segunda-feira, 18 de junho de 2018

O SUÍCIDIO (LITERAL) PORTUGÛES


O SUÍCIDIO (LITERAL) PORTUGÛES


15/6/18
                                “O mundo conduz-se por mentiras.
                                 Quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo, cuidará de
                                  mentir delirantemente.
                                  Fá-lo-á com tanto mais êxito, quanto a si próprio
                                  mais mentir e se compenetrar da verdade da mentira
                                  que criou.”
                                  Fernando Pessoa

                O país começou a acordar (devagarinho) para a quebra da natalidade que afecta a sociedade portuguesa, de um modo cada vez mais grave desde os anos 80 do século passado.
                Já são muitos anos.
                Ao longo deste tempo todo, poucas foram as vozes que se ergueram contra este descalabro que nos vai custar os olhos da cara. Quiçá a existência.
                E tal envolve os órgãos do Estado e as figuras políticas, comentadores e de um modo geral todas as instituições nacionais. Incluindo a Igreja.
                Andou toda a gente distraída, gozando certamente o materialismo galopante dos direitos versus os deveres; do relativismo moral; do compre agora e pague depois; do primado do individualismo; da crise da família e um conjunto de ideias muito libertárias e para a “frentex”, que concorreram ferozmente para o actual estado de coisas.
                As poucas vozes que se ouviram, estavam apenas e maioritariamente preocupadas com o mercantilismo da coisa; isto é, davam-se conta que a cada vez menor população activa não consegue manter de pé a segurança social…
                As causas apontadas escondem-se sempre atrás dos recursos económicos (como se os ricos sejam caracterizados por terem muitos filhos…) o que, a ser assim, a Humanidade já tinha falido de gente há muito.
                Podiam ao menos assumir as verdadeiras causas do fenómeno – que se situam no facto dos filhos terem deixado de ser a segurança social da velhice; as mulheres terem abandonado o lar para trabalhar como os homens; o feminismo; a invenção da pílula; a irreligiosidade galopante da sociedade; o primado do egoísmo/hedonismo; a actual evolução da homossexualidade e correlativos, etc., mas não, ninguém é capaz, pelos vistos, de assumir uma nesga sequer do politicamente incorrecto.
                Não quer dizer que parte do que atrás apontei seja em si um mal (a Segurança Social foi até uma conquista fundamental – desde que se consiga manter sustentada), mas seja o que for que aconteça na evolução da sociedade tem vantagens, inconvenientes e, sobretudo, consequências.
                Ora não se pode (deve) fechar os olhos às consequências, já que raramente são antecipadas ou ponderadas.
                Para isso existem até, peritos, que são uns tipos que lêem umas coisas e usam slides a cores!...
               Ora como não vai haver dinheiro para dar às pessoas para elas terem filhos - isto claro, depois de um jovem ter acabado um curso qualquer à força de estatística, até uma idade indeterminada; darem subsídios para as pessoas não trabalharem; o jovem ter feito um ano sabático a viajar pelo estrangeiro; ter carro (ou outro meio de locomoção própria que não as pernas); ter mudado muitas vezes de parceiro, para perceber como é que a coisa funciona; saltar duas ou três vezes de emprego, pois isso de ter estabilidade foi chão que deu uvas e claro, só depois de as mulheres garantirem uma carreira qualquer e tiverem o chamamento maternal, etc., etc., - quer dizer que quanto a melhorar a curva demográfica estamos conversados.
              Em síntese a razão principal (de longe) é a de que os jovens (homens e mulheres – talvez mais estas do que aqueles) não querem ter filhos…)
               Existem estudos fiáveis que asseguram que para se manter a renovação das gerações (em termos mínimos) e respectiva cultura, é necessário que cada mulher (em idade fértil) tenha 2,11 filhos; 1,9 é o número mínimo de filhos que assegura a sobrevivência da espécie e quando o número desce para 1,3 filhos por mulher, a reversão é impossível, isto é, leva 80 a 100 anos…
               A média dos últimos anos, nos países da União Europeia, é de 1,38 e em Portugal é já há muitos anos de 1,3…[1]
              O cenário é de uma hecatombe sinistra.[2]
                                                                                *****
                O pior é que há muito mais a concorrer para o suicídio de que falamos – e falamos como uma certeza a prazo, se nada de muito diferente for encetado (ontem). E é tudo mau.
                A primeira é a imigração. Começou na Europa (que não era comunista, obviamente) derivado da desigualdade da distribuição de riqueza e poder entre países e por estes terem sido “obrigados” a retirar de África e da Ásia – onde pelos vistos não podiam estar – para serem “invadidos” pelos anteriores “colonizados” – que pelos vistos têm todo o direito em poder estar.
                Muito por culpa dos próprios europeus que deixaram de querer exercer determinadas profissões e trabalhos (a rapaziada aburguesou-se), esquecendo-se que não há boas nem más profissões, mas sim bons e maus profissionais; por terem permitido a instalação de máfias que prosperam com a imigração clandestina e finalmente porque seitas alarves de adiantados mentais resolveram criar complexos de culpa sobre a História dos seus próprios países.
