sábado, 7 de junho de 2014

AS ELEIÇÕES, MARINHO PINTO E A REUNIÃO DA PENHA LONGA

O resultado das últimas eleições para o Parlamento Europeu, estiveram dentro dos resultados previsíveis face à conjuntura actual e ao lastro de 40 anos que as precedem.

A única relevância passa por ser apenas esta: a demonstração de um grau de maturidade mais elevado por parte da generalidade do eleitorado, apesar do desconhecimento aprofundado das matérias em causa, e da demagogia e desinformação infrene, que nos submerge.

É pena esta maturidade e tomada de consciência da realidade política e social, demorasse tanto tempo a tomar forma e pelos piores motivos.

Por um lado, tal deveu-se a que a grande maioria das pessoas não se preocupa, por razões diversas, com o “governo da cidade” e, também, por gostar que lhes mintam, ao contrário de serem confrontados com a verdade nua e crua – uma espécie de “mente-me, mas faz-me feliz”…

Pelos piores motivos, pela complacência generalizada com os motivos que levaram à actual crise – que é mais moral do que outra coisa qualquer – e só terem começado a despertar quando lhe foram ao bolso. Enfim, faz parte da natureza humana.

Deste modo as conclusões das eleições são fáceis de resumir: castigo dos partidos no governo, não tanto pela austeridade, mas mais pela ausência de uma estratégia integrada, erros e mentiras na comunicação, desentendimentos, falhas na execução e, sobretudo, pela tremenda falta de exemplo, que em boa verdade é extensiva a todos os órgãos de soberania e a toda a classe política.[1]

 Assim não levam ninguém atrás!

O principal partido da oposição, o PS, teve uma vitória de Pirro, ficando derrotado pela cisão que de imediato, ocorreu. O eleitorado castigava o governo, ao mesmo tempo que dava um cartão amarelo à oposição dizendo-lhe que a sua prestação como alternativa ficou abaixo dos mínimos. Para já não falar nas responsabilidades imensas que têm no passado recente.

O PS continua, sem embargo, a ser perspectivado como alternativa, dado o sistema político partidário estar bloqueado e … senil.

O PC aguenta-se pois o seu eleitorado é fiel e disciplinado. O PC é o único que sabe o que faz – não é por acaso que é um misto de organização militar e ordem religiosa – só que o que defendem provou ser um desastre em todos os campos mas, enfim, parece que continua a haver muitos discípulos de “S. Tomé”, que só acreditam quando virem…

É claro que quanto menos gente votar, maior percentagem têm.

O BE está em dissolução acelerada, não só por desorganização interna (isto de ter uma direcção bicéfala, por ex., é não perceber nada de chefia e liderança) como, principalmente, por representarem um equívoco. Em termos de doutrinação política são um desastre e socialmente comportam-se como … anti - sociais.

O aumento da abstenção acompanhou o aumento da votação nos pequenos partidos e nos votos brancos e nulos, e também representa uma atitude de protesto, sobretudo contra os partidos do “Sistema” e contra as falácias do actual “Regime”, que de democrático tem cada vez menos.

E um grande desprezo pela União Europeia.

Aproveitou-se ainda o facto, das eleições serem para o Parlamento Europeu, o que ninguém discutiu, dando uma maior liberdade aos eleitores para votarem de uma forma diferente do que possivelmente fariam nas autárquicas ou nas legislativas.

A razão é simples: 95% dos eleitores não sabe onde fica Estrasburgo, muito menos o que lá se passa. E ainda nem sequer intuíram no seu íntimo, que o Parlamento e o governo português, não manda já nada do que possa ser importante.

Quando perceberem já se pode ter atingido o ponto de não retorno…

Resta o fenómeno Marinho Pinto (MP), que não tem nada a ver com o Partido MPT, que todos desconhecem.

As pessoas não votaram no partido, mas sim em MP, que se habituaram a ver na televisão há mais de 10 anos.

MP tem a seu favor falar claro, grosso e de dizer o que lhe vai na alma e não tem, aparentemente, medo de afrontar poderes instituídos. Ou seja é um homem corajoso e politicamente incorrecto q.b..

Sai fora do desvio padrão, por isso foi premiado.

O facto de ir para longe também ajuda, pois não incomodará por cá muito (embora a ideia deva ser regressar logo que possível).

