terça-feira, 1 de dezembro de 2020

GLÓRIA AOS CONJURADOS, ABAIXO OS POLTRÕES!

  1º dezembro de 1640 - do livro DA MONARCHIA DE PORTUGAL - de João Coelho dos Santos



1640 – Revolta na Catalunha em 7 de Junho, precursora da Restauração de Portugal.

A Espanha estava já em guerra com a França, a Holanda e a Inglaterra.

O próprio D. Filipe IV (III de Portugal) mandou apresentar-se em Madrid D. João, Duque de Bragança, que era o chefe supremo do exército em Portugal, para o acompanhar à Catalunha e cooperar no movimento de repressão a que ia proceder. O Duque de Bragança ainda hesitou mas recusou-se a obedecer a Filipe IV. Muitos nobres portugueses receberam semelhante convocatória, recusando-se também a obedecer a Madrid. Outros obedeceram.

Sob o poder de D. Filipe III, o desrespeito pelo juramento de Tomar (1581) tinha-se tornado insuportável: nomeados nobres espanhóis para lugares de chefia militar em Portugal; foi feito o arrolamento militar para a guerra da Catalunha; foram lançados novos impostos sem a autorização das Cortes. Isto enquanto a população empobrecia; os burgueses eram afetados nos seus interesses comerciais; e o Império Português era ameaçado por ingleses e holandeses perante a impotência ou desinteresse da coroa filipina.

Portugal achava-se envolvido nas controvérsias europeias que a coroa filipina estava a atravessar, com muitos riscos para a manutenção dos territórios coloniais, com grandes perdas para os ingleses e, principalmente, para os holandeses em África (São Jorge da Mina, em 1637), no Oriente (Ormuz, em 1622 e o Japão, em 1639) e fundamentalmente no Brasil (São Salvador da Bahia, em 1624; Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Sergipe desde 1630).

 

Em 12 de outubro de 1640, em casa de D. Antão de Almada, hoje Palácio da Independência, reuniram-se D. Miguel de Almeida, Francisco de Melo e seu irmão Jorge de Melo, Pedro de Mendonça Furtado, António de Saldanha e João Pinto Ribeiro. Decidiram chamar o Duque de Bragança que se encontrava em Vila Viçosa para que assumisse o seu dever de defesa da autonomia portuguesa, aceitando o Cetro e a Coroa de Portugal.




No dia 1 de dezembro de 1640, eclodiu por fim em Lisboa a revolta, levando à instauração no trono de Portugal da Casa de Bragança, dando o poder reinante a D. João IV.




1. D. Afonso de Menezes;

2. D. Álvaro de Abranches da Câmara (Comendador de S. João de Castanheira na Ordem de Aviz, dos Conselhos de Estado e da Guerra, Governador de Armas das Províncias da Beira e Entre Douro e Minho e da cidade do Porto, Senhor do Morgado de Abranches);

3. D. Álvaro Coutinho da Câmara;

4. D. Antão Vaz d’Almada (7.º Conde de Avranches, 5.º Senhor de Pombalinho e 10.º Senhor dos Lagares d´El-Rei, Governador da Cidade de Lisboa, Primeiro Embaixador à Corte de Inglaterra);

5. D. António de Alcáçova Carneiro (Alcaide-mor de Campo Maior);

6. D. António Álvares da Cunha (17º Senhor de Tábua);

7. D. António da Costa;

8. D. António Luís de Menezes (1.º Marquês de Marialva, 3.º Conde de Cantanhede, 9.º Senhor de Cantanhede, de Marialva, de Medelo (Lamego) e de São Silvestre);

10. D. António de Mascarenhas;

11. António de Mello e Castro;

12. António de Saldanha (Alcaide-mor de Vila Real);

13. António Telles da Silva;

14. D. António Telo; Ayres de Saldanha;

15. D. Carlos de Noronha;

16. D. Estêvão da Cunha (Prior de São Jorge em Lisboa, Cónego da Sé do Algarve, Bispo eleito de Miranda);

17. Fernando Telles de Faro;

18. D. Fernão Telles de Menezes (1.º e último Conde de Vila Pouca de Aguiar, capitão de Diu, como General das Armadas de remo e de alto bordo, 46.º Governador da Índia em 1639, 18º Governador do Brasil e de Angola, Alferes-mor do D. João IV de Portugal);

19.Fernão Teles da Silva (1.º Conde de Vilar Maior);