                Finalmente inventaram o “multiculturalismo”, uma parvoeira perigosa que tende a extinguir a matriz cultural de todos, sob a capa da tolerância e do respeito e experiência mútua.
                Viva a amálgama!
                Complementarmente à imigração veio a emigração.
                A emigração era má quando no tempo do “Estado Novo”, mas passou a ser “boa”, “normal” e consequente, após tal negregado período, em que se deu o melhor e maior exemplo de integração de culturas, raças, etnias, seguindo uma matriz lusíada. Mas, claro, era preciso acabar com uma Nação única no mundo…
                A emigração é uma sangria enorme, que na actualidade não apresenta qualquer vantagem para o país. Mas até houve um governo que a incentivou…
                Outro aspecto terrível é a lei da nacionalidade.
                Esta lei é facilitista, inapropriada a todos os níveis e tem permitido que o Estado oculte e minta descaradamente à população, sobre uma série de factos.
                Ora nós não devemos facilitar a outorga da nacionalidade portuguesa. Ser português deve ser um privilégio raro e ser concedido a quem merece não a quem aparece.
                E devia ter regras estritas, como por exemplo a obrigatoriedade de cumprimento do serviço militar ou cívico de igual penosidade, nunca por menos de três anos.
                E a antiga tradição portuguesa de preferir o “Jus Solis” ao “Jus Sanguini” deve ser alterada, pois as condições actuais são muito diferentes daquelas que vigoraram até 1974.
               Entre 2008 e 2016 (oito anos) obtiveram a nacionalidade portuguesa mais de 225 mil estrangeiros, ou seja mais de 20mil/ano. A actual lei é ainda mais permissiva.[3]
                Ora isto, nomeadamente, pelo modo “escondido” como tem sido feito, serve para aldrabar as estatísticas, logo o cidadão comum.
                Ou seja, os meios de outorga da nacionalidade, diminuem artificialmente o número de imigrantes e o “inverno demográfico”.
                Por outro lado levantam um outro problema que é o da capacidade de absorção de tanta gente e de os transformar em “portugueses”, ou seja na capacidade de preservação da nossa matriz cultural e modo de ser.
                Até se inventam leis estranhas, como sejam o de outorgar a nacionalidade a quem conseguir provar a sua descendência de judeus expulsos de Portugal desde 1496…
              Esta lei entrou em vigor em 1/3/2015 e até finais de 2017 já tinham obtido a nacionalidade mais de mil alegados descendentes dos antigos sefarditas.[4]
                Quando os “mouros” souberem disto, logo começarão também a querer ser abrangidos…
               Mas a escabrosidade maior foi a leis dos “vistos dourados” que representa uma autêntica prostituição da nacionalidade…
                E o argumento de que se não o fizermos eles vão para outro lado, só nos merece um desejo de boa viagem!
                A cereja em cima do bolo aconteceu de repente com a chamada crise dos migrantes – e resta saber verdadeiramente quem a promove, alimenta e incentiva.
                O problema é sobretudo geopolítico, o qual se sobrepõe ao Humanitário, no sentido em que se não se atender ao primeiro, a questão só se irá agravar, resultando mal para todos.
                As autoridades em Portugal não estão a querer ver bem o filme e só dizem disparates, não nos princípios, mas nas consequências. E de boas intenções está o inferno cheio. E por detrás da maioria das atitudes – estamos em crer – está uma de chico espertismo, que é dizerem que “eles”, os migrantes, não querem ficar em Portugal, mas transitam para outros países, ficando ao mesmo tempo bem na fotografia.
                Isto é uma ilusão, que o tempo desfará rapidamente, por motivos vários e que a situação na UE irá agravar, pois a maioria dos países irá fechar as suas fronteiras a este descalabro, e os totós de serviço passaremos a ser nós. Esta última decisão da Itália e de Espanha irá precipitar as coisas, por certo.
                Consta até que existe já um plano em Bruxelas para enviar para Portugal cerca de cinco milhões de migrantes; que diabo, dois terços do país não está já despovoado?
                E enquanto não for anunciado em termos de ser levado a sério, que as fronteiras estão fechadas para todo o tipo de migrantes e imigração clandestina, não se poderá suster esta hecatombe, que irá provocar mini guerras civis por todo o lado.
                Outro fenómeno, porém, se junta a todos os apontados: é que parte da população dos países europeus, nomeadamente, Inglaterra, França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Escandinávia, etc., estão fartinhos de aturar o que se passa nos seus países e da insegurança que tem aumentado exponencialmente (já nem falo dos brasileiros) e estão-se a mudar rapidamente para cá.
                E tudo isto está a ser exponenciado pelo “boom” turístico.
                Ele há presentes envenenados…
                Se juntarmos a tudo isto a venda despudorada de todo o património nacional, incluindo o terreno, para o que não existe qualquer ressalvo legislativo, iremos a breve prazo ser uma minoria na nossa própria terra, e seremos despojados dela.
                Mas como a bebedeira é colectiva quando acordarmos da mesma, vai ser tarde.
                Haja saúde!

