Este blogue apresenta os pensamentos, opiniões e contributos de um homem livre que ama a sua Pátria.
sábado, 29 de agosto de 2015
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
ATÉ ONDE CHEGA A CENSURA POLÍTICO-MILITAR
Recentemente um tenente general
da Força Aérea (FA), na situação de reforma, escreveu um artigo sobre um evento
de guerra ocorrido em 1969, no então teatro de operações da Guiné-Portuguesa.
O artigo foi enviado para a “Mais
Alto”, revista oficial da FA onde, aliás, o oficial em causa já escrevera
várias vezes.
Algum tempo depois o Director da
revista, oficial de igual patente, mas muito mais moderno, informou o putativo
autor de que o artigo não seria publicado.
A razão prendeu-se,
aparentemente, com o facto de, no artigo, se tecerem considerações críticas
sobre um país – a Suécia – supostamente amigo e aliado de Portugal.
Esta situação é recorrente, mas
atingiram-se patamares de paroxismos delirantes.
Todavia o autor em questão pode
considerar-se um privilegiado, pois tiveram a rara decência de o informar da
decisão – o que subentende, não qualquer deferência, mas o embaraço da situação
– o que representa um procedimento fora do comum, não só na “Mais Alto”, como
na generalidade das revistas militares e órgãos de comunicação social…
E eu sei do que falo.
Porque é que as coisas se passam
assim?
Certo dia, ainda a minha pessoa
usava os galões de capitão, fui chamado ao Chefe de Estado - Maior da FA, de
então - sem desfazer, uma excelente pessoa, oficial e combatente – que entendeu
dizer-me o que considerava os limites da liberdade de expressão dos militares e
dos parâmetros que balizavam a “Mais Alto”.
Eram quatro, a saber:
·
A revista não dizia mal de si mesma, isto é da
FA;
·
A revista não dizia mal dos outros Ramos;
·
A revista não dizia mal dos Orgãos de Soberania;
·
A revista não entrava em questões
político/partidárias.
Pareceram-me sensatas e equilibradas, na altura – e hoje
ainda parecem – estas quatro regras, embora a distinção entre “dizer mal” e
“criticar” não aparecesse distinguida e não seja fácil distingui-la.
Tal decorre, como já disse, do bom senso; da
responsabilidade oficial do Ramo, que é um órgão do Estado e dos limites à
liberdade de expressão dos militares, sobretudo os do activo, regulamentados
pelo “célebre” artigo 31 da Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas.
Durante alguns anos decorreram colóquios com periocidade
anual ou bianual, inicialmente promovidos pelo saudoso Brigadeiro Mendes Quintela,
cujo objectivo era debater e explicitar toda esta problemática e promover a
dignificação e importância da Imprensa Militar.
Se a memória não me atraiçoa, o último colóquio foi
organizado pela “velhinha” e decana Revista Militar, há uns 20 anos atrás…
De todo este esforço e das propostas saídas de todos estes
encontros, nada resultou, pois nunca colheu grandes (nem pequenas…) simpatias
ou acolhimento por parte das sucessivas chefias militares, muito menos do poder
político, leia-se Ministros da Defesa Nacional.
Estes, aliás, tudo têm feito para aperrear tudo aquilo que
é escrito e dito sobre as FA e a Defesa e Segurança Nacionais, permitindo-se o
despautério de acabar com a revista “Baluarte”, do CEMGFA e respectivo Gabinete
de Relações Públicas, reduzindo aqueles dos Ramos, na prática, a pouco mais do
que uma caixa de correio.
Mas enfim, cada um tem o que merece.
Nos anos 80, creio, um número da Revista Mais Alto foi
mandado recolher, pelo VCEMFA, depois de já estar em distribuição, porque
comportava dois artigos – um desta praça velha e outro do General Kaúlza de
Arriaga – que falavam da “Descolonização” e até já me aconteceu ver um artigo,
feito por altura e a propósito, do centenário da morte do grande Mouzinho de
Albuquerque, ser recusado pelo “Jornal do Exército”, alegando-se que o mesmo
jornal era distribuído em Moçambique e “eles” podiam não gostar…
Exemplos do que foi acontecendo ao longo da vida e se os
fosse contar todos ia faltar o papel!
