“De pequenino é que se torce o pepino”
Aforismo popular
Na terceira semana de Fevereiro
de 2015 veio, á luz do dia, um relatório emanado pelo Conselho Nacional de
Educação (CNE) – órgão consultivo do Ministério da Educação (ME), criado pelo
Decreto – Lei 125/82, de 22/4, que pagamos com os nossos impostos – o qual
argumenta recomendações sobre “chumbos” no ensino básico e secundário.
Não temos em carteira um conjunto
de adjectivos suficientemente forte para execrar como deve, semelhante papiro.
É certo que a asneira é livre,
mas tem de haver limites para tudo.
Por isso mesmo, sem qualquer
espírito democrático, caridade cristã, tolerância ideológica ou outra – assumo
– não vou ficar pela crítica ao documento, vou desancá-lo.
A barbaridade dos seus termos não
me deixa alternativa: é isso, ou o meu equilíbrio psicossomático!
Assim percebem melhor porque
escolhi o primeiro.
O documento, a fazer fé no que
saiu nos OCS, defende que os chumbos, a que eufemisticamente apelidam de
“retenção”, sai “demasiado caro ao Estado” (?!), pode provocar “problemas
emocionais” e “não é eficaz”. Considera ainda ser uma “má solução”, que “não
resolve as dificuldades dos alunos, baixa a auto - estima e aumenta a probabilidade
de insucesso futuro”; que a “retenção sanciona, penaliza, não se reconhecendo o
seu carácter pedagógico”.
E chega a afirmar que “potencia
comportamentos indisciplinados, fruto de uma baixa auto - estima e
desenquadramento em relação à turma de acolhimento, o que dificulta mais a
aprendizagem”.
E estendem-se: “as taxas de
retenção e desistência para cada ciclo são, não só elevadas, como denotam que
os percursos escolares marcados pelas retenções iniciem em níveis educativos
muito precoces e se vão acentuando à medida que avança a escolaridade” (o La
Palisse não diria melhor…).
E termina recomendando a
reavaliação da existência dos exames nacionais do 4º e 6º anos e repensadas as “implicações
dos resultados finais no prosseguimento dos estudos”.
Há mais, mas o exposto já chega
para ilustrar o despautério e a irresponsabilidade.
Existe, à cabeça, uma questão que
estas luminárias não tocam: quando é que entendem que se deve começar a
instruir os jovens (já que a educação se devia começar a dar em casa), isto é,
a obrigá-los a aprender coisas versando a mudança de comportamentos e a
seleccioná-los segundo as suas capacidades?
Ou será que defendem, que os
conhecimentos, as técnicas e a adaptação ao meio, entram por osmose ou ficam ao
critério da obra e graça do Espírito Santo?
Ou que devem passar todos
independentemente do que aprenderem e demonstrem saber fazer?
Mas afinal para que é que há
aulas?
Aquilo que os autores do
documento defendem – incluindo o próprio Presidente do CNE que, creio, ter sido
meu colega no Liceu (até este nome bonito, substituíram pelo horrível “escola
secundária”) mas que não deve ter estudado pelos mesmos livros que eu – é, tão
simplesmente, a promoção da irresponsabilidade, da mandriice, do “chico
espertismo” e da mediocridade.
Despromove o mérito (como se já
não bastasse a “cunha”) e troça de quem se aplica, ignorando a injustiça
subjacente.
É o nivelar por baixo no seu
esplendor e a perpetuação da mentira jacobina de que somos todos iguais, quando
a natureza nos fez todos diferentes!
Não cabe aqui, revoltar-nos contra
eventuais injustiças que de tal derivam, nem questionarmos o porquê de ser
assim, pois até hoje ninguém, nenhuma religião ou escola filosófica, descobriu
ou explicou porque os diferentes humanos nascem e existem nestas condições.
Temos apenas que encarar a
realidade e conviver o melhor possível com ela.
Ora este “parecer” vai justamente
em sentido contrário, quer torcer a natureza, justamente à custa daqueles ou da
organização da sociedade, que poderiam atenuar os problemas existentes.
O relatório visando nos seus
preparos, penso, uma reforma pedagógica positiva, apenas representa o opróbrio
do mérito e um retrocesso civilizacional.
E o mais grave de tudo é que há
pessoas que até acreditam naquilo que escrevem…
Fazer crer que o ensino tem que
ser lúdico, que se pode ultrapassar obstáculos sem esforço e que toda a gente
tem direito a tudo, independentemente das suas capacidades, ou do seu querer, é
próprio de “adiantados mentais” que levitam a 30 cm do solo!
Estão a criar, isso sim, bandos
de desenraizados em série e um peso morto para as famílias e a sociedade.