                                                       João José Brandão Ferreira
                                                            Oficial Piloto Aviador


[1] A taxa bruta de natalidade, ou seja o número de bebés que nascem por 1000 residentes, caíu em Portugal de 24,1, em 1960, para 8,4, em 2017. Por sua vez a taxa de fecundidade geral, isto é, o número de filhos por cada 1000 mulheres em idade fértil, caíu de 95,7, em 1961, para 37,2, em 2017. (dados da “PORDATA”. E deve acrescentar-se que grande parte das crianças nascidas nos últimos 20 anos são de residentes não portugueses.
[2] Entretanto a média de filhos de uma família muçulmana imigrada na Europa é de 8…
[3] Jornal “Público” de 15/12/2017.
[4] “Observador”, de 10/11/2017.

sábado, 2 de junho de 2018

10 JUNHO 2018 OLIVENÇA









SIGNIFICADO DE COMEMORAR O 10 DE JUNHO EM OLIVENÇA
2/6/2018
    À semelhança dos dois últimos anos a Associação Além – Guadiana (AAG) (nascida por iniciativa de um grupo de pessoas nadas e criadas em Olivença, em 2008) – terra portuguesa sob administração espanhola (se assim se pode dizer), desde 1801, após o Tratado de Badajoz que culminou a breve “Guerra das Laranjas”, ocorrida naquele ano – vai levar a cabo uma cerimónia comemorativa do “Dia de Portugal” no próximo dia 10 de Junho.[1]
     A esta organização tem-se associado um grupo de personalidades portuguesas “capitaneadas” pelo antigo Deputado Ribeiro e Castro, o qual se interessou pela causa Oliventina depois de ter recebido em audiência por diversas vezes, membros da direcção da patriótica agremiação dos “Amigos de Olivença”, quando fazia parte da Comissão dos Negócios Estrangeiros, da Assembleia da República.[2]
    Entre muitas e louváveis iniciativas de âmbito cultural e social que a AAG tem levado a cabo nos últimos anos, destaca-se
   