Isto para já não falar na censura às pessoas, que não às
ideias.
Mas parece que só no regime anterior é que se fazia
censura…
Porém o escrito de hoje é sobre o artigo agora (mal)
recusado, intitulado “Um ataque de olhos azuis”.
Vejamos.
O artigo do nosso general, escrito em português escorreito,
conta um “ronco” obtido por meios da FA, na então Província da Guiné, em 1969,
contra o PAIGC e os …. Suecos.[1]
Ora se, já de si, uma vitória das forças portuguesas contra
a cáfila de insurrectos acoitados nos países limítrofes, inimigos de Portugal,
causa engulhos aos “enganados da vida” e ao maldito do politicamente correcto,
quanto mais agora criticar quem apoiava tão excelsos “libertadores de povos
oprimidos”!
Pois foi exactamente isso que o general/ autor – honra lhe
seja feita – descreveu no papel: uma operação exemplar contra um grupo
fortemente armado do PAIGC, que há luz do dia (o que nunca faziam) bombardeava
um pequeno quartel do nosso Exército, no extremo sul da Província, de uma outra
posição abandonada no ano anterior.
Os quatro pilotos de Fiat colocaram as bombas todas no alvo
(abençoados!) e escaqueiraram as forças inimigas.
Foi-se ver e havia corpos de pretos e brancos por todo o
lado. Investigado o mistério apurou-se tratar-se de uma operação em que o PAIGC
simulava ter tomado a antigo aquartelamento português e logo de seguida
flagelava o mais próximo, tudo a ser filmado pela televisão da Suécia, país que
durante toda a última campanha ultramarina, apoiou material e moralmente os
inimigos de Portugal em África.
Tudo isto sendo nosso parceiro na EFTA e noutras instâncias
internacionais.[2]
Aliás, os “bárbaros do norte” percebiam e percebem tanto de
África como de lagares de azeite…
O que, sem embargo, os não impediu de fazer tráfico de
escravos nos séculos XVIII e XIX, como o autor general explicitou…
E gostam tanto de pretinhos e outros coloridos, e têm tanto
jeito para lidar com eles, que desde que abriram uma delegação para a cooperação
na Guiné, anos após a independência, nunca conseguiram pôr nada a funcionar e
praticamente não se davam com ninguém nem saíam das instalações…
Tive ocasião de assistir enquanto por lá estive nos anos
90.
Ora uma metade do artigo sobre os tais de olhos azuis, que
o general Fernandes Nico descreve e faz considerações é, justamente sobre a
atitude dos governos suecos durante o tempo que durou o conflito, para com
Portugal, por sinal muito bem fundamentados.
E foram estes considerandos que incomodaram a chefia da FA
– não sabemos se o próprio ministro – ao ponto de vetarem a publicação do
artigo na Mais Alto.
Ora tal aparenta ser incompreensível e inaceitável.
Em primeiro lugar porque é tudo verdade – e muito ficou por
dizer; depois porque se reportam a factos que têm mais de 45 anos; que já são
História e nada existe de difamatório ou ofensivo.
Finalmente porque seja o PAIGC, o governo guineense (quando
existe), o governo sueco ou qualquer outro actor político, se coíbe de dizer o
que quer que seja sobre Portugal e os portugueses, sem terem o menor escrúpulo
pelos nossos sentimentos, quiçá pela verdade histórica.
Estou farto, por tudo isto e muito mais, de ver
comportamentos de compatriotas meus, com funções de responsabilidade, a
colocarem-se na posição de “quatro patas”, perante personalidades, governos, ou
entidades várias, que ainda têm que comer muito pãozinho antes de nos quererem
dar lições de moral seja sobre o que for.
