sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O “JURAMENTO DO FALCÃO”

Site dos Falcões, clicar aqui
“Há tempos de usar o olhar da coruja e tempos de voar como o falcão”.
D. João II

Costuma contar-se, em roda de amigos – e se calhar é verdade – que nunca se deve perguntar a um piloto se ele é da “Caça”.

Porque, se for, certamente o dirá; se não for, para quê embaraçá-lo?...

A Aeronáutica Militar, fundada em 1914, forma pilotos de caça há muitos anos. Sem contar com os onze pilotos que foram formados em França e Inglaterra, ainda durante a I Grande Guerra fê-lo, institucionalmente, desde 1919, com a criação do Grupo de Esquadrilhas República, na Amadora.[1]

Seguiram-se esquadras nas Bases Aéreas de Sintra, Tancos e Ota, onde a “especialização” foi ministrada.

A partir da criação da Força Aérea, em 1952, resultante da junção da Aeronáutica Militar e da Aviação Naval, inaugurou-se a era do jacto, resultante dos benefícios da nossa entrada na OTAN, com a chegada dos primeiros T-33-A e F-84-G.

Mas foi com a inauguração da Base Aérea 5, em Monte Real, em 4 de Outubro de 1959, criada especialmente para albergar a nova frota de F-86-F, que se estabeleceu, modernamente, a “escola da caça”, em Portugal.[2]

Isto porque, o F-86, conhecido na gíria por “sabre”, fora especialmente desenhado para ser um interceptor (embora cumprisse bem missões de ataque ao solo e no mar) e, também, porque se veio a criar e estabelecer um “espírito” muito especial, na esquadra 51, também ela criada de raiz para operar este novo (e moderno para a época) sistema de armas.

Foi esta esquadra convenientemente baptizada com o nome de “Falcões”.[3]

O curso era longo (e dependia ainda da taxa de prontidão dos aviões…), difícil e algo complexo. Mas era feito com alegria e entusiasmo. Durava, em média, um ano e não havia aviões bi- lugares…

Os pilotos que o frequentavam, independentemente do seu posto, eram (e são) apelidados de “abibes”[4] e sujeitos a um conjunto de praxes e tradições durante todo o curso. Numa palavra, tinham direito a pouca coisa, para não dizer que não tinham direito a nada…

Levavam, ainda, muitas “bicadas” dos mais antigos, pilotos barbados e hirsutos, que habitavam tão inolvidáveis instalações, rapidamente rebaptizadas em “palácio”. O Palácio dos Falcões!

Palácio, que tem a porta principal encimada pela frase marialva e intimidatória: “Por esta porta passam os falcões mais ferozes do mundo”.

Eu, cá por mim, estou convencido que é verdade…

É claro que as bicadas não resultavam só em “apertos de torque”, mas eram transformadas em escudos (não euros) de modo a que, mais tarde, pudessem financiar algumas folganças gastronómicas devidamente regadas a ….”JP4” (se algum restaurante se atrevesse a abrir as suas portas a tão fogosos pilotaços, é claro).

Como um verdadeiro caçador não pode andar desarmado, parte do pecúlio servia, outrossim, para regenerar o “stock” de foguetes e outros artefactos pirotécnicos, com que se treinava a pontaria em terra, mesmo sem visor de tiro!


Ao aproximar-se o fim do curso, depois de muitas horas a estudar, reflectir e discutir; briefings e debriefings e muito suor derramado a fazer todas as modalidades de acrobacia, tiro (ar/ar e ar/chão), navegação, formação, combate simulado, instrumentos, etc., era preparada a cerimónia final.

Esta cerimónia só se realizaria, porém, se após apertado escrutínio, por parte dos doutos Falcões, os abibes:

Já dessem indícios que, dos dedinhos flácidos despontavam garras afiadas; das serosidades nasais, se afirmava o bico adunco; já cresciam tectrizes e rectrizes, que sustentavam voltas apertadas com mais de quatro “Gs”; a arcadura do peito já sulcava o ar, aguentando o voo picado e turbulência severa, e os côndilos occipitais já se ajustavam a uma rotação de 360º!