20. Francisco Coutinho;

21. D. Francisco de Mello e Torres (1º Marquês de Sande);

22. Francisco de Noronha;

23. D. Francisco de São Payo;

24. D. Francisco de Sousa (1º Marquês das Minas);

25. Gaspar de Brito Freire;

26. Gastão Coutinho;

27. D. Gomes Freire de Andrade;

28. Gonçalo Tavares de Távora;

D. Jerónimo de Athayde (6.º Conde de Atouguia - filho de Dona Filipa de Vilhena que o armou Cavaleiro assim como ao seu irmão -, Governador de Peniche, Governador de Armas de Trás-os-Montes, Governador e Capitão General do Brasil, Governador de Armas do Alentejo, Capitão General da Armada Real, Presidente da Junta do Comércio do Conselho de Estado e do da Guerra, Comendador de Adaúfe e de Vila Velha de Ródão na ordem de Cristo;

29. D. João da Costa (1.º Conde de Soure);

30. D. João Pereira (Prior de S. Nicolau, Deputado do Santo Ofício);

31. Dr. João Pinto Ribeiro (Bacharel em Direito Canónico, Juiz de Fora de Pinhel e de Ponte de Lima, Agente da Casa de Bragança, Cavaleiro e Comendador de Santa Maria de Gimunde na Ordem de Cristo, do Conselho de Sua Majestade, Contador-Mor das Contas do Reino, Desembargador Supranumerário da Mesa do Desembargo do Paço, Guarda-Mor da Torre do Tombo);

32. Dr. João Rodrigues de Sá;

33. D. João Rodrigues de Sá e Menezes (3º Conde de Penaguião);

34. João de Saldanha da Gama;

35. João de Saldanha e Sousa;

36. João Sanches de Baena (Desembargador da Relação do Porto, Desembargador da Casa da Suplicação, Desembargador do Paço);

37. Jorge de Mello;

38. D. Luís de Almada (filho de D. Antão de Almada, 11.º senhor dos Lagares d´El-Rei, 6.º senhor de Pombalinho);

39. Luís Álvares da Cunha;

40. D. Luís da Cunha de Athayde (Senhor de Povolide);

41. Luís de Melo (Alcaide-mor de Serpa);

42. D. Manuel Child Rolim (15.º Senhor de Azambuja);

43. Martim Afonso de Melo (Alcaide-mor de Elvas);

44. D. Miguel de Almeida (4º Conde de Abrantes);

45. Miguel Maldonado;

46. D. Nuno da Cunha de Athayde (1º Conde de Pontével);

47. Paulo da Gama;

48. D. Pedro de Mendóça Furtado (Alcaide-mor de Mourão);

49. D. Rodrigo da Cunha (Arcebispo de Lisboa);

50. D. Rodrigo de Menezes;

51. Rodrigo de Resende Nogueira de Novais;

52. Rui de Figueiredo (Senhor do morgado da Ota);

53. Sancho Dias de Saldanha;

54. D. Tomás de Noronha (3º Conde dos Arcos);

55. Tomé de Sousa (Senhor de Gouveia);

56. Tristão da Cunha e Athayde (Senhor de Povolide);

57. Tristão de Mendonça.




1º de Dezembro - Dia da Restauração


 

A guerra de Portugal com Castela é tão antiga, que começou juntamente com o mesmo Reino e seus primeiros Príncipes, e há mais de 500 anos que dura. Pelo que nem esta guerra se deve de ter por coisa nova, nem se deve de fazer da nossa parte por modo novo, mas termos por certo, que seguindo-se os meios por onde se conservaram os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos contra Castela, que por tantos séculos tivemos.

Pe. Manuel Severim de Faria in «Notícias de Portugal», 1655.

 

Após a revolução portuguesa a Duquesa de Mântua foi feita prisioneira no Convento dos Santos.

Expandiu-se o Sebastianismo e a lenda de o Encoberto, que haveria de voltar numa manhã de nevoeiro.

Corriam secretamente de mão em mão as Trovas do Bandarra, sapateiro / poeta de Trancoso.

O livro mais antigo da língua portuguesa e tem 530 anos!

 

É o livro impresso mais antigo escrito em português e foi produzido em Chaves, no Norte de Portugal. Uma verdadeira joia da língua portuguesa...




