domingo, 16 de abril de 2017

SÃO SEGUIDAS!...




SÃO SEGUIDAS!...



14/04/17 (Acabado de escrever no 2017º aniversário da morte de Cristo Redentor – o verdadeiro “Justo”).
                                                                      “Há uma arma ainda mais terrível do que a
                                                                        calúnia: é a Verdade”.
                                                                                                       Talleyrand.

            Agora o “está aqui, não, esteve”, Presidente da República Portuguesa, resolveu condecorar a título póstumo o cidadão Aristides de Sousa Mendes (ASM), com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Mário Soares já o tinha agraciado com o grau de “Oficial”, da mesma Ordem, em 15/11/1986).
            A cerimónia ocorreu no pretérito dia 3 de Abril, aniversário do seu passamento. Foi mais uma iniciativa a despropósito, daquelas cujo objectivo parece ser o de querer estar sempre em bicos dos pés; dar-se bem com Deus e o diabo; a verdade e a mentira; o Bem e o Mal.
            Acontece que a vida de ASM, como tem sido retratada, constitui uma das maiores mentiras postas a circular nesta malfadada III República.
            O despautério é impressionante e… arrepiante.
            Marcelo Rebelo de Sousa nem como ser individual, muito menos como PR, pode alegar que não sabe. E não o deve fazer, pois só lhe ficaria mal.
            Ou seja, soube muito bem o que fez, o que lhe fica ainda pior.
            Vamos tentar desmontar (mais uma vez), sucintamente, esta mentira grosseira; esta demagogia infame que nos envergonha, o que, em abono da verdade, o homenageado, bem como a maioria dos seus descendentes não têm culpa nenhuma, a não ser deixarem-se ir na onda.
            Queremos deixar claro, para início de conversa, que esta “campanha” nada tem a ver com reparação de eventuais injustiças nem exaltação de feitos humanitários, dignos de memória – isso é a cortina de fumo pseudo - filantrópica com que se envolve a coisa – mas sim com dois objectivos claros: atacar o Estado - Novo e principalmente a sua principal figura, o Professor Salazar (como foi também a questão do “ouro nazi”) e servir interesses judaicos/sionistas.
            ASM, descendente de uma família de cristãos - novos portugueses nobilitados no século XVIII, nasceu em Cabanas de Viriato, em 19/7/1885 e faleceu em Lisboa, em 3/4/1954. Era católico, monárquico e conservador, como seus pais.
            Combateu a I República e aderiu entusiasticamente à Ditadura Militar, implantada a 28/5/26 e ao regime que se lhe seguiu.
            O agora famoso cônsul teve uma vida atribulada, tanto profissional como familiar, algo infeliz e marcada por incidentes sucessivos. Vivia numa desorganização e falta de dinheiro permanente (devido à sua numerosa prole – 14 filhos – e supostas dívidas de jogo, etc.).
            Daí ter, por exemplo, insistido por todos os meios em conseguir o lugar de cônsul em Antuérpia (para onde transitou, em 1929), que antecedeu o de Bordéus, por ser um dos mais rendosos em emolumentos.
            Tinha, ao que consta, boa índole e fraca cabeça e gozou durante a sua vida da protecção e ajuda, do irmão gémeo, César de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, que foi um embaixador respeitado, já agora, conhecido do então Presidente do Conselho de Ministros (PCM). [1]
            A sua vida profissional foi uma sucessão de desacertos, repreensões (oito) e processos disciplinares (cinco), tendo o primeiro sido levantado em 1917, quando ASM prestava serviço em Zanzibar. Estes problemas tiveram a ver sobretudo, com abandono de posto sem autorização; irregularidades nas contas; polémicas e desavenças com comunidades que era suposto servir e desobediência no cumprimento das regras estabelecidas.
           Apenas foi promovido uma vez, de cônsul de 2ª classe a 1ª, mantendo-se nesta categoria 22 anos e falhando o concurso de acesso a cônsul- geral/conselheiro.
            Ao tempo dos eventos de Bordéus, para onde foi nomeado, em 1938, ASM era pois conhecido no MNE e não pelas melhores razões.
            Neste ano conheceu a francesa Andréa Cibial, que se tornou sua amante e de quem logo teve uma filha. A conduta desta senhora, algo desbragada, originou vários escândalos e desentendimentos familiares.
            Mas vamos ao ponto.
            A questão dos refugiados judeus só verdadeiramente se começou a colocar a partir da anexação da Áustria, em 1938; piora a partir da invasão da Polónia, em 1 de Setembro de 1939 e torna-se um caso dramático a partir do ataque alemão á França, em 10 de Maio de 1940, o que originou milhões de deslocados, cuja grande maioria nem era da religião mosaica.
