sexta-feira, 25 de abril de 2014

ASPECTOS DA OPOSIÇÃO AO “ESTADO-NOVO” III

Por razões judiciais tenho feito alguma pesquisa no arquivo do Ministério da Defesa, onde se encontra documentação muito interessante, infelizmente ainda longe de estar toda identificada e tratada.
 
Encontrámos uma miríade de transcrições de emissões de rádios estrangeiras algumas das quais possuíam programas preparados e emitidos por “exilados” portugueses que militavam em Partidos e organizações que lutavam contra o Regime Político instituído em Portugal, em 1933.
Ocorreu-me que seria interessante transcrever alguns trechos dessas emissões para os contemporâneos puderem avaliar o que então se dizia (e as queixas e “denúncias” que se faziam) – na substância e na forma – e poderem comparar com aquilo que se passou a seguir à “Revolução” do 25/4/1974 e com o que se passa hoje em dia.
Não farei comentários deixando a cada um retirar as suas conclusões.
Vou cingir-me à “Rádio Voz da Liberdade”, órgão da Frente Patriótica de Libertação Nacional” (FPLN), que emitia a partir de Argel, entre 1964 e 1974.[1]
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Pessoas amigas alertaram-me, entretanto, para o perigo de que o desconhecimento e ingenuidade de muitos concidadãos, ignorância da História Pátria, aliados à muita desinformação veiculada pelos órgãos de comunicação social e agentes políticos, na actualidade, podem levar a que os menos avisados possam acreditar na veracidade da totalidade dos textos transcritos. Nada, porém, pode estar mais longe da realidade. Aqui fica o aviso que deve sobretudo ser tido em conta, relativamente ao que era dito quanto à guerra que travámos em África durante 14 anos.
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Eis o 3º texto lido em 12/12/1965, com o título “De Vento em Popa”.[2]
“O Almirante Henrique Tenreiro, tipo bem acabado, pertence ao grupo daqueles tantos que fazendo-se passar por fervorosos nacionalistas e insignes patriotas, outra coisa não têm feito que não seja governar-se e bem, à custa da miséria do povo português.
Membro da direcção do partido único e do comando da Legião Portuguesa, deputado dessa caricatura que entre nós se chama Assembleia Nacional, negoceia na Soponata com seu dilecto cunhado Ortins de Bettencourt.
O Almirante comanda navios pacíficos que transportam petróleo. Mas o Tenreiro não se fica por aqui. Ocupando um elevado posto na nossa Marinha de Guerra, navega de Grémio para Grémio e assina o… organismo que superintende no bacalhau… da sardinha, onde não chega o Tenreiro de olho vivo à espera da… o Almirante decidiu ocupar a ponte de comando de tudo quanto diz respeito a peixe e por isso mesmo lá está no cimo da Comissão Central das Pescarias.
E a "Gelmar" que vende peixe congelado é uma sociedade onde se ocupa o Almirante peixeiro.
Isto é uma pequena amostra, porque o Tenreiro tudo espreita e em tudo consegue ganhar bom dinheiro aproveitando-se de todas as ocasiões porque na realidade para ele, tudo quanto vem à rede é peixe.
Só não lhe interessa a pesca desportiva à linha porque essa habitualmente é pouco rendosa. E são tantas ou tão poucas as negociatas em que este tubarão anda metido que Sua Excelência, o Almirante sem esquadra, tem para o seu trabalho particular, nada mais nada menos que quatro secretários: Sr. Rocha, o Sr. Edgar, o Sr. Dr. Silveira e o Sr. Barrete.
Vive à larga este cavalheiro, numa bela residência em Lisboa e dispõe de cinco motoristas: o …. , o José Augusto, o Carlos que o transporta no carro do Grémio e o outro Carlos que o costumava levar no automóvel, quando em serviço da Legião Portuguesa.
Este Almirante, pescador de águas turvas e além doutras possui fabulosas fortunas, à custa daqueles que na faina da pesca arriscam a vida no mar, dependendo de todos quantos rouba e explora e por isso mesmo, além de possuir guardas de polícias de segurança pública à porta, anda permanentemente escoltado por agentes da PIDE, destacados expressamente para esse serviço. Comanda esse grupo de…. O chefe de brigada Jaime e os agentes são os seguintes esbirros, José Ribeiro, António de Oliveira e José Lopes.
Tal como os "gangsters" americanos, o Sr. Tenreiro Almirante sem marinheiros e que para vergonha sua apenas comanda legionários coxos e… faz-se guardar por homens da mesma quadrilha, neste caso a PIDE.
Claro que um cavalheiro de negócios deste quilate tem que ter uma intensa vida de sociedade e, de quando em vez, tem de apaparicar aqueles que com ele se governam também ou ocupam postos influentes onde aquele se serve para levar a bom termo os seus desonestos interesses, enfim o chamado tráfico de influências.
Para isso jantaradas em sua casa. As mais concorridas, servidas por criados de ..ção e libré e quase todas abrilhantadas com gogorjeios e afamados fadistas acompanhados à guitarra para que o ambiente seja postiçamente portugûes, nos salões da residência deste português desnaturado.
A esses banquetes, como convidados de sempre, estão Ulisses Cortês, Ministro das Finanças, o Antunes Varela, Ministro da Justiça, o Quintanilha e Mendonça Dias, Ministro da Marinha, os Comodoros Henrique Jorge, Valente Raso, Duarte Silva, o General Abreu de Loureiro, Marcelo Caetano, Adriano Moreira, enfim tudo quanto há de melhor.
Frequentemente estes festivos saraus de jantar são abrilhantados com a presença garbosa e alegre do Almirante Américo Tomás, membro já muito antigo da quadrilha do Tenreiro.
Até os fadistas se calam. O Tomás com a sua facilidade de frase, com a sua inteligência fulgurante e com a sua conversa variada actua como se fosse um hipnota (sic) põe todos os assistentes a dormir e o Tenreiro, espertalhão e desonesto, tudo isto suporta, mesmo a mediocridade inferior de um pobre de espírito e tipo de atrasado mental que só o Fascismo poderia fazer Presidente da República.
Mas isso para o Tenreiro são pequenos nadas e o que pretende é que continuem os seus rendosos negócios sem atritos, sem tempestades, porque marinheiro de água doce não suporta as tempestades. Assim quer ter na mão aqueles que lhe interessam para não fazerem ondas.
FPLN – Frente Patriótica de Libertação Nacional – a frente de combate do nosso povo.”  
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Eis o 4º texto lido a 11/09/1965, intitulado “A criminalidade em Portugal”.[3]
“Portugal tem sido varrido nestes últimos tempos por uma onda de crimes de toda a espécie – assaltos à mão armada, roubos, ataques a mulheres isoladas, crimes de morte.
Os jornais diários têm assinalado o número e a frequência invulgar desta variedade de crimes, mas no que não tem falado é nas possíveis razões desse aumento de criminalidade.
É sabido que as guerras provocam geralmente o recrudescimento sensível da delinquência, e não é certamente por acaso que em Portugal o aumento da criminalidade se tem vindo a verificar desde o começo das guerras coloniais que têm propagado através de indivíduos que se prestaram a sádicos crimes de guerra contra populações africanas com desprezo pela vida e pelos direitos de cada um.
Quais não serão os efeitos dessa escola de criminosos que são as guerras e a opressão colonial, se pensarmos que vivemos há 39 anos sob a ditadura fascista?
Porque a ditadura fascista é sinónimo de violências, de perseguições, de assassínios contra o próprio povo português. A ditadura fascista é a corrupção da máquina administrativa, dos abusos de poder, o tráfico de influências, as arbitrariedades, as traficâncias de toda a espécie.
A ditadura fascista é … de venalidade, de desvergonha que semeia a insegurança e a … por toda a parte.
No nosso país, todo o egoísmo e crueldade da lei da terra começa pela instigação desmoralizante do fascismo, e só acabará, disso tenham eles a certeza, pela força revolucionária e justiceira do povo honesto e trabalhador.
Os assassinos andam em liberdade em Portugal. E alguns, como sucedeu com os assassinos do médico Ferreira Soares, foram considerados não culpados por um tribunal.
O Governo admite a tortura e o crime político. O Governo admite que a polícia faça fogo sobre os estudantes nas ruas de Lisboa.
Os fascistas ensinam a violência, semeiam a violência. Se há criminosos no governo não admira que a criminalidade aumente.”