Ganhem coragem, se forem capazes, e alguma vergonha na
cara.
Uma coisa, aliás, ajuda à outra.
[1] PAIGC – Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde.
[2]
EFTA – Associação Europeia de Comércio Livre.
domingo, 2 de agosto de 2015
HOMENAGEM ao MAJOR PIL. AV. ANTÓNIO LOBATO
NO CENTENÁRIO DA AVIAÇÃO MILITAR
“Chamei Manuel Gouveia em Tripoli e disse-lhe:
- Você sabe Gouveia, que vamos cruzar uma
região perigosíssima e o voo é longo, cerca de 1000 Km. Os perigos
multiplicam-se. Se formos obrigados a aterrar, a morte é certa: no deserto ou
morremos de forme senão encontrarmos ninguém, ou morremos decapitados se alguém
nos vir; no mar, tão deserto como o deserto, se procurarmos esse refúgio a
morte é certa, também. Se você quer vá para o Cairo num navio, nós o
esperaremos aí.
Gouveia olhou para mim zangado e um pouco
malcriadamente – porque não o direi? – respondeu-me apenas:
- O meu comandante parece que não me
conhece, eu sou do Porto, da terra que deu nome a Portugal. Se for preciso,
morrer, morre-se.”
Brito Pais
(extraído do relatório da viagem aérea Macau, em 1924)
A atleta Rosa Mota é figura destacada na
actual campanha contra o cancro de pele, causado pela excessiva exposição ao
astro-rei.
É uma boa ideia e faz bem.
Rosa Mota está na calha, certamente, para
ir para o Panteão Nacional.
Foi medalha de ouro na mais difícil
competição desportiva desde a invenção dos Jogos Olímpicos: a corrida da
Maratona.
Portou-se bem a nossa “Rosinha” e estou
certo que a maioria dos seus compatriotas a considerou uma heroína.
Não se lhe conhecem taras, nem consta
que alguma vez tenha feito algo que envergonhasse a nação dos
portugueses.
E se não se enganar a apostar em
eventuais candidaturas à Presidência da República terá direito – a avaliar por
exemplos recentes – a lugar em sarcófago de pedra, na antiga Igreja de Santa
Engrácia.
O que esperamos aconteça – Deus assim o
entenda – daqui a muitos anos.
É isto ser-se honesto, talvez a forma de
se ser herói todos os dias, o papel mais difícil de ser feito em
sociedade.
Um herói, pode sê-lo apenas por um acto
que, numa hora de bom e desprendido julgamento, coragem extrema, ou de uma
virtude excepcional, faça com que um ser humano pratique um acto ou acção, que
o distinga dos demais e que não está ao alcance da capacidade da maioria.
Alguns casos existem assim na sociedade
portuguesa e que não foram ainda reconhecidos como tal.
Entre eles destaca-se, seguramente, o
caso Major Piloto Aviador António Lourenço de Sousa Lobato, nascido em terras
do Minho, mais precisamente na Aldeia de Sante, freguesia de Paderne, concelho
de Melgaço, a 11 de Março de 1938.
É aqui que começa a fazer sentido o
título do escrito: é que António Lobato (AL) é Oficial Superior da Força Aérea,
na situação de reforma.
Que fez então este nosso concidadão de
tão notável que, não só merece uma homenagem nacional que nunca lhe foi feita,
mas também que a sua história deva ser contada recorrentemente, em todas as
escolas do país?
Resumidamente: 1 AL alistou-se na FA
em 1957 e fez parte do Curso de Pilotagem P3/57. Recebeu as suas asas em Junho
de 1959, e tinha o posto de Segundo-Sargento.
1 Ver livro de sua autoria “Liberdade ou
Evasão”, Erasmus, Amadora, 1995 – há demasiado tempo esgotado!
O outro avião despenhou-se e o piloto
morreu.
Partiu em missão de soberania para a
então Província da Guiné, em Julho de 1961, ainda a guerrilha não tinha tido
início.
