sábado, 7 de janeiro de 2012

CHEFIAS MILITARES E O QUE SE PASSA POR AÍ…

Gostaria que soubessem que lamento ter escrito este texto e cada vez sinto mais vergonha do estado em que as FAs foram colocadas e se deixaram colocar.

Publicado no jornal "O Diabo" de 17 de Janeiro de 2012

General GEMGFA Luís de Araújo
“…mas havemos de nos acomodar às situações que existem”

General CEMGFA
(noticia da Lusa, de 31/12/11)

A Força Aérea vai começar o ano a perder cerca de 260 oficiais e sargentos, que pediram para abandonar o serviço activo, ou por terem atingido o limite de idade.

É uma perda brutal.

Não conhecemos ainda os números da Armada e do Exército, mas estes servem para ilustrar o ponto.

Estes números vieram a público por causa da saída inesperada do 2º Comandante do Comando Aéreo (CA). Esta saída deve-se a um “desaguisado” interno que não é relevante para o grande público.

Esta saída tem, todavia, origem na decisão do anterior comandante do CA, há cerca de dois meses, em retirar-se da vida militar e para o substituir ter sido indigitado um Major General (duas estrelas), quando o cargo vence um Tenente General (três estrelas).

Cabe aqui referir, que as saídas previstas de generais e o inconcebível congelamento das promoções em vigor, faz com que a FA tenha, neste momento, quatro generais: o chefe, o vice-chefe e o Comandante do Pessoal. O quarto está fora do Ramo e há pouco tempo na função.

Ora por alturas do Natal S. Exª o Ministro da Defesa fez saber ao Chefe de Estado Maior que pretendia um general de três estrelas no CA, restando saber as razões do senhor ministro ou, o que é mais curial, quem tal lhe foi sussurrar ao ouvido e porquê.

Daqui decorreu a indigitação de um general de três estrelas...

Para o lugar agora vago pelo número dois do CA, marchou o Major General que o senhor ministro (ou alguém por ele) não tinha querido como nº um. Já regressaremos a isto.

Especulou-se, entretanto, porque é que tanta gente quer abandonar as fileiras e aventaram-se umas poucas de hipóteses que podemos sintetizar na seguinte frase: já ninguém consegue aturar o que se passa!

E o que se passa dava para encher páginas, que vamos reduzir a meia dúzia de ideias, nenhuma delas aduzida, aliás, na citada notícia da Lusa, baseada numa entrevista ao CEMGFA.

Em primeiro lugar já não se consegue suportar a continuada má relação político-militar de décadas e o enfado, a acrimónia, a deslealdade e as ilegalidades com que os políticos, em geral, têm tratado as FAs e os militares; depois o continuado ataque à condição militar em todas as suas vertentes, que intentam destruir, por não lhes convir, não entenderem, ou não acharem necessária; em seguida, porque os militares não têm, há muito, hierarquia que os defenda; finalmente por não haver aviões para voar, navios para navegar e homens para comandar!

Hoje em dia, só quem não sabe ou gosta de fazer mais nada; não arranja emprego, ou ainda julga que pode desviar o eixo da terra a fazer flexões de braços, é que permanece na Instituição Militar. Quem tem condições pira-se (é o termo), num fósforo!

As intenções governamentais – e nisto o PSD/CDS têm-se revelado mais perniciosos e perigosos para a IM, porque são mais metódicos e cínicos a fazer as coisas, ao contrário dos socialistas que são desastrados a lidarem com fardas – devem ser, para já, como segue:

Meter o Exército inteiro, a três batalhões (menos), em Santa Margarida; a Marinha fica circunscrita ao Alfeite (onde já está), com alguns pontos de atracagem espalhados pela costa, ficando à espera que os navios encostem todos, à excepção de dois patrulhas para a busca e salvamento; e reduzirem a FA a duas bases, provavelmente Monte Real (que diabo a Nato até gastou lá uma palete de massa), e Beja, digo Montijo, já que não dá jeito andar para a frente e para trás com o Falcon. E, claro, fazendo migrar o comando da Defesa Aérea para Madrid…

Isto numa primeira fase; imaginem o que será a segunda.

Voltemos agora ao CA para analisarmos o facto – de gravidade inaudita – do MDN ter interferido directamente nas atribuições de um chefe militar, neste caso, nas de gestão do seu pessoal.

Não está em causa se a decisão de nomear um determinado oficial para uma função, foi boa ou má – a função em causa obriga, até, que a nomeação seja ratificada pelo Conselho Superior de Defesa Nacional, o que ultrapassa o próprio ministro – mas sim a ingerência em âmbito que não lhe compete. Ainda por cima com o desaforo das implicações que a não autorização de promoções acarreta.