            Sem embargo, já nos anos 30, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), que antecedeu a PIDE, tinha desmantelado algumas redes de falsificação de passaportes portugueses e logo a partir de 1933, tinha alertado o MNE para a necessidade de estabelecer regras rigorosas na concessão de vistos a fim de evitar que pessoas indesejáveis viessem para Portugal.
            Com o início da guerra, sem embargo da apertada vigilância exercida nas fronteiras, continuava a haver um grande descontrolo.
            Havia muitas entradas clandestinas e falsificação de documentos e falsas declarações. [2]
            Face a muitos procedimentos irregulares existentes nas embaixadas e consulados portugueses, foi exarada a circular nº 14 do MNE, a 11 de Novembro de 1939, a fim de tentar por ordem neste âmbito, obrigando os serviços consulares a consultar o PVDE e o Ministério, antes de concederem vistos a apátridas, russos e judeus expulsos dos seus países.
            Porém os consulados tinham autonomia para conceder vistos desde que qualquer refugiado provasse que apenas queria passar pelo território nacional a fim de embarcar para outro destino.
            Note-se que esta circular não tinha qualquer sombra de anti-semitismo e era bastante menos restritiva do que a legislação de outros países, nomeadamente os EUA. E também se deve ter em conta que o estado de pobreza do país não permitia acolher vagas de refugiados.
            Ora ASM violou sistematicamente as directivas recebidas, tendo inclusive, falsificado documentos, ausentando-se do seu posto sem autorização e tudo isto mesmo antes da invasão da França.
            Deve referir-se que a política definida e o comportamento do Estado para com o então cônsul em Bordéus, se pautou pela maior correcção e muita água benta...
            Entretanto o cônsul ASM foi várias vezes admoestado, tanto directamente como através da nossa embaixada em Paris, para se ater às instruções emitidas.
            Mas o que fez actuar o Governo Português contra o cônsul em Bordéus, foi uma “queixa” da embaixada inglesa em Lisboa, recebida a 20 de Junho de 1940 – que inclusive acusou ASM de passar vistos em troca de dinheiro – a que acrescia as pressões do governo espanhol e também do governo alemão.
            Aparentemente ingleses e americanos tinham receio que no meio dos refugiados viessem espiões do Eixo.
            A situação política e diplomática era pois, muito delicada e de Lisboa foram emitidas directivas no sentido de haver prudência e rigor na avaliação dos vistos.
            ASM não cumpriu com as directivas e, por isso, foi exonerado de funções e objecto de um processo disciplinar, em 4/7/40, ordenado por Salazar, que acumulava na altura, o cargo de MNE. [3]
            Foram encarregados da investigação os funcionários Francisco de Paula Brito e o Conde de Tovar. A nota de culpa continha 15 acusações, agrupadas em quatro rubricas: desobediência; abandono do lugar; falsificação de documentos e concussão (extorsão ou peculato cometido por funcionário público no exercício das suas funções).
            ASM foi acusado de vários crimes (o que daria prisão) mas tudo se ficou por um processo disciplinar. Se isto é perseguição…
            O cônsul acabou punido com suspensão de funções, mas nunca demitido, sendo mentira o que agora se diz de que foi deixado na miséria, pois não o expulsaram do serviço do MNE, reduzindo-lhe todavia a pensão em 50%, durante um ano, findo o qual seria aposentado. Situação que, estranhamente, nunca viria a acontecer.
            ASM casou segunda vez, com a sua amante de muitos anos, após a sua dedicada esposa Maria Angelina, ter falecido em 1948, mas a sua vida familiar continuou “acidentada”.
            Apesar de ter recorrido para o MNE da sua situação, nunca conseguiu refazer a sua vida profissional, tendo acabado de falecer no Hospital da Ordem Terceira, ao Chiado, em 1954, só, endividado e apenas acompanhado de uma sobrinha.
            O assunto caiu no esquecimento e só veio a ser desenterrado após os eventos ocorridos a 25/4/74, quando o Embaixador Bessa Lopes, que entretanto virara comunista, resolveu mexer no processo.
            Mas nada sucedeu de relevante.
            Foi preciso chegar ao tempo em que o Dr. Jaime Gama foi Ministro dos Negócios Estrangeiros, nos anos 80, para que houvesse uma tentativa de devassar o que estava arquivado sobre ASM. Como estava classificado como confidencial, tal acesso foi negado. Uma das pessoas que o tentou consultar foi a jornalista Diana Andringa, cujas ligações convém conhecer (mais tarde foi a guionista do filme “ASM, o Cônsul Injustiçado”).
