domingo, 10 de maio de 2015

O PADRE FEYTOR PINTO E A HISTÓRIA DA IGREJA PORTUGUESA NOS ÚLTIMOS 60 ANOS

Numa interessante “tertúlia” promovida pelo Dr. Ribeiro e Castro e a Livraria Ferin, coube a vez ao Padre Feytor Pinto de, no passado dia 27 de Abril, dissertar sobre o tema em título.
 
É muito agradável ouvir o padre Feytor Pinto pelos dotes de oratória que possui e pelos conhecimentos e fio de meada discursiva, claro e pontuado que exibe.
 
Porém (há sempre um “porém” qualquer, à nossa espera), a dissertação sintética, como não poderia deixar de ser, aparenta pautar-se pelo “política e socialmente correcto” e dominante e aqui é que se torna necessário fazer alguns reparos e tecer algumas considerações que parecem pertinentes para uma melhor compreensão do que verdadeiramente se passou.
 
O que era de todo impossível lucubrar no período de debate.
 
À laia de introdução o Padre Feytor Pinto (F.P.) deixou no ar a ideia de que a Igreja Portuguesa tinha, a partir do consulado do Professor Salazar, ficado subordinada ao Estado, dando como exemplo do que afirmava, a Concordata de 1940 e dentro desta, o facto da nomeação dos bispos carecerem de anuência governamental.
 
O Padre FP cai aqui em várias incorreções.
 

Em primeiro lugar “esqueceu-se” de que Salazar após tomar posse com Presidente do Conselho de Ministros, se reuniu com o já Cardeal Cerejeira e, sem embargo da grande amizade e admiração mútua, que vinha dos tempos da Universidade de Coimbra, tomou a iniciativa de separar claramente as águas: a Deus o que é de Deus e a César o que é de César [1]. Princípio que, creio, sobreviveu à morte de ambos e se mantém até hoje.
 
Depois porque a Concordata de 1940 (a que está associado o Acordo Missionário) é um documento notável, que foi dura e longamente negociado entre o Governo Português e a Santa Sé – ou seja, representa uma peça de Direito Internacional, entre dois Estados e que ultrapassa largamente o âmbito religioso.
 
E não se entende a admiração do padre FP no que toca à nomeação de bispos, já se terá esquecido que o Beneplácito Régio foi imposto pelo Rei D. Pedro I e apenas abolido ao tempo de D. João II, sem embargo do cuidado sempre posto neste âmbito, o que não evitou a existência de inúmeros conflitos desde então?
 
Certamente que o facto de 19 dos 34 reis de Portugal terem sido excomungados por Papas, não lhe é desconhecido. Só para citar este exemplo.
 
Mas talvez o Senhor Padre prefira o que aconteceu à Igreja após 1820 e que veio a culminar no terramoto que foi a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, só tenuemente mitigado a partir da Regeneração de 1851 (e da débacle que tal causou em todo o ultramar português); para já não falar nas perseguições, humilhações, violências, roubos e depredações inomináveis, ocorridas na I República, relativamente à Igreja Católica (e só a esta).
 
Talvez preferisse o modo como os bispos eram então “nomeados”…
 
A Concordata de 1940 veio pois, colocar ordem no caos e tensões existentes nas relações entre a Igreja e o Estado Português, entre este e a Santa Sé e, também, na inserção social da Igreja na Nação Portuguesa, os quais remontavam à implementação do Liberalismo em Portugal.
 
Onde, obviamente pontuou a Maçonaria sobre cuja acção o Padre Feytor Pinto, convenientemente, aos costumes disse nada.
 
Ou talvez, ainda, o Senhor Padre prefira a actual Concordata (de 18/5/2004) a qual, onze anos depois de assinada, ainda não está completamente regulamentada.
 
Matéria sobre a qual a Conferência Episcopal pouco fala, mesmo quando o Governo manda retirar os crucifixos dos edifícios públicos, curiosamente no dia seguinte, ao sucesso da procissão da imagem da Nossa Senhora de Fátima pelas ruas de Lisboa, em 12 de Novembro de 2005, que já não se realizava fazia décadas.
 
Deste modo, Padre Feytor Pinto, a mim parece-me que o período que durou o Estado Novo foi aquele em que, em toda a nossa História, houve maior equilíbrio e igualdade, nas relações entre o Estado e a Igreja em Portugal!
 
