segunda-feira, 9 de março de 2015

A “DEMÊNCIA” DO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO

“De pequenino é que se torce o pepino”
Aforismo popular
 
Na terceira semana de Fevereiro de 2015 veio, á luz do dia, um relatório emanado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) – órgão consultivo do Ministério da Educação (ME), criado pelo Decreto – Lei 125/82, de 22/4, que pagamos com os nossos impostos – o qual argumenta recomendações sobre “chumbos” no ensino básico e secundário.
 
Não temos em carteira um conjunto de adjectivos suficientemente forte para execrar como deve, semelhante papiro.
 
É certo que a asneira é livre, mas tem de haver limites para tudo.
 
Por isso mesmo, sem qualquer espírito democrático, caridade cristã, tolerância ideológica ou outra – assumo – não vou ficar pela crítica ao documento, vou desancá-lo.
 
A barbaridade dos seus termos não me deixa alternativa: é isso, ou o meu equilíbrio psicossomático!
 
Assim percebem melhor porque escolhi o primeiro.
 
O documento, a fazer fé no que saiu nos OCS, defende que os chumbos, a que eufemisticamente apelidam de “retenção”, sai “demasiado caro ao Estado” (?!), pode provocar “problemas emocionais” e “não é eficaz”. Considera ainda ser uma “má solução”, que “não resolve as dificuldades dos alunos, baixa a auto - estima e aumenta a probabilidade de insucesso futuro”; que a “retenção sanciona, penaliza, não se reconhecendo o seu carácter pedagógico”.
 
E chega a afirmar que “potencia comportamentos indisciplinados, fruto de uma baixa auto - estima e desenquadramento em relação à turma de acolhimento, o que dificulta mais a aprendizagem”.
 
E estendem-se: “as taxas de retenção e desistência para cada ciclo são, não só elevadas, como denotam que os percursos escolares marcados pelas retenções iniciem em níveis educativos muito precoces e se vão acentuando à medida que avança a escolaridade” (o La Palisse não diria melhor…).
 
E termina recomendando a reavaliação da existência dos exames nacionais do 4º e 6º anos e repensadas as “implicações dos resultados finais no prosseguimento dos estudos”.
 
Há mais, mas o exposto já chega para ilustrar o despautério e a irresponsabilidade.
 
Existe, à cabeça, uma questão que estas luminárias não tocam: quando é que entendem que se deve começar a instruir os jovens (já que a educação se devia começar a dar em casa), isto é, a obrigá-los a aprender coisas versando a mudança de comportamentos e a seleccioná-los segundo as suas capacidades?
 
Ou será que defendem, que os conhecimentos, as técnicas e a adaptação ao meio, entram por osmose ou ficam ao critério da obra e graça do Espírito Santo?
 
Ou que devem passar todos independentemente do que aprenderem e demonstrem saber fazer?
 
Mas afinal para que é que há aulas?
 
Aquilo que os autores do documento defendem – incluindo o próprio Presidente do CNE que, creio, ter sido meu colega no Liceu (até este nome bonito, substituíram pelo horrível “escola secundária”) mas que não deve ter estudado pelos mesmos livros que eu – é, tão simplesmente, a promoção da irresponsabilidade, da mandriice, do “chico espertismo” e da mediocridade.
 
Despromove o mérito (como se já não bastasse a “cunha”) e troça de quem se aplica, ignorando a injustiça subjacente.
 
É o nivelar por baixo no seu esplendor e a perpetuação da mentira jacobina de que somos todos iguais, quando a natureza nos fez todos diferentes!
 
Não cabe aqui, revoltar-nos contra eventuais injustiças que de tal derivam, nem questionarmos o porquê de ser assim, pois até hoje ninguém, nenhuma religião ou escola filosófica, descobriu ou explicou porque os diferentes humanos nascem e existem nestas condições.
 
Temos apenas que encarar a realidade e conviver o melhor possível com ela.
 
Ora este “parecer” vai justamente em sentido contrário, quer torcer a natureza, justamente à custa daqueles ou da organização da sociedade, que poderiam atenuar os problemas existentes.
 
 
O relatório visando nos seus preparos, penso, uma reforma pedagógica positiva, apenas representa o opróbrio do mérito e um retrocesso civilizacional.
 
E o mais grave de tudo é que há pessoas que até acreditam naquilo que escrevem…
 
Fazer crer que o ensino tem que ser lúdico, que se pode ultrapassar obstáculos sem esforço e que toda a gente tem direito a tudo, independentemente das suas capacidades, ou do seu querer, é próprio de “adiantados mentais” que levitam a 30 cm do solo!
 
Estão a criar, isso sim, bandos de desenraizados em série e um peso morto para as famílias e a sociedade.
 