Enfim, o traseiro fofo já começava a ficar calejado pelas asneiras feitas e o piar fininho tinha-se transformado num crocitar audível.

Por outro lado, os avanços na capacidade psico-motora, já permitiam a distinção entre uma formação táctica e uma “abandalhada de marcha”; conseguiam voar dentro de nuvens sem perder o chefe; entrar ao passo distinguindo os alvos dos “chaparros” e fazer tiro ar/ar, sem entrar pela “manga” dentro!

Nesta fase da sua maturação e estando já todos fartos de os aturar, preparava-se a tal cerimónia iniciática do tipo “passagem à puberdade” das tribos africanas.

Começa com um jantar (está na cara!) em que, no seu inicio, o “Falcão - Mor”,[5] profere, invariavelmente, a seguinte frase:” Determino e mando publicar que isto hoje vai acabar mal”.

Obedientes e disciplinados, que são, os presentes afadigam-se, então, a dar cumprimento ao determinado.

Entre admoestações, castigos, provas diversas, discursos e malfeitorias várias, a coisa lá vai seguindo o seu curso (escusam de estar à espera que eu conte como é, pois não conto nada).

Aos abibes que passam nas provas (e sobrevivem) é-lhes outorgado o anel, símbolo dos Falcões; o lenço da esquadra e permite-se que escrevam o seu nome na parede do balcão do bar, para o efeito reservado. Presume-se que os leitores compreenderão as razões pelas quais muitas das assinaturas sejam, até hoje, ilegíveis.

Ouvem-se “Kiaks”.[6]

Ao tempo do F-86 ainda se oferecia um emblema, o “mach buster”, prova de que quem o possuía tinha ultrapassado a barreira do som. O Sabre foi o primeiro avião no inventário da FAP a conseguir fazê-lo.

E lá começava uma vida nova para os novos Falcões ainda imberbes e tal notava-se logo: compravam uns óculos da marca “Ray Ban”, meneavam o andar e ficavam mais atrevidos a entrar ao passo nas “falcoas”!

Pois não tinham eles, conseguido entrar para o clube selecto dos “suprassumos da essência do sublime”?[7]

*****
Nenhuma unidade da Força Aérea entrou em combate aéreo, até hoje. Os únicos pilotos que tiveram essa experiência combateram durante a I Guerra Mundial e na Guerra Civil de Espanha, mas estavam dispersos em esquadrilhas francesas e espanholas.[8]

Apenas um deles morreu em combate aéreo, nos céus de França, numa luta desigual de um contra cinco. Trata-se do Capitão Óscar Monteiro Torres e, ainda, abateu um avião alemão antes de tombar. Voava um “Spad 65” e pertencia à célebre esquadrilha das ”Cegonhas”.

Portou-se bem o Monteiro Torres e nós não o devemos desmerecer. É uma referência.

*****
Quando se fala em “Forças Especiais” pensa-se, por norma, em “Comandos”, “Paraquedistas”, “Fuzileiros” e “Rangers”.

Mas um piloto de Caça é ele, também, especial. É um combatente feroz e letal. Como os Falcões.

O “Caçador” actua só, mas não isoladamente; tem que ter cabeça fria, decisão rápida e nervos de aço. Do alto da vastidão do céu – o seu domínio – ele sente-se como “dono” do mundo e leva consigo apenas o medo, arrumado cuidadosamente numa caixinha, mas sempre pronto a manifestar-se.

Convém, sem embargo, ter a noção de que o piloto de caça é apenas o elo final que cumpre a missão, para a qual é indispensável o concurso de todos os elos que compõem o complexo sistema de Defesa Aérea: o pessoal técnico e operador das estações de radar; as comunicações; o apoio à operação (meteorologia, tráfego aéreo, etc.); a manutenção das aeronaves; o armamento; as infraestruturas aeronáuticas; a organização do Comando e Controle e da tomada de decisão e mil e uma outras minudências.

Ter tudo isto a operar bem não está ao alcance de qualquer Força Aérea. Direi até, que são muito poucas as que o conseguem fazer.