Ao contrário do que muitos possam pensar, o primeiro livro impresso em Portugal na língua portuguesa não foi produzido em grandes cidades como Lisboa, Porto, Braga ou Coimbra. O livro impresso mais antigo em português foi produzido em Chaves, uma pequena cidade no norte de Portugal.
Para quem desconhece a história desta pequena cidade, será difícil perceber as razões pelas quais terá sido aqui que o primeiro livro português foi impresso. Mas Chaves, na altura, era um centro cultural de relevo, muito por causa de ser uma cidade por onde passavam muitos dos peregrinos que faziam o Caminho de Santiago. Chaves possuía, também, uma escola de cirurgia (uma das primeiras de Portugal), o que atesta a dimensão e a importância desta pequena cidade transmontana.


                                            Chaves


A impressora inventada por Gutemberg trouxe o surgimento da técnica conhecida como “tipografia”. O primeiro livro impresso tipograficamente foi a Bíblia, em latim. A confiabilidade no texto e a capacidade do livro atender à demanda de um público cada vez maior tornou-se dependente da tipografia. Em Portugal, a novidade chegou no início do reinado de D. João II, que governo o país de 1481 até sua morte em 1495. O primeiro livro impresso em Portugal foi o Pentateuco (os cinco primeiros livros do Velho Testamento, da Bíblia), na cidade de Faro, mas com caracteres hebraicos.  

Não se sabe com exatidão qual foi o primeiro livro realmente publicado em língua portuguesa, mas muitos estudiosos consideram que tal livro tenha sido “O Sacramental”, de Clemente Sánchez de Vercial.



          Ponte de Trajano (Chaves) – Fernando Ribeiro


O que se tem como informações concretas sobre “O Sacramental” é que sua primeira edição foi impressa em 1488 na cidade de Chaves, mas o autor não era português. Ele era um padre de León, uma província da Espanha. O Sacramental foi escrito por Clemente Sánchez de Vercial. um clérigo leonês que viveu entre o século XIV e o XV e que escreveu várias obras religiosas e moralizantes. A primeira impressão portuguesa terá ocorrido em Chaves em 1488. O Sacramental foi um dos livros mais lidos durante o século XV, tendo sido proibido pela Inquisição no século XVI e consequentemente queimado. Teve várias edições impressas em língua castelhana e portuguesa. Descubra o livro mais antigo da língua portuguesa.


                                            Chaves


O Sacramental de Clemente Sánchez de Vercial, obra pastoral redigida entre 1421 e 1425 em língua castelhana, depois dos livros destinados ao ofício religioso, foi o livro mais impresso na Península Ibérica, desde a introdução da imprensa até meados do século XVI. A primeira impressão portuguesa terá ocorrido em Chaves em 1488, mas não existem provas concretas que suportem esta tese. O incunábulo d'O Sacramental impresso em Chaves é considerado por alguns «o primeiro livro em língua portuguesa impresso em Portugal».


Segundo Vindel, teria sido o primeiro livro impresso em Espanha; cerca de 1470 em Sevilha. Foi traduzido para o catalão – Lo sagramental – em Lérida, 1495. Conhecem-se treze edições em castelhano, uma em catalão e quatro em português. Das edições em português, duas foram impressas no século XV (Chaves, 1488 (?); e Braga (?), ca. 1494-1500 e duas no século XVI (Lisboa, 1502; e Braga, 1539).



O Sacramental é um depositário da forma como deve viver o homem medieval, tratando a alimentação, as relações familiares, as relações sociais, a relação com Deus, o trabalho, o descanso, a saúde, a doença e a sexualidade, o que faz dele um documento indispensável para o estudo da sociedade medieval portuguesa.
Assim começa o livro:
«E por quanto por nossos pecados no tempo de agora muitos sacerdotes que hão curas de almas não somente são ignorantes para instruir e ensinar a fé e crença e as outras cousas que pertencem à nossa salvação, mas ainda não sabem o que todo bom cristão deve saber nem são instruídos nem ensinados em a fé cristã segundo deviam, e o que é mais perigoso e danoso, alguns não sabem nem entendem as Escrituras que cada dia hão-de ler e trautar.
E porende, eu Clemente Sánchez de Vercial, bacharel em leis, arcediago de Valdeiras em a igreja de León, ainda que pecador e indigno, propus de trabalhar de fazer uma breve compilação das cousas que necessárias são aos sacerdotes que hão curas de almas, confiando da misericórdia de Deus.»

domingo, 29 de novembro de 2020

OS ATAQUES NO NORTE DE MOÇAMBIQUE

 


OS ATAQUES NO NORTE DE MOÇAMBIQUE

                                                        (“UM GRITO DE TERROR”)

29/11/20

                                     “Não são ladrões apenas os que cortam as bolsas.