A realidade que entra pelos olhos dentro é a de que há, houve e haverá, um número considerável de seres humanos que devem muito à inteligência (até há escalas para a medir); que são afectados diferentemente por doenças, mal formações, etc., de que ninguém tem culpa, mas que vão afectar e condicionar toda a sua vida e a daqueles que existem à sua volta.
 
Para já não falar naquelas que por deformação de Carácter ou Personalidade, estão predispostas para a prática do mal.
 
Estas pessoas não devem ser discriminadas, devem ser ajudadas na medida em que a iniciativa privada ou estadual, gera os meios para melhorar o seu enquadramento na Sociedade.
 
Castigando-se, por evidente necessidade, quem incorre na lei ou ofende a Moral pública – que parece já não existir.
 
Mas isso não tem nada a ver com o que está subjacente à tal lucubração que aparenta, mais, enquadrar-se numa estratégia de subversão da comunidade.
 
Eu também fiquei “retido” um ano, e não foi por isso que fiquei com “problemas emocionais”, serviu-me de exemplo.
 
Quando, por ex., se escolhe a equipa de futebol que representa a escola, deixam-se ir todos os alunos que queiram, ou faz-se uma selecção? É que os excluídos podem ficar com baixa estima…
 
Diz o folheto que “chumbar”, não é “eficaz”. Mas não é eficaz para quem, ou o quê? E como se consegue essa tal eficácia? Passar toda a gente independentemente do que se aprende, é mais eficaz?
 
Será que um dia destes também vão propor que ninguém chumbe no exame de condução?
 
Para os incontáveis disparates que foram feitos desde a época de 1974/75, que começaram por uma ocupação selvagem de todas as estruturas do ME - e cujo saneamento está ainda longe de ter sido feito –; a indisciplina e falta de organização reinante (onde ressalta a tábua – rasa da hierarquia); a medíocre formação e selecção dos professores; a actividade mais do que duvidosa de sindicatos e associações de pais e de quem mexe os cordelinhos, na sombra; as constantes mudanças de “rumo”, em termos de matérias e de pedagogia e acabando na governação para a estatística (da UE e da demagogia eleitoral) e na transformação do ensino em negócio sem regras estritas, por tudo isto, dizia, penso até que o número de chumbos é extremamente baixo.
 
Mas sobre todo este conjunto de calamidades que já levam quatro décadas, os autores daquelas mal enxabidas linhas, aos costumes dizem nada!
 
Um ensino bom é um ensino exigente, em escolas bem construídas e funcionais, mas não luxuosas, em que o pessoal docente e discente aprende a usar e a gostar e se é responsabilizado pelo que de bem ou mal se passa.
 
É uma “Escola” em que há ordem (a ordem liberta mais do que oprime) onde os professores ensinam (e dão o exemplo!), os alunos estudam e os funcionários trabalham. E onde todos são avaliados.
 
E isto só se consegue com hierarquia, liderança e obediência, sem embargo de toda a gente poder (e dever) pensar e exprimir-se no âmbito adequado e com a civilidade inerente a pessoas bem - educadas.
 
Ninguém consegue estudar ou trabalhar no meio da desordem, da falta de regras, na falta de ética, que tem levado recorrentemente e numa extensão nunca aferida, a casos incríveis de violência, roubo, droga, abusos sexuais, taras diversas, desregramento de costumes, destruição de bens e todo um rol de malfeitores que devia encher de vergonha qualquer pessoa civilizada. Mas nada disto, pelos vistos, preocupa o CNE.
 
Eles estão é preocupados com os chumbos – que defendem serem caros (como se aferirá um “custo” destes?). A ignorância e a incompetência devem ser baratas…
 
Nós não precisamos de muitos licenciados; nós precisamos é de bons profissionais. Os maus são apenas areia na engrenagem, há que os encaminhar para onde possam ser úteis.
 
Alfabetizar significa conseguir que todos os jovens desde pequenos, aprendam a ler, a escrever e a contar. E isto já nem está ao alcance de todos.
 
Convinha em cima disto dar-lhes algumas noções de história, geografia, português, regras morais e cívicas. Era isto que a antiga 4ª classe garantia, e com grande qualidade, aos jovens portugueses.
 
Agora querem garantir o 12º ano a todos, mas a maioria deles (tirando mexer em maquinetas de vídeo games, “downloads da net”, enviar “SMS” e ouvir MP3), não está apta a passar um exame daquela época.
 
Espero, para terminar, que o Senhor Ministro dê ao documento uma função útil e terminal: a de servir de papel higiénico.

5 comentários:

Manuel Alves disse...

Creio que a maior riqueza do mundo são as pessoas. Um país que abdica do seu maior activo, sejam eles mais ou menos letrados, é uma país desgovernado e sem idéias.

Mobilizam-se toda uma sociedade em tempo de guerra, mas em tempo de paz ficamos a guerrear-nos uns aos outros com medo que um seja mais do que o outro.

