terça-feira, 17 de janeiro de 2012

EXAME DE CONSCIÊNCIA ÀS TROPAS

“Senhor, dai-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar; a coragem para mudar as coisas que posso mudar, e a sabedoria para conseguir distinguir umas das outras.”
Oração da serenidade, autor desconhecido

Este artigo destina-se a pôr a (grande) maioria das pessoas contra mim. Se a sua consciência o ditar.

Do anterior falámos do desmantelamento da Instituição Militar e da menorização dos militares, que tem sido levada a cabo por todas as forças políticas representadas no Parlamento (sobretudo pelas do arco do poder), nomeadamente desde que a Lei 29/82 - Lei da Defesa Nacional e das FAs - entrou em vigor e que culminou agora no “congelamento” das promoções e na espantosa trapalhada à volta do Dec-Lei 296/09 (integração dos militares na tabela remuneratória única).

Falámos ainda da falta de êxito da mais elevada hierarquia militar na defesa da IM, o que tem levado a um manifesto afastamento entre as partes com cada vez mais nefastas consequências na coesão do todo.

A indignação das tropas foi potenciada, porém, pela “suspensão” da sua carreira; dos cortes salariais e naquilo que se adivinha (e vai ser uma realidade), na “Saúde Militar”. Ou seja em aspectos exclusivamente materiais e que afectam o ser individual no seu dia a dia.

Parece-me curto. Daí que seja necessário fazer um exame de consciência, passe a “impertinência”.

De facto, ao longo destes últimos 35 anos quando ocorreram numerosos erros e indignidades relativamente à Defesa Nacional e ao País raramente se viu alguém indignado ou disposto a opor-se ao plano inclinado em que fomos postos (o país e a IM). Pelo contrário, alguns até colaboraram com entusiasmo. Vou dar alguns exemplos para vos avivar a memória:

- Lembram-se como não se quis “julgar” ninguém a fim de separar o trigo do joio, quem se portou mal, de quem se portou bem (nos termos da virtude e da honra), durante e após o 25 de Abril, até a situação estabilizar?

- Lembram-se da incrível proliferação de subsídios; da reintegração a esmo de quem tinha sido saneado; das promoções avulso e da reconstituição de carreiras (conhecidas na gíria pelo “garimpo”), que causaram mais injustiças do que resolveram e inquinaram a IM por duas gerações? (terá sido o “apaziguamento” possível?);

- Lembram-se quando acabaram com o Serviço Militar Obrigatório? (um erro trágico de gravíssimas consequências!);

- Lembram-se quando mudaram a legislação sobre a escolha dos chefes militares, que governamentalizaram, impedindo qualquer contributo válido da própria instituição?

- Lembram-se quando achincalharam publicamente várias figuras de generais e almirantes e quase ninguém protestou, ou se solidarizou?

- Lembram-se quando retiraram os chefes militares da tabela salarial das FAs e os equivaleram a cargos políticos? (separando a cabeça do resto do corpo...).

- Lembram-se quando acabaram com os Tribunais Militares e, na prática, destruíram a Justiça Militar? (a única que ainda funcionava…).

- Lembram-se quando invadiram o ensino militar pelo ensino civil, para além do que era razoável, pondo-nos de cócoras com quem connosco só tem a aprender?

- Lembram-se dos ataques continuados e recorrentes à condição militar e aos militares, constantes na comunicação social, sem haver qualquer reacção?

- Lembram-se da incrível invasão das mulheres nas FAs, sem nexo que o justificasse, para além da demagogia do politicamente correcto? (e da falta de voluntários para algumas especialidades…).

- Lembram-se dos sucessivos ataques ao RDM, que acabaram na sua remodelação, que transformou a Disciplina Militar, numa quase ficção?

- Lembram-se da regra, inacreditável, do duplo voluntariado para se arranjar pessoal a fim de se constituírem unidades para operar fora do território nacional, cuja principal razão residiu no pânico de alguém poder morrer no cumprimento do seu dever?!

- Lembram-se das sucessivas amputações na autoridade delegada nos chefes militares para poderem bem comandar os seus Ramos - e poderem ser responsáveis por isso - (o que depois se reflecte pela hierarquia abaixo), que os têm vindo a transformar em figuras decorativas, em detrimento de políticos de ocasião cuja ignorância é crassa e as intenções duvidosas?

- Lembram-se dos numerosos grupos de trabalho já nomeados a nível do MDN, enxameados (quando não presididos) por civis, com a finalidade de tratarem de assuntos estritamente militares?

Os exemplos podiam continuar restando acrescentar um ponto: muito do mal que foi efectuado podia ser relevado se tivesse sido feito com boa intenção. A ignorância não pode ser apresentada como desculpa e há incontornáveis indícios de dolo.

A memória dos homens é fraca mas, às vezes, é também muito conveniente.

Por outro lado as responsabilidades dos militares não se limitam à Instituição de cujos antepassados são agora os sucessores (e não há instituição mais antiga no país!). Os militares têm responsabilidade em tudo o que se passa em Portugal, como cidadãos de corpo inteiro, e especiais responsabilidades naquilo que possa pôr em perigo a Segurança da Nação e a sua Independência (jurámos todos defender isto com risco de vida e tal não prescreve na reserva, reforma, nem nos cidadãos que cumpriram o SMO).

Ora também neste âmbito, raramente topei com alguém que fosse além da conversa de escárnio e maldizer à volta de uma boa bacalhoada, âmbito em que continuamos imbatíveis.

Vou arriscar dar, também, alguns exemplos neste particular:

- Recordam-se quando virámos costas ao mar (e ao passado) comprometendo o futuro, até ver, irremediavelmente?

