quarta-feira, 4 de maio de 2011

IN MEMORIAM: GENERAL BETTENCOURT RODRIGUES

“A Guiné é defensável e deve ser defendida? Se sim, vamos escolher o melhor general disponível para a governar, vamos continuar a fazer o esforço de lá manter os homens necessários e de procurar dotá-los do material possível. Se não, prepararemos a retirada progressiva das tropas, para não prolongar um sacrifício inútil, designando um oficial – general, possivelmente um brigadeiro, para liquidar a nossa presença.”
Marcello Caetano, a Costa Gomes, Depoimento, pág. 180

             Os três grandes generais das guerras liberais foram Saldanha, Terceira e Sá da Bandeira. Os três exerceram também funções governativas. Dos três, e no conjunto das características humanas, Bernardo de Sá Nogueira era, incontestavelmente, o mais completo, o melhor. Chegou a Marquês, enquanto os outros dois subiram a Duque. Nem Sebastião José chegou a tanto. A História tem destas coisas…

            No passado dia 28 de Abril, deixou o número dos vivos o General José Manuel Bettencourt da Conceição Rodrigues. Foi o melhor general de todo o século XX português. A afirmação só me compromete a mim e não pretende ser desmerecedora para qualquer outra figura.

            Bettencourt Rodrigues (BR), nasceu no Funchal, em 1918 – era também conhecido pelo “Zé da Ilha”, uma daquelas designações que enchem o mundo da camaradagem militar – ia completar 93 anos, em 5 de Junho. BR gostava de viver e teve uma vida cheia, mas não se lhe conhecem vilanias.

Bettencourt Rodrigues, ao centro, no Luena, em 1971
           A sua carreira militar foi brilhante e culminou com a nomeação, em Setembro de 73, para Governador e Comandante-Chefe da então Província da Guiné, onde o 25 de Abril de 74, o foi encontrar. Declarando não desejar aderir ao golpe de estado em curso, foi preso e transferido para Cabo Verde, com outros oficiais.

            Já na Metrópole e nada havendo de que o acusar foi, apesar disso, saneado pela mão do próprio General Spínola. Passou à reserva em 14 de Maio desse ano. Enfim, comportamentos que contam para o passivo da “revolução”.

            Desde então BR remeteu-se ao anonimato, não intervindo em nada, não se queixando de nada e recusando qualquer eventual cargo público. Apenas aceitou ser Presidente da Direcção da sua muito querida Revista Militar, cargo que ocupou durante 10 anos e do qual saiu por vontade própria, pois entendia que as pessoas não deviam ficar demasiado tempo à frente das instituições. Uma das muitas atitudes de lucidez e humildade que lhe conheci.

            BR entrou para a então Escola do Exército, em 1936. Cursou Infantaria – a “Rainha das Batalhas” – sendo o 1.º classificado do seu curso; entrou para o então Corpo de Estado-Maior, em 1951, com a classificação de “distinto”; frequentou o "Command and General Staff College", Fort Leavenworth, EUA, em 1953; foi adido de Defesa em Londres; comandou o Regimento de Artilharia 1; foi Chefe de Estado-Maior do QG, em Angola, no início da guerra subversiva – onde esteve na origem da formação das primeiras tropas “Comando” – mais tarde comandou a frente leste, em Angola (70-73), onde as tropas sob a sua liderança esmagaram as forças inimigas e praticamente acabaram com a guerrilha, ao mesmo tempo que se promovia uma notável acção psico-social. E ainda teve tempo para, no intervalo da sua intensa actividade militar, ter feito parte do último governo do Prof. Salazar, como Ministro do Exército, transitando para o primeiro governo do Prof. Marcello Caetano, entre 1968/70, na sequência do curso de Altos Comandos, onde obteve a classificação de “muito apto”.