A FAP, com meios limitados, é certo, está capacitada para cumprir esta missão de um modo militarmente eficaz. Mas as ameaças para que o deixe de conseguir fazer a curto prazo, são muito severas.

Em primeiro lugar por motivos financeiros conhecidos – todo o sistema de Defesa Aéreo, apesar de estar optimizado (aqui só há mesmo “bife do lombo”) é caro e não tolera falhas nos diferentes “elos”.

E voar um F-16 tem outras exigências estranhas ao F-86, que já de si exigia muito treino.

Existem dois patamares a considerar: o número de horas de voo mínimas para a proficiência táctica, e a segurança da operação. O valor da vida de um piloto mantêm-se como sempre, a Segurança da Nação, nem por isso, e o preço das aeronaves subiu em flecha. Até onde é que se quer ir (descer)?

Vender aviões, como se pretende, aparenta ser um erro de visão tremendo.

Vejamos: adquirir e manter um sistema de armas, sobretudo do nível de complexidade e exigência como o F-16, é uma operação muito dispendiosa, difícil e demorada. Depois, para se amortizar o melhor possível, o investimento, deve tentar-se explorar os meios o máximo de tempo possível, com a melhor prontidão.

Ora Portugal não vai ter condições para adquirir aviões idênticos nos próximos 50 anos…

É preferível colocar os aviões que não se quer operar na “naftalina” do que desfazermo-nos deles.

Às FAs portuguesas apenas restam pouquíssimos meios dissuasores credíveis. Os F-16 que restam são parte desses meios. E nunca se sabe o dia de amanhã.

*****
A Aviação de Caça representa o chamado “elemento nobre do Poder Aéreo”, aquele que melhor fundamenta e justifica a independência da Força Aérea como Ramo independente.

E é aquela que garante a vigilância e defesa do espaço aéreo nacional, que é um função vital de Soberania, apesar de a mesma estar, na Europa (e apenas nela) a ser tratada, irresponsavelmente, como coisa menor ou ultrapassada.

São pois as “asas com a cruz de Cristo” quem cumpre essa missão. O símbolo da Cruz de Cristo não está lá por acaso. Meditem nisso.[9]
*****
Por outro lado as duas esquadras existentes perdem, constantemente, pilotos para as companhias civis (e não quer dizer que não haja também problemas noutras especialidades).

É um problema antigo que nunca foi devidamente equacionado.

Saem pelo dinheiro; porque voam pouco; por falta de reconhecimento social; para terem uma vida mais estável, com mais benefícios, menor risco, mais direitos e menos deveres.

E, ainda, por terem desenvolvido, no mais das vezes, uma ideia muito critica (nem sempre bem aferida) da realidade que conhecem da Força Aérea, ao mesmo tempo que têm uma ideia pouco completa da vida de “empregado” (agora chamam “colaborador”) numa empresa civil.

Enfim, saem por mais isto ou aquilo.

O modo como as coisas se passam é mau para todos (menos para a aviação civil), sobretudo para o país no seu todo, por razões que não vou aprofundar.

Depois de saírem, a maioria vai sentir falta da camaradagem e do “convívio” da esquadra – uma realidade que nunca mais vão encontrar – vão deixar de sentir a adrenalina do combate aéreo; de largar armamento; a liberdade da acrobacia; a auto-satisfação do voo meticuloso e preciso da formação; o sereno gozo de trazer o “asa” em formação cerrada, até à doce pista, em mínimos meteorológicos; a diversidade de missões que jamais geram o tédio e o gosto de comandar que é o fulcro e a essência de toda a actividade militar.

Vai restar-lhes o eventual conforto da conta bancária (o que não é despiciendo), e a visita a locais porventura mais agradáveis do que um esburacado teatro de operações, em locais recônditos.

Espera-se que quando, e se, for necessário defender o ninho onde foram criados, estejam de novo em alerta de 15’, para de novo o fazerem.

Os avanços têm sido muitos, mas a organização, a tecnologia, a logística, a táctica, etc., de pouco valem se a base espiritual estiolar e não se mantiver ao nível do resto.

