quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A PROPÓSITO DO 1º DE DEZEMBRO: OLIVENÇA!



A PROPÓSITO DO 1º DE DEZEMBRO: OLIVENÇA!
9/12/18
                              “Na questão de Olivença a Espanha não tem defesa”
                                D. Federico Trillo-Figueroa
                                S. Maria de Aguiar (Castelo Rodrigo), 12/09/1997.[1]

            Em todas as Constituições Portuguesas, desde 1822, apenas existe um artigo que se mantém comum até hoje, apesar de a sua redacção não ser idêntica, embora tenha sempre o mesmo significado.
            É aquele que refere - e transcrevemos a redacção do Artigo 27 da Constituição de 1822 - que “A Nação não renuncia o direito que tenha a qualquer porção de território não compreendida no presente artigo”.[2]
            Se mais não houvera, bastava este artigo para, legal e moralmente