segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A ESPERANÇA E DA ESPERANÇA

“A um vilão peco não há coisa que lhe não pareça que fará e, por fim não faz”.
D. João II

A “caixa de Pandora” é um mito grego que narra a chegada da 1ª mulher à terra e, com ela a origem de todas as tragédias humanas. A história foi contada pelo poeta Hesíodo, no Século VIII A.C.

O titã Prometeu tinha presenteado o homem, com o dom do fogo para este poder dominar a natureza.

Zeus, o chefe dos deuses do Olimpo, havia proibido a entrega desse dom aos homens e decidiu vingar-se criando Pandora, a 1ª mulher. Antes de a enviar à terra entregou-lhe uma caixa recomendando-lhe que jamais fosse aberta, pois dentro dela os Deuses haviam colocado um conjunto de desgraças para o homem, como a guerra, a discórdia, e todas as doenças do corpo e da mente e um único dom: a esperança.

Vencida pela curiosidade (não fosse ela mulher) Pandora acabou por abrir a caixa libertando todos os males do mundo, mas fechou-a a tempo da esperança não poder sair…[1]
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Fala-se muito em “Esperança”, “ter esperança” e “dar esperança”. Parece-me um bom tema para o ano que desponta.

Tenho sido incentivado por pessoas de boas intenções a, naquilo que escrevo ou quando “em falas alargadas”, terminar sempre com uma mensagem de esperança. Por outros, tenho sido muito criticado por não o fazer o que chega, nos mais atrevidos, a apelidarem-me de “catastrofista” e outros mimos afins.

É possível que tenham razão embora, confesse, apenas tento ser realista. Mas como tudo parece ser subjectivo…

Permito-me, com vossa licença, lucubrar, um pouco, sobre a questão.

A “Esperança” é uma virtude teologal[2], mas não creio que seja esta a esperança a que o comum dos mortais se refere. A “Esperança”, neste âmbito, é algo transcendental, uma escora religiosa, a espera de um acto ou recompensa divina. É um amparo espiritual mais do que psicológico.


Ora a esperança de que se fala no dia-a-dia é outra e o dicionário explica-nos:[3] “o acto de esperar”; “expectativa”; “probabilidade”; “confiança em obter o que se pretende”.

Creio, pois, que é esta última frase que consubstancia aquilo que as pessoas entendem quando falam de esperança. E tal tem, sobretudo, um carácter social, profissional, estratégico, etc., logo político.

No fundo o que querem que seja é um “esperançoso”, ou seja aquele que dá ou tem esperança – um “prometedor”.

Eu nasci noutro país e, por meados da minha existência, só tenho visto, com raríssimas excepções, fazerem-se asneiras. Das grossas!

A coisa além de estar longe de ser parada e invertida vai a caminho de ficar bem pior. Por tudo isto que esperam que espere? E ter “esperança” é esperar….sentado?

A Esperança decorre (ou deve decorrer) daquilo que nós estamos dispostos a fazer para mudar uma situação que não é boa, não no que esperamos que os outros façam.

Por isso cuidado: dar sinais de esperança não deve ser tentar transferir o que desejamos que aconteça para outros o fazerem. Nesse caso a esperança transforma-se em quimera e, depois, em desesperança…

Os políticos e os vendedores de banha da cobra não dão esperança: tentam passar falsas esperanças.

Desse modo passamos apenas a ter a existência pontuada por suspiros do “vamos a ver se é desta”, ou do “ agora é que vai ser”…

E depois, quando tudo vai falhando ficamos com esperança em quê? No D. Sebastião, que há - de voltar, porque deixámos perder o Reino? No Marquês de Pombal? No Salazar? Noutro que há - de vir? Em quem ou em quê? Num milagre de Fátima?

Isto é apenas sintoma (sem retirar o crédito e valor às grandes figuras da História), de menoridade cívica e de incompetência na organização da sociedade e em estabelecer as linhas mestras que orientem um destino comum.