                                       Os ladrões que mais merecem esse título são aqueles

                                       a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões

                                       ou o governo das províncias, ou a administração das

                                       cidades, os quais, pela manha ou pela força, roubam

                                       e despojam os povos.

                                       Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam

                                        cidades e reinos; os outros furtam correndo risco,

                                        estes furtam sem temor nem perigo. Os outros, se

                                        furtam, são enforcados; mas estes furtam e enfor-

                                        cam”.

                                   Padre António Vieira, Sermão do Bom Ladrão.                                                                       

     O meu camarada e amigo, Coronel Florindo Morais (que tem quatro comissões de serviço na última campanha ultramarina), escreveu um pequeno texto que circula na “net”, sobre o que se passa actualmente no Norte de Moçambique, a que chamou um “grito de terror”. Eu julgo que é mais um “grito d’alma” e de indignação sobre a barbárie que por lá acontece e relativamente à hipocrisia das Relações Internacionais”, onde cada um só se move mediante os seus interesses. Às vezes nem isso, como é manifestamente o caso português que há muito deixou de ter Política Externa, própria.

     Por isso o Coronel F. Morais apela à intervenção da ONU; dos “actores” da cena internacional; às autoridades moçambicanas e ao Estado Português, para saírem da sua letargia e fazerem algo. O que esse “algo” significa é que não está discriminado, a não ser uma ideia de se convidar os antigos militares das “tropas comando” (de que ele faz parte), os quais, mesmo com mais de 60 anos “resolveriam o assunto”. O que eu não duvido, desde que lhes distribuíssem o armamento e equipamento necessário, mas eles já cumpriram a sua missão e não merecem morrer por esta…

     O meu primeiro impulso também foi o de apoiar a ideia do meu antigo instructor, mas esfriando um pouco a cabeça raciocinei um pouco e vieram-me á ideia alguns pensamentos que vou partilhar.

     Os portugueses chegaram ao território que hoje constitui Moçambique – em tempos, a “pérola do Índico” – ao tempo em que o Almirante D. Vaco da Gama, de saudosa memória, lá aportou (creio que ainda ninguém pensou em apeá-lo das estátuas; tirar os seus ossos dos Jerónimos ou apagar o seu nome das ruas…). E por lá fomos ficando.

     Desde então a História deu muitas voltas (como o Direito Internacional) e muitos foram os potentados que nos quiseram desalojar de lá, o que raramente teve a ver com os autóctones (e muitos chegaram depois de nós), a quem desde sempre oferecemos a nossa civilização e nacionalidade e a protecção da Coroa Portuguesa. Até da República Portuguesa, pois tal nada tinha a ver com regimes.

     Porém, após as ideias postas em marcha na sequência da Segunda Guerra Mundial, sobre a autodeterminação dos povos (que na realidade visavam era a substituição das soberanias; obter apoios para cada lado da “Guerra - Fria” e o acesso a matérias – primas e pontos de interesse estratégico) e nada tinham a ver com a realidade portuguesa, foi criada, entre outras, uma organização política que se desenvolveu principalmente fora de portas, que tomou o nome de Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). A qual com a ajuda externa sobretudo de países comunistas, mas também alguns ocidentais, sem a qual não sobreviveria, moveu a Portugal, em que Moçambique constituía na altura, uma “Província”, uma guerra subversiva e de guerrilha, visando expulsar a presença política dos portugueses, tomar o Poder e tornar o território independente de Portugal.

     Esse ataque teve uma resposta à altura, por parte das autoridades portuguesas e da população em geral. Tal resposta foi de Direito e natural, pois estava impregnada no “ADN” nacional.

     Um “Golpe de Estado” mal gizado e preparado, que acabou por visar a substituição do Governo/Regime, em Lisboa, ditou o fim da resistência e a entrega – à revelia de qualquer senso político e social e, até, do Direito Internacional, do Poder em Moçambique para a Frelimo, que se encontrava em agonia e derrotada à data do golpe.

     Não há adjectivos para qualificar a infâmia catastrófica então vivida.

     No fim o Poder foi entregue atrabiliariamente à Frelimo e a Bandeira Portuguesa foi arriada na maior ignomínia.

     Seguiram-se décadas de guerra civil, que destruiu o território e causou incomensuráveis sofrimentos de toda a espécie nos habitantes do território e nos que foram obrigados a fugir. E, apesar de hoje em dia, haver um acordo de paz, a questão política e social está longe de estar resolvida; nada funciona e Moçambique – um território a todos os títulos, riquíssimo, em explosão económica e social em meados de 1974 – é hoje um dos países mais miseráveis do planeta!

