sexta-feira, 1 de agosto de 2014

MARCELINO DA MATA, COMBATENTE PORTUGUÊS, HERÓI ESQUECIDO

Entre o universo dos portugueses eu não serei o mais creditado para falar sobre o nosso Marcelino da Mata (MM) – permitam que o trate assim.

Peço que essa falha seja relevada pela vossa caridade cristã e também pelo facto do meu atrevimento ser fundado em boa mente.

Só estive com MM duas vezes, a primeira foi num encontro de “malfeitores” ali para os lados de Samora Correia; a segunda foi no Porto, em que o agora homenageado foi convidado de honra num encontro patriótico de angariação de fundos para a construção de um monumento aos combatentes do Ultramar, na Invicta. Eu fui o orador no evento.

“Malheureusement”, como diriam os franceses, a segunda cidade do País continua a ser um dos poucos municípios portugueses onde está por edificar tal monumento…

De tudo isto decorre não poder afirmar conhecer MM como pessoa, tão pouco aquilo que ele pensa.

Mas sei, de ciência certa, que o Tenente Coronel do Exército Português, Marcelino da Mata, foi um extraordinário combatente, um guerreiro, na verdadeira acepção da palavra e que honrou, até hoje, a sua condição de português de lei.

E não precisou para isso de possuir um alto grau de formação nem de nascer em berço de ouro.

É sobre tudo isto e o seu significado, que gostaria de dizer mais umas palavras.

O facto de estarmos a homenagear uma pessoa como MM – uma coisa que o Exército Português e outras “entidades” se têm esquecido injusta, mas muito convenientemente de fazer – é a prova provada de que as nossas últimas campanhas no Ultramar Português representaram uma guerra justa e que o grande projecto de expansão portuguesa, iniciado em 1340 e levado a cabo pela Ordem de Cristo, de inspiração Templária e sob a égide do Culto do Espírito Santo, estava certo e representou – e não deixou ainda de representar – uma das ideias mais grandiosas e esclarecidas que jamais ocorreram na Humanidade.

Daí que nós estamos aqui reunidos em fraternidade – que é a expressão mais elevada do antirracismo – em perfeita camaradagem – que só os combatentes verdadeiramente entendem – um negro, entre tantos brancos, de vários credos religiosos e ideológicos, mas unidos pela chama do patriotismo Lusíada, a qual se levantou acima do comum dos povos ao ponto de, no Oriente, dizerem dos portugueses que “A fortuna do Mundo é serem eles tão poucos, porque a natureza, como aos leões, felizmente os fez raros”. [1] 

Por isso nunca os europeus e a maioria dos povos nos compreenderão (ou perdoará), embora nos devam respeitar. E nós devemos exigir esse respeito.

Estamos pois, a anos-luz do “multiculturalismo” em voga no mundo ocidental, no após IIGM e que agora começa a revelar-se, na sua plenitude, um descalabro mentiroso.

Por complexas e estranhas metamorfoses da “maneira portuguesa de estar no mundo”, MM amalgamou-se, como a maioria dos seus conterrâneos, a esse ideário e tornou-se um combatente de elite, que lutou à sombra da Bandeira das Quinas.

Quinas essas, que são o símbolo maior da bandeira e da Pátria, pois nela se conservam desde a Batalha de Ourique, em 1139!

“Pai foste cavaleiro. Hoje a vigília é nossa”.

Assim escreveu Fernando Pessoa, o português mais misterioso e complexo que existiu até à presente época!

O pai era Afonso Henriques e é a nós que cabe, hoje, a vigília.

Marcelino da Mata com familiares
Marcelino da Mata, nascido a 7 de Maio de 1940, em Bula, Guiné Portuguesa, foi um grande combatente, porque se manteve íntegro e focado na sua missão.

Teve a audácia e a serenidade nos momentos críticos e foi competente, pois seguiu – mesmo sem o saber – o ensinamento desse grande cabo – de - guerra que foi o General George Patton, numa das suas frases mais célebres: “A verdadeira missão de um militar não é morrer pela sua Pátria, mas fazer com que o soldado inimigo morra pela Pátria dele”.

Acresce que, a maioria dos inimigos tinham a mesma Pátria, eram apenas renegados.

MM não renegou, não desertou nem traiu, ao contrário de alguns – felizmente uma minoria – que o fizeram e que um povo confuso e desnorteado por lideranças políticas fracas, erradas e incultas, tem deixado alcandorar a funções, prebendas e pedestais que não merecem e a que não têm direito e são o opróbrio e a cruz, das almas nobres e honestas e dos bons portugueses.

A Cristiano Ronaldo deram-lhe duas “botas de ouro”, por conseguir com mestria, meter uma bola, frequentemente, em balizas adversárias, num desporto chamado futebol.

Por tal facto é conhecido em todo o mundo e, sendo ainda novo, tem-se revelado um rapaz atinado e não fez ainda nada que nos envergonhasse.