A História dos 60 anos da Igreja (a partir de 1954, ano anterior à ordenação de F.P. como Padre) contada pelo orador aparece como uma história de oposição ao Estado Novo e depois (moderadamente) contra os excessos do PREC, e coincide, ou resume-se, àquilo que os chamados “católicos progressistas” (cuja lista parcial, realçou nominalmente, no fim) fizeram ou intentaram fazer.
 
Tudo o resto é uma espécie de buraco negro…
 
Para o efeito realçou:
·         A Acção Católica (que o governo não geria);
·         O Escutismo, presume-se que católico (que o governo não via com bons olhos, por eventual concorrência com a Mocidade Portuguesa, segundo disse…);
·         A escolha dos alunos enviados para o Colégio Português em Roma;
·         O Congresso dos Organismos Operários, em 1955;
·         A Carta do Bispo do Porto, em 1958;
·         O Encontro da Juventude Católica, em 1963 (liderado por João Salgueiro);
·         A acção dos Bispos D. Sebastião de Resende, na Beira e D. Francisco Rendeiro, no Algarve;
·         O Concílio Vaticano II, apresentado como alfa e ómega de tudo;
·         A Acção do Papa Paulo VI;
·         A figura do Cardeal D. António Ribeiro.
 
Sobre o Cardeal Cerejeira, restantes bispos, Ordens Religiosas e restante povo de Deus cuja vivência decorreu, tanto na Metrópole como no Ultramar, fora das preocupações explicitadas, nem uma palavra.
 
Minto, relativamente ao Cardeal que exerceu o seu múnus durante 52 anos, referiu a sua benignidade relativamente ao modo como se deslocava cedo (sem dar nas vistas), a tomar o pequeno-almoço com o Padre Felicidade Alves que, na paróquia de Belém, invectivava tudo e todos (acrescento eu).
 

Padre que se despadrou e, como vários outros, apesar de tudo poucos, que se comportava como um comunistóide de sotaina e que o bom do Cerejeira (um fraco disciplinador no dizer de Salazar), não soube ou quis, meter na ordem, em tempo.
 
Quanto ao Ultramar apenas o subentendeu quando apelidou de “colonial” a guerra que travámos em 14 anos (sem contar com a Índia), em termos justos de legítima defesa, aliás como prescrito no tão incensado “Vaticano II”, na sua encíclica “Gaudiam et Spes”.
 
O Padre FP está enganado sobre o que fala, pois se assim não fosse, não teria qualquer dificuldade em bem aconselhar os jovens que disse virem ter consigo, queixando-se de não quererem ir para a guerra…
 
A defesa da figura controversa do Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes, também não parece muito curial.
 
Que se saiba o prelado não gozava sequer de grande apoio na Conferência Episcopal e com a sua intervenção veio ferir a tal separação de águas entre o que pertencia a Deus e a César. Mesmo assim foi preciso uma gota de água para o “expulsar”, nunca tendo sido incomodado de outra qualquer forma: o facto de ter tornado público uma carta de crítica áspera, que tinha enviado ao Presidente do Conselho.[2]
 
Não foi o único bispo a exilar-se ao longo da História, que o diga, por exemplo, o Cardeal Alpedrinha [3]. Como diria o outro, é a vida.
 
Marcello Caetano, numa acção algo filantrópica de reconciliação, resolveu autorizar o regresso daquele, ao mesmo tempo que fez outros gestos semelhantes. Parece que, no fim, se arrependeu de tudo.
 
Consta ainda que D. António teve sete secretários pessoais. Cinco acabaram por o deixar e só dois o seguiram: os, mais tarde, Bispo de Setúbal, D. Manuel conhecido pelo “Bispo Vermelho”, a que se reconhece coragem e acção pastoral e social relevante; e o Bispo das Forças Armadas e Segurança, D. Januário, sobre quem economizo palavras, nada dizendo.
 
Certamente que a acção de todos não levou em conta a frase assassina de Salazar sobre o badalado antigo Bispo da Invicta, “tinha demasiada cultura para a inteligência que possuía”…
 
Sobre a acção dos Bispos de Nampula e da Beira, referidos, certamente fizeram aquilo que a sua consciência lhes ditava, opondo-se à guerra, mesmo sabendo o que isso aproveitava aos inimigos de Portugal.[4]
 
Fica sempre bem, aliás, a um ministro de Cristo, condenar as guerras e apelar à Paz. Mas que alternativas davam S. Excelências Reverendíssimas para acabar com a guerra? Nunca se soube exactamente o que propunham, embora todos soubessem o que queriam. Mas seria isso justo e adequado?
 
