Este blogue apresenta os pensamentos, opiniões e contributos de um homem livre que ama a sua Pátria.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
sábado, 25 de outubro de 2014
PILOTOS E EDUCAÇÃO FÍSICA: UMA RELAÇÃO ESQUECIDA OU NUNCA ENCARADA?
O 1º curso de pilotagem que foi
ministrado em Portugal remonta ao ano de 1916 e a Vila Nova da Rainha.
Foi
um curso de âmbito militar, conhecido por “curso histórico”, ministrado por
instrutores que tinham ganho as suas “asas” em França e Inglaterra. Estávamos
em plena I Guerra Mundial.
Daí
para cá a Aeronáutica Militar e a Aviação Naval reunidas, em 1952, na Força Aérea,
nunca mais deixaram de formar pilotos e todas as outras especialidades ligadas
ao pessoal navegante e àquelas que permitem que as aeronaves cumpram as suas
missões na 3ª dimensão do espaço.
Não
se sabe é até quando, pelo andar da carruagem da “austeridade”, se vai
conseguir manter esta capacidade de nos instruirmos a nós próprios…
A
primeira escola para pilotos civis recua a 5/6/1930, quando a mesma foi formada
no seio do Aeroclube de Portugal, fundado em 11/12/1909. A escola funcionou,
inicialmente, na Esquadrilha de Aviação República, na Amadora.[1]
Serve
isto para dizer que Portugal foi dos primeiros países no mundo a criar
capacidades e saber, para ministrar cursos de pilotagem (fiquemos por estes) e
que tem basta experiência no assunto. Ou seja, os cursos que se fazem hoje em
dia são resultado de vasta prática, actualizada com aquilo que melhor se fazia
no estrangeiro e suficientemente “mastigada” para que o produto final seja
fiável e de qualidade, sem embargo da pressão que passou a existir
relativamente ao encurtar de gastos/custos, que uma actividade destas comporta.
Na
área militar por causa da compressão dos orçamentos da Defesa e da cada vez
menor importância que as FA gozam perante a classe política; na área civil
porque tudo é “negócio”, apesar do impacto que determinadas decisões têm na
proficiência dos pilotos e na segurança de voo.
Contudo,
apesar da experiência consolidada em termos dos “curricula” e no modo de operar,
de como ensinar um cidadão a ser piloto, uma área existe que não tem merecido a
devida atenção: a educação física.
Não
vamos falar da parte militar onde esta situação está contemplada por
especificidades próprias (embora de alguns anos a esta parte já muito “apaisanadas”),
mas sobretudo no campo civil, âmbito a que nos vamos confinar.
Numa
palavra, a educação e preparação física nos cursos de pilotagem (já agora em
qualquer outro), é igual a zero pela simples razão que não existe.
Ora
isto é uma falha e uma omissão muito indesejável.
Apela-se
aqui e desde já, para o INAC, como autoridade aeronáutica nacional, a fim de
equacionar a questão.
Questão
que deve ser tida em duas vertentes: a preparação física propriamente dita e o
gosto e conhecimento para a prática de actividade de manutenção da condição
física que possa acompanhar o profissional do Ar para toda a sua vida útil.
Acreditem
ou não, mas durante a minha actividade de instrução (que já leva algum tempo)
não é o 1º, nem o 2º, nem o 3º, aluno(a) com que topo cujos bíceps não aguentam
o arredondar da aeronave antes de tocar novamente a crosta terrestre (leia-se pista)
…
A
necessidade de ter uma razoável preparação física para quem é pessoal navegante
(não se aplica só a pilotos) é uma verdade “lapalissiana” que encontra a sua
síntese justificativa na célebre frase latina “mente sã em corpo são”. Mas há
evidências que não entram pelos olhos dentro, sobretudo em que não as quer ver…
Daqui
se tira que a preparação física deve ser tida em conta no instante do
recrutamento e selecção dos candidatos (muito ténue no meio civil) e que esta
deve contemplar testes psicofísicos e psicométricos.
E
defender, como muitos fazem, de que a educação física deve ficar ao critério e
livre alvedrio dos jovens, não resiste à mais elementar observação, muito menos
quando não se impõem tabelas mínimas para o acesso a uma dada profissão.
*****
Como
se sabe o corpo humano é uma máquina, das mais perfeitas que se conhecem.
Máquina
que transforma energia química em energia mecânica e que possui 305 ossos e 434
músculos.