[1] O tratado de Badajoz foi celebrado a 6 de Junho de 1801 entre Portugal (sob coação) e a Espanha e a França (coligadas). Foi ractificado por Portugal em 14/6 e pela Espanha a 21 do mesmo mês; a França nunca o ractificou. A Espanha ficava com Olivença e o seu termo, a titulo de “conquista de guerra”. Este tratado veio a perder validade desde 1807 e definitivamente, desde o acordado no Congresso de Viena de 1815.
[2] A associação “Amigos de Olivença” foi fundada em 15 de Agosto de 1938 e luta desde então, pela retrocessão de Olivença e seu termo (430 km2), à soberania portuguesa, como é de Direito.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

GUIÃO PARA UM FILME DE FICÇÃO CIENTÍFICA NO ÂMBITO MILITAR


GUIÃO PARA UM FILME DE FICÇÃO CIENTÍFICA NO ÂMBITO MILITAR

11/05/2018
“O principal problema da Democracia é a qualidade da Sociedade. Essa qualidade começa na Família. Naturalmente quem aleita é quem educa.”
                      Autor desconhecido
              (Mas lá que dá para pensar, dá…)


            Quartel-General das Forças de Estabilização da ONU na colónia, conhecida desde a Antiguidade, como Lua.
       “Oceanus Procellarum” – Oceano das Tormentas.
            Ordem de Serviço 666, em 11/5/2118. [1]