A realidade que entra pelos olhos
dentro é a de que há, houve e haverá, um número considerável de seres humanos
que devem muito à inteligência (até há escalas para a medir); que são afectados
diferentemente por doenças, mal formações, etc., de que ninguém tem culpa, mas
que vão afectar e condicionar toda a sua vida e a daqueles que existem à sua
volta.
Para já não falar naquelas que
por deformação de Carácter ou Personalidade, estão predispostas para a prática
do mal.
Estas pessoas não devem ser
discriminadas, devem ser ajudadas na medida em que a iniciativa privada ou
estadual, gera os meios para melhorar o seu enquadramento na Sociedade.
Castigando-se, por evidente
necessidade, quem incorre na lei ou ofende a Moral pública – que parece já não
existir.
Mas isso não tem nada a ver com o
que está subjacente à tal lucubração que aparenta, mais, enquadrar-se numa
estratégia de subversão da comunidade.
Eu também fiquei “retido” um ano,
e não foi por isso que fiquei com “problemas emocionais”, serviu-me de exemplo.
Quando, por ex., se escolhe a
equipa de futebol que representa a escola, deixam-se ir todos os alunos que
queiram, ou faz-se uma selecção? É que os excluídos podem ficar com baixa
estima…
Diz o folheto que “chumbar”, não
é “eficaz”. Mas não é eficaz para quem, ou o quê? E como se consegue essa tal
eficácia? Passar toda a gente independentemente do que se aprende, é mais
eficaz?
Será que um dia destes também vão
propor que ninguém chumbe no exame de condução?
Para os incontáveis disparates
que foram feitos desde a época de 1974/75, que começaram por uma ocupação selvagem
de todas as estruturas do ME - e cujo saneamento está ainda longe de ter sido
feito –; a indisciplina e falta de organização reinante (onde ressalta a tábua
– rasa da hierarquia); a medíocre formação e selecção dos professores; a
actividade mais do que duvidosa de sindicatos e associações de pais e de quem
mexe os cordelinhos, na sombra; as constantes mudanças de “rumo”, em termos de
matérias e de pedagogia e acabando na governação para a estatística (da UE e da
demagogia eleitoral) e na transformação do ensino em negócio sem regras
estritas, por tudo isto, dizia, penso até que o número de chumbos é
extremamente baixo.
Mas sobre todo este conjunto de
calamidades que já levam quatro décadas, os autores daquelas mal enxabidas
linhas, aos costumes dizem nada!
Um ensino bom é um ensino
exigente, em escolas bem construídas e funcionais, mas não luxuosas, em que o
pessoal docente e discente aprende a usar e a gostar e se é responsabilizado
pelo que de bem ou mal se passa.
É uma “Escola” em que há ordem (a
ordem liberta mais do que oprime) onde os professores ensinam (e dão o
exemplo!), os alunos estudam e os funcionários trabalham. E onde todos
são avaliados.
E isto só se consegue com
hierarquia, liderança e obediência, sem embargo de toda a gente poder (e dever)
pensar e exprimir-se no âmbito adequado e com a civilidade inerente a pessoas
bem - educadas.
Ninguém consegue estudar ou
trabalhar no meio da desordem, da falta de regras, na falta de ética, que tem
levado recorrentemente e numa extensão nunca aferida, a casos incríveis de
violência, roubo, droga, abusos sexuais, taras diversas, desregramento de
costumes, destruição de bens e todo um rol de malfeitores que devia encher de
vergonha qualquer pessoa civilizada. Mas nada disto, pelos vistos, preocupa o
CNE.
Eles estão é preocupados com os
chumbos – que defendem serem caros (como se aferirá um “custo” destes?). A
ignorância e a incompetência devem ser baratas…
Nós não precisamos de muitos
licenciados; nós precisamos é de bons profissionais. Os maus são apenas
areia na engrenagem, há que os encaminhar para onde possam ser úteis.
Alfabetizar significa conseguir
que todos os jovens desde pequenos, aprendam a ler, a escrever e a contar. E
isto já nem está ao alcance de todos.
Convinha em cima disto dar-lhes
algumas noções de história, geografia, português, regras morais e cívicas. Era
isto que a antiga 4ª classe garantia, e com grande qualidade, aos jovens
portugueses.
Agora querem garantir o 12º ano a
todos, mas a maioria deles (tirando mexer em maquinetas de vídeo games,
“downloads da net”, enviar “SMS” e ouvir MP3), não está apta a passar um exame
daquela época.
Espero, para terminar, que o
Senhor Ministro dê ao documento uma função útil e terminal: a de servir de
papel higiénico.