Através
do pensamento (cérebro) esta energia mecânica é transformada em movimentos, os
quais implicam uma grande coordenação de sinergias várias.
A
capacidade de desenvolver um “gesto automático”, gastando a mínima energia
possível - conhecido pelo “estereótipo motor-dinâmico” - é fruto da repetição
de um gesto voluntário que ao fim de um determinado número de repetições (cerca
de 1000) se torna automático.
Enquanto
o “gesto voluntário” depende do córtex, o “automático” depende do tálamo e o
comportamento reflexo está ligado ao “bolbo, ou medula alongada”. Todos, porém,
têm que estar em interacção.
Ora
tudo isto envolve o que é conhecido por “coordenação motriz”, que está na base
da coordenação óculo-manual e espácio-temporal.
Por
ser assim que as coisas se passam, é que é essencial que haja movimentação dos
segmentos ósseos (alavancas) que são acompanhados das forças que os movimentam (os
músculos).
Ora
só através daquilo que nós conhecemos por educação física – modernamente
chamada de “cinesiologia” – se consegue realizar todas estas funções com
sucesso.
Sendo
o treino físico imprescindível não só para o aperfeiçoamento de qualquer gesto
ou movimento, mas também para criar, logo obter, confiança e segurança no
exercício das actividades do dia – a - dia ou, sobretudo, aquelas que são mais
específicas de uma profissão, como o caso da pilotagem.
E já nem falo na importância que a
preparação física tem na resistência ao “stress”, à fadiga, no aumento da
capacidade cardiovascular e à sensação de bem-estar e autoconfiança que
provoca.
Tudo isto passa, obviamente, pela parte
psicológica que dá estabilidade necessária a todo o sistema (o tal estereotipo
motor-dinâmico) e que hoje se pode manter até aos 65 anos desde que não haja
historial de álcool e drogas.
Parece
evidente que o que atrás se disse é importante para todos os seres e
profissões, e não parece ser difícil de entender que, para quem anda aos
comandos de uma aeronave, tal seja essencial.
Formar
pilotos sem a componente “educação física” é estar à partida a limitar
drasticamente (estima-se que até 50%) as capacidades e potencialidades
existentes no ser humano, além de tornar mais morosa e difícil a aprendizagem.
E
representa ainda um perigo acrescido dado que os chamados “circuitos
recorrentes” que originam o “feedback” passam a ser em número muito menor o que
diminui o controlo da (nossa) máquina humana que, por sua vez, terá de
controlar a outra máquina (aeronave).
Face
ao exposto não parece difícil de concluir que deviam existir tabelas mínimas de
performance física para os candidatos a pilotos (o que já faria os candidatos
começarem a preparar-se desde mais novos) e fazer acompanhar os “curricula” dos
cursos com aulas obrigatórias de Educação Física (2 a 3 vezes por semana).
Isto
exige, como é bom de ver, meios que as escolas não têm mas que teriam que
passar a ser criados, por serem requisito: seria o mesmo que não ter legislação
aérea, na parte teórica ou um mecânico a apoiar a actividade aérea diária.
É
necessário, basicamente, professores/monitores e instalações desportivas. Tal
pode ser conseguido com o apoio dos aeródromos onde se ministram actividades
aéreas; conjugação de esforços entre escolas; aluguer de espaços (ginásios,
campos desportivos/piscinas), etc., ou até construção de raiz, onde e quando
tal se justifique.
Não
vou entrar no tipo de exercícios/desportos que interessem ou não fazer – deixarei
isso para os especialistas – mas não posso deixar de tocar um último ponto que
é o da necessidade de ensinar aos futuros profissionais o que eles podem e
devem fazer, como ginástica de manutenção durante a sua vida futura.
E
não resistimos a recordar como boas práticas para pessoal navegante: a esgrima,
o pingue - pongue, o ténis, o golfe, a natação, o voleibol, etc..
Além
de boas aterragens, desejo-vos uma boa transpiração.
[1] Os primeiros pilotos civis
foram, todavia, formados na Antiga Escola Militar, na Granja do Marquês; uns
anos antes. Foram eles: Carlos Bleck; Manuel Vasques; Sousa Santos e Maria de
Lurdes Sá Teixeira – a 1ª mulher piloto a ser formada em Portugal (6/12/1928).
domingo, 19 de outubro de 2014
ALPOIM CALVÃO: HERÓI NACIONAL
Camões, Lusíadas, Canto I, 2.