Ajudou a FA a operar naquele território
a partir do… nada.
No dia 22 de Maio de 1963, após uma das
muitas missões em que já participara, no regresso à base, suspeitando que podia
ter sido atingido por fogo inimigo, pediu ao seu asa – piloto recém - chegado e
inexperiente – que passasse por baixo do seu T-6 para ver se detectava algo de
errado. O “asa” cometeu um erro na manobra, tendo chocado com o seu avião de
que resultou AL ter de efectuar uma aterragem forçada.
Após a aterragem foi preso por um grupo
de populares afectos ao PAIGC, que o entregou a uma força de guerrilheiros
chefiados por Nino Vieira que viria, mais tarde, a ser Presidente da
Guiné-Bissau, qualidade em que receberia AL em audiência.
AL sofreu maus tratos por parte dos
indígenas, mas foi bem tratado pela guerrilha – que viu nele um valioso troféu
de guerra e o levou para a Ex- Guiné Francesa.
Ia começar para AL um longo e doloroso
cativeiro, que duraria sete anos e meio, tendo sido resgatado na célebre
operação Mar Verde, comandada pelo extraordinário combatente que foi o
Comandante Alpoim Calvão, em 22/11/1970, juntamente com mais 25 portugueses,
que jaziam numa masmorra em Conacri.
Um feito que D. João de Castro não
desdenharia…
No entretanto AL mudou três vezes de
prisão, conheceu a “solitária”, fugiu e foi recapturado, três vezes, e passou por
um processo mental de sobrevivência que bem poderia ser estudado por um grupo
selecionado de psicólogos.
Nesta luta teve um apoio precioso da
família, sobretudo da sua jovem mulher – que esteve à sua altura – (tinham
casado há poucos meses antes de ter sido feito prisioneiro), que chegou a pedir
uma audiência ao Papa, visando a sua libertação.
No mesmo sentido, ainda está por fazer,
a história do que foi feito a nível do Estado Português – e foi bastante – para
o libertar.
Mas o mais notável em tudo o que se
passou, é que o Sargento António Lobato, manteve-se firme na sua qualidade de
militar e combatente da FA Portuguesa, nunca traiu o seu juramento para com a
Pátria, cumpriu sempre o Dever Militar, e, tentado várias vezes a trocar a
prisão, pela “liberdade”, num país de leste, mais tarde na Argélia (onde
pontificava a chamada Frente Patriótica de Libertação Nacional, de exilados
portugueses), sempre recusou.
Para a sua libertação tinha “apenas” que
redigir uma mensagem radiofónica em que declarava a sua oposição à guerra –
logo a justiça da luta do IN – e comprometer-se a nunca mais pegar em armas
contra a guerrilha.
Note-se que estas propostas chegaram a ser
feitas pelo líder do PAIGC Amílcar Cabral, que o visitou na prisão.
Um dia inquirido porque nunca quisera
aceitar o que lhe ofereciam, deu esta resposta extraordinária, por simples e
profunda e que diz tudo: “com que cara é que eu chegava ao largo da minha
aldeia?”.
Pois, caros leitores, é um homem desta
têmpera, que se manteve posteriormente sempre impoluto, de que no século
passado haverá, talvez, em todo o mundo, uma mão cheia de exemplos que se lhe
igualem, que a grande família portuguesa desconhece e o Terreiro do Paço nunca
reconheceu e homenageou.
É certo que a FA e o Governo da altura,
o reintegraram nas fileiras, pagaram-lhe todos os retroactivos e promoveram-no
por distinção a Tenente. A seguir e mediante legislação para o efeito criada,
passaram-no ao quadro permanente, na especialidade de piloto aviador.
Mas até hoje, nem no activo – onde nunca
se tentou tirar sequer partido em qualquer circunstância do valiosíssimo
exemplo, experiência e valor, do militar em questão – na reserva e reforma se
colocou este português dos quatro costados e pessoa de carácter, no lugar a que
por direito próprio merece ocupar.