            Quando Durão Barroso ocupou por sua vez o lugar de MNE os documentos foram desclassificados dando-se início àquilo que culminou agora com esta condecoração.
            Pelo meio escreveram-se livros; participou-se em homenagens em Israel; fez-se um filme que passou na TVI; indemnizou-se a família, constituiu-se uma fundação e condecorou-se o falecido. Etc..
            A Assembleia da República desclassificou-se ao aprovar por unanimidade, a Lei nº 51/88, de 26 de Abril, que reintegra ASM na carreira diplomática, donde ele nunca tinha sido expulso…
            Com dinheiros retirados do Fundo para as Relações Internacionais, existente no MNE (cerca de 70.000 contos), foi financiada a família do cônsul, a fim de ser recuperada a casa de família, em Cabanas de Viriato.
            O que aconteceu a esse dinheiro é objecto de especulação, pois as obras não foram efectuadas.
            Tal passou-se no segundo consulado, como MNE, do Dr. Jaime Gama, que temos por pessoa impoluta e não entendemos como entrou nesta toada.
            Está ainda por explicar cabalmente, também, qual a acção e o propósito, do congressista luso-americano, Tony Coelho, que veio a Portugal, por duas vezes, á frente de uma delegação do Congresso Americano, pressionar as autoridades portuguesas a favor da “reabilitação” de ASM.  
            Chegou-se ao ponto de publicitar a figura de ASM de tal modo, nos “media”, que naquele infeliz concurso televisivo dos “grandes Portugueses”, ASM, que 95% da população desconhecia em absoluto quem era, foi catapultado para as 10 figuras mais votadas, ficando em 3º lugar…
            E até um embaixador israelita, o senhor Ehud Gol, exorbitando as suas funções e sendo mal - educado, exaltou ASM, numa intervenção na Gulbenkian, em 30/10/2012; lamentou que o Estado Português não fizesse mais pela sua figura (um “justo” segundo ele) e nem cuidasse da sua antiga residência!
            O MNE comeu e calou…
            Como tudo o que se passa no MNE, e é de tradição, é sepultado numa tumba fechada a sete chaves, pouco transpira.
            Aliás tudo o que se tem passado é “surreal”: por exemplo, como é que vários diplomatas portugueses, nomeadamente os embaixadores em Budapeste, Sampaio Garrido, e Teixeira Branquinho; o embaixador em Berlim Veiga Simões e respectivo cônsul, Mário de Faria e Melo Duarte; o ministro em Berna, embaixador José Jorge Rodrigues dos Santos; o ministro em Ancara, Calheiros e Menezes e até o cônsul honorário em Milão, Giuseppe Magno e o cônsul em Genebra, Alfredo Casanova, por ex., passaram imensos vistos a judeus e não só, e nunca são citados, ou louvados?
            São menos do que ASM? Como é que há quem diga que ASM passou 30.000 vistos (alguns até afirmam que tal ocorreu em três dias…)? Se fizerem umas contas simples aperceber-se-ão da idiotice do número. [4]
           De igual modo é preciso enfatizar, que ASM nunca salvou ninguém do Holocausto! Em 1940 não havia notícias de os judeus serem amontoados em campos de concentração, ou correrem perigo de vida![5]
            E porque ninguém fala na operação “Sud Express” – essa sim digna de memória – organizada pelo Governo Português, a pedido da Espanha, completamente clandestina, executada pelo Dr. Francisco Leite Pinto, então Presidente da Companhia de Caminhos de Ferro da Beira Alta, que transportou para o nosso país cerca de 30.000 refugiados que se encontravam indocumentados, em Hendaya, e foram transportados gratuitamente, em fins de Junho e Julho de 1940?
            Finalmente porque é que o único funcionário do MNE - Ministério que está fartinho de saber toda a verdade dos factos – o Embaixador Carlos Fernandes é que teve coragem de denunciar as mentiras propaladas? [6]
            E pergunta-se: se um diplomata português hoje dia, tivesse feito um décimo do que ASM fez, transgredindo as instruções recebidas, faziam-lhe o quê? Davam-lhe umas palmadinhas nas costas, ou levantavam-lhe, do mesmo modo, um processo disciplinar?
            Deste modo, se urdiu uma monumental e leviana falsificação da Histórica, que nos rebaixa, parecendo que nos exalta, e que apenas serve a ideologias malsãs; gente sem escrúpulos e interesses subterrâneos.
            E que pulsão terá movido o frenético inquilino de Belém a impor-lhe mais esta prebenda que ele de todo não merece e melhor calhava a outros?
            Ou foi apenas a antecâmara para o sepultar de vez, um destes dias, no já desacreditado Panteão de Santa Engrácia?
            Os países possuem por vezes “segredos de estado”. Não é o caso de ASM.
            O caso de ASM passou simplesmente a ser uma vergonha de Estado.
            Do Estado Português!