Devemos estar muito contentes com isso.

Mas Marcelino da Mata foi ferido em combate, várias vezes, participou em 2412 operações de “Comandos” – tropa de excepcional valor, a que pertencia – e nelas praticou muitos actos de bravura e heroísmo, que lhe valeram, entre outras, cinco cruzes de guerra e ser, desde 1969, Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, da Lealdade e do Mérito.

Com isto ganhou jus a ser o militar mais condecorado na História do Exército Português.

Sem qualquer desprimor, creio bem, que este palmarés vale mais do que todas as botas de vil metal, que se possam ganhar na vida…

Mas MM vive humildemente e sem alardes – como é próprio das almas nobres – no seu canto do Concelho de Sintra, esquecido dos seus compatriotas. [2]

Eu como cidadão e oficial da Força Aérea quero testemunhar o meu respeito e admiração por tão singular soldado; orgulhar-me de ser um dos nossos e, como português, agradecer-lhe do fundo do coração.

E a melhor homenagem que lhe podemos fazer é comprometer-nos a tentar igualá-lo, alguma vez mais, que o que resta da Pátria Portuguesa seja ameaçada seja por quem for.

Recordo ainda D. Francisco de Almeida: “Se Deus fala português, não sei; estes canhões falam”.

Lembro D. João de Castro, a seu filho enviado em socorro de Diu: “Pelo que toca à nossa pessoa não fico em cuidado, porque por cada pedra daquela fortaleza arriscarei um filho; Eu vos ponho no caminho da Honra, em vós está agora ganhá-la”.

Cito Fernão Mendes Pinto, descrevendo um ataque a um barco de piratas chineses: ”E com muitos Padres-Nossos e pelouros, a eles nos fomos, e matámo-los a todos num credo”.

Mais recentemente Cunha Aragão, Comandante do NRP Afonso de Albuquerque, após gravemente ferido, no meio do combate, em 18/1/61, para os seus homens: ”Eu já estou, o Imediato que assuma o comando, não se rendam”.

Porque é que todos estes nossos compatriotas se comportavam assim e tal foi recorrente nos últimos nove séculos?

O grande poeta Rodrigo Emílio explica-nos no seu “Edital do Poeta às Portas da Morte”:

É preciso que se saiba porque morro.

É preciso que se saiba quem me mata.

É preciso que se saiba

que no forro desta angústia

é da Pátria tão-somente que se trata.

Caros compatriotas aqui presentes, tenhamos esperança (embora seja necessário contribuir para a Esperança…). Nesta semana apesar de, durante décadas, termos escutado em abundância, o elogio da cobardia; o escárnio da virtude; a elegia do vício e a defesa do relativismo dos Princípios é encorajador ver esta homenagem, a qual foi antecedida por uma outra, no dia 22 de Julho, ao heroico Subchefe Aniceto do Rosário, a que se associou a PSP e a Liga dos Combatentes (LC), morto na defesa do enclave de Dadrá, India Portuguesa, em 1954.

Aniceto do Rosário
Cerimónia, por sua vez, antecedida, no dia 13 do mesmo mês, pela inauguração de um singelo monumento evocativo dos mortos da freguesia de Sezures, no Portugal profundo, do Distrito de Viseu, iniciativa do Major General Campos de Almeida – colega de escola dos rapazes caídos no cumprimento do Dever – a que se associou a Junta de Freguesia, a Liga dos Combatentes e o Exército Português.

Mortos da Freguesia de Sezures.
Soldado Pedro Augusto - Guiné 25/11/1967
PCb José de Aguiar - Angola 11/7/1969
Temos assim uma homenagem àquele que foi o primeiro a tombar nesta campanha – Aniceto do Rosário – e um dos últimos a sobreviver – Marcelino da Mata – no mesmo conflito, passando por todos aqueles, desconhecidos, que verteram o seu sangue em nome da nossa existência colectiva.

Foram duas boas semanas e nada disto, à “boa” maneira portuguesa, foi planeado. Simplesmente aconteceu. [3]

Longa vida a Marcelino da Mata,

Abaixo os poltrões,

Vivam os heróis nacionais e, com eles,

Viva Portugal!

_____________________________

[1] Gaspar Correia, “Lendas da India”.
[2] Alguns dos quais fizeram a vilania de o prender e torturar num quartel, nos idos de 1975!
[3] Mas, para quando a homenagem nacional que tanto Marcelino da Mata e alguns outros merecem?

6 comentários:

Anónimo disse...

Mais uma vez, as minhas felicitações por recordar, depois de Aniceto do Rosário, mais este combatente português. Como disse António Vieira, servindo a minha pátria fiz o que devia, a pátria sendo-me ingrata fez o que é costume (citação de memória)

José Neto

Manuel CD Figueiredo disse...

