domingo, 4 de dezembro de 2016




APONTAMENTOS SOBRE O 1º DE DEZEMBRO
Aos 1 de Dezembro, de 2016 – 376 anos depois.

“Não podemos reconhecer nunca, nem ao filho de Henrique de Borgonha nem aos portugueses, o direito à emancipação.”
Lafuente, citado pelo Professor Hernâni Cidade.


E o primeiro é já este: quem discursou e pediu, logo obteve!
Ou seja, obras no Palácio dos Almadas, para o Presidente da SHIP e o PR membro honorário do Movimento 1º de Dezembro, para o Presidente do mesmo.
Nunca vi semelhante rapidez, em nada!
A cerimónia sofreu de alterações de última hora; esteve pouco marcial; o protocolo caótico e a segurança inexistente. Continuamos um povo de brandos costumes…
Os discursos, porém, foram bastante equilibrados e assertivos e os eventos do dia alargados, mas o número da assistência mantêm-se curto. Lamentável e dramaticamente, curto.
O Presidente da Sociedade Histórica para a Independência de Portugal (SHIP) notável instituição, fundada em 1861 - e que está na origem da comemoração do feriado - agradeceu a presença das altas figuras do Estado, o que já não acontecia faz bastante tempo. [1]
Ficam bem os agradecimentos, mas a verdade é esta: tais personalidades não fazem mais do que a sua obrigação em estar presentes…
Falou-se muito na reposição dos feriados (o que serviu de crítica ao governo que os tinha liquidado) e que, sobretudo este (o 1/12), nunca devia ter sido suprimido.
É verdade, mas quero acrescentar que os feriados destinam-se a comemorar o (s) evento (s) a que dizem respeito e que os justificam.
Não é para descansar ou ir à praia, como algumas forças políticas e sociais defendem…
Se esses eventos já não dizem nada à população e aos poderes do Estado que dela emanam, e deixaram de ser sentidos, e, por isso, votados ao ostracismo, então não se justifica mantê-los. Ou não será assim?
Passam a ser como as estátuas que só servem de pouso aos pombos!
Também foi muito enfatizado que a data tem uma importância fundamental pois é um símbolo da soberania e independência de Portugal. O que também é verdade.
Regozijamo-nos com o facto, mas estranhamos que muitos dos que hoje falam nisso – e alguns estiveram presentes nos Restauradores – tudo têm feito, por acção ou omissão, nos últimos 40 anos, para que essa independência e soberania – que não é mais do que a liberdade da Nação e de todos nós – tenha caído de ravina em poço, ao ponto de hoje estar reduzida a uma quase ficção.
Porquê, perguntarão?
Pois porque para além de termos alienado alegremente quase todo o nosso Poder Nacional, criámos e fomos acumulando uma dívida, que agora, é gigante e, nas actuais circunstâncias, impagável.
Isto é uma realidade que apesar de ser permanentemente escamoteada por todas as forças políticas, incluindo o PR (para só ficar por aqui), não deixa de ser a realidade. E mesmo assim ainda existem muitos empertigados e bem - falantes que insistem no suicídio, de querer aprofundar o federalismo europeu!
Gostaria de saber se tal fosse para a frente (o que implicará graves e violentas convulsões), se justifica ter reposto o feriado do 1º de Dezembro…
Por tudo isto me parece estar na altura de intentar nova Restauração, só não se sabendo quem iremos aclamar...
Também não sei como deva encarar uma série de alusões ao “Patriotismo”, aparentemente recuperado como coisa boa por alguns, que dele anteriormente afirmavam o que Maomé não dizia do toucinho!
E tem razão o Dr. Medina, Presidente da CML, quando disse que o Patriotismo não é de esquerda nem de direita (embora, na prática, não seja assim interpretado). Eu diria até mais, o Patriotismo dispensa bem a Direita e a Esquerda…
Fazem-no (aqueles que ora falam no patriotismo), no entanto, tendo sempre o cuidado de o contraporem ao “Nacionalismo”, que continuam a verberar como maléfico!
Ora o nacionalismo está ligado e deriva da Nação (que somos todos nós e não os outros, mesmo que sejam imigrantes, refugiados, asilados, turistas, etc.); enquanto o Patriotismo deriva da Pátria e é, seguramente, um sentimento superior, por sublimado e espiritual.
O elo e o sentimento que nos liga ao sangue dos nossos pais e à terra dos nossos avós.
Mas o Nacionalismo derivado da Nação não tem mal algum, já que é uma afirmação da nossa identidade, daquilo que nos une como comunidade, o sentimento comum das glórias e tragédias vividas, caldeadas numa maneira específica e característica de ser e estar, e uma matriz cultural própria, firmada num destino comum que queremos continuar que seja comum.
O Nacionalismo é, ou deve ser, uma afirmação de nós mesmos, não uma negação dos outros.
Em Portugal, por ex., pegamos o touro de caras (ou de cernelha – uma maneira genial de dar a volta à impossibilidade de o fazer de caras) e mais ninguém o faz no mundo; indo a nossa sensibilidade ao ponto de salvar o animal, não o matando no redondel, ao contrário dos nossos vizinhos europeus (agora únicos), que o matam de estocada. Sendo ambas as opções respeitáveis, não deixam de ser diametralmente diferentes…
O Nacionalismo português nunca foi agressivo para ninguém e nunca se arrogou laivos de superioridade para com outros (infelizmente às vezes até se rebaixa) pelo que os compatriotas que se mostram preocupados com tal termo podem dormir descansados.
Agora, atenção, (e também por exemplo) não queiram substituir as sardinhas assadas com pimentos ou o bacalhau com todos, pelo couscous ou pelo arenque fumado, produtos, porém, que temos todo o gosto em degustar e conhecer.[2]
Muito menos nos queiram impô-los, ou outros, pois isso dará um arraial de pancadaria monumental.
Por último, quem condena o Nacionalismo, nunca tem pruridos com o “internacionalismo” – que é uma verdadeira praga - antes pelo contrário, muitos são até seus fervorosos defensores.
Como é que tal se coaduna em simultâneo, com o “Patriotismo” é que não há maneira de explicarem…
Espero ter ilustrado o ponto.
Finalmente falou-se em sermos amigos da Espanha e cooperar com ela em vários domínios, não ficando agarrados “a serôdios sentimentos anti – castelhanos” como afirmou o ministro que tem a categoria de “primeiro”.
Não podia estar mais de acordo; ”pero hombre”, sempre lembraria, que não se perderá nada em ficar com os dois olhos bem abertos, assim a modos que um no burro e outro no cigano…
Por isso a alusão sibilina do PR ao facto do Rei de Espanha e ele próprio, em Guimarães, três dias antes, terem homenageado o D. Afonso Henriques, foi muito bem metida!
Não fosse Filipe VI ter lido o Lafuente, autor da citação cimeira.
No fim todos disseram “Viva a Restauração” e “Viva Portugal”.
Mas tal só terá sentido se assumirem – se todos assumirmos - o ónus que tal frase implica.
E aí, é que a porquita torce o rabiosque…
                                                                   
                                                 João José Brandão Ferreira
                                                      Oficial Piloto Aviador


[1] Lembra-se que foi o Dr. Jorge Sampaio, enquanto PR, que começou a desvalorizar a cerimónia e quis até, acabar com ela, na prática; sem que ninguém se tivesse oposto, à excepção (comedida) da então Direcção da SHIP, presidida pelo General Themudo Barata.
[2] Por vezes até descobrimos coisas que incorporamos na nossa alimentação. Foi o caso da “chamuça”, que conhecemos na India e nos serve de aperitivo ou entrada…

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