- Recordam-se do modo irresponsável como entrámos na Comunidade Económica Europeia?

- Recordam-se como entrámos no Euro sem estarmos em condições de o fazer?

- Recordam-se como assinámos os tratados de Maastricht, Nice e Lisboa, que põem em causa a nossa independência, sem se explicar nada à Nação nem se fazer referendo?

- Recordam-se como se fez a última revisão constitucional (que passou despercebida), em que se instituiu o primado da legislação oriunda de Bruxelas sobre a nacional, ainda por cima sem que nada a tal nos obrigasse?

- Recordam-se como deixámos a nossa cultura, economia e finanças ser invadidas pelos espanhóis, país com quem temos a única fronteira que nos resta e cujas ambições passadas, ainda vamos conhecendo?

- Recordam-se de como temos vindo a alienar todo o nosso património, sobretudo aquele que é estrategicamente relevante? (depois de termos trocado as verbas dos fundos estruturais pela destruição do aparelho produtivo!);

- Recordam-se de como há décadas se passou a enviar políticos aos pares (não se sabendo como nem quem os escolhe), a reuniões internacionais de que ninguém conhece a agenda, e que são guardadas por forças de segurança e militares, pagas pelos impostos dos cidadãos e que, depois, esses políticos aos pares têm vindo, sucessiva e maioritariamente, a ocupar os cargos de PM e PR?

Quando uns malandrotes madeirenses andam, irresponsavelmente, a agitar o fantasma da independência, isso tem-vos causado, ao menos, algum franzir de sobrolho?


Quando a irresponsabilidade política quer acabar com o feriado do 1º de Dezembro - verdadeiro símbolo da nossa individualidade como Nação - isso causa-vos algum transtorno?

Querem mais exemplos?

Pois parece que muito poucos de vós se tem apercebido disto, a avaliar pela passividade evidenciada, ó tropas!

Começaram agora a acordar pois… estão a ir-vos ao bolso. Mais ainda estão aturdidos com o soco e sem saber o que fazer. A pancada ainda só agora começou. É curto e está tarde (embora valha mais tarde do que nunca).

Julgam que o atrás apontado não configura uma invasão e por isso estão “serenos”? Invasão militar, não será, mas as consequências são as mesmas ou piores. Vou expor de outro modo para melhor se perceber: a presença da Troika no Terreiro do Paço é idêntica à da Duquesa de Mântua no Palácio Real, protegida pela Guarda Alemã no Castelo de S. Jorge…

Hoje estou disposto a bater-me por quê? Eis a súmula do exame de consciência. Ficar indignado ou reagir só quando vos vão ao bolso é curto e fica tarde. E só acontece por falta de reacção a montante.

Nós nem sequer temos que ter serenidade para aceitar o que não podemos mudar, nas palavras do ilustre desconhecido, pela simples razão de que tudo o que se tem passado podia ter sido evitado ou mudado. Faltou apenas a noção do que é geopoliticamente relevante, bom julgamento e alguma coragem.

(1) No próximo ”número”, o exame de consciência aos chefes militares.

6 comentários:

Guilherme de Oliveira Martins disse...

Mais uma vez o Senhor T.Coronel Brandão Ferreira demonstra a sua lucidez e coragem.

Jdentifico-me a 100 % com estas reflexões, como cidadão português e antigo militar do SMO ( prestei serviço na Divisão Nuno Álvares em 1954,1955 e 1956. )

Guilherme de Oliveira Martins

N Melo disse...

Exmo Senhor Tenente Coronel Brandão Ferreira,

Deixe-me agradecer por ter escrito um artigo que há muito devia ter sido publicado. Espero que haja de facto um exame de consciência individual / colectivo que conduza a um despertar e um honrar de um voto solene e sagrado. Tomei a liberdade de o divulgar no Facebook. Bem haja pela sua coragem e rectidão.

Zé Quintão disse...

ExmºTCOR Brandão
Agradeço esta recordatória, muito bem elaborada, tocando grandemente todos os pontos que fazem perigar a efectiva soberania deste país. Não acredito que a maioria dos portugueses sejam contra este artigo. Os que poderão ser contra são os outros; os tais que venderam o país dos seus avós e expensas de tratados, cujos escritos ignoramos. Esses não são portugueses, são os globalistas traidores. Para que seus objectivos sejam alcançados, não tenhamos duvida que a instituição militar será desmantelada, não é isso que estamos a ver? Oxalá o artigo tenha um efeito galvanizador de vontades lusas, em prol da nossa própria sobrevivência como país.

Rui Pinto disse...

A voz da consciência que vê a nossa soberania a ir pelo cano...

...se calhar está na altura de escolhermos o calibre dos canos.

José Figueiredo disse...

Estou plenamente de acordo com o transcrito.
Nós nem sequer temos que ter serenidade para aceitar o que não podemos mudar, nas palavras do ilustre desconhecido, pela simples razão de que tudo o que se tem passado podia ter sido evitado ou mudado. Faltou apenas a noção do que é geopoliticamente relevante, bom julgamento e alguma coragem.

Anónimo disse...

Caro camarada, português e irmão
É curioso que, embora sem ser militar, muitos desses temos os senti e me têm feito sofrer, indignado, como o encerramento do Tribunal Militar (É muito vexatório ver um militar se julgado por civis), ou o recrutamento de mulheres para a tropa, que cedo passam de mulheres a gajas. É, sem dúvida, o seu melhor artigo, conhecedor, inteligente, e corajoso. Muito obrigado.
Um abraço amigo
Pina Navarro