            Finalmente – não cabe neste escrito fazer a radiografia de toda a sua folha de serviços – quando a situação se tornou delicada no teatro de operações da Guiné, o governo foi procurar o melhor general disponível para tão ingente tarefa e escolheu-o, a ele. Não escolheu um “oficial general de baixa patente” para liquidar a situação…

            A situação era, de facto, delicada mas menos por acção do inimigo. É certo que a última grande ofensiva do PAIGC, congeminada em Conakri por instrutores cubanos e soviéticos, e iniciada dois meses depois do assassinato de Amílcar Cabral (20/1/73), sem dúvida levado a cabo por elementos da ala mais dura e marxista do movimento que aquele liderava, tinha deixado marcas nas FAs portuguesas. Mas foram estas que ganharam a batalha não o PAIGC…

            Mais grave teria sido o ambiente de desmoralização e até de revolta que tocou alguns oficiais do QG, em Bissau, originadas nas desavenças entre o Comandante - Chefe, Spínola e o Chefe do Governo, Caetano.

            Foi esta a situação (muito resumida) que o novo governador, BR encontrou quando chegou a Bissau. Não se pode ter certezas quanto ao evoluir de acontecimentos históricos que são subitamente interrompidos, mas estamos em crer que BR iria sair vitorioso dos desafios com que se confrontava.

            E tal convicção radica-se na afirmação supra de o considerar o melhor general português do século XX. Porque o afirmamos?

            BR obteve sucesso em todas as missões de que foi incumbido e reunia em si, um conjunto de características raríssimas de se juntarem na mesma pessoa.

            Ao chegar ao topo da carreira BR possuía, em simultâneo, a competência operacional e de comando de tropas, tanto em tempo de paz como em campanha, e uma elevada aptidão para trabalhos de planeamento e estado-maior. BR conhecia o género humano, sabia escolher os homens e não era afectado pela lisonja. E para um homem que tinha ocupado os maiores cargos, não se lhe vislumbrava uma ponta de afectação ou de vaidade.

            Tinha uma enorme capacidade de trabalho e a sua integridade e carácter eram à prova de bala. Era um português inteiro e, num país de tricas e azedumes constantes, gozava do raro privilégio ao respeito geral. De facto nunca ouvi “dizer mal” do general em qualquer ambiente. BR nunca prejudicou o seu país, ilustrou-o, e nunca manchou a Honra da Instituição Militar.

            Ora tudo isto configura uma personagem notável que, infelizmente, as novas gerações de oficiais e sargentos já não conhecem.

            A sua memória está apenas registada numa das salas de aulas do actual Instituto de Ensino Superior Militar, em Pedrouços, onde foi ilustre professor.

            À semelhança de Sá da Bandeira que não foi a Duque, BR, não foi a Marechal. A História tem destas coisas…

            Morreu um grande general português – que o seria também nos exércitos mais afamados – a Infantaria perdeu um dos mais dilectos descendentes do seu Patrono, o grande Nuno; o Exército viu desaparecer um dos seus comandantes mais ilustres e a Nação ficou pobre de um dos seus melhores filhos.

            Eu perdi um exemplo e um amigo.

            Guardarei, porém, um orgulho: o de poder dizer que o conheci.

            Foi das melhores coisas que me aconteceram na vida.

            Vai fazer-me muita falta.

11 comentários:

Abel Matos Santos disse...

Sem dúvida, um exemplo de vida!

Anónimo disse...

Como neto do General Gomes de Araujo, Ministo da Defesa de Salazar e antigo CEMGFA, lembro ao Sr. Ten. Cor. que o Sr. Gen. B. Rodrigues viu a sua carreira subir de forma meteorica gracas ao meu avo e gracas a varias pessoas que depositaram grande fe neste soldado da patria.

Amat victoria curam

Martim de Arantes e Oliveira

JOÃO SENA disse...