O Capitão de Mar-e-Guerra
Guilherme Almôr Alpoim Calvão (AC) deu a alma ao criador, no pretérito dia
30/9/14, após longo e excruciante período de doença, que suportou com invulgar
serenidade e estoicismo.
Sobre AC já disse o principal que
sobre ele pensava na apresentação do seu livro biográfico, há cerca de um ano,
na cidade de Viseu – a “cava de Viriato”.
No seu funeral estiveram
presentes o PR, através do seu Chefe da Casa Militar; os Chefes Militares,
através de oficiais generais de duas estrelas, com excepção da Marinha cujo
Chefe de Estado - Maior – que, por motivos de agenda ponderosos, não pode estar
presente – se fez representar por um Almirante de três estrelas. O General
Ramalho Eanes também esteve presente.
Primaram pela ausência o Governo
e o Parlamento (pelo menos que se desse conta).
A maioria da Comunicação social,
tão loquaz e voluntariosa aquando de algum crime que envolva pederastas ou no
acompanhamento de assuntos menores e barbaridades avulsas foi, desta vez, parca
em notícias dando, invariavelmente, realce à acção de AC enquanto figura
proeminente do MDLP.[1]
AC era um dos poucos portugueses
vivos agraciados com a mais alta condecoração nacional – a Torre e Espada –[2] (não estamos a incluir os
ex-PR, que a têm por diuturnidade), por altos feitos em combate e relevantes
serviços ao país, no que está à altura dos Grão – Capitães portugueses da
estirpe de um Duarte Pacheco Pereira, Francisco de Almeida ou Mouzinho de
Albuquerque, só para citar estes.
Mas, mesmo assim, as gentes
pequeninas que vão pontuando pelo país entenderam por bem, alhear-se de tão
elevada figura ou tentaram mesmo menorizá-la.
AC pertenceu, ainda, à nobre
plêiade de portugueses que entenderam que a Pátria nada lhes devia – pois
apenas tinham cumprido o seu dever – e por isso nunca se colocou em bicos dos
pés requerendo coisa alguma.
Deixou apenas um pedido a um
antigo camarada de armas e de curso, para que as suas cinzas fossem largadas ao
mar, na foz do rio Tejo, entre torres – designação que na gíria naval significa
o espaço compreendido entre a Torre do Bugio e a Torre de S. Julião da Barra –
e na maré vaza.
Era um desejo que honra a sua
alma de grande marinheiro.
Quis a Marinha Portuguesa,
através dos seus legítimos representantes assumir, ela própria, a consumação
deste último desejo. Fez bem.
Foi um gesto da mais elementar justiça e que
só a enobrece.
E que se deve assumir como preito
de homenagem e finalização das honras fúnebres, como se fazem aos marinheiros
no alto-mar.
Tive a honra de estar a bordo e
assistir ao acto. Aqui fica um agradecimento público.
A juntar às incompetentes
notícias, ou falta delas, já reveladas do anterior, veio agora o Bloco de
Esquerda – esse grupelho desqualificado – questionar o, também, desqualificado
Ministro da Defesa, sobre a licitude da homenagem e se ele, ministro, a
autorizou - como se o CEMA fosse algum gaiato de bibe que tivesse que pôr o
dedo no ar cada vez que queira ir à casa de banho…
Acompanhou o BE, o agora também
desqualificado Diário de Notícias (DN), tido como jornal de referência –
cabendo perguntar ser referência de quê? – através da pena de um jornalista
amplamente referenciado.
É infelizmente prática antiga,
permitir-se nos órgãos de comunicação social comentários anónimos e por vezes
soezes, sobre as notícias ou textos de opinião que publicam. O DN não foge à
regra permitindo que os cobardes e os sem carácter, bolsem os seus miasmas sem
terem que assumir a responsabilidade do que dizem.
Isto não revela apenas quão longe
estamos do tão propalado “estado de direito democrático”, como é sintoma de um
grave retrocesso civilizacional!
Mas atentemos nas questões
fulcrais dos ataques, das meias verdades, das meias notícias que acompanharam o
passamento desta notável figura de português, de combatente e de carácter, que
toda a gente tem evitado comentar?
Tirando a sua actividade como
oficial do activo – que é aquela, note-se, pela qual a Instituição Militar o
distingue- toda a gente sabe que AC foi uma pessoa controversa, mesmo no seio
da Armada.