O último Juramento de Falcão – para onde são convidados todas as “aves” ainda vivas, cerca de 250, e a que poucas, infelizmente, respondem à chamada – contou com três derradeiros abibes.[10]

De facto os cursos estão interrompidos e a renovação parou. Os leitores já, por certo, entenderam porquê.

“Falcões Brancos” check in!
Two!
Three!
Four!
Branco One.



[1] DL nº 5/41, de 15/2; estava equipada co cinco caças Spad 188. A Escola de Aeronáutica Militar tinha, entretanto, sido formada em Vila Nova da Rainha, em 1916, com a missão de brevetar os futuros pilotos militares.
[2] Começaram a chegar em 1958, tendo sido adquiridos um total de 65 aviões.
[3] E não eram uns falcões quaisquer, eram os “Falcões Peregrinos” – “Falcus Peregrinus Tunst”- o caçador mais completo e temível, na família daquelas aves rapaces…
[4] O nascituro de um casal de falcões.
[5] Comandante da Esquadra.
[6] Grito dos Falcões.
[7] “Clube” que não é “secreto”, nem se dedica a traficar influências, conluir estratégias de poder, proceder ao escambo das consciências ou combinar negócios, entenda-se.
[8] Durante a IGM chegaram a combater nas esquadrilhas francesas 30 pilotos e mecânicos. Onze pilotos e um mecânico, da Aeronáutica Militar foram autorizados a alistar-se na Aviação dos Nacionalistas (embora outros civis o tenham feito). Não há notícias de pessoal da aeronáutica que tivesse combatido pelo lado republicano.
[9] Felizmente ainda não apareceu nenhum cretino esférico a defender que essa cruz deve ser substituída por outra coisa qualquer, por poder “ofender os seguidores de uma religião diferente”…
[10] Fez o seu juramento um major da USAF (que se portou à altura), mas que não entra nestas contas.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

FORÇAS ARMADAS: ASSIM SE VAI FAZENDO A HISTÓRIA E JORNALISMO


O jornal Público publicou um título "Tropas Portuguesas decapitaram em Angola". Segue resposta. Há 51 anos passou-se um dos Natais mais dolorosos de toda a nossa História colectiva. Angola estava a "arder" e o país em pé de guerra; Goa, Damão e Diu, estavam debaixo da pata militar da União Indiana, mas a esmagadora maioria da Nação estava coesa e pronta para a luta, à volta da lareira dos seus antepassados, com a velha cruz de Ourique ao peito, a espada numa mão e a charrua na outra. A vigília foi nossa! Hoje o Sr. Ministro ds Defesa escusa-se a ir visitar as tropas no Kosovo e no Afeganistão (onde não defendem terras nem gentes portuguesas), para poupar uns euros (maldita moeda). Sinais dos tempos...
Fiquem bem.


Perigosos opressores colonialistas eliminados pelos libertadores de Angola (1961)
Com parangonas e ar de escândalo, a edição do jornal “Público”, do pretérito dia 16 de Dezembro, entendeu dar a conhecer aos seus leitores que “tropas portuguesas decapitaram em Angola”, remetendo para páginas adentro os comentários a tais façanhas retiradas de um relatório de uma acção militar, em 27 de Abril de 1961, na sanzala Mihungo, Norte de Angola.

Este relatório terá sido encontrado nos arquivos da PIDE/DGS, na Torre do Tombo, constando de um livro recentemente editado.

Presumo que o livro não trate só desta questão, mas foi esta que foi puxada à colação pelas duas jornalistas autoras do referido artigo, que enquadram o episódio na alegada “Guerra Colonial”, termos com que a ignorância atrevida e as ideologias malsãs teimam em apelidar o conflito havido.

O equilíbrio com que alguns dos entrevistados enquadra o evento não chega para ultrapassar o sentido critico, de repulsa e condenação que emana do artigo no seu todo e, especialmente, do seu titulo de 1ª página.

É claro que é fácil às duas moças jornalistas, que nunca cheiraram a pólvora, nem nos foguetes de Santo António, se façam de virgens ofendidas, por tão funesto acto; ou que burgueses, bem - postos na vida, após barriga cheia, se esmerem em dissertar sobre o “como” e o “deviam” as coisas se ter passado.

