sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O CAOS NO VATICANO?




O CAOS NO VATICANO?
01/09/16

“No fim, o meu imaculado coração triunfará”.

Nossa Senhora, Fátima, 1917.


Definamos “caos”: a ausência ou desintegração de qualquer ordem.
Porém, segundo correntes tidas como progressistas, revolucionárias ou relativistas, o conceito terá evoluído para a coexistência igualitária de opostos.
Este igualitarismo tenderá para o absoluto.
Não parece que estejamos, em termos do que se passa no Vaticano, num cenário como o definido no primeiro parágrafo. Pelo menos para já.
Mas já quanto à definição mais avançada, as coisas não são claras e deixam as maiores dúvidas.
Tudo começou com a renúncia do Papa Bento XVI, em 11 de Fevereiro de 2013. Até hoje não é nada líquido a, ou as razões, porque o fez.
Não quero com isto dizer que não fosse lícito fazê-lo e o direito canónico é bem explícito sobre isso.
Mas alegar-se a idade e razões de saúde, não parece convincente. Mesmo tendo em conta ou, sobretudo tendo em conta, o exemplo dado pelo seu antecessor, a quem as entidades competentes contemporâneas, se apressaram a elevar aos altares.
Morrer no seu posto é o destino natural dos Reis e por maioria de razão, o dos Papas.
E, se de alguma forma, o Papa foi coagido a tomar tal decisão – sobre o que sopraram rumores – então tal decisão terá que ser tida como ilegítima.
Passados três anos, a boa aparência que o anterior sucessor de Pedro denota, quando aparece nas pantalhas e o facto de estar a ultimar um novo livro, fazem parecer as alegadas razões de saúde, algo longínquas…
Sejam, porém, quais foram as razões que levaram Bento XVI a renunciar, o que se constata é que tal se tornou um facto consumado (“consumatum est”).
Assim sendo, o que seria natural, legítimo e, até, legal, seria que o Papa resignatário passasse novamente a Cardeal Ratzinger, deixasse de vestir de branco e de ser tratado pelo nome papal e apelidado de “Sua Santidade”, ou dê bênçãos apostólicas a quem lhe escreve. E não tivesse passado pela cabeça de ninguém, criar a figura de “Papa Emérito” sobre a qual não existe qualquer tradição na Igreja, nem doutrina que o suporte.
Tal evitaria qualquer confusão sobre a possível existência de dois Papas – o que o aparecimento público do Papa Francisco e do Papa Emérito Bento XVI, juntos, apenas reforça – pondo em causa o princípio fundamental da hierarquia e do magistério da Igreja.
O que leva a pensar que existem “de facto” dois Papas, um que actua como Papa sendo o outro um Papa orante, que não teria renunciado a ser Papa, mas apenas ao seu exercício.
Já bastam as épocas em que houve cismas com mais do que um Papa a reivindicar a legitimidade e o trágico que tudo isso representou.
Mas como tudo isto não fosse já suficientemente grave e estranho, o Arcebispo alemão Georg Gänswein – que é, pasme-se, o Secretário pessoal do Papa Emérito, acumulando com o cargo oficial de Perfeito da Casa Pontifícia, para cujo cargo foi designado em 7/12/12, e confirmado no mesmo, pelo Papa Francisco [1]- numa palestra pública, em 20 de Maio passado, em Roma, afirmou claramente, sem o afirmar, que havia dois Papas!...
Disse ele nomeadamente: “que os Papas Bento e Francisco não são dois Papas em competição um com o outro, mas representam um “expanded Petrine Office” com um membro activo e outro contemplativo. O Arcebispo acrescentou que Bento XVI não abandonou o Papado como o Papa Celestino V, no século XIII, mas pensou continuar o seu ofício de Pedro numa maneira mais apropriada dada a sua fragilidade”. E ainda que “desde 11/2/13, o ministério papal não é o mesmo como antes”; “é e continua a ser o fundamento da Igreja Católica”; “e, sem embargo, é um fundamento que Bento XVI transformou profunda e duradouramente, pelo seu excepcional pontificado”.
As declarações foram depois “ratificadas”…
Mas será que o Arcebispo pode falar pelos dois Papas?[2]
Ora esta situação configura uma confusão enorme, a coexistência dos opostos onde o grande mal do mundo é justamente considerar-se a distinção, diferenciação e discriminação das coisas e dos homens. O tal caos…
É a noção instilada nos laboratórios da revolução social, sobre a “teoria do caos”, que defende que a ordem pode advir da desordem e que, concomitantemente, a ordem pode incluir a desordem.
Deste modo para os mais finos revolucionários o caos consistirá na coexistência dos opostos que supostamente existiriam no primitivo magma, uma diamétrica e constante violação do princípio da não contradição.
Tudo se passando numa altura – embora tal seja verdade em todos as épocas – em que a Igreja precisa desesperadamente de uma liderança forte, inequívoca e esclarecedora.
Oxalá a profecia de Malaquias não se cumpra tão cedo…[3]
Mas até para isso, a Nação dos Portugueses, a Terra de Santa Maria, tem de estar preparada.
As antigas e veneráveis Ordens Militares de Cristo, Santiago e Avis, têm de deixar, urgentemente, de serem apenas honoríficas.




                                                                                                João José Brandão Ferreira
                                                                                                     Oficial Piloto Aviador


[1] A principal função deste cargo é o de organizar as audiências, tanto públicas com privadas, de Sua Santidade e tratar de todo a logística das cerimónias e viagens do papa em Roma e toda a Itália.
[2] Não deixa de ser curioso notar que o “motto ”escolhido por Ganswein é “ dar testemunho da verdade” (“Testimonium perhibere veritati”).
[3] Arcebispo irlandês do século XII, que deu a entender que o 112º Papa (o actual Papa Francisco) seria o último Papa (com o nome de “Petrus Romanus”) e veria a destruição de Roma.

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