A primeira tem a ver com o facto
de AC ter sido um herói nas últimas campanhas ultramarinas em que combatemos e
as mesmas terem sido, desastrada e erradamente, taxadas com o epiteto negativo
de “coloniais” e terem sido consideradas por muitos como “guerras injustas”.
Ora, para estes adiantados
mentais não faz sentido, haver heróis em guerras injustas…
O que fez (e ainda faz) sentido,
pelos vistos, foi “promover” desertores e traidores…
A segunda tem a ver com razões
políticas e ideológicas – aquelas que tudo inquinam – que ocorreram durante o
“PREC” [3], quando o país estava a
ferro e fogo e quase à beira de uma guerra civil.
Como todos os portugueses AC
sofreu na carne e no espirito a frenética agitação da época e reagiu.
Na altura estava desligado do
serviço activo, a seu pedido, na situação de licença ilimitada.
Na iminência de ser preso na
sequência do 11 de Março de 1975, conseguiu passar a Espanha, após fuga
aparatosa, onde ajudou a formar o MDLP, cujo presidente era, recorda-se, o
General Spínola (também fugido de helicóptero para aquele país e depois ido
para o Brasil) – general entretanto reabilitado e promovido a Marechal do
Exército.
Como operacional do MDLP AC
participou e dirigiu variadíssimas acções, incluindo acções violentas, contra
as forças internacionalistas (comunistas e muitos outros “istas”) que
anarquizaram o país; levaram à paralisação do aparelho produtivo; quase
destruíram as Forças Armadas; impediram qualquer descolonização, etc., numa
palavra provocaram uma tragédia maior do que Alcácer Quibir, Alcântara, o
terramoto de 1755 e as três invasões francesas, juntos!
E não contentes com tudo isto,
ainda pretenderam impôr revolucionariamente, uma ditadura comunista e terceiro-mundista,
na parte europeia que restava de Portugal.
Um assalto ao poder da forma mais
despótica e infame.
Foi contra este estado de coisas
que o Comandante Alpoim Calvão (e muitos outros) corajosamente se ergueu e
combateu e que as forças vitoriosas no 25 de Novembro de 1975, apenas
parcialmente derrotaram, permitindo que os vencidos (e apaniguados de
ideologias erradas, antipatrióticas e vis) se pudessem retirar em boa ordem de
marcha, passando ainda a outorgar-lhes credibilidade democrática!
Um erro (mais um) que inquinou o
país, por décadas, e não tem fim à vista.
Ninguém julgou ninguém…
São os que restam desta estirpe e
os que entretanto arregimentaram, que nunca perdoaram a AC o que ele fez.
A situação arrasta-se pois quase
ninguém confronta estes infelizes com os seus erros e os seus crimes,
transformando o debate ideológico num deserto de ideias.
Os “negócios” foram, entretanto
falando mais alto.
Piorou tudo isto uma onda de
imoralidade financeira por parte de capitalistas sem escrúpulos que, movidos
pela ganância do dinheiro e do poder, têm andado a destroçar a sociedade nos
países ocidentais, o que se agravou muito após o Muro de Berlim ter caído.
Ou seja, deram, com a sua acção,
azo a que comunistas e outros “istas” de várias cores ganhassem novamente
oxigénio e tenham de novo, razões que os sustentam.
AC é alheio, porém, a toda esta
evolução e teve razão na sua luta. E é péssimo ter a memória curta.
Honra a Alpoim Calvão que é herói
nacional – e sê-lo-á para sempre – e um cidadão esclarecido e actuante com uma
coragem física e moral, inquestionáveis.
A Marinha Portuguesa esteve,
simplesmente, bem.
[1] MDLP, Movimento Democrático de Libertação de Portugal, constituído em 5/5/1975 e desactivado em 29/4/1976. De feição anti - comunista, tinha como objectivo a adopção de um sistema democrático pluralista.
[1] MDLP, Movimento Democrático de Libertação de Portugal, constituído em 5/5/1975 e desactivado em 29/4/1976. De feição anti - comunista, tinha como objectivo a adopção de um sistema democrático pluralista.
[2]
Do Valor, Lealdade e Mérito.
[3] PREC, Processo Revolucionário em Curso, período convencionado entre 25/4/75 e 25/11/75; 19 meses.