Já se calculava que iria ter uma boa votação, só não se sabia que seria tanto.

A questão que o futuro próximo resolverá, é o de saber se a sua posição se consolidará, ou será apenas um epifenómeno passageiro, como aconteceu com o PRD e o Dr. Fernando Nobre.

Todavia, houve duas frases que pretendo realçar: a primeira foi uma declaração do MPT – não pela boca de MP – na sua propaganda eleitoral, que considero a coisa mais importante que foi dita em toda a campanha (e nunca ouvida) e que reza algo como isto, “não apoiamos que se continue a produzir dinheiro a partir do nada”.

Ora esta frase é fundamental para percebermos a actual crise e outras do passado e o comportamento da Finança e dos governos (sobretudo) ocidentais. Este é um dos temas que seria primordial discutir e dilucidar. E de que ninguém fala…

Devia ser-lhe atribuído o prémio para a melhor frase das “Europeias 2014 e arredores”![2]

Do que já temos sérias dúvidas, diz respeito a uma declaração de MP, já no rescaldo das eleições, ao afirmar que “não há Democracia sem Partidos Políticos” verberando, não obstante, a actuação dos mesmos e apelando à sua mudança.

Infelizmente – e seria bom que estivesse enganado – MP está a apelar a um símbolo de impossibilidade.

Alguma vez, desde 1820 (que foi quando esta tragédia começou, por cá), houve algum Partido que jeito tivesse? Ou que fosse capaz de se regenerar? Ou sequer, que conseguisse emendar algumas práticas? Nem um e, MP, tem obrigação de saber isto.

Algum Partido alguma vez foi capaz de colocar o interesse do País acima dos seus interesses de campanário? Algum que conseguisse ultrapassar, ou limitar, o uso da baixa política, a intriga, a luta intestina, os ataques pessoais, o nepotismo, a corte de sicários, os sátrapas provinciais, a tentação pela “chapelada”, os sacos azuis e os negócios de influência?

Nem um Dr. MP e já lá vão 200 anos, e várias tentativas frustradas!

Diga-me, o País não se conseguiu governar sem Partidos Políticos durante 700 anos? Precisámos deles para alguma coisa?

Não tem a noção de que os Partidos Políticos representam a guerra civil permanente (nem sempre sem armas); que a campanha eleitoral sem fim, não permite que se governe; que o seu próprio nome (partido) não deixa nada “inteiro”?

Que não há coesão nacional e social que aguente? Que a lógica partidária, incontornável, permanente e imutável, é o de deitar abaixo?

Dir-me-á que não há alternativas, responderei que há, tem de haver e, ou, tem de se inventar. A Ciência Política não pode parar no tempo.

Direi mais: o único partido que pode e deve existir, é o Partido Português e esse já tem um nome, chama-se Portugal!

Os Partidos não são, como defende, essenciais à Democracia, eles têm sido, isso sim, os seus coveiros!

O essencial da Democracia é a representatividade, mas haverá alguém no País – tirando as cliques serventuárias – que se possa sentir representado por este leque partidário e esta lei eleitoral?

Creio, Dr. MP, que concordará comigo, se disser que um dos principais problemas do País – senão o principal - é a corrupção (em sentido alargado), até porque a tem denunciado.

 Ora sendo público e notório que a origem principal deste verdadeiro cancro moral, social e político, reside, aparentemente, nos Partidos Políticos – pela organização e prática seguida – e sabendo-se que a esmagadora maioria dos órgãos de soberania, empresas públicas, etc. (o sistema foi “blindado” nesse sentido), é ocupado pelos militantes desses mesmos Partidos, como imagina o Dr. MP que se possa resolver a situação?

Dito de outro modo, como será possível que eventuais corruptos e corruptores possam, eles mesmos, querer acabar com a corrupção?

A que se deve acrescentar serem possuidores de “legitimidade democrática”!

Não me faça sorrir.

*****

Sem embargo, a reunião marcada com antecedência, e que se realizou prestes, no dia seguinte aos resultados eleitorais europeus, na Penha Longa, deixa-me “tranquilo”.