Este belíssimo texto é, já por si, uma homenagem! As minhas felicitações.
Quem desconhece, ou ignora, os nossos heróis, diminui o orgulho de sermos portugueses.
Por maiores que tenham sido os actos que praticámos durante as nossas carreiras, sentimo-nos pequeninos perante a grandeza de tais Homens!

Nuno Filipe disse...

Muito obrigado por mais esta excelente partilha Sr. Coronel Brandão Ferreira.
às vezes fico realmente emocionado com aquilo que o Sr. escreve e esta, foi uma dessas vezes.

Um abraço,
Nuno Ramos.

Nuno Filipe disse...

O início da decadência.

A desgraça de Portugal começou a 25 de Abril de 1974, tenho ouvido dizer a muitos dos meus compatriotas...

Infelizmente, o início da queda de Portugal é anterior a essa data, já vem desde 1820, com a Revolução Liberal do Porto, orquestrada pela maçonaria, que por serem apenas um punhado deles, não conseguiram impedir que se reunissem Côrtes Gerais (as verdadeiras Côrtes Gerais, compostas por Clero, Nobreza e Povo) em 1828 e Aclamássemos um Rei legítimo, que viria a ser o Senhor Dom Miguel I de Portugal (o nosso último Rei legítimo).

Malogrados os esforços do povo português, em 1834, foi implementado de vez o liberalismo estrangeiro e maçónico, pela força das armas estrangeiras e maçónicas também elas, sob a designação de Quadrupla-Aliança. O povo perdeu o poder de decidir sobre os seus destinos e a despótica maçonaria, centralizou e tomou de vez o poder absoluto em Portugal.

Depois de acabarem aí com o Portugal Português, só com o Estado Novo, tivemos novamente uma aproximação ao Portugal do "Deus, Pátria e Rei", com a trilogia do "Deus, Pátria e Família".

Estávamos finalmente no caminho certo para Restaurar Portugal. Até que, infelizmente se deu o 25 da má memória, que veio a descambar "nisto", nesta chamada “democracia”, que não é mais do que uma maneira do nos manter escravizados, com a ilusão de que detemos o poder de mudar alguma coisa nos destinos da nação!?

Em suma, desde 1834 para cá, só se aproveitou o período do Estado Novo. Tudo o resto, foi sempre a roubar, destruir, matar e sobretudo, a APAGAR a identidade portuguesa que estava enraizada em todos nós e era passada de geração em geração.
Foi tudo isso, essa maneira de ser Português que existiu desde a Fundação da Nacionalidade, aumentou com as Descobertas Marítimas Portuguesas e valeu-nos durante as Invasões Napoleónicas; tudo isso, foi-nos roubado pelo Liberalismo Maçónico-Partidário de 1834 e apenas o Dr. Salazar, nos conseguiu devolver um pouco desse Orgulho Português e DE SER Português com o Estado Novo.

Mais uma vez, com a Revolução de Abril de 1974, tudo isso tem vindo a ser apagado novamente. Ao ponto de, numa sondagem efectuada há pouco tempo, apenas 28% dos nossos jovens se disporem a defender a pátria-mãe em armas, caso alguém nos declarasse guerra.

https://patolasblogue.blogspot.pt/2016/03/a-inicio-da-decadencia.html?showComment=1466585749966#c1820321209689181980

Unknown disse...

http://expresso.sapo.pt/internacional/2015-09-29-Um-comando-nao-foge-1ttp://expresso.sapo.pt/internacional/2015-09-29-Um-comando-nao-foge-1
Não sou da geração de combatentes das guerras coloniais.
Mas conheço as ex colónias portuguesas em Africa em tempos mais recentes.
Fico impressionada com o patriotismo e valentia evidenciado pelos comandos negros na Guiné, especialmente por Tenente coronel Marcelino da Mata.
Acho desprezível a forma como abandonamos a sua sorte que sabiamos ser dramática todos os combatentes que defenderam nossa pátria.
Deixo aqui uma reportagem do jornal expresso que julgo ser um interessante documento.

JD disse...

Subscrevo a homenagem aqui prestada e relatada a Marcelino da Mata. Das suas virtudes e arrojo enquanto combatente português, não vale a pena falar. Mas talvez valha referir que, pelo que me dei conta, foi sempre muito solidário com os camaradas em dificuldades. Atencioso e dedicado, esse oficial honra as Forças Armadas Portuguesas, ao contrário de outros, meros oportunistas que pretenderam construir carreiras com base na mentira, e estão a anos-luz de respeitarem a Pátria e os Camaradas que deles dependiam. Marcelino da Mata sofreu por não ser traidor. E durante os últimos dias, também tive oportunidade de testemunhar a tristeza de antigos combatentes, perante a vã-glória dos fracos e vendilhões. Marcelino foi ostracizado pela instituição militar, que devia apresentá-lo como exemplo a seguir, mas eu quero aqui juntar-me aos que o abraçam com reconhecimento de sentimento fraterno.