[3] PREC, Processo Revolucionário em Curso, período convencionado entre 25/4/75 e 25/11/75; 19 meses.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
RESPOSTA A ARTIGO DO JORNAL DE ALMEIRIM
Aqui deixo a minha resposta a um artigo de opinião publicado no Jornal de Almeirim e que podem ler no link abaixo.
RESPOSTA A “QUE FUTURO?”
(da
autoria do Coronel Andrade da Silva,
publicado no “Notícias de Almeirim”, de 19
de Setembro de 2014)
Escrito no dia do desenfado, 6/10/14.
O Coronel de Artilharia João
António Andrade da Silva, nascido a 9/5/48, entrou para a Academia Militar no
ano lectivo de 1967/8 tendo jurado bandeira segundo a fórmula regulamentar. Foi
alferes em 1971, entrando para o quadro permanente de oficiais, altura em que
fez o juramento de fidelidade, como oficial, a fim de receber a sua carta
patente.[1]
Em 1974 foi promovido a capitão.
Reformou-se no actual posto, sendo pois, oficial superior do Exército
Português.
Conviria, por isso, dar alguma
substância entendível aos eventuais leitores ao invés de meter no mesmo saco,
política partidária e luta ideológica misturada com apreciação de um processo
jurídico e contradições q.b..
Começo por dizer que não me sinto
melindrado ou diminuído por aquilo que o meu “distinto” camarada de armas (com
“c” e não com “k”), da nobre Arma de Artilharia – aquela cujos oficiais se
orgulhavam de morrer em sentido – escreveu.
Quem se deve sentir insultado são
todos aqueles (membros da AOFA, ou não) a que apelidou de cobardes e outros
epítetos, mas compreenderá que sendo eles maiores e vacinados e não tendo eu
procuração para os defender, deixarei esse encargo aos próprios.
Para além destes (que não sei
quantificar) pareceu-me que o orante e temente a Santa Bárbara – caríssima
Padroeira dos artilheiros portugueses – se apresenta ressabiado (um sentimento
que não ajuda ao discernimento), contra quem não aceitou a sua filantrópica
oferta para testemunhar a favor do Vate Manuel Alegre (MA) – logo contra mim –
por o terem julgado dispensável, como afirma.
Se fosse a si não amuava e
encarava a coisa de outro angulo: o de que assim evitou ir fazer pior figura do
que aqueles que lá foram e se prestaram ao acto!
Quanto ao que diz de Salazar,
também nada me incomoda, embora entenda pertinente deixar um esclarecimento:
ignoro se o antigo frequentador do polígono de Vendas Novas, tem o poder de
ressuscitar os mortos – atributo até agora exclusivo de Cristo Redentor – mas
eu confesso, desde já, que não possuo tal dom (e acrescento que, a tal, não
aspiro).
Não me passa, pois, pela cabeça
ressuscitar o mui íntegro, competente e patriota, que na sua vida terrena usou
o nome de António de Oliveira Salazar, um português distinto (sem embargo de
como humano poder ter as suas sombras) e estadista de rara qualidade.
Vamos mesmo ter que viver sem ele.
Mas quero sossega-lo, e às suas
hostes – se é que alguma - que farei o que estiver ao meu alcance para
preservar a verdade histórica, relativa a tão singular personagem, das mais
capazes desde que Afonso Henriques se colocou à frente do Condado.
Diz Andrade da Silva que em
Portugal não existe Democracia e, em simultâneo, que eu não sou adepto da mesma
por “não concordar com o 25/4 e a Descolonização”.
Também aqui não parece haver
lugar a desconsiderações.
Como é suposto saber, o golpe de
estado efectuado em 25/4/74, pouco teve a ver com a implantação da “Democracia”
em Portugal.
E por grosseira incompetência de
quem colaborou e ficou à frente das forças vitoriosas (as outras renderam-se sem
esboçar resistência), o dito cujo virou “revolução”, com o poder caído na rua.
O que daqui derivou ocasionou
gravíssimas consequências para Portugal - das quais não iremos recuperar tão
cedo – a pior das quais foi aquilo a que chamaram “Descolonização” (que não
existiu) que considero, assumo, o pior e mais vergonhoso evento de toda a
História do povo português.
Se o Senhor considera que a
Democracia foi ou não implantada, é um problema seu, sobre o qual não me vou enredar.
Como existem vários modos de a
interpretar (presumo que a sua seja a das ocupações selvagens em que andou
entretido, nos idos de 75), aguardo que um dia possa explicitar o seu
entendimento para melhor esclarecimento dos leitores do “Notícias de Almeirim”.