Nesta reunião estiveram presentes a fina flor dos financeiros europeus, mais BCE e americanos (FMI), ou seja aqueles que tentam gerir o tal dinheiro que é produzido “a partir do nada”, significando aquele que não está sustentado em nenhuma riqueza existente; não é fruto do trabalho gerado pela Economia e não está regulado ou apoiado em nenhuma medida padrão, como era, por ex., o ouro.

Dinheiro, em que parte dele já nem sequer é consubstanciado em moeda, mas é apenas “digital”, fruto de transações fantasmas, apelidadas de “tóxicas”, que fazem parecer o Al Capone uma quarta figura de um grupo coral evangélico de uma zona bem habitada do Harlem!

Vão ver como vão ser tomadas medidas para acalmar as gentes, isto é, o bolso das gentes.

Sim, porque isto de ter subidas nos extremos do espectro político é mais difícil de controlar e pode trazer dissabores.

A coisa até é simples de fazer: agora que já passou o ponto mais baixo da crise e já se sugou a riqueza suficiente (nesta fase) aos países e às pessoas, já se pode abrir os cordões à bolsa, ou seja, facilitar o crédito e fazer alguns investimentos para poder haver maior circulação fiduciária e com isso melhorar a economia e o emprego acalmando, assim, um pouco as pessoas que começaram a sentir o logro em que têm caído e que o projecto federalista (e anti democrático) europeu favoreceu.

Em complemento vão ainda arranjar maneira de expulsar uma quantidade significativa de emigrantes e limitar a vinda descontrolada de mais, sob pena de passarmos a ter implosões e explosões de violência um pouco por todo o lado, no interior da maioria dos países europeus (Espanha, aqui ao lado, incluída), o que é uma realidade que, em Portugal, ainda não se tem, nem se faz por ter, uma pálida ideia.[3]

Inverte-se assim o ciclo da “expansão x recessão x expansão”, posto em marcha desde os alvores do século XIX, mas agravado desde que se desregulou o sistema financeiro nos EUA.

E põe-se um travão – até ver – ao aparente “plano” de acabar com as nações europeias e que passa pelo amalgamento entre os povos de todas elas e o seu cruzamento com grupos étnicos exteriores ao continente.

É capaz de valer a pena pensar um pouco nisto tudo, quanto mais não seja, nos intervalos do Mundial que se aproxima e do “massacre” mediático que originou.



[1] Aquilo do PM passar a viajar em classe económica nem chegou a fogo-fátuo…
[2] Não falaremos hoje dos resultados das eleições por essa Europa fora - esses sim, muito mais relevantes – por economia de espaço.
[3] A situação é insustentável, mas raros são ainda os políticos e os órgãos de comunicação social que dela falam. Na Alemanha e na Suíça, já se começaram a dar os primeiros passos. Em França ainda estão a mandar o barro á parede.

2 comentários:

Ricardo Amaral disse...

Sim senhor,muitas questões importantes(mesmo essenciais)que os tais partidos não querem nem podem discutir,e pior ainda é que não vemos gente em número suficiente para fazer o tal "partido" de Portugal.Ficamos sempre pelos diagnósticos(Já Eça os fazia de forma brilhante)e repetimos os erros(de regime para regime)sem que as tais almas clarividentes(que as há)ponham cobro a isto,e já as havia em 1974 mas foram ostracizados em nome da tal "revolução" que se queria "socialista.Quem é que tem a coragem(antes que caia tudo no abismo em nome de falácias como o euro e a "paz")de desmascarar isto e dizer que o rei(ou o presidente)vai nu??

Carlos Falcão disse...

Obrigado pelo excelente artigo.
Para compreender o papel dos partidos no actual sistema político, temos que recorrer aos conceitos de Estado Popular e Estado profundo ou Oculto. Estes Estados têm interesses antagónicos e, quando um prospera o outro definha. As instituições pertencem ao Estado popular (incluindo as F.A.) mas o papel dos partidos é retirar-lhes todo o conteúdo e vitalidade de modo a que fiquem inoperantes e ingovernáveis, permitindo assim ao Estado profundo ou Oculto tomar as decisões que realmente contam e lhe asseguram a continuidade do poder. O grande problema é que esse poder oculto é frequentemente exercido por pessoas que não são verdadeiros seres humanos, mas vampiros que se alimentam da energia vital da humanidade inconsciente até à sua completa exaustão.
Na verdade, não podemos servir dois senhores, não podemos servir Deus e mamon...