                                                     João José Brandão Ferreira
                                                        Oficial Piloto Aviador





[1] E que chegou a ser Ministro dos Negócios Estrangeiros entre 5/7/32 e 11/4/1933, nomeado por Salazar.
[2] Segundo estatística da PVDE, só entre Setembro e Dezembro de 1939, entraram em Portugal via Lisboa e Leixões, 8839 estrangeiros.
[3] Dei-me ao trabalho há muitos anos de ir ao Arquivo do MNE e ter fotocopiado o processo disciplinar, que tendo todo o gosto em facultar a quem quiser consultar. Já na altura, porém, corriam “boatos” de que algumas peças do arquivo do MNE sobre ASM tinham desaparecido.
[4] Existem números oficiais: por exemplo nos primeiros 10 dias de Junho o consulado de Bordéus emitiu 59 vistos regulares; a 11/6 emitiu 67 vistos e a 12, 47. No dia seguinte emitiu apenas 6. A 14, emitiu 173 vistos, e a 15, 122; a 16, emitiu 40 vistos. A 17, ASM “alegadamente inspirado por um poder divino”, decidiu conceder vistos a todos os que lhe solicitassem, e ajudado pelos seus filhos e sobrinhos e do rabino Kruger (uma personagem no mínimo controversa), emite 247 vistos; a 18, 221 e no dia 19, 156 vistos.
Em 22 de Junho de 1940, a França e a Alemanha assinaram um armistício. Os refugiados (mais de seis milhões) começaram a regressar a suas casas.
ASM continuou a emitir vistos em todo o tipo de papel, que não eram aceites na fronteira espanhola.
O embaixador de Portugal em Madrid, Pedro Teotónio Pereira, vai a Irún, onde encontra ASM descrevendo-o “com um aspecto de grande desalinho, um homem perturbado e fora do seu estado normal” e não ter o cônsul “a mais ligeira noção dos actos cometidos”.
O que bate certo com as notícias de grande esgotamento nervoso e depressão, reportados em Bordéus por diversas personagens.
[5] Só a partir da conferência de Wannsee, localidade perto de Berlim, em 20/1/42, organizada por Reinhard Heydrich, se acordou a chamada “solução final”, para os judeus, e não só. E antes de 1944, praticamente ninguém sabia nada do que se passava.
[6] Este embaixador teve que fazer uma edição de autor, em 2013, do seu livro “O Cônsul ASM, a Verdade e a Mentira”, após ter contactado cerca de 90 editores e todas se terem recusado a editar a sua obra! Este livro desmonta quase a par e passo aquilo que vem escrito noutro livro de autoria de Rui Afonso, auto intitulado biógrafo de ASM e mistificador do mesmo.
Deve ainda acrescentar-se que o Embaixador Hall Themido, no seu livro de memórias, também desmonta o mito de ASM.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A CORRIDA AOS NOMES DOS AEROPORTOS…