E nós, os outros, também devemos ter
direito a justamente nos orgulharmos dele.
Ora a FA nunca se lembrou que tinha AL
entre um dos mais notáveis dos seus. Nem sequer o convida para o aniversário
anual, onde AL devia ter lugar de honra…
É claro que no actual regime sem norte,
nem valores dignos desse nome, enfermo de corrupção, em que nos habituámos
(mal) a viver, AL tem contra si, o facto de não ter sido desertor, traidor, tão
pouco gozar da fama de antifascista, senão certamente já teria sido cumulado
com várias “ordens da liberdade”, esgotado telejornais e entrevistas.
Mas, parece, que não foi isso que ele
aprendeu no largo da sua aldeia…
A Força Aérea ainda vai a tempo de
emendar a mão e colmatar uma injustiça, e promover uma homenagem ao Major
Lobato.
E tem uma oportunidade de ouro agora,
aproveitando as comemorações do centenário da aviação militar, que se iniciaram
a 14 de Maio do ano passado, mas que por estranho silêncio, ninguém sabe de
nada, nem o Estado Português se associou.
Parece até, que a própria FA tem
vergonha do evento!...
Atitude que desmerece a citação do
“grande” Tenente Manuel Gouveia e que, em boa verdade, sintetiza e
consubstancia a missão da Força Aérea: voar e lutar.
Já tarda e já basta.
Pelo António Lobato
“Acção, acção, acção, …..Aviação”!
(Início do “grito” da Força Aérea)sábado, 1 de agosto de 2015
ESTARÁ A SANTA SÉ NO BOM CAMINHO?
“Assim,
sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão,
chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas
populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os
marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários,
mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de
ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado: não
mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem
duvide disso não conhece a natureza humana.”
Mikhail
Bakunin (1814-1876)
Anarquista
russo do século XIX
Este
pontificado corre célere.
Célere
e algo trapalhão.
Depois
do pontificado de Bento XVI assertivo e de grande clareza e coerência
doutrinária; de tomadas de posição e decisões ponderadas e faseadas no tempo;
antecedido que foi de um Papa de enorme carisma, espírito de iniciativa,
corajoso e tenaz no bom combate; viajante incansável de peregrino e
evangelizador, como foi João Paulo II (o curtíssimo consulado de João Paulo I,
ficou envolto nas maiores dúvidas que o próprio “Espírito Santo”, não aclarou);
temos agora um comportamento algo errático e populista, com muitas afirmações
mal “mastigadas” ou impulsivas, do actual Papa Francisco em que a opinião
publicada tem posto grandes esperanças e elogios.
Sua
Santidade tem-se comportado talvez, com demasiada loquacidade e ri-se muito.
Mostrou
firmeza na questão da correcção, absolutamente necessária, dos problemas da
pedofilia no seio da Igreja (apesar de raros), mas – e não pretendo ser injusto
– muito do que já veio a público aparenta revelar tendência para relativizar Princípios.
Ora isto no seio de uma Instituição como a Igreja, que sendo servida por homens
se deve orientar pela imanência do imaterial e do Espírito, destrói-a e pode
levar a cismas.
Espera-se
prudência e muito cuidado com eventuais ambiguidades.
Um
problema existe, porém, e é de monta – e não tem nada de espiritual - que se
arrasta pelo menos desde meados do século XIX, e que nenhum Papa tem sabido,
querido ou podido resolver: o problema das finanças do Vaticano e das
entidades, sejam bancos ou outras, que dele têm tratado…
Sua
Santidade viaja por estes dias pela “sua” América do Sul de onde é natural – e
isso pode explicar muita coisa.