Dos cerca de 500 padres e missionários existentes na altura em Moçambique, apenas cerca de 50 seguiam as ideias daqueles prelados, e muitos eram estrangeiros. Nunca se ouviu também a sua voz condenar os latrocínios feitos pela Frelimo; tão pouco as barbaridades cometidas após a independência do território.
 
Mas entende-se que estes “pormenores” tenham passado despercebidos ao Padre FP.
 
O mesmo parece ter acontecido ao Papa Paulo VI que, esqueceu-se do título de Nação Fidelíssima, outorgado pelos seus antecessores aos portugueses, resolveu pautar a sua actuação pela dos inimigos de Portugal. Foi triste e foi lamentável.
 
Mas o Padre FP mostrou-se algo indignado por a emissão da RTP ter sido cortada quando o então Padre António Ribeiro, deu a notícia de que o Papa Paulo VI tinha visitado a União Indiana (Bombaim), em 30/11/1964.
 
Lembra-se que desde 1950 que estávamos de relações cortadas com aquele país, que este nos fizera um conjunto de malfeitorias despudoradas, durante 14 anos e cometera uma escabrosa agressão militar sobre o Estado da Índia Portuguesa, em 1961, integrando-o á força no seu território, e o Sr. Padre FP acha que se deveria fazer o quê?
 
A seguir o Sumo Pontífice recebe no Vaticano os chefes dos Movimentos Terroristas (há quem lhes chamasse de “Libertação”) que nos faziam guerrilha em Angola, Moçambique e Guiné (em 1/7/1970) e o Sr. Padre FP, quer que um qualquer governo que se preze fique contente e bata palmas?[5]

Já reparou que a vinda de Paulo VI a Fátima, em 13/5/1967, e esta ter decorrido sem qualquer incidente, se pode considerar um pequeno milagre?
 
A propósito, o dia Mundial da Paz, criado por Paulo VI e citado pelo Padre FP, já resolveu alguma coisa até hoje?[6]
 
Já a notável criação da Universidade Católica, decidida em 1968, não lhe mereceu qualquer encómio, a não ser o comentário de que levou 20 anos a realizar-se. Ficámos sem saber porquê.
 
O Padre FP passa depois a relatar os eventos do golpe de Estado de 25/4/74 e o que se lhe seguiu, referindo alguns dos sucessivos eventos dramáticos, com uma bonomia, como se o clima de agitação e de loucura que colocou o país à beira de uma guerra civil fosse uma espécie de piquenique colectivo com muitos cabeçudos, bombos, cavalhadas e folclore!
 
E chega ao ponto de elogiar várias vezes o Marechal Costa Gomes a quem referiu como sendo um “católico de comunhão” e ter tido um “papel de equilíbrio”.
 
Não sei se o papel de equilíbrio tem a ver com a alcunha de “rolha” ou se comungar liga bem com o nome de “Judas”, com que o crismaram enquanto aluno do Colégio Militar. Ou até, se ambos se compaginam com o facto de ter baixado, mais a mulher, ao Hospital Militar da Estrela, na véspera do golpe que depôs o regime vigente.
 
As orações da Capela do Rato tinham finalmente sido ouvidas, e não propriamente aquelas que apelavam á paz…[7]
 
Mas como não sabemos o que é que Costa Gomes fez pela Igreja e pelos Católicos, talvez um dia o Padre FP nos possa esclarecer. Ou se foi, até, da CIA, do KGB, ou dos dois…
 
Ou se apenas dava para tudo conforme a égide do momento.
 
Que deve ter sido um Grande Homem, deve: que diabo fizeram dele Marechal do Exército!
 
Enfim, nas suas palavras, o 25 de Novembro de 75 “trouxe alguns raios de esperança…”.
 
E a Igreja começou a reorganizar-se. Nela teve papel destacado o novo Cardeal D. António Ribeiro, como foi afirmado e eu corroboro, com um merecido título de “Príncipe da Igreja”.
 