Onde andou a pisar o risco do
insulto foi na infeliz frase em que me misturou com “racistas, colonialistas,
defensores de salazarismos” (sic); convém dar alguma elevação à escrita mesmo
estando habituado a linguagem de caserna.
E quando me chama demagogo não
sei se está ciente do significado do termo empregue.
Palavra de origem grega compõe-se
de “demos” – povo, ou população – e “agogôs” – liderar ou liderança – que na
Grécia e Roma antigas referiam-se ao orador que falava em nome da população
menos afortunada.
Mas já Aristóteles no seu livro
“Política” aponta a demagogia como a corrupção da Democracia. Se ler
Aristófanes e Tucídides verá, na discrição que fazem do ateniense Cléon,
exemplo disso.
Mas já na Idade Média o conceito
evoluiu para diferentes formas até que Maquiavel atribui ao Estado a figura de
demagogo, no sentido em que encarnava em si o poder de manipulação das massas.
Daqui o conceito espalhou-se para
as diferentes correntes políticas.
Não sei, pois, onde me situa ou
engloba, mas permito-me facilitar-lhe a vida dizendo que por norma tento juntar
na mesma actuação o que penso, o que digo e o que faço.
Por isso fará o favor de ir
limpar numa parede o labéu que me intentou. E não se esqueça que as munições,
por vezes, fazem ricochete.
*****
Analisemos, que já é tempo, o
fulcro da sua redacção, ou seja as considerações que faz sobre a queixa do
cidadão, poeta e radialista – creio que ser deputado ainda não é profissão – MA,
fez contra mim.
O nosso coronel (“nosso” por
expressão regulamentar, mas também por supostamente pertencer a um grupo
profissional, cuja essência ultrapassa em muito, a figura da profissão para se
irmanar em superiores virtudes morais e espirituais – aspecto que talvez tenha
escapado à perspicácia do autor), Interiorizou, dizia, coisas de que nem MA
falou.
Aqui há alguns reparos a fazer.
Diz o plumitivo, referindo-se à
minha pessoa, que “retratou MA como um desertor; um ladrão (terá levado o
dinheiro do seu batalhão), um traidor, porque terá dado a ordem de batalha ao
inimigo para este matar militares portugueses”.
Ora, eu nunca redigi nada disto.
Podia, ao menos, ter lido o que
escrevi e alguns pormenores do processo para perceber que o crime de difamação
de que fui acusado se baseava no seguinte trecho do artigo que então escrevi: “O
cidadão MA quando foi para Argel não se limitou a combater o regime,
consubstanciado nos órgãos do Estado, mas a ajudar objectivamente as forças
políticas que nos emboscavam as tropas”.
O que reitero.
Ora isto configura um crime de
traição à Pátria (que já prescreveu, mas não devia ter prescrito…).
E não o que o Coronel Silva
bolsou, adjectivando-me a vários títulos e alegando “que dei azo ao lançamento
de uma campanha negra contra MA”.
Saiba que as acções ficam com
quem as pratica, não com quem as relata…
Quanto às “caranguejolas aéreas”,
de que aleivosamente fala, eram as que tínhamos (e não me parece que o
armamento do Exército fosse melhor) e cumpriram muito bem as suas missões e
nunca até ao fim do conflito deixaram de garantir a supremacia e, ou, a
superioridade aérea, às operações em curso. Pergunte aos seus camaradas, que
eles sabem e ao inimigo, que ainda se deve lembrar.
E sabe ainda outra coisa? Quando vamos para a
guerra é com aquilo que temos, não com o que gostaríamos de ter, e a qualidade
do armamento não justifica actos de deserção, traição ou outros puníveis pelos
regulamentos militares.
O Senhor, pelo posto e pelo que
diz, revela que deve ter três ou quatro décadas de serviço, mas aparenta nunca
deve ter passado pela tropa…
Por norma também, não se dá
conselhos a quem não os pede, mas eu abro uma excepção consigo, que espero
entenda como acto de caridade cristã: leia, reflita e instrua-se.
Fará o favor em não se maçar em
responder pois não lhe vou dar mais troco. E agradeço que não ceda à tentação
de me tentar insultar.
Passar bem.
[1] Assinada, normalmente, nas Repúblicas, pelo respectivo Presidente e pelo Monarca nos regimes Monárquicos.
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