É certo que todas as pessoas necessitam de bengalas psicológicas para melhor viverem e tem que acreditar em algo que os motive para além de irem ao supermercado.

Mas a verdadeira Esperança só nasce e se mantém vivaz, com acções consentâneas com o “Ser” em vez do “Estar”. De outro modo existirá, apenas, uma esperança balofa e uma ilusão.

E não parece haver nada pior do que vender ilusões (mesmo no amor: “mente-me mas faz-me feliz…”), que é o que a generalidade dos políticos (e dos sistemas com esse nome) fazem para ganhar votos.

Eu prefiro não ganhar votos, mas manter-me verdadeiro. É essa, também, a minha esperança.

A Esperança não pode, deste modo, ser desligada do quotidiano mas só fará sentido se estiver ligada à virtude teologal, pois sem Esperança a vida perde o significado.

Resta acreditar no que não se vê e esperar contra toda a Esperança.

Só assim a Esperança será a grande consoladora.

Tenham um bom ano.

Escrito no dia de Natal, do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, de 2012

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[1] Noutra versão Pandora foi enviada por Júpiter com a intenção de agradar ao homem. Entregou-lhe, então, uma caixa em que cada Deus colocou um bem. Pandora abriu a caixa e os bens escaparam excepto a Esperança.
[2] Da trilogia “Fé, Esperança e Caridade”
[3] “Dicionário da Língua Portuguesa”, Eduardo Pinheiro, Livraria Figueirinhas, Porto.

5 comentários:

LONGE É A LUA, MEMÓRIAS DE LUANDA - ANGOLA , de Rogéria Gillemans disse...

Um bom ano 2013 estimado Amigo.
Se por um lado este estado pecaminoso, imoral, de homens ímpios que pretendem impor (qual ditadura), até, mesmo às pessoas a quem o dom da inteligência bafejou, esta loucura colectiva pelo poder que engloba os ditos ‘partidos’ do centro esquerdista e da esquerda (porque outros não existem) não em ideário a bem do povo e desta pobre “nação”, são iguais, regem-se pelas mesmas linhas da opressão, o significado da honra da palavra pouco ou nada lhes diz, ficou-lhes só a faculdade do uso simples da palavra para propalarem ilusões fabricadas neste estado de sítio que não sendo poder, visto o poder estar em Bruxelas, outra coisa não é que oportunidades para bandos organizados que raiando o sadismo pela desumanidade, dão vazo aos seus instintos mais primitivos, empurrando seres humanos para o seu fim (qual holocausto).
Por outro lado cada vez mais o homem toma mais consciência que a esperança está em Deus no seu poder, como seu único Senhor e Rei, e nas coisas que vai contruindo por si próprio.

António Silva disse...

Entre as muitas maleitas trazidas pelo modernismo, e pelo mundialismo que lhe está associado, encontramos a ideia de que o estado de espírito que vê o bem e o bom em todo o lado deve ser exemplo a seguir. Esta disposição esquizóide inculcada pelas novas correntes psicológicas tenta ignorar a existência do Mal e identifica o Bem com a alienação em relação a tudo o que possa causar problemas, com a despreocupação, com o conforto imediato, com o prazer irreflectido, etc.

Juntamente com o optimismo permanente, que forçosamente exige a negação do Mal, aparelha-se-lhe o imobilismo moral, uma vez que para haver uma acção benéfica necessariamente tem que haver uma luta contra o Mal, não sendo o Mal identificado ou reconhecido a acção saudável não acontece. Dentro do imobilismo aqui representado temos como exemplo o abandono do combate pelo bem comum. A construção desinteressada com vista ao benefício comunitário desapareceu, hoje em dia apenas se age com vista ao bem exclusivamente próprio.

O imobilismo de que falamos impede a construção do futuro, agarra-se às obras realizadas pelos nossos antepassados, mas, não prepara a sobrevivência das próximas gerações. Acontece porém que o futuro chega depressa, e se a geração anterior consumir e não produzir certo é que a geração presente já está sofrer as consequências das negligências anteriores. Ora, é precisamente isso que acontece neste momento, a geração de hoje sofre pelos erros da geração de ontem. E o mais curioso é que se teima em seguir o mesmo caminho suicida.