Esta acção foi muito facilitada pela única asneira que o novo regime político em Portugal não cometeu: a de não perseguir ostensivamente a Igreja e os católicos, como o fizeram os filhos de 1820, 1834 e de 1910.
 
Até porque a Igreja ajudou a que uma ditadura comunista não se viesse a implantar em Portugal.
 
Sem embargo de o ataque continuar, hoje em dia, sobre formas dissimuladas e, por isso, mais perigosas.
 
Apesar das várias tentativas de reforço da acção da Igreja na Sociedade, aquela foi ultrapassada pela dinâmica desta e pela emergência de conceitos ideológicos e doutrinas que vão ao arrepio de tudo o que o Evangelho prescreve.
 
O laicismo ganhou terreno e outras religiões e seitas, também.
 

Os grandes órgãos de comunicação social são-lhe de um modo geral, hostis (como são com as FA e com tudo o que cheire a instituição).
 
A Igreja perdeu a batalha da televisão.
 
E perdeu duplamente: primeiro porque não conseguiu filhar a TVI; depois porque as três que existem no mercado engalfinham-se a ver quem consegue nivelar mais por baixo e em propagandear o império do relativismo moral, que é a peste viral do século XXI.
 
E que é mortal para a Igreja e para os homens.
 
O Padre FP, nada referiu sobre estes assuntos cruciais, aparentando ser um “optimista inveterado”.
 
Aliás, já tinha referido com alguma efusão expressiva, os anos 60 e 70, como “a época das revoluções todas”. Pois é, temos vindo a pagar caro, tanta “revolução”…
 
A Igreja tem que ter coragem para dar a cara em defesa do que acredita e não ter medo.
 
Nas últimas décadas tem optado pela discrição, estando a despertar há poucos anos por causa da crise financeira e económica, onde já tem créditos firmados no apoio social às populações mais carenciadas.
 
Não se defende suficientemente dos ataques e também tem tido pouco apoio dos leigos.
 
Mas há que ser muito mais afirmativa na divulgação da palavra de Deus; no combate ao Relativismo Moral; no apoio à vida; na defesa da família natural; e na dos cristãos perseguidos; no ataque e denúncia das taras sociais; no combate á corrupção, ao vício, às ideologias malsãs e ao Deus Mamom”.
 
E, já agora, na defesa da Pátria Portuguesa e da Portugalidade.
 
É que, sendo a Igreja Universal, convém não esquecer que, uma boa parte dela, é portuguesa.


[1] Logo após tomar posse como Chefe do Governo, em 5 de Julho de 1932, Salazar deslocou-se ao Paço do Campo de Sant’Ana e depois de formalmente desejar “ que o Estado e a Igreja tenham boas relações de colaboração”, acrescentou: “Manuel, a partir deste momento os nossos destinos separam-se completamente. Eu defendo os interesses de Portugal e do Estado, e os interesses da Igreja só contam para mim enquanto se conjugarem com aqueles, e apenas nesta medida. E o Estado é independente e soberano.”
Ver Franco Nogueira, Salazar, Vol. II, pág. 152.
[2] De facto o Bispo não foi expulso, mas ausentou-se do país na sequência do Governo ter impedido, na prática, que ele exercesse as suas funções na Diocese. A Santa Sé, não o destituiu do título, tendo nomeado um “Administrador Apostólico. Na sequência foi proibido o seu retorno a Portugal.
[3] Inimigo figadal de D. João II.
[4] O mais aguerrido nas atitudes era D. Sebastião de Resende, Bispo da Beira, cujo antagonismo terá começado com o Ministro do Ultramar, Raul Ventura, em Junho de 1957, por causa da criação do liceu local. Não consta, também, que o Senhor Bispo tivesse razão na contenda.
[5] E que não foram mais do que veículos dos diferentes imperialismos reinantes, nomeadamente americano e soviético…
[6] A não ser ter sido “usurpado” pela ONU, que também resolveu decretar um dia “internacional” da paz, agora a 21/9…
[7] Aliás, havia católicos tão “progressistas” que até albergaram, ao que se sabe, um conhecido bombista das Brigadas Revolucionárias, de seu nome Carlos Antunes, em 1973, na Casa de Retiro da Buraca…

1 comentário:

Anónimo disse...

Tenente Coronel Brandão Ferreira,
os meus cumprimentos,
a minha admiração,
eao