Tudo isto representou uma desautorização do CEMFA e sobre isto mais não digo.

O passo lógico seguinte, a ser dado pelo senhor ministro, será o de passar a colocar todos os comandantes de unidades e por aí abaixo. Não, não corro o risco de ser acusado de lhes estar a dar ideias, já há muito que estão mortinhos por fazer isso e só não põem um “boy”, ou uma “girl” lá deles, a comandar o Regimento de Infantaria de Viseu (em tempo de paz, claro), porque é manifestamente difícil – embora não impossível. Mas lá que gostavam…

Não contentes em terem transformado os chefes militares, na prática, em figuras decorativas – por terem vindo, paulatinamente, a esvaziá-los de todas as competências - ainda os querem transformar em “quartos secretários” do Presidente da Comissão Liquidatária (da tropa). E sabem que mais? Tenho esperanças de que se hão-de mostrar contentes com isso.

A iniquidade miserável do último despacho conjunto dos Ministros das Finanças e da Defesa, de 30/12 (que faz regredir os militares à tabela salarial de 31/12/09), só encontra paralelo na patética reacção (ou falta dela), da alta hierarquia militar, perfeitamente incompatível com aquilo que se ensina aos cadetes, na escola!

Fomos todos postos de castigo, voltados para a parede e com orelhas de burro.

Sem querer tirar a frase citada, do CEMGFA, do contexto em que foi dita, mas extrapolando-a, pode-se entendê-la como a síntese quase perfeita da atitude da generalidade da hierarquia militar, desde 1982[1] (depois de se terem zangado no dia 26 de Abril de 1974): “havemos de nos acomodar às situações que existam”.

Nem imagina o senhor general o alcance da verdade que agora lhe escapou.

Resta apenas saber o que acontecerá quando houver alguém que não se queira “acomodar”.

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[1] Data da promulgação da Lei 29/82, Lei da Defesa Nacional e das Forças Armadas.

4 comentários:

António Rita disse...

Já há muito que suspeitava que a crise de capital humano é bem mais grave do que a financeira. O espirito de missão nunca morre, mas defender a dignidade parece uma tarefa dificil. Cpts meu TCor.
António Rita

José Luís Dias (Zé Luís) disse...

Como sempre, bom artigo! Pois é: as coisas já não são como dantes... Um abraço do Dias

chavalier disse...

O TCOR Brandão teve sempre o condão de dizer, leia-se, escrever, aquilo que tem sido o sentimento dos militares. Longe vai o tempo em que nos revíamos na figura do chefe. Pelo menos comigo isso acontecia e confesso que os tive e de excelência. O COR Otelo recentemente disse algo que atrapalhou os nossos políticos, isto porque não souberam interpretar os sinais que se avizinham. Por muito narcisista que tenha sido teve o mérito de ser um estratega...pena é que estejamos todos a dormir!

Mário Cavaco disse...

Caríssimos, muito me agrada que existam pessoas que mantém a verticalidade. O sr. TCoronel Brandão Ferreira tem demonstrado ao longos destes anos uma capacidade crítica construtiva invejável àqueles que, em virtude das posições de comando, não a possuem.
É incrível a passividade cruel por parte das chefias sobre tudo aquilo que se está a passar. A verdade seja dita, mais fundo julgo não ser possível,mas cá estamos para ver, como diz o cego!!
Fico triste pois não foram estas as Forças Armadas que Jurei servir, mesmo com a própria vida! Sim, está é a verdadeira e matriz diferença entre todos aqueles que servem as Forças Armadas dos demais mortais.
É verdade que devido à incompetência de alguns o País mergulhou no que se classifica na maior crise financeira alguma vez reportada na História.
Mas sendo verdade que houve incompetência, compadrio, ou o que queiram chamar, deve o poder Judicial, se é que ele existe, julgar aqueles que, direta ou indiretamente, são culpados.
Infelizmente, tal como diz a sabedoria dos nossos avós, "a corda quando parte, parte pelo lado mais fraco", que é como quem diz, pelo lado daqueles que não podem, por lei, reclamar!!
E o pior é que nem as chefias os fazem! Vai-se lá saber porquê!!
Desejo a todos muita paciência e que o sr. TCoronel Brandão Ferreira continue com estes artigos acutilantes e verdadeiros.
Eu por mim agradeço.
Um bem haja a todos
Mário Cavaco