A CORRIDA AOS NOMES DOS AEROPORTOS…
3/4/17

                A tradição – se é que alguma – em Portugal de baptizar os aeroportos, era o de os designar pelas terras onde estavam inseridos.
                Daí o aeroporto que servia Lisboa, se chamar da Portela, o do Porto, ser Pedras Rubras, o de Faro, Faro e o das ilhas (já nem vou ao ultramar) era o das respectivas localidades (Ponta Delgada, Horta, Funchal, etc.).
                Do mesmo modo os “aeródromos” da Força Aérea, eram e são, apelidados pela povoação onde se inserem, antecedidos de um número, por exemplo: Base Aérea Nº 1, Sintra; Aeródromo de Manobra nº 3, Porto Santo, e assim sucessivamente.
                Apenas alguns dos aeródromos civis, normalmente tutelados por câmaras municipais, tinham um nome associado, por exemplo, o de Coimbra, chama-se Bissaya Barreto.
                De repente deu uma febre qualquer na classe política e desatou tudo a querer rebaptizar o existente, segundo os ditames da melhor tradição jacobina e bolchevique de mudar os nomes às coisas a fim de as tornar conformes ideologicamente.
                 A coisa começou isolada, com a atribuição do nome de Sá Carneiro a Pedras Rubras, em 1990.
                Enfim, o senhor era filho da terra, tinha-se destacado na sociedade portuguesa como advogado e político – apesar de nem sempre pelos melhores motivos – e tinha morrido no exercício das funções de Primeiro-Ministro, em situação trágica (justamente ao descolar de Lisboa com destino ao Porto), ainda hoje objecto de controvérsia, ganhando um estatuto “de quase mártir”, sem embargo da ocorrência ter evidenciado graves falhas de segurança, organização, profissionalismo e até, bom senso.
                A que se deve acrescentar uma investigação verdadeiramente amadora, restando saber se foi circunstancial ou propositada.
                Mas, de há pouco tempo a esta parte a coisa passou a dar-lhes forte.
                Começou com a mudança da Portela para Humberto Delgado, em 15/5/16; seguiu-se a proposta a despropósito do actual PR, feita em 12/2/17, para chamar ao putativo acrescento da Portela, no Montijo, de “Mário Soares” e culminou agora com a atribuição do nome do Cristiano Ronaldo, em 29/3/17, à infraestrutura aeronáutica que serve a ilha da Madeira.
                Aguarda-se em jubilosa ansiedade o que mais virá por aí![1]          
               Ora neste âmbito não se descortina qualquer lógica, racionalidade ou justeza nas decisões.
                O que apenas transparece é um aproveitamento político/demagógico que tudo submerge a que na Madeira, se deve adicionar um interesse de chamariz turístico.
                O que faz sentido é atribuir nomes dos aeroportos a personalidades ligadas ao meio aeronáutico e que, nesse âmbito, se tenham evidenciado.
                Felizmente neste caso não temos falta de nomes, desde logo o de Bartolomeu de Gusmão, que deve ser considerado o “Pai” do mais pesado que o ar, português; aos pioneiros da aerostação e da aviação, passando pelos grandes aviadores das primeiras viagens aéreas dos anos 20 e 30, equivalentes às dos nautas de outros tempos; até a personalidades civis e militares que se distinguiram tanto em tempo de paz como em tempo de guerra. Neste particular encontram-se nomes muito mais adequados e merecedores do que aqueles que agora se desenterraram para o fim em vista.
                Por outro lado, digamos, é aceitável que se possa dar a um aeroporto importante o nome de uma personalidade política que se tenha destacado na História do país. Tal justifica, por exemplo, que um dos aeroportos que servem Paris se chame “Charles de Gaulle”, embora o outro mantenha o nome da localidade onde foi construído, Orly.[2]
                                                                      *****