Vai amanhã ser enterrado na cidade do Porto um dos maiores Generais que tive a honra de conhecer, ser seu subordinado em Angola e, pela sua generosidade, também seu amigo.
Da sua vida militar e das suas extraordinárias qualidades de Comando não devo, não posso e nem sei falar, pois sou infinitamente pequeno para tal poder ajuizar. Posso, porém, falar do Amigo, do Mestre Generoso que, durante anos, me aconselhou e corrigiu até alguns dos textos aquando iniciei esta minha tarefa de contar histórias. Na luz coada da biblioteca e no restaurante da Sociedade de Geografia, tive oportunidade de escutar detalhes, ouvir e esclarecer factos, circunstâncias e acontecimentos, recentes ou mais afastados, referentes ao tempo histórico que nos tocou viver.
Em nenhuma ocasião dei conta de ter guardado ódios ou ressaibiamentos sobre as muitas injustiças que lhe foram feitas. Mesmo quando detalhava sobre esses tempos e traições, de tantos que reputara terem sido seus amigos e colaboradores, encontrava, sempre, no humor e na generosidade do seu enorme coração, a atenuante de comportamentos indecorosos. No seu coração não havia espaço para o ódio.
Neste tempos de pigmeus foi um Homem diferente.
Quando assentarem as poeiras e nada mais possa restar de uma Pátria Independente senão outro grito como aquele deixado no Estreito das Termópilas, serão os Historiadores que lhe farão a Justiça que os contemporâneos lhe negaram em vida. Do seu espólio e do acervo de documentos emergirá o Homem, modesto e simples, estudioso e reflexivo, que planeava com detalhe e agia com determinação e coragem, indiferente a políticas mas sempre atento e pronto a poder servir Portugal.
Foi assim quanto Soldado, Estadista e Governante.
Na Guerra, como General Comandante da Zona de Intervenção do Leste de Angola, foi já reconhecidamente admirado por aqueles que na circunstância eram o Inimigo, como o grande vencedor que foi muito além da sua Missão, abrindo escolas, hospitais, pontes e estradas, que garantiram às populações o desenvolvimento negado em séculos de colonização: o derradeiro General vencedor!
O Senhor General Bethencourt Rodrigues, "COMANDO" Honorário, foi agraciado ao longo da sua carreira militar com a Medalha de Ouro de Valor Militar, com a Medalha de Ouro de Serviços Distintos com Palma, e com a Grã-Cruz da Medalha de Mérito Militar.
Clarins, toquem a SILÊNCIO.
Morreu hoje um SOLDADO de Portugal !
Paz à sua alma.

Joaquim Mexia Alves disse...

Meu caro amigo

Uma homenagem merecidíssima a uma grande homem, um brilhante militar, um Português impoluto, digno, que nos faz pensar melhor de um país que tais filhos tem.

Infelizmente o mesmo país que tem tais filhos, é padrasto, e deles se esquece hoje em dia.

O Gen. Bethencourt Rodrigues deve a sua carreira à sua competência, honestidade e dignidade de grande Português que foi e é.

Tive a honra de ainda estar na Guiné durante três meses sob o superior comando do General Betencourt Rodrigues a quem, contigo, presto a minha homenagem.

Um abraço amigo do
Joaquim Mexia Alves

Abreu dos Santos (senior) disse...

Caro Brandão Ferreira,

Faço minhas, as suas palavras:

«Eu perdi um exemplo e um amigo.
Guardarei, porém, um orgulho: o de poder dizer que o conheci.
Foi das melhores coisas que me aconteceram na vida.
Vai fazer-me muita falta.»

Santos Oliveira disse...

Destaco que:
"...Era um português inteiro e, num país de tricas e azedumes constantes, gozava do raro privilégio ao respeito geral. De facto nunca ouvi “dizer mal” do general em qualquer ambiente. BR nunca prejudicou o seu país, ilustrou-o, e nunca manchou a Honra da Instituição Militar..."

Logo, foi o Homem certo para o lugar desgastado e fragilizado pelo seu antecessor e, sobretudo, pela infiltração nos Quadros mal formados, de ideias anti patrióticas , que pautaram os derradeiros anos da Guerra.
Isto acabaria com a Dignidade dos Homens, mas não com a Dignidade do HOMEM.

Que haja um Toque de Silêncio e Paz á sua Alma.
Viva Portugal e os Portugueses que o sabem Honrar.

Anónimo disse...

«Que haja um Toque de Silêncio e Paz á sua Alma.
Viva Portugal e os Portugueses que o sabem Honrar.»
Fernando Pizarro Bravo

Marcos Pinho de Escobar disse...

Bela evocação de um Grande. Neste fim de Pátria, choremos, pois, este Morto, pois os vivos o não merecem.
Respeitosos cumprimentos.

Anónimo disse...

é bom saber das coisas pelos amigos.Já tinha ouvido falar mas não conhecendo fico grato por ser um grande homem.
Orlando Cordeiro

Anónimo disse...