                        TROPAS!
            Como sabeis após o meu antecessor ter resolvido saltar em pára-quedas para fora do nosso querido e bem-amado Exército – esse infeliz que não teve estômago para acatar as tão sábias directrizes muito para a “frentex”, do nosso guia espiritual, o Azedo L., que devemos equiparar a Cipião, “o Africano”, depois da batalha de Zama – e que mesmo depois da oferta generosa de Belém, em reconsiderar, retorquiu que a força da gravidade (mais não fosse por isso) o impedia de voltar para dentro do avião de onde saltara…
            Deste modo eu assumi a ingrata, mas honrosa tarefa de vos dirigir (isso de “comandar” é areia demais para a minha camioneta) isto é, ao que resta de vós, da hoste que seguiu o grande Afonso, depois de ter batido na mãe, tendo vindo por aí abaixo levando tudo à frente, mesmo sem autorização de Bruxelas ou da Merkel (que por acaso se chama Kastner…). Bons tempos, ai, ai...
            E que belo caminho temos feito juntos desde então!
            Lembram-se de quando mesmo antes de estar nomeado, me passou uma coisa má pela cabeça e decidi, num ímpeto viril, despachar o vice, aquele cujo nome faz lembrar um célebre ciclista tuga, que pedalava como ó caraças?
            Ele à primeira ainda hesitou, mas à segunda lá foi com Deus, as almas santas e uns trovões da minha padroeira Bárbara!
            Depois foi preciso pôr ordem no Militar Colégio, agora que aquele Instituto freirático, cheio de mofo e de discriminação de género intolerável e fascista, sito ali para os lados de Odivelas, ter ficado devoluto e abandonado à espera de um qualquer negócio imobiliário que apareça!
            Resta apenas fazer desaparecer sem deixar rasto o túmulo do D. Dinis (que devia era ter ficado em Castela quando foi visitar o avô, Afonso X, o Sábio), que resolveu mandar plantar o pinhal de Leiria para agora virem umas mãos criminosas deitarem-lhe fogo (eu disse, criminosas? Desculpem, pois foi certamente um descuido inocente, ou então uma acção de alguém alienado, vítima desta sociedade machista, capitalista, racista, xenófoba, homofóbica e preconceituosa!).[2]
            Mas é bem feito! O colonialista do Dinis não tinha nada que mandar vir almirantes de Génova e fundar a Armada que agora diz que é antiga como ó carbono e desfila no Terreiro do Paço a soprar 700 velas!
            Agora estão tramados pois já não vão ter madeira nem para barcoletas a remos!
            Ocorre-me à memória, porém, ó tropas, que vou ter que reconverter parte de vós -senão a totalidade - em bombeiros (voluntários, é claro), o que não deixa de ser uma velha aspiração dos nossos maiores, pois não é muito melhor sermos os soldados da paz em vez de sermos os soldados da guerra?
            Eu já dei o exemplo e já peguei na foice e no martelo, perdão na maquineta roçadeira e andei a capinar, mesmo chegadinho àquele que se orgulha de ser o primeiro - ministro descendente de indianos da União Europeia. E eu a julgar que ele era descendente de portugueses?!
            Até ia dando uma cambalhota à retaguarda, coisa até, que já não me lembrava de fazer desde os meus tempos infráticos (eu disse infráticos? Que as juventudes partidárias me desculpem, pois nunca concordei com tais práticas, abrenúncio).
            Mas, ó tropas, empolguei-me e já me esquecia que estava no Militar Colégio, que eu consegui meter na ordem, essa cáfila elitista que eu, a custo, tolero.
            Aquilo foi tudo raso: internato; comando; oficiais reguilas; ameaças de boiada, etc., e ainda espero acabar com a avaliação para democratizar tudo devidamente, agora que acabei com a discriminação sexual intolerável como muito bem apontou o farol da nossa existência - o Azedo L. - que Napoleão se fosse vivo não desdenharia escolher para Marechal de França (ele até que se desenrasca bem no francês e tudo!).
            Prometo-vos que não descansarei enquanto não conseguir uniformizar a coberta das camas de todos os quartéis e camaratas, nas cores do arco-íris!
                                                                   *****
            E aquela táctica utilizada num memorável Conselho Superior Militar - só equiparada à importância do uso de armas de tiro tenso na conquista de pontos de cota mais elevada!?
            Estava uma lista feita para promoções já devidamente escorada e sedimentada, quando os nossos amigos na Administração Interna, na GNR e outros, sempre vigilantes, alertaram para os perigos que tal ordenação implicava na justiça do mérito relativo (obviamente) e tal nos levou no mais acertado “flick flack” à retaguarda (esta da retaguarda, hoje anda-me a perseguir!) e mandei alterar aquilo tudo.
            Deu um foguetório, só suplantado pelo do fim do ano na Madeira, que meteu o general - maior, transferências mágicas de oficiais generais, alteração de ordens de serviço, pressões de bastidores, etc., mas rematei a coisa com um pedido de parecer (ajuda...), para a PGR - numa atitude que eu próprio não sei classificar, mas que foi no mínimo brilhante, que até ofusca - e a coisa acabou por morrer.
            Foi tudo um processo que faria corar o Maquiavel onde acabei com a carreira a pelo menos, dois camaradas, mas que é isso comparado com a largura do meu ego medido em milímetros?
                                                               *****
            Andava eu nesta gloriosa cruzada – que deixo aqui claro, nada ter a ver com aquelas levadas a cabo no obscurantismo medievo – quando alguns dos meus dilectos camaradas generais me abandonaram, deixando-me meses praticamente sozinho à testa deste “galho”, outrora Ramo altaneiro e pujante! Os ingratos!
            E digo praticamente, pois fui salvo “in extremis”, pelo último dos moicanos – a quem apesar de tudo, pouco ligo – que a pedido de muitas famílias e condoído da queda livre em que a coisa estava (isto de surripiar os pára-quedistas para o Exército não foi nada boa ideia, mesmo nadinha, mas eu na altura ainda usava fraldas e não me apercebi), lá continuou a carregar a cruz e ficou!
            E que dizer dos generais antigos como o biscoito das caravelas, que sistematicamente faltam às festas e cerimónias para que os convido, pois não querem encarar o meu “fácies enconátus”, tão pouco cumprimentar-me?
            Já sei, são uns invejosos, pois não se equiparam ao ilustre ocupante de S. Julião da Barra, o Azedo L, que corajosamente – e com toda a sua pilosidade firme e hirta e voltada para a frente - enfrenta o fantasma do infortunado Gomes Freire cujas cinzas foram, por ali perto, deitados aleivosamente ao mar!
            Todavia, a minha coroa de glória estava para vir!
            Estava eu (sempre eu!) quase a resolver o problema dos paióis sitos no “Mar de Tancorum”, já tendo obtido as necessárias verbas, conseguidas pelo maior estratega da defesa, o Azedo L. - que reduz Tucídides e a sua “Guerra do Peloponeso”, a um cisco - dizia, uma ronda do meu glorioso Exército voluntaríssimo, que nem munições reais pode usar, descobriu um buraco na vedação (qual linha Maginot, qual quê!) e após apurada investigação alguém deu conta que um paiol tinha sido profanado.
