quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Afonso Lopes Vieira: Presente!

Afonso Lopes Vieira: Presente!

Nesta época de crise, desalento e pobreza, em que se começa a ter
dúvidas sobre a viabilidade de PORTUGAL, faz-nos bem recordar, ainda
que seja com um sorriso, este poema do poeta AFONSO LOPES VIEIRA...

Por uma vez, alguém, que contrariando este fado português se mostra
cheio de um amor próprio que nos devia inspirar

 Pois bem          
por Afonso Lopes Vieira (1878 - 1946)

Se um inglês ao passar me olhar com desdém,

num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!

se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,

fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.

Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,

fui eu que t'as cedi num dote de princesa.

e para te ensinar a ser correcto já,

coloquei-te na mão a xícara de chá...



E se for um francês que me olhar com desdém,

num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!

Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa

de ter sido cigarra antes da Provença.

Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei

Antes de Montgolfier, um século! Voei

E do teu Imperador as águias vitoriosas

fui eu que as depenei primeiro, e ás gloriosas

o Encoberto as levou, enxotando-as no ar,

por essa Espanha acima, até casa a coxear



E se um Yankee for que me olhar com desdém,

Num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!

Quando um dia arribei á orla da floresta,

Wilson estava nu e de penas na testa.

Olhava para mim o vermelho doutor,

— eu era então o João Fernandes Labrador...

E o rumo que seguiste a caminho da guerra

Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.



Se for um Alemão que me olhar com desdém,

num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!

Eras ainda a horda e eu orgulho divino,

Tinha em veias azuis gentil sangue latino.

Siguefredo esse herói, afinal é um tenor...

Siguefredos hei mil, mas de real valor.

Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!

Os Nibelungos meus estão vivos na História.



Se for um Japonês que me olhar com desdém,

num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!

Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!

Sou eu que num baixel levei a Europa á tua ilha!

Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça

belicosa do mundo e do futuro ameaça.

Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda

foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.



Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;

Vejo no firmamento as estrelas de Deus,

e penso que não são oceanos, continentes,

as pérolas em monte e os diamantes ardentes,

que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:

— São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,

extasiado fixou pela primeira vez...

Estrelas coroai meu sonho Português!



P.S.

A um Espanhol, claro está, nunca direi: — Pois bem!

Não concebo sequer que me olhe com desdém.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

DATA ESPECIAL DA NAÇÃO PORTUGUESA: 8 DE DEZEMBRO


DATA ESPECIAL DA NAÇÃO PORTUGUESA: 8 DE DEZEMBRO
18/12/18

“Salve, Nobre Padroeira,
Do povo teu protegido,
Entre todos escolhido,
Para povo do Senhor.
Ó glória da nossa Terra,
Que tens salvado mil vezes!
Enquanto houver Portugueses,
Tu serás o seu amor!”