Certa vez tive um sonho, havia um mar de gente e sobre esse mar de gente existiam meia dúzia de senhores engravatados, que simplesmente impediam as pessoas de escalar até de si. Acordei enquanto escalava sem oposição ao topo a partir de uma das extremidades daquele mar de gente.

É caricato falar-se de democracia e igualdade, quando as casas deste tabuleiro de monopólio já têm donos e os dados viciados.

Os primeiros cristãos amavam-se, era um por todos e todos por um; Como estamos longe de lá voltar.

Anónimo disse...

Tem toda a razão, meu Amigo! A ideia peregrina de que somos todos iguais foi, certamente, da autoria dos medíocres que quiseram subir para a categoria de bons e muito bons, A ideia de que somos todos inteligentes é da autoria dos burros. A ideia de que todos devemos passar na escola é dos cábulas. Os professores que apoiam os cábulas e os deixam passar são simplesmente incompetentes e estúpidos
Os que têm destruído Portugal são medíocres, burros e incompetentes. No meu tempo, que foi o do Estado Novo, admirávamos os melhores, não os invejávamos. E os políticos que nos governavam tinham uma noção quase perfeita de como se devia governar, promovendo os melhores, e escolhendo-se os melhores para as diferentes chefias do Estado.
Nesse tempo, os oposicionistas, os que clamavam pela "liberdade", eram, no geral, uma data de medíocres invejosos e gananciosos, que lutavam não por Portugal, mas pela sua fátua proeminência.
O grande mal de Portugal é a Inveja! Em russo, inveja diz-se "závisst'" e ódio diz-se nenávist'", duas palavras cognatas q
Joaquim Reis

Manuel Alves disse...

Sr. Anónimo permita-me discordar. A idéia de igualdade veio de Jesus Cristo que sendo Deus fez-se homem igual a nós.

Somos iguais, mas também diferentes. Na diferença podemos fortalecemo-nos ou enfraquecemo-nos, consoante a fraternidade ou o egoísmo.

A instituição militar a meu ver tem capacidade de fazer muito mais em prol da sociedade.

As guerras ganham-se muito antes de serem travadas e nós já estamos a perder esta.

Tendes homens capazes de muito mais! Tendes terras capazes de muito mais! Tendes idéia para muito mais! Sim é possível construir um Portugal muito melhor!

Não devem ser os audis, nem os grandes casarões vazios, nem as viagens turísticas que promovem e evidenciam a desigualdade, o objectivo de vida de uma pessoa; mas sim o céu.

Esta é só a minha opinião. Vale o que vale. Posso estar enganado, mas não.

Manuel Alves disse...

Os sábios procuram a sabedoria, os ignorantes o luxo.

A felicidade é um estado de espítito que requer um mínimo material.

A única solução que vislumbro é fazermos nós mesmos a sociedade que desejamos, nem que seja paralelamente a esta. De resto não vejo como uma sociedade cada vez mais envelhecida consiga fazer outra coisa senão colocar o dedo na ferida e esperar.

Sonhar é fácil, concretizar é difícil. Mas não perderei a esperança.

Quero ser útil, não quero viver a vida somente a enriquecer quem já é rico, dando a minha vida em troca do limiar da subsistência.
Somos chamados a muito mais!

Zita Paiva disse...

O problema é que mais uma vez os politicos incompetentes e manipuladores, pegam em verdades para justificar mentiras.
O ensino sem retenção existe funciona e é já considerado dos melhores do mundo.
Temos o exemplo da famosa escola da ponte em Portugal e o ensino na Finlandia- no entanto o nosso governo pega nessas realidades e distorce-as.
Pois esse método de não chumbar os alunos existe mas tem que ser aplicado com professores preparados para novos métodos de avaliação e de ensino.
O ensino é construtivo e cada aluno avança ao passo que a sua vontade e saber lhe permite. São as novas tecnologias da educação, mas o que o nosso governo quer, é aplicar a nova técnica dos não chumbos, ao velho e caquéctico método de ensino e de avaliação.
Nas novas metodologias, os alunos constroem um percurso onde acumulam o saber numa espécie de portefolio onde compilam e organizam cada matéria, quando erram são incentivados a melhorar e a corrigir, ou seja, o erro não é uma negativa, mas sim um novo desafio, aprender a corrigir e avançar.

Isto é apenas um resumo do que é o ensino sem chumbos fundamentado e eficaz, por isso o que se tenta fazer em Portugal é um erro grave, aplicar a avaliação sem chumbos sem o método adequado de ensino é uma hipocrisia, é prejudicar os bons alunos, desmotivar os esforçados e premiar os maus alunos e desleixados. Uma vergonha semelhante ás muitas que o governo comete, precisamente porque sabe que está a fazer tudo para criar um povo estúpido e burro incapaz de ser critico para com estas medidas dos nossos politicos.