A obsessão optimista obriga a comportamentos desajustados à realidade actual, as pessoas são levadas a pensar que tudo corre bem, tudo vai bem, exemplos desses não faltam mesmo ao mais alto nível político, os políticos frequentemente enganam descaradamente as multidões seduzindo-as com o pensamento positivo, tudo vai bem, não se passa nada de anormal, todavia a tragédia económico-social iminente prova o oposto. A comunicação social alinha pela mesma cartilha da psicologia desconstrutiva, perante políticas nefastas os media, tudo subvertendo e recorrendo a intrujices sofisticadas, conseguem passar a ideia do contrário. Um exemplo, ocorrido no momento, relaciona-se com a imigração ilegal, os mass media perante uma invasão de pessoas culturalmente impreparadas e propensas à exploração, obviamente nefastas para os autóctones europeus, invertendo tudo afirmam desavergonhadamente que os “imigrantes enchem os cofres do Estado”. A falência da Europa mostra, contra todas as teorias do internacional-socialismo, promotor do multiculturalismo e da subsidiodepêndencia, precisamente a incopatibilidade com esta ideia absurda.

As pessoas amarradas à mentalidade que apregoa a inexistência do Mal, comportam-se como zombies, perdem a personalidade original devido à propaganda materialista promovida pelos causadores da desordem e permitem que as suas vidas se tornem inúteis, atravessam a sua existência como que de olhos fechados, pois são incapazes de perceber de onde vem a onda negativa que impede as suas realizações pessoais. As lavagens cerebrais têm um preço, as massas embrutecidas alegremente louvando o poder da baixeza, acabam, mais tarde ou mais cedo, por entrar em desespero e agir de forma imprevisível, inconsequente e selvaticamente, destruindo tudo com a sua fúria devido ao elevado grau de frustração que as possui.

António Silva disse...

Como consequência imediata do que dizemos, as pessoas deixaram de se preocupar com o futuro, com os problemas essenciais da vida, com a sua missão e com a sua natureza, com o que quer que seja que não lhes traga uma satisfação imediata, porém a felicidade escapa-se-lhes por entre os dedos como a água. Este falso progresso com base em mentiras está já a dar os seus frutos podres, a sociedade conspurcada moderna já não satisfaz, a intranquilidade cresce, mas contra toda a lógica, o mesmo estado de espírito optimista continua, as gargalhadas são obrigatórias, a circunspecção proibida, a razoabilidade desprezada e a exuberância indispensável para que não se caia na marginalidade social. Nós somos os sérios, os que se riem por dentro mas que mostram a serenidade por fora, a felicidade é interior e não exterior, os contidos, os sensatos e os justos. Tudo indica que estamos condenados ao fracasso nesta sociedade pervertida. No entanto, briosamente podemos afirmar, se a nossa concepção do mundo morreu naturalmente morreremos com ela.

E da Cunha disse...

Estimado Senhor, esta mensagem é, somente para lhe deixar os meus cumprimentos, próprios da época e fazer votos duma continuada e rija saúde para que nos brinde, por muitos e muitos anos, com esta sua prosa de coragem, rigor e amor Pátrio.
Bem haja por isso.

Anónimo disse...

Sr Ten. Coronel Brandão Ferreira

Apreciável texto sobre a Esperança.

Os que nos têm governado nos últimos quase 39 penosos anos. muito usam estes três termos:

MUDANÇA,
CONFIANÇA e
ESPERANÇA

Infelizmente para nós Portugueses, recordo um dito alentejano:

A Esperança era verde, veio um burro e comeu-a!

Assim estamos por cá.

Aceite os meus melhores cumprimentos e votos de Bom Ano, para si e todos extensivo tambem aos Srs. Comentadores deste excelente Blogue.

Manuel Costa