O que, seguramente, nunca fizeram foi colocar-se na situação daqueles que, há mais de 50 anos, foram confrontados com uma chacina hedionda. Sim, senhoras jornalistas, entrevistados e demais leitores, como é que pensam que reagiriam, já meditaram?

E curiosidade das curiosidades, em todo o artigo não aparece uma palavra de condenação relativamente aos terroristas genocidas da UPA e de quem a apoiou, armou e incentivou, por aquilo que fizeram![1]

A falta de vergonha na cara, desonestidade intelectual e a mais torpe parcialidade ideológica têm campeado em Portugal e tudo teremos que fazer para a erradicar da sociedade, um dia!

Por outro lado, não conheço povo mais masoquista do que aquele a que pertenço e que se compraz em autoflagelar-se – ainda por cima sem motivo para tal – ao ponto, e por ex., do cineasta português, mais consagrado de todos os tempos, se ter lembrado de fazer um filme só com derrotas que os portugueses sofreram na sua vetusta História…[2]

Não tenho qualquer dúvida que o relatório aludido é verdadeiro e que o caso relatado não foi o único que ocorreu. Isto é, não foi a única vez que se cortaram cabeças aos bandidos que nos retalharam a carne e os haveres – embora, creio, nunca se o tivesse feito a pessoas (?) vivas.

Quero acrescentar, para eventual escândalo de muitos que, apesar do horror da cena, ela se justificou. E isto não tem nada a ver com a estafada afirmação de que todas as guerras acarretam actos de violência gratuita e inumana.

Em primeiro lugar, sobretudo para os mais distraídos, deve começar por se dizer que não fomos nós que começámos…

Na imagem, um soba esventrado pelos terroristas da UPA (norte de Angola, 1961)
Depois a UPA provocou o genocídio, com inicio em 15 de Março de 1961, deliberadamente – e, também, ainda não vi ninguém preocupado em julgar os responsáveis nos tribunais internacionais, que vão sendo postos de pé para julgarem os inimigos das grandes potências, leia-se EUA e Inglaterra.

O objectivo, já ensaiado, com sucesso, no Congo Belga, era causar o pânico e o terror, provocando a debandada dos portugueses brancos e a fuga e o choque das populações indígenas.

Enganaram-se, pois os portugueses não são belgas…

Para além da aplicação do “principio” de que nas guerras se têm de aplicar os meios que melhor neutralizam as tácticas e armamento do inimigo foi, neste caso especifico, necessário usar pontualmente este método, não só para evitar que a UPA continuasse a fazer barbaridades, como a causar real medo a tal corja de assassinos, cujas hordas drogadas por feiticeiros, estavam inculcadas da ideia de que eram invulneráveis às balas.

Além disso a separação da cabeça do corpo tinha um significado religioso, pois para as crenças daquela gente, tal impedia uma futura ressurreição.

E, o que é certo é que a “táctica” teve um sucesso fulminante, pois ao fim dos primeiros dois meses, os actos selvagens por parte da UPA terminaram.

O PAIGC e a FRELIMO quando desencadearam a subversão, respectivamente, na Guiné (1963) e Moçambique (1964), não cometeram os mesmos erros.

O ocorrido não põe em causa a civilidade e, até, o humanismo com que as tropas portuguesas se comportaram na sua esmagadora maioria, em todo o longo conflito.

A Instituição Militar portuguesa tem quase 900 anos de existência e não tem pejo em se confrontar com qualquer “Exército” das nações mais civilizadas, ou outras, no modo como sempre combateu, relativamente às leis da guerra e sua evolução pelos séculos fora.

E foi sempre fiel cumpridora das convenções internacionais assinadas pelos diferentes governos portugueses, ao longo dos tempos.

Penso que isto é claro mesmo para os desertores e traidores que foram pontuando a nossa existência…

Só não estou seguro do modo como foram decididas as poucas acções deste tipo desencadeadas pelas nossas tropas e qual a cadeia de comando e directivas (se é que alguma) envolvidos. Mas já era tempo de, quem de direito, tornar público, oficialmente, o que se sabe que se passou, pois não parece que haja nada a esconder.