Acontece
que na visita à Bolívia (9/7/15) – esse estranho país que a geopolítica
espanhola criou, como estado “encravado”, no meio do continente sul - americano
– o Presidente daquele país que não esconde as suas convicções marxistas,
ofereceu ao Sumo Pontífice um crucifixo na forma de uma foice e martelo,
símbolo do comunismo internacionalista. Pondo de lado o mau gosto da oferta, o
gesto é, claramente, uma provocação e um desafio.
E
continua a ser uma provocação quando alguns vêm defender que o Comunismo, na
sua essência mais pura, se pode equiparar à doutrina de Cristo, que é a tolice
principal em que incorrem os chamados “católicos progressistas”…[1]
O
Papa, aparentemente, comeu e calou.
Os
serviços do Vaticano vieram na mecha dizer que desconheciam que tal iria
acontecer.
Bom,
mas se desconheciam, mais uma razão para ter havido uma reacção imediata,
porventura, o cancelamento da visita, pois o acto é de uma descortesia
intolerável. Mesmo para quem deve oferecer a outra face…[2]
Além
do mais nada disto abona nada a favor da Diplomacia do Vaticano que é “só” a
mais antiga e experiente em todo o mundo e cujo estricto cerimonial só deve ser
ultrapassado pela Monarquia Nipónica.
Se
a moda pega ainda veremos o Papa visitar a Coreia do Norte e ser presenteado
com um espectáculo num redondel (tipo coliseu) onde alguns dissidentes seriam
despedaçados por cães selvagens esfomeados…[3]
Mas
o Santo Padre – que, recordo, representa todos os católicos e onde estes se
devem rever – ficou e, usando ainda de uma humildade cristã sem limites,
entendeu pedir desculpa pelas atrocidades cometidas pela Igreja, durante a
“conquista da América”.
Confesso
que já me começo a sentir incomodado e enfadado com estes constantes pedidos de
desculpa por parte dos responsáveis da Igreja, com a agravante de nunca virem
acompanhados de um enquadramento das situações, por mínimo que seja.
Não
cai os parentes na lama a ninguém pedir desculpa quando há motivos para isso e
a Igreja, tem-nos seguramente, até porque os Santos alçados aos altares são uma
ínfima parte dos que se dizem ou disseram cristãos (que são de carne e osso). É
um acto de humildade e, até, de lucidez e, também, de querer construir o futuro
emendando os erros do passado.
Mas
quando tal empenho, se torna repetitivo, passa a entrar no campo do masoquismo
e em dar tiros nos pés.
Sobretudo
se tivermos em conta que a Igreja tem expiado – e não pouco – os seus pecados, e
o seu exemplo de contrição não conseguiram, até hoje, contagiar mais ninguém
com o seu “exemplo”.
Nunca
ouvimos o Presidente Evo Morales, Fidel Castro, a ex-terrorista que acampou no
Palácio do Planalto, em Brasília, por ex., ou qualquer líder comunista presente
ou passado, acabando no português Álvaro Cunhal, sua pandilha e descendentes –
fazer qualquer mea culpa pelos horrores cometidos em nome daquela ideologia
maldita que trucidou mais humanos em média por ano, do que todas as hordas de
Gengis Khan e de Tamerlão, juntos!
Nunca
me soou aos ouvidos quaisquer pedido de desculpa por parte de um líder
muçulmano pelas lutas fratricidas que espalham entre eles e vizinhos; nada
consta relativamente a luteranos, calvinistas e anglicanos, quanto às perseguições
e guerras civis que provocaram, ou ao tráfico de escravos em que foram exímios;
tão pouco nos chegou ao pavilhão auricular, qualquer remorso de judeus e
sionistas por terem, ao que se sabe, inventado o juro e a usura e terem desde
então, sujeito a humanidade à política da agiotagem e para poderem voltar ao
território que reivindicam no Médio Oriente, terem expulsado (e não só) uns
milhões de palestinianos.
Tão
pouco, alguém no mundo inteiro tem conhecimento de que a Maçonaria tenha
assumido algum passivo pelos atentados que semeou, das revoluções que fomentou
e dos monarcas que apeou, só para ficarmos por aqui.