[1] Recorda-se que a Argélia tinha ascendido à independência, em 1962, depois de uma longa e cruenta guerra com a França. A Argélia tinha um regime político de partido único de inspiração marxista, cujo 1º Presidente foi Ben Bella. Assumia-se como um país do “Terceiro Mundo” vindo, mais tarde, a situar-se na órbitra da extinta URSS. A FPLN tinha lá o seu “quartel- general”, desde 1962 e o principal apoio. Na FPLN pontuavam Piteira Santos, Tito de Morais e Manuel Alegre. A “Rádio Voz da Liberdade” era um dos seus principais instrumentos e os dois principais (únicos?) locutores eram Manuel Alegre e Estela Piteira Santos.
[2] Arquivo do MDN, Fundo 5/23/8/13.
[3] Fundo 5/23/79/12, do Arquivo do MDN

3 comentários:

Anónimo disse...

Creio que poderá interessá-lo:

http://ultramar.github.io/depoimentos-abilio-pires.html#3-alguns-elementos-sobre-o-bando-de-argel

Cmpts.
Henrique N.

Ricardo Amaral disse...

Este também é interessante http://causadasregras.com/?product=portugal-tempo-de-todos-os-perigos

Ricardo Amaral disse...

"A primeira lição do processo português é que o Exército,a defesa tradicional dos valores e da fronteira territorial da Nação,pode ser um instrumento mortal,quando está manipulado por um grupo selecto de militares politizados por uma ideologia anti-nacional.
Para os países Ocidentais a saída parece ser a politização das forças armadas,seguindo o exemplo do que se fez na URSS e no império asiático-europeu.
Não são necessários os comissários políticos,mas é indispensável uma formação adequada no campo político-ideológico de modo a preparar as tropas para a sua função específica: defender a Nação contra todos os inimigos; internos e externos.
Loureiro dos Santos está errado quando afirma que as FA servem para defender a "democracia".Mas o que é esse regime?É o País que conhecemos ou a oligarquia que tomou conta dele?É uma coisa que passará sobre montes de ossos e ninguém estará disposto a morrer por tamanha mentira.
Há algo que nunca devemos esquecer: com gritos de "Viva Portugal" e de "Viva a Liberdade",e ainda com o "Povo Unido jamais será vencido" destruiu-se Portugal e a liberdade de viver independentemente."

António Marques Bessa in Portugal - Tempo de Todos os Perigos