Padre Francisco Malhão

            Há datas que marcam a História dos povos.
            É o caso do 8 de Dezembro de 1646.
            Dia que, ao abrigo do artigo 3º da Concordata entre Portugal e a Santa Sé, de 2004, é uma festa de guarda e feriado nacional de âmbito religioso, que coincidiu até há pouco tempo (e devia ter continuado) como “Dia da Mãe”.
            Mas é muito mais do que isso.
            O Culto Mariano corre paredes-meias com a História de Portugal desde o seu início. Maria, Mãe de Jesus, sempre teve um lugar especial no coração dos portugueses e não tem paralelo com outros povos. Por isso, tem toda a propriedade chamar ao país da extrema ocidental da Europa, a Terra de Santa Maria. E não é por acaso que a maioria das mulheres portuguesas tem o termo “Maria” no seu nome. O que, infelizmente tem vindo a ser maculado por modismos espúrios de Cátias, Tatianas e Vanesas…
            Mas, também, qual a matriz cultural portuguesa que não tem vindo a ser maculada nas últimas quatro décadas?
            A festa da Imaculada Conceição foi inscrita no calendário litúrgico pelo Papa Sisto V, em 28 de Fevereiro de 1477.
            A Imaculada Conceição (concepção) da “Virgem” Maria foi solenemente definida como dogma pelo Papa Pio IX, através da Bula “Ineffabilis Deus”, em 8 de Dezembro de 1854.
            A Igreja considera que o Dogma é apoiado pela Bíblia, bem como pelos escritos de Padres da Igreja, como Irineu de Lyon e Ambrósio de Milão. [1]
            Em Portugal a devoção a Nossa Senhora da Conceição é muito antiga, sabendo-se que se rezou uma missa pontifical de acção de graças em honra da Imaculada Conceição, após a conquista de Lisboa aos mouros, em 1147.
            E, segundo a tradição secular, após a Batalha de Aljubarrota, o Condestável D. Nuno Álvares Pereira (São Nuno de Santa Maria), mandou construir a Igreja de Nossa Senhora do Castelo, em Vila Viçosa, consagrando o novo Templo a Nossa Senhora da Conceição, o primeiro construído em toda a Península Ibérica com este fim. Encomendou ainda, em Inglaterra, uma imagem em pedra da dita Senhora, para ser Venerada nessa igreja e onde ainda permanece. [2]
            O culto foi tomando raízes, com a fundação de muitas Irmandades, a mais antiga das quais é a da actual freguesia dos Anjos, em Lisboa, criada em 1589.
            Mas o facto verdadeiramente notável (creio que único no mundo), que veio a ocorrer, foi a decisão do Rei, Senhor D. João IV, após ter apresentado (e sido aprovado) nas Cortes Gerais de 1645/1646 ter, por provisão régia de 25 de Março deste último ano, proclamado solenemente que Nossa Senhora da Conceição seria a Rainha e Padroeira de Portugal e de todos os seus territórios ultramarinos.
            É mister recordar tal proclamação, que devia ser tida como estruturante da Nação Portuguesa e um dos nossos “segredos” de família: “… assentamos de tomar por padroeira de Nossos Reinos e Senhorios, a Santíssima Virgem, Nossa Senhora da Conceição, na forma dos Breves do Santo Padre Urbano 8º, obrigando-me a aceitar a confirmação da Santa Sé Apostólica e lhe ofereço em meu nome e do príncipe D. Theodósio, e de todos os meus descendentes, sucessores, reinos, senhorios e vassalos e Sua Santa Caza da Conceição esta em Vila Viçosa…”.
            Nesse mesmo dia 25 de Março de 1646, foi realizada uma sessão solene de juramento na Capela Real dos Paços da Ribeira, onde participaram o Rei, o Príncipe herdeiro, os grandes da Nobreza, os representantes do povo e os cinco bispos presentes.
            A Confirmação Papal levou, todavia, 25 anos a concretizar-se, devido a intrigas dos Reis Espanhóis, só vindo a acontecer em 1671, através de breve de Clemente X. Ou seja três anos após ter sido firmado o Tratado de Lisboa, de 1668, que punha termo a 28 longos anos de lutas e sacrifícios de todo o tipo, pela consolidação da nova Dinastia (herdeira ainda, de Nuno Álvares Pereira) e pelo fim da Coroa Dual Filipina, que restituía a Portugal, a sua total soberania debaixo de um Rei natural.
            As razões que levaram a esta atitude do monarca português não estão, ainda hoje, completamente dilucidadas e percebidas.
            A partir de então os reis portugueses nunca mais usaram Coroa e Ceptro permanecendo estes ao seu lado direito, em cima de uma almofada, em ocasiões solenes.
            Deste modo a Imaculada Conceição de Maria, vingou em Portugal muito antes de a Igreja a assumir como dogma de Fé.
            O Rei D. João V, em 1717, enviou uma circular à Universidade de Coimbra e a todos os prelados e colégios do Reino, recomendando-lhes a celebração anual da festa da Imaculada Conceição, nas suas Igrejas, em memória do juramento de D. João IV.
            Em 6 de Fevereiro de 1818 – dia da sua Aclamação, no Rio de Janeiro – o Rei D. João VI, instituiu a Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em preito do país, por ter sobrevivido, como reino Independente, às guerras napoleónicas.
            O Rei era o grão-mestre desta nova ordem dinástica.
            A República extinguiu a Ordem, como Ordem Militar, mas D. Manuel II e seus descendentes vêm continuando a usar as insígnias da mesma, a qual continua em vigor, estando os seus membros sempre presentes na grande peregrinação anual que se realiza no dia 8 de Dezembro, ao Santuário de Vila Viçosa, também conhecido por “Solar da Padroeira”.
            Não foi este ano excepção, onde pude observar que a tradição está viva e recomenda-se.
            Muito povo nas ruas, nas janelas – onde em muitas ainda se observa o bonito costume de colocar as melhores colchas das famílias, nos varandins – e incorporados na procissão, que sai do Castelo, percorre várias artérias e o centro da vila e regressa à sua casa na igreja daquela vetusta fortaleza.
            Atitude respeitosa de todos.
            Quando a procissão passa pela grande praça que se abre para o Palácio dos Duques de Bragança, junta-se a ela uma coluna enorme de cavaleiros e charretes, com os seus trajes típicos portugueses, com os representantes da Cavalaria Portuguesa (neste caso do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz) que são oriundos de Olivença, terra cativa …
            Contei cerca de 200 cavaleiros e charretes.
            Enquadramento religioso a preceito, não se vislumbrando, porém, qualquer bispo, provavelmente por o Arcebispo de Évora (a que pertence Vila Viçosa) ter estado na missa celebrada nessa manhã.
            Eis a Peregrinação do 8 de Dezembro.
            Valor histórico a preservar, tradição a manter, cerimónia a valorizar, enquadramento cívico e significado político-religioso a difundir, explicar e interiorizar.
            A chave de tudo está na quadra do poeta Padre Malhão: “enquanto houver portugueses”…




                                                               João José Brandão Ferreira
                                                                  Oficial Piloto Aviador


[1] O Papa expressou-se nos seguintes termos: “Em honra da Santa e Indivisa Trindade, para decoro e ornamento da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica, e para incremento da religião cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo, e com a nossa declaramos, pronunciamos e definimos a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, foi preservada imune de toda a mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus e, portanto, deve ser sólida e constantemente crida por todos os fiéis”.
[2] Devido a queixas relativamente ao seu peso e concomitante dificuldade em transportar a estátua, em andor, durante as procissões, o herdeiro da coroa, D. Duarte Pio de Bragança, mandou, recentemente fazer uma nova estátua idêntica mas de madeira, que é aquela que percorre agora, as ruas da Vila.