Nem
sequer um único republicano que se diga herdeiro dos jacobinos, ciciou até ao
presente, qualquer remorso pelas cabeças que guilhotinou e afogou em terras e
rios de França, após a Revolução que – dizem – deu origem à Declaração
Universal dos Direitos do Homem, e que em poucos anos ultrapassou largamente as
vitimas das fogueiras da Inquisição, em três séculos!
Não,
só a Igreja Católica é que pede desculpa. Abençoada, ao menos, que seja por
isso!
E
relativamente à conquista da América, também gostaria de chamar a atenção do
Santo Padre e da Santa Sé – peço desculpa, mas o dogma da infalibilidade do
Papa aplica-se apenas a questões espirituais e de Fé – que não deve meter tudo
no mesmo saco.
Quero
referir-me aos portugueses.
A
Igreja portuguesa, os seus missionários e a generalidade dos “colonizadores”
portugueses nunca se dedicaram a exterminar os gentios, nem na América nem em
lado nenhum. Educavam-nos, misturaram-se com eles, integravam-nos e
assimilavam-nos à medida das probabilidades e o tempo permitia. Os missionários
portugueses catequizavam pelo dom da palavra, através do conhecimento das
respectivas culturas e não pela lei da força ou do chicote.
Tudo
tinha a cobertura superior da coroa portuguesa que nunca decretou leis ou
instruções iníquas. E nunca passou pela cabeça de ninguém meter indígenas em
reservas (como aconteceu por exemplo, nos EUA e no Canadá) e nunca se chegou à
vilania de distribuir coberturas com bacilos de doenças, aos índios, como
ocorreu com autoridades sitas em Washington. Também nunca os ouvi pedir
desculpa por isso.
Alguns
missionários portugueses no Brasil, Santo Padre, oriundos da mesma Companhia de
Jesus, onde professou, sofreram até agruras, com o governo local e até em Lisboa,
por quererem proteger e cuidar dos indígenas para além do que era o
entendimento oficial da altura.
Por
isto e por muito mais, não é justo colocar os portugueses e a sua Igreja, em
generalizações descuidadas, muito menos quando as mesmas podem ser tidas como
demagógicas.
Temos
Sua Santidade como pessoa de bem e bem - intencionada. Nem outra coisa se pode
pensar.
Mas
estou em crer que saberá – o Núncio Apostólico poderá confirmá-lo – que nós
aqui no canto mais ocidental da Europa temos um ditado que afirma estar o
inferno cheio de boas intenções…
E
temos ainda um outro, que reza não ser grande coisa “querer ser mais papista
que o Papa”.
E
com esta tirada me vou.
Para
o Purgatório.
[1] Conhecidos na gíria como
“peixinhos vermelhos em pia de água benta”…
[2] “Não resistirás àquele que
é iníquo; mas, a quem te esbofetear a face direita, oferece-lhe também a
outra”. Sermão do Monte, Mateus 5:39. E convém também, não distorcer o
significado da parábola…
[3] Estranha-se ainda aquela
ideia de pôr o Papa a mastigar coca. Convenhamos que não é a mesma coisa do dar
a provar, por hospitalidade, um pastel de nata….
terça-feira, 14 de julho de 2015
Subscrever:
Mensagens (Atom)
UMA CERIMÓNIA “PARA-MILITAR” ESTRAMBÓLICA
PARA VISUALIZAR CLIQUE AQUI! Em 2011 (há 15 anos) escrevi um artigo descrevendo o que se passava junto ao monumento dedicado ao ...
-
Quero, desde já, agradecer, penhorado, todas as mensagens de apoio recebidas. Bem hajam. Representam um sinal inequivoco de que ainda há ...
-
Helicóptero Kamov 32 Uma das primeiras intervenções do novel Ministro da Defesa (MDN), efectuada numa visita à Força Aérea (FA), foi a de...
-
Para quem possa estar interessado BF CONVITE PROGRAMA