O mesmo se aplica à história de “Wiriamu”, que já tresanda!

Jornalistas, comentadores e “historiadores”, à falta de melhor, ressuscitam o caso quase com sincronia de calendário – é uma espécie de disco riscado – e nunca se os vê preocupados com os milhares (milhares, leram bem?), de acções violentas, raptos, bombardeamentos, trabalho forçado, assassinatos, etc., que a FNLA, o MPLA, a UNITA, o PAIGC e a FRELIMO fizeram contra as populações de todas as cores que queriam continuar portuguesas.

Só mesmo com um pano encharcado no “fácies”![3]


[1] UPA, União dos Povos de Angola, organização independentista baseada no ex-Congo Belga e chefiada por Holden Roberto.
[2] Já terão pensado, também, naquilo que as populações portuguesas faziam aos franceses invasores (1807-1811), quando os apanhavam à mão, depois das barbaridades que eles cá fizeram?
[3] Em português Vicentino (de Gil Vicente), lê-se “tromba”.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

OLIVENÇA, TERRA PORTUGUESA

Olivença, terra portuguesa, cativa de Espanha, até quando?
(as minhas desculpas por as legendas estarem em castelhano, mas ainda não houve portugueses que o fizessem em português)

Clique aqui para ver as imagens

PS. Faça-se sócio da patriótica instituição "Amigos de Olivença" em olivenca@olivenca.org  ou olivenca@olivenca.net

www.olivenca.org e www.olivenca.net

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A LEVEZA DA IRRESPONSABILIDADE E OS PERIGOS DAS ILUSÕES

"Foi-lhes dada a escolha entre a guerra e a desonra. Escolham a desonra e terão a guerra.”
Wiston Churchill

Fernando Pessoa

Ter a “Troika” a passear na Baixa Lisboeta, junto ao Martinho da Arcada – onde Fernando Pessoa terá escrito trechos dessa maravilha poética e patriótica intitulada “Mensagem”[1]- obra com muito mais significado do que ter afirmado que a sua “Pátria era a língua portuguesa”[2] - é muito mais grave do que ter a Duquesa de Mântua no antigo Palácio Real, protegida pela Guarda Alemã (ele há coincidências…), aquartelada no Castelo de S. Jorge.[3]

Apesar de esta afirmação não ser evidente para o vulgo, não me resta espaço para explicar porquê. O ponto não é esse.

O ponto é que a situação descrita revela que a nossa soberania está muito limitada – sem que alguém se preocupe em aferir até que ponto – ou seja a Nação Portuguesa tem altíssimas restrições para poder decidir do seu destino.

E cada um de nós como português, individualmente, está sujeito a essas restrições. Ou seja a liberdade de cada um está intimamente ligada à liberdade da Nação, mas a liberdade desta é mais importante que a liberdade individual, coisa que deixou de ser perceptível – logo sentida – pois deixou de fazer parte do discurso oficial, da moral política e das modernaças correntes intelectuais.

Por isso a prioridade, que devia ser de todos nós, desde os governantes ao povo miúdo, devia ser, logicamente, a de reganhar a soberania.

Mas não, além da irresponsável leveza com que a maioria dos órgãos de comunicação social, agentes económicos e sociais e público em geral trata o problema – como se de um contratempo momentâneo se tratasse – já não espanta que a prioridade dos Políticos, desde o PR à maioria dos deputados e passando pela “caixa-de-ressonância, em que se transformou o Governo, seja a de “regressar aos mercados”!

Os mesmos mercados que estão na origem da crise…

Esta matilha política e financeira enredou-se de tal ordem, num novelo de dependências e negócios, que querem acabar com as Nações – por isso o Estado já não as representa – para amalgamar os povos que as constituem, e pôr os “cidadãos” não se sabe bem de quê, a pagar os custos do nó górdio que criaram.

E que ninguém consegue desatar.

Sabem porque não se quer que o governo peça melhores condições para “gerirmos” a crise? (a dívida, como está, é impagável nos próximos 100 anos, garanto, e não sou financeiro).