              Foi como se a virgindade do Exército tivesse sido corrompida (a Honra, essa, tinha sido perdida nos idos da “Descolonização” e ainda não foi reposta…), sem uma gota de sangue ser vertida!
            Sabe-se lá como e porquê, a notícia chegou aos jornais tendo caído o Carmo e a Trindade (enfim já estavam caídos, desde o terramoto de 1755…).
            Mas, ó tropas, eu, o vosso Director, reagi como um leão e fui-me a eles como Santiago aos mouros – sem ofensa é claro, para os dilectos seguidores de Allah, o “Misericordioso”.
            O que eu fiz, meu Deus: dei entrevistas, disse uma coisa e o seu contrário, aquilo meteu luta e até o meu querido superior hierárquico (não me estou a referir agora à luz que me orienta (o Azedo L.) que soube já ter o futuro garantido, pois foi-lhe oferecido um lugar de consultor no Pentágono para as relações com o futuro Exército Europeu), mas sim ao meu camarada infantaroco que até levou um murro no estomago durante a contenda. (Era para isso, aliás, que o saudoso Xico da Mouraria nos preparava nas aulas de boxe)
            E vejam como ficou tudo esclarecido, tim tim por tim tim (só não entendo é por que o Senhor Comandante Supremo, continua com aquelas diatribes sobre querer saber mais coisas) e no fim poupei uma palete de massa ao contribuinte, dizendo que já não queria nada com aqueles paióis (ficam para o pessoal do “Barrote ao Alto” fazerem exercícios de demolição por implosão) e fui-me para a Santa (Margaridorum) e quando por obra e graça do Espírito Santo, o material desaparecido (será que desapareceu mesmo?) deu à costa numa mata da Chamusca, eu até recuperei uma caixa a mais!
             A SIC, por exemplo, ficou tão contente que até apresentou várias vezes, imagens todas catitas da minha pessoa!
              E para que a minha autoridade não fosse posta em causa (nem chamuscada a imagem do nosso inspirador, o Azedo L., que – vejam só - se confessou emocionado, após ter lido o antigo Regulamento Geral de Serviço de Campanha, de quando Portugal tinha Exército, e se sentia agora capaz de avançar contra o inimigo “dando gritos selvagens, tais como Viva a Pátria”, dizia, num atrevimento legislativo inaudito, decidi exonerar temporariamente, os comandantes das unidades da área de Tancorum, à falta de perceber quem é que mandava naquele aborto organizacional todo!
            E depois de tudo esclarecido – como se viu – lá os reconduzi nas funções, a bem da paz e da concórdia (e também da falta de vergonha na cara).
            E eles, coitados, lá aceitaram tudo, até porque não tinham tempo sequer, para passar à reserva…
            Isto é o que se chama triunfar em toda a linha, ó tropas!
                                                                  *****
            Mas nem com todos estes exemplos de liderança que irão marcar o ensino nas Academias Militares (perdão nos “campus da defesa”) futuros, consegui sossegar alguns de vós.
            Refiro-me a esses “brutos” que acampam ali para os lados da depressão lunar da “Carregueirorum” e que contra todas as regras da camuflagem têm o estranho hábito de usar uma peça de tecido redondo na cabeça, de cor vermelha!
            Já sei, vou despachá-los para Marte, o planeta da mesma cor, aí já ninguém os vê, além de que é quente!
            Mas enquanto isso não acontece vou mudar o nome deles para “centro de escuteiros, bem comportados”, para ver se deixam de andar a querer brincar aos soldados a sério, e correrem o risco de morrerem no caminho…
            E depois ter essa procissão toda de procuradores e jornalistas do mais fino recorte e cheios de boas intenções justiceiras, à perna?
            Uma maçada!
            Por isso, ó tropas, estou a pensar fazer deles além de escuteiros, uma reserva táctica debaixo das ordens da Protecção Civil, essa extraordinária organização babilónia, que está prestes a constituir-se como a quinta-essência desta (apodrecida) III República!
            E vão ver, ó tropas, como ainda vereis um Presidente dessa Protecção Civil arvorado em Marechal, com oito estrelas douradas e dois bastões. Um para cada mão.
            Como eu vejo à frente!
            Mas com tudo isto em mente não consegui domar aqueles que ajudaram a impedir aquela cáfila toda da comunagem e tarados a esmo, de tomar o Poder nos idos de 1975.
            Os gajos tiram-me do sério!
            Tive o azar de lá colocar um tipo assim a modos que avantajado e não é que o ímpio começou a falar grosso?
            Ah, mas eu mandei vir da cratera da Santa, uma bataria autopropulsionada de 15,5, regulei a alça e pulverizei-o!
            O impertinente teve o despautério de não seguir as minhas sugestões, quando lhe pedi o último discurso para revisão gramatical (o que nada tem a ver com o que faziam os meus camaradas serôdios, munidos de lápis azul do antigamente)!
            E eu, cheio de boas intenções, ainda o deixei falar e não é que o desobediente disse o que a sua cabeça pensava e a sua consciência ditava? Que estranho Carácter!
            Aí fiquei furibundo e só não lhe fui aos fagotes, pois o tipo parece uma parede e ri-se pouco, mas invectivei-o como um (mau) mestre-escola faz aos gaiatos.
            Isto passando-se apesar de haver várias pessoas presentes a ouvirem, as quais se afastaram pudicamente (fiquei até a pensar, muito mais tarde, se não seria por coisas destas que os generais de outros tempos se afastam dos locais onde me desloco).
            E como quem mas faz, paga-mas – segundo, aliás, uma velha prédica desse farol, o PS, que nos ilumina, como se tem visto – guardei a vingança para mim e não disse a ninguém – ou não será a surpresa, um dos princípios da guerra? – e na primeira oportunidade despedi-o, acusando-o de andar a dizer a verdade aos quatro ventos!
            Onde já se viu uma coisa assim?
            E que melhor ocasião para o fazer do que no fim de um almoço em dia festivo, mesmo saltando por cima da cadeia hierárquica?
            Ou não será almoçar fora, ao contrário do futebol, o verdadeiro desporto nacional?! (Aqui para nós que ninguém nos ouve até já pensei contratar o trineto de um tipo que se chamava Bruno de Carvalho, para meu assessor…).
            Sem embargo, consultei uns oráculos (de Delfos) e já não vou despachar o dito cujo no dia 12, fica para depois de 29 do corrente, mas com a condição (!) de não haver mais discursos, ou a coisa sair inócua…
            Estou pois, ó tropas, ufano de mim mesmo e não queria deixar passar em claro este momento de felicidade e de alto exemplo castrense e épico, sem o partilhar convosco e assim aumentar o vosso Moral.
            Que eu já sabia que era alto, mas assim, fica melhor.