     Não é pois de estranhar, que um país (?) deste quilate, sem comunicações terrestres norte/sul, e sem meios aéreos e navais para utilizar como alternativa; com o território atravessado transversalmente por dois grandes rios, que praticamente o divide em três partes distintas, tenha uma revolta armada no seu extremo norte (a cerca de 2000 quilómetros da capital, onde tudo se passa – a ex- formosa Lourenço Marques), a província de Cabo Delgado que é quase do tamanho de Portugal Continental (82.625Km2) e cerca de 2.4 milhões de almas.

    Tal revolta, que conta com gente estranha ao território foi fomentada, aparentemente, pelo DAESH – organização de fanáticos muçulmanos que, oficialmente, nunca ninguém explicou como nasceu e se desenvolveu. O que já causou cerca de 2.000 mortos e quase meio milhão de desalojados entre a população.

     No Norte de Moçambique houve desde sempre, alguma influência muçulmana e árabe, que foi descendo junto à costa, comerciando. Na altura em que o domínio político pertencia aos portugueses, tal influência (que nunca tinha progredido para o interior) estava controlada e em boa paz.

     Mas agora as autoridades moçambicanas apesar dos 45 anos de independência (ah, ah, ah) não têm praticamente qualquer controlo na região, ao passo que algumas riquezas ligadas á energia (gaz natural e petróleo), entretanto descobertos, foram maioritariamente parar às mãos de empresas francesas e americanas. O garimpo de minerais preciosos também tem atraído toda a espécie de aventureiros.

     O caldo de cultura estava criado.

     As relações do novo estado independente (ah, ah, ah) e Portugal foram estabilizadas, mas nunca passaram, na prática de palavras de circunstância e de ajudas a fundo perdido (do Governo de Lisboa). A própria cooperação técnica civil e militar – um esforço que já nos custou milhões de euros – esfumam-se na incompetência e corrupção das autoridades moçambicanas, sem que o Governo Português consiga (ou queira) colocar alguma ordem no beco. Apesar de tudo isto não é raro sermos visados em termos de colonialismo primário…

    Entretanto as empresas portuguesas que por lá moirejam vivem na maior dificuldade em serem ressarcidas do seu trabalho, ao passo que a comunidade portuguesa é vítima contumaz de raptos com o fim de extorquir resgates.

     Moçambique aderiu à Commonwealth, em 1995, por via da proximidade com a RAS e o Zimbabué, de onde só copiaram maus exemplos.

     Também aderiram à CPLP, onde até hoje estão por inércia, até porque a dita organização (ainda) não passou de um nado – morto. Ninguém lhe insuflou vida, muito menos alma…

     Portanto nada do que se passa agora no Norte de Moçambique, na terra dos Macondes (aquilo ainda é meio tribal e a única coisa que os une é a herança cultural portuguesa) – que têm fama de bons combatentes (e muito tocados pelo catolicismo) – nos deve admirar. Mesmo tendo em conta o corte de cabeças indiscriminado, recentemente ocorrido. Quem com ferros mata, com ferros morre.

     Também eu tenho pena da maioria daquela pobre gente, que não tem culpa nenhuma dos males que os assolam, mas não posso fazer nada. E, muito provavelmente, não devo.

     Não posso (devo) fazer nada, em primeiro lugar porque Moçambique é um país independente (ah, ah, ah!) que, ao que se sabe, ainda não pediu ajuda a ninguém. Talvez para não reconhecer da inabilidade, impotência e desgraça que o actual Estado Moçambicano representa.

     Em segundo lugar, as autoridades do Maputo devem pedir ajuda a quem com eles tenha alianças políticas e de defesa, se é que alguma, o que não é o caso de Portugal. De seguida deve pedir ajuda à ONU, essa prestimosa e babilónica, cara e incompetente, que nunca prestou um serviço à Humanidade nem resolveu qualquer problema sério. Mas que se esforçou muito para obrigar a Nação Portuguesa a abandonar politicamente qualquer território fora do continente europeu. O mui católico e progressista, bem comportadinho, bem - falante e inefável tuga, António Guterres, há - de querer estar certamente, na primeira linha da frente para tentar resolver tão chocante caso! Desse modo se evitaria que tal ónus caísse em cima dos antigos combatentes portugueses, que cumpriram o seu dever para com a Pátria, quando a isso foram chamados (embora desse dever só possam dar baixa para a cova).