                Ora não parece, salvo melhor opinião, que tal se possa aplicar aos escolhidos – o caso de Humberto Delgado (HD) é até, neste âmbito, aberrante.
                Escusam de estar a arregalar os olhos, que eu já esclareço.
                HD - feito marechal indevidamente, por a sua proposta não ter tido parecer favorável do então Supremo Tribunal Militar – foi escolhido por uma parte minoritária de políticos defensores de uma determinada ideologia.
                Ideologia e escola de políticos, que o corajoso, mas muito pouco atinado general, combateu furiosamente durante a maior parte da sua vida.
                E acaba por ser premiado não por qualquer coerência política ou de serviços prestados ao país; tão pouco pelo facto de ter sido aviador – campo onde não demonstrou qualquer virtuosismo assinalável – ou de ter estado ligado à Direcção - Geral da Aeronáutica Civil, ser representante português na ICAO e ter participado nas negociações que levaram ao estabelecimento dos ingleses na ilha terceira durante a II GM. Ou, até, por ter estado ligado à fundação da TAP.
                Mas sim por ter passado a ser bandeira da Oposição ao regime do Estado Novo, a partir de 1958 – com excepção dos comunistas, que lhe chamavam o “general coca-cola” (ele era anti – comunista primário e não regateou elogios a Hitler) – quando se malquistou pelas piores razões, com alguns governantes que não lhes quiseram conceder determinados lugares rendosos que a sua ambição desmedida exigia.[3]
              Tudo isto depois de ter abominado a I República, ter participado no Golpe de Estado Militar do 28 de Maio, de 1926; ter assumido funções de confiança no Regime do Estado Novo, e até ter sido punido por excesso de zelo “Fascista” (leiam o folhetim radiofónico “Da Pulhice do Homo Sapiens”, de sua autoria…).
             Certo é que no 80º aniversário da implantação da República - regime que ele combateu e execrou enquanto vivo – o transladaram para o Panteão Nacional. Se a hipocrisia pagasse impostos…
               Ter morrido, em 1965, às mãos de uma brigada da PIDE enviada a Espanha para o prender, foi a cereja em cima do bolo.
                Resta perceber a aparente incompetência revelada pelos seus membros, na cilada planeada; o que deu origem ao disparo e as verdadeiras razões porque foi feito, já que parece não haver dúvidas sobre o autor, que provavelmente levou o segredo para a cova.
                Assim como falta objectivamente saber e assumir, quem e como, empurrou HD para a cilada, ou se, este desiludido com a experiência de vida dos últimos anos, pura e simplesmente se vinha entregar.
                Agora que, face às circunstâncias é uma aberração o nome dele ter substituído o da Portela, isso é.
                                                                                 *****
              O nome de Mário Soares é outro absurdo.[4]
                Em primeiro lugar porque ainda não foi tomada oficialmente a decisão de que o complemento da Portela será no Montijo – e se imperar o bom senso face aos constrangimentos existentes e suas consequências, tal decisão jamais será tomada – depois por ter sido uma hipótese aventada com um pé no ar e, depois, por nada o ligar à aeronáutica senão o facto de ter dado o equivalente a várias voltas à terra, de avião, em visitas “de Estado” e também o de ter o estranho hábito de quase sempre que voava na TAP pedir lagostins para a refeição.
              Mas, sobretudo, por não merecer.
                A opinião ilustra-se através do concurso pífio da Drª. Maria Elisa Domingues: houve aí um erro de “casting”; é que Mário Soares não devia concorrer no concurso sobre o “melhor português de sempre”, mas sim ao do pior português desde que o Afonso Henriques teve a felicidade de vencer o combate de S. Mamede, em 1128. Aí sim, tinha amplas hipóteses de ficar nos primeiros lugares (e não é certo que conseguiria bater o Álvaro Cunhal…).
