 1828-1834), ao Brasil, os tivesse retirado da tumba para os deitar ao mar…
    Mas então não se pode comemorar o 25/11, mas pode-se evocar o 31 de Janeiro (de 1891), por exemplo?[1]
     Fazer do 5 de Outubro de 1910 (não o de 1143!) feriado nacional?
    A revolta republicana, manchada por um crime de sangue e baseada em violência gratuita, feita por sociedades secretas, uniu o país? Ainda une?
    Afinal o agora tão odiado “Estado Novo” fez bem ou mal em nunca ter feito da data de 28 de Maio (de 1926), feriado nacional? E à medida que se institucionalizou ter deixado esmorecer as “comemorações”?
    Não chega já terem destruído o ensino da História e encher os manuais escolares de mentiras e enquadramentos surrealistas?
    E vamos lá directos à questão primordial: o próprio 25 de Abril é uma data consensual?
    Deixem-me rir.
    Um golpe preparado em cima do joelho, que nem sequer reparou que havia um dia seguinte; que nunca cumpriu nada do manifesto com que se apresentou à Nação; cujos autores perderam o controlo dos acontecimentos no próprio dia do golpe; que destruiu num fósforo a coesão das Forças Armadas, que tinham 130.000 homens em pé de guerra, a combater uma guerra de guerrilha em três frentes (fora o resto); que deixou a rua tomar conta do Poder; que passou a fazer uma quantidade de coisas que afirmava condenar no regime então deposto; que provocou o maior desastre e a derrota mais vergonhosa e humilhante em toda a História de Portugal; que fez com que no espaço de pouco mais de um ano a Nação dos Portugueses se visse amputada de 95% do seu território e 60% da sua população de uma forma infame e traumática, deixando sementes de destruição que resultaram em guerras civis por décadas em quase todos os territórios que abandonámos à turbamulta comunista, anarquista e tribalista, de que resultaram mais de dois milhões de mortos e desgraça generalizada que dura até aos dias de hoje, uma data desta pode ser considerada consensual? Digna? Justa? Um exemplo?
    O que aconteceu foi apenas causado “por excessos que sempre ocorrem em períodos revolucionários” como uma cáfila de desavergonhados por aí zurram, desculpando a coisa?
    E agora aqueles ainda vivos, e seus descendentes ideológicos, que têm gravosas culpas em tudo o que se passou, querem branquear, censurar, quiçá proibir, que se comemore as acções daqueles que mesmo depois do maior mal já estar feito, conseguiram colocar um “alto ao saque”?
    Ora vão todos abaixo de Braga!
    O 25 de Abril é que une e não divide?
    Então faz-se um Golpe de Estado (presumo que não era para ser uma revolução…), para depois deixar cair o País na anarquia, entregá-lo à escória, aos traidores, aos loucos e tarados; à mole de frustrados, oportunistas ou simples delinquentes, que destruíram o tecido produtivo e as finanças; desbarataram o que tinha sido amealhado durante décadas; escavacaram a ordem política, social e até psicológica; prenderam e exilaram milhares de compatriotas e puseram o país virado do avesso, à beira de uma guerra civil, no Continente e Ilhas, e os trogloditas que contribuíram largamente para este descalabro, próprio de uma cultura canibal, não querem que se lhes atribua responsabilidades e que as novas gerações disso se apercebam?
    E ainda temos de ouvir, hoje em dia, ouvir tecer loas despudoradas, nas pantalhas das televisões, de que somos servidos, quando morre um drogado qualquer que se distinguiu nas cantorias de intervenção e outras “artes” antifascistas, ou uma nulidade de pensamento cujo critério mais destacado foi a sua “coerência”? No erro!
    Para já não falar nos grandes lutadores da “Liberdade”. Da Liberdade?
    Onde? Em Cuba? Na China? Na União Soviética? Na Coreia do Norte? Na Albânia?
    Talvez no Camboja do Pol Pot…
    Devo continuar?    
    Por isso essa patranha dos consensos (neste âmbito) não existe, não existirá, nem deve existir.
    Tem é de haver rupturas, separação de águas, julgamentos não só da História, mas em tribunais, combate ideológico, etc.. Coisas bem arrumadas.
    Foi isto que o 25 de Novembro não soube fazer. Por isso foi uma data falhada.
    E com a emergência serôdia, desta “geringonça” mal-amanhada e espúria, estamos a voltar ao 24 de Novembro.
    Convém não andar distraído.

                                                      João José Brandão Ferreira
                                                      Oficial Piloto Aviador (Ref.)



[1] O 31 de Janeiro é considerado por muitos até, o “Dia do Sargento”, quando foi precisamente um sargento que denunciou a revolta às autoridades…