            Quartel (isto é, campus da defesa), em Mar das Tormentas, 11 de Maio de 2118.

                                                           (Assinatura ilegível)
                                                        Chaparro, o deslumbradinho.
                                              (Segue-se salva de 17 tiros de pólvora – seca)

                                                              *****
            O guião deste filme foi enviado para a Academia de Hollywood.
            A resposta foi rápida e o filme foi chumbado.
            O argumento começou por ser passado do departamento de filmes de ficção científica, para o departamento dos filmes de terror.
            Ali foi rejeitado por ser demasiado téctrico e impróprio para menores de 65 anos (o que não configurava qualquer lucro na bilheteira), sequer para passar na “Casa dos Segredos”.
            Como nota adicional e “post-scriptum”, afirmaram que o argumento era mau demais para ser verdade, mesmo em filme.
             A resposta foi remetida para o Campus da Defesa, para o Campus de S. Bento, para o Campus de Belém e para o campus dos comentadores.
            Por uma vez, não se conhecem reacções.



                                                 João José Brandão Ferreira
                                                      Oficial Piloto Aviador


[1] “Oceanus Procellarum” é o maior dos mares lunares, que se estende por 2.500 km de comprimento, formado por lava basáltica que cobre toda a superfície. Foi lá que pousou a Apolo 12, a segunda missão tripulada a pousar na Lua.
[2] E “populistas”, já me esquecia e está muito na moda…