       Além disso ainda resta a Moçambique pedir ajuda aos regimes cafreais seus vizinhos da RAS e Zimbabué, com quem são tão próximos ideologicamente… Ou até, quem sabe, podem pedir ajuda à Tanzânia, para lhes ceder a antiga base de Nashingwea, de onde partiam para nos emboscar as tropas e maltratar as populações. Podiam até, esclarecer-nos sobre o que se passou com o navio Angoche – atacado em 1971 - e os seus 22 tripulantes que desapareceram até hoje…

     Se apesar destes eventuais esforços falharem (como normalmente é o caso) e Moçambique quiser a ajuda portuguesa, esta tem de ser bem negociada. Estou farto de ser o “totó de serviço”! Até porque não nos livraríamos de acusações de neocolonialismo e por aí fora…

     Sem embargo as autoridades moçambicanas têm de começar por fazer algo para tentarem resolver o problema que têm em mãos, pois ninguém vai ajudar ninguém que, em primeiro lugar, não se queira ajudar a si próprio. E, até ao momento, que conste, só demonstraram incapacidade, cobardia e desfaçatez. Devem estar à espera que as empresas estrangeiras que operem na região paguem a uns mercenários para erradicar os insurgentes…

     Mas mesmo que Portugal quisesse ajudar o que poderia fazer a não ser usar de bons ofícios diplomáticos?

     O Governo (o Estado Português), a única ideia que tiveram desde o terramoto do “PREC” foi o de se atirarem de cabeça para a agora União Europeia (que caso tenha sucesso vai acabar com o País), onde se esmeraram em serem “bem comportados” a fim de puder esmifrar o máximo de ajudas comunitárias, mesmo que com isso pudessem causar dependências, dívidas e empobrecimento irreparáveis. Tem sido a estratégia da mão estendida.

      A excepção foi a de, num raro momento de lucidez, se ter apostado no alargamento da Plataforma Continental, que está a ser confrontada com complexas negociações, de que pouco tem vindo a público. E se tiver algum sucesso o mesmo estará logo restringido pelo Tratado de Lisboa e restante legislação de Bruxelas.

     Tirando isto não há estratégia para nada, África incluída. Enfim enviamos pequenos contingentes de tropas para países africanos e não só (cuja maioria não nos diz nada), na estrita obediência a compromissos internacionais, que nos ajudam a sustentar. Mas as Forças Armadas estão praticamente esgotadas e à míngua de tudo e tal não se aplica somente ao âmbito material.

      Mas como aquilo em Moçambique (que já leva três anos), começou por ser um caso de polícia, não há nada como enviar um contingente da PSP (que diabo já têm o dobro dos efecivos do Exército), ou da GNR que passou a ser pau para toda a obra e deixa o quantitativo da Armada e da FA (com metade dos efectivos) a ver navios e “drones”!... O pior vai ser os sindicatos e associações existentes que não vão gostar da coisa e exigir muitas horas extraordinárias…

     De facto restam os antigos “comandos” para irem dar o corpo ao manifesto. Até eu iria com eles, mas não tornava a sair de lá enquanto não se fizesse um referendo, para se saber se a maioria da população, desejaria voltar a ser portuguesa ou não.

      Até lá, pensem bem, não seria melhor o Governo enviar o Otelo Saraiva de Carvalho e afins, ainda vivos, negociar com os “rebeldes”? (ou devo chamar-lhes guerrilheiros; Combatentes pela “verdade”; libertadores da Pátria; apoiantes do Califado; fanáticos religiosos ou bandidos de delito comum?). O gracioso verbalizador do “pá” tem experiência no assunto e poderia finalmente realizar a peça teatral da sua vida!

     As responsabilidades têm de morar em casa própria e os crimes efectuados não deviam prescrever. O julgamento da História não prescreve e será feito, mas é tardio, pouco efectivo e depende de quem a escrever.

     Estou a ser duro e insensível? Não estou, estou apenas a ser realista. Lamento mas Moçambique já não é terra portuguesa. Resta a saudade que morrerá quando nós morrermos.

     E como dizia Goethe, “ninguém é mais escravo sem esperança, do que aqueles que falsamente acreditam que são livres!”.

 

                                                                   João José Brandão Ferreira

                                                                   Oficial Piloto Aviador (Ref.)

Há Portugueses que merecem voltar à Pátria

     Mais uma ideia que irá ser votada ao "ostracismo"...     BF   PARA VISUALIZAR CLIQUE AQUI!