O BEN ESTÁ DE VOLTA …


O BEN ESTÁ DE VOLTA …

06JAN19


“Os lugares mais obscuros do inferno estão reservados para aqueles que se mantêm neutrais em tempos de crise moral!”

                       Dante Alighieri
                (“A Incógnita do Homem”)

            Este é o título do último filme cuja protagonista é a Júlia Robert, que nos presenteia com uma belíssima performance. Restantes actores acompanham com merecimento; argumento bom com uma história bem contada de uma intensidade dramática e suspense, sempre em crescendo, até ao minuto final.
            Saí chateado.
            O fulcro do argumento tem a ver com o tráfico de droga e os efeitos devastadores quer tem na sociedade e nas famílias. Retrata a realidade americana, mas ela é idêntica em qualquer parte do mundo.
            Fiquei chateado.
            No filme espelha-se com nitidez o “Bem e o Mal”, que coexistem entre nós e, apesar do filme ter um final (pontual) feliz, o “Mal” e os seus executantes e interpretes, não saem castigados.
            Saem molestados, é certo, pela crueza e realismo da narrativa, mas apenas indirectamente através da subjectividade de quem vê, e interpreta.
            É curto.
            Continuo chateado.
            Não deixa ainda de ser caricato que Hollywood, que nos presenteia com esta prenda de Natal e ano Novo (o argumento desenvolve-se á volta da quadra) seja, possivelmente, dos maiores antros de consumo de estupefacientes de todo o género, no mundo inteiro. [1]
            E que, ao longo do tempo e acompanhado pelas televisões, tenha contribuído pela acção deletéria como, por norma, tratam o tema, feito com que o tráfico e consumo da maldita droga tenha passado a ser encarada como fazendo parte da “normalidade” do quotidiano!
            Excepção para Singapura e agora, para as Filipinas. Abençoados!
            A chateação começa a passar a indignação.
            O Relativismo Moral e o estúpido do politicamente correcto tem amolecido políticos e população para tratarem os traficantes com panos quentes e os consumidores como doentinhos que precisam de ajuda, ou maltratados ou excluídos da sociedade. Daí à despenalização criminal, logo moral, do consumo, foi um passo.
             Mas o que se poderia esperar de uma classe de políticos eleitos que também, muitos deles, tinham sido consumidores?
            A seguir assiste-se com dinheiro do Estado (isto é dos nossos impostos), à manutenção do vício e fecha-se os olhos à entrada da “mercadoria” nas prisões…
            O ridículo (se não fosse trágico) atingiu paroxismos quando se compara o que se passa no mundo da droga, com as campanhas antitabágicas!
            Campanhas esdrúxulas para se passar a vender “drogas leves” no supermercado acentuam-se. É uma festa!
            Agora é a liberalização da cultura da cannabis, com a desculpa que tem efeitos medicinais. Mas então porque não se faz o mesmo com os opiáceos, usados para retirar a dor em doentes terminais?
            A revolta começa a instalar-se.
            Paralelamente, e como pano de fundo, movimentam-se somas enormes de dinheiro ilícito, com as suas lavandarias e “offshores”; “isolam-se” ou protegem-se “santuários” de produção - dos quais os mais conhecidos são o Afeganistão e a Colômbia – bem como negócios derivados do drama dos viciados, como são as clínicas de desintoxicação, etc.. É claro que esta última actividade é lícita e, porventura, necessária, mas só existe porque o problema passou a existir…
            Enfim, todo um negócio próspero, que aparentemente, não preocupa a UE, a ONU, as diferentes igrejas e religiões, a imprensa, os grandes paladinos dos Direitos Humanos, etc.
            Ou seja uma prova escabrosa da cobardia, hipocrisia e deserção, colectiva, que envergonha o género humano!
            E muitos “bem pensantes” ainda têm a lata, por vezes, de criticar quem usa métodos mais duros contra esta verdadeira peste negra dos tempos modernos.
            Pronto, agora estou mesmo danado.
            Quem é que me mandou ir ao cinema!



                                                          João José Brandão Ferreira
                                                               Oficial Piloto Aviador


[1] Excepção feita para a “Cracolândia” (de crack…) uma zona do centro da cidade de S. Paulo! Um autêntico “faroeste” da droga... Agora em tentativa de recuperação.