Posso estar enganado, mas a razão é só uma: ainda não nos sugaram o suficiente! (independentemente do perigo de voltarmos à indisciplina e ao disparate).

O processo que levará à canga com que ficaremos escravos, sem bens, sem terra, sem eira nem beira, ainda não está suficientemente consumado. Tudo o que resta de património ainda não foi alienado ou vendido ao desbarato; os instrumentos de sobrevivência postos exangues.

Tudo vai por mau caminho e a desorientação é geral. O “nevoeiro” é muito e urge ver para além e através dele.

A Instituição Militar último reduto que resta ao país para além da Igreja (ambas muito esfaceladas) - já que a Universidade tem vindo a anarquizar e a atomizar o saber e o conhecimento – e do PCP, único partido digno desse nome, capaz de tomar conta do Poder caso a oportunidade surja (obviamente com as consequências que apenas “cheirámos” em 1974/5), tem que começar a pensar em sair da sua posição puramente institucional de fingir que nada do que se passa lhes diz respeito. É avisado prepararem planos de contingência pois quando a coisa correr mal vai sobrar para eles.

Valores mais altos se levantam.

E convém ter o dia seguinte minimamente pensado para não se dar o descalabro do dia 26 de Abril…

Isto claro se não se deixar abater como um apêndice dispensável e inútil.

O Junot, em 1807, dissolveu o Exército com um decreto. Não sei se estão recordados do que aconteceu a seguir.

Os tipos da “Troika” não devem ser lançados pela janela fora, como se fez ao Miguel de Vasconcelos, não só porque não foram eles que nos traíram, como até fomos nós (enfim, alguns de nós), que os convidámos para a nossa casa, onde até já fazem conferências de imprensa.[4]

Mas devem, de facto, ser postos na rua. Delicadamente, mas na rua.

Só que para isso ser viável é preciso ter um plano estratégico para sobreviver, que não se vislumbra em gente responsável. E qualquer plano implica muitos sacrifícios que ninguém quer fazer a não ser que acredite na “causa”.[5]

Mas a vida é luta e ir à guerra se, preciso for. E nós deixámos de querer lutar…

Quanto mais tarde nos decidirmos, maior será o sacrifício e os danos.

Podemos tentar enganarmo-nos a nós mesmos, mas não há volta a dar.

Como dizia o Churchill, ficaremos com a guerra e a desonra – como, aliás, aconteceu com a “Descolonização”…

Corro o risco de estar vivo para ver. E não me apetece nada.


[1] Única obra de Pessoa publicada em vida do Poeta, em português (1934). Premiada com o prémio “Antero do Quental”.
[2] Lamentavelmente abusada por alguns para significar, propositada ou ingenuamente, conceitos errados e perigosos…
[3] A principal força que obedecia aos Filipes, em Lisboa, eram tropas alemãs dos domínios dos Habsburgos (mercenários católicos, conhecidos como “Tudescos”).
[4] Os Árabes/Berberes também desembarcaram no “Al Andaluz” convidados por uma das partes dos Visigodos desavindos. Foi preciso 800 anos para os expulsar…
[5] Atente-se: Antes de 1640, ninguém queria pagar impostos para subsidiar as “guerras” de Filipe IV, houve revoltas e tumultos. Mas a seguir à Aclamação de D. João IV, todo o Reino (que estava paupérrimo) pagou sem murmúrio o imposto extraordinário para fazer face à guerra que aí vinha.
Todos os estudantes portugueses que estavam na Universidade de Salamanca regressaram ao país e alistaram-se para o bom combate. Parte da nobreza portuguesa que estava na Corte, em Madrid (agora pode ler-se Bruxelas), juntou os seus haveres e regressou à Pátria. Só os mais beneficiados ficaram em Madrid e renegaram as origens. Naquele tempo, Portugal estendia-se do Brasil à China e apenas uma praça – Ceuta – cujo governador era castelhano, não levantou arraial por EL - Rei de Portugal!

Escrito "De Como Portugal se tornou independente do Brasil e suas consequencias"

     Ontem foi 7 de Setembro. Data do "Grito do Ipiranga".    Mais um infausto acontecimento para a Nação Portuguesa...    Fica aq...