Dez de 1962 ou Jan de 1963
Apenas me lembro, por que nunca lidei com ele, da generalizada "auréola" que ele tinha entre todos os que com ele contactavam mais de perto.
No que me diz respeito,lembro-me de o maj silva carvalho (chefe da 3ª)me chamar e dizer: o n/ CEM disse-me que apesar da sua especialização não está à altura do desempenho das funções de oficial de ligação à Força Aérea enquanto não tiver alguma permanência no terreno para tomar conhecimento dos problemas àquele nível, bem como a participação nalgumas operações no terreno. Foi assim que vivi uma semana no Comando do Sector D (Quibaxe), uns 10 dias na sede do Bat. 325 (Quicabo - aqui conheci o cap.Pires Veloso que, sendo oficial de reabastecimentos, era o verdadeiro motor das operações, quantas vezes acompanhando os grupos de combate em operações) e cerca de uns 15 dias na Comp. 187 (Vista Alegre) comandada pelo cap Artur Fernandes Baptista, a meu ver um expert na exploração das informações obtidas durante as operações e/ou no contacto com o pessoal apresentado que vivia numa sanzala pesto das instalações da compª. Ele veio a ser CEM do Otelo, no post 25.
Feito o relatório da deslocação, onde dei especial relevo à recolha e exploração das informações, sei que o Ten . Coronel B. Rodrigues (CEM) gostou francamente (assim mo referiu o Maj Silva Carvalho)
Iniciei o desempenho de funções já com algum à vontade pois, quanto mais não seja, estava sensibilizado para entender o que diziam e faziam terra e ar. Comecei a fazer briefings na Base 9(Major Costa Gomes, Major Brito, Cap. Roque, cap Proença, cap Andringa, major Sachetti...) e, junto do Comando da 2ª Região Aérea,(Cor. Diogo Neto, Cor Joaquim Negrão, major Borba da Silva, T.C. Silva Cardoso, Cor Soares de Moura, Cap. Paula Vicente, Maj Queiroz... olhando (conjuntamente com o Cap? da F.Aérea) pelos transportes feitos pela FAV (Força Aérea de Voluntários) que fazia grande parte da distribuíção de correio particular pelo Norte, naquela altura o teatro de operações.
Cada vez mais à vontade comecei a, durante 2 ou 3 dias, dar formação (conjuntamente com o piloto do Dornier destacado) de observação aérea, a vários cmdts e of. de operações de alguns dos batalhões recém chegados. (tenha-se em conta que durante 1963 muitos dos oficiais mais antigos nnca tinham ido a África nem se tinham envolvido em operações.
E porque já tinha adquirido experiência fui mandado várias vezes como delegado do QG acompanhar os paraquedistas em operações. Como escrevia razoávelmente bem alguns deles tiveram boa aceitação. Lembro-me de ter acompanhado/participado na Operação Arara Negra lançada a partir do Toto, onde actuaram pela primeira vez os Alloutte III e do relatório feito que foi talvez o melhor que fiz durante a comissão.
Foi nesta operação que o Ten.Cor. Silva Cardoso, a pilotar o Dornier - com o Ten Cor Alcino Ribeiro (cmdt dos Paraquedistas), eu (delegado do exército) e um jóvem alferes (piloto de helicópteros), Alvarenga, que veio a ser Chefe do Estado Maior general das Forças Armadas - já proximo da pista levou um tiro na coxa que fez um buracão, pois a bala deformou-se por, antes, ter furado a fuselagem.
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Tive muita sorte: Conheci muito boa gente com espírito de missão, senti-me útil, tive horizontes culturais, vivi em bons ambientes,apanhei um ou outro susto sendo o maior o que acabei de mencionar, o terreno/flora lindo, etc.

E isto tudo a propósito do Gen. Bethencourt Rodrigues . A orientação que deu para a minha integração (adaptação à situação concreta que se vivia) é demonstrativa da sua preocupação com o rebatimento para a prática de coisas que podem esta muito correctas no papel mas que falham na aplicação.
Claro que dizer isto, e da maneira como o faço, pode ser considerado um exagero. Não digo que não, mas que foi um sintoma da sua preocupação com a passagem à prática (realidade) e não com a fantasia, parece-me indesmentível.
É a minha recordação e opinião.

José Pereira

Nuno Filipe disse...

Descanse em paz General, a Pátria não o esquecerá.