               E não, ele não é o pai da “Democracia” em Portugal, como por aí enchem a boca. Esse título cabe ao Bacharel Manuel Fernandes Tomás (1771-1822), doutrinador e principal expoente da Revolução Liberal ocorrida no Porto, em 1820…
                Não vou perder mais tempo com tão ruim defunto lamentando apenas que o PR tenha botado opinião extemporaneamente e com isso tentado, desde logo, marcar terreno e condicionar tudo e todos.
              Será que anda a estudar o Luís XIV, que dizia que “o Estado sou eu”?
                Mas talvez, por ironia do destino ou justiça divina, aqueles que tão prestes mudaram nomes de ruas, apearam estátuas e denegriram figuras de muito maior gabarito que o seu, venham, um dia, a sofrer igual sorte quando a roda da vida e da História trilhar outros caminhos.
                                                                               *****
                O caso de Cristiano Ronaldo é apenas confrangedor. E tal assertividade não põe, nem quer pôr, em causa a pessoa do ainda jovem madeirense cuja qualidade como atleta é inquestionável e nada fez até hoje que nos envergonhasse. E tem sido, sem dúvida, uma mais-valia para o bom nome de Portugal e dos portugueses.
              Mas, até por ser tão jovem, nada garante que se venha a aviltar, por qualquer razão, antes de entregar a alma ao Criador. Nesse caso faz-se o quê, depois?
                Onde está então o problema?
                O problema está em que está tudo fora do seu lugar e sobretudo porque a atribuição desta honraria é reflexo da pobreza espiritual do país.
                Isto é, o nosso país vive numa mentira histórica que criou para si mesmo: num regime político cheio de erros e vícios; num relativismo moral galopante; num inverno demográfico tenebroso; numa corrupção aritmética sustentada; numa ficção financeira suicida; num vazio de preocupação geopolítica, etc., e por tudo isto carecido de qualquer estratégia, objectivo e rumo.
               Sendo o atrás citado substituído por pão, circo e aldrabices. Pouco pão e muito circo, basicamente vertido em futebol e novelas (Fátima e o Fado estão de boa saúde, graça a Deus).
              E, pelos vistos, ter habilidade em dar chutos numa bola prefere aos rasgos havidos em qualquer outra profissão…
                Cristiano teve o azar, isto é, a sorte de calhar como mel nesta sopa!
                Daí que eu sugeria para compensar, que o estádio do Marítimo se passasse a chamar Sacadura Cabral e o estádio do Nacional, apelidado de Gago Coutinho, por acaso os “aeronautas” que em 1921, fizeram a primeira travessia aérea entre o “Contenante” e a ilha da “Semilha”, vulgo Madeira.
                Assim, pelo menos, ficávamos algo quites.


                                                               João José Brandão Ferreira
                                                              Comandante de Linha Aérea


[1] Arrisco até a pensar que o “nome de Bissaya Barreto”, admirador de Salazar, apesar de ter sido carbonário, ceda o lugar ao glorioso assaltante de bancos Palma Inácio – que por lá se escondeu – e o pai Mortágua vá designar o nado morto terminal aéreo civil, de Beja – que diabo, ao menos estes estão entre os pioneiros da pirataria aérea moderna!

[2] Embora também parcialmente em Villeneuve-le-Roi
[3] Uma longa - metragem não chegava para descrever tudo o que se passou, embora muito diferente dos filmes que têm contado a vida dele…
[4] E compará-lo ao DE Gaulle é como comparar o olho do “sim senhor” com a feira de Castro…

Escrito "De Como Portugal se tornou independente do Brasil e suas consequencias"

     Ontem foi 7 de Setembro. Data do "Grito do Ipiranga".    Mais um infausto acontecimento para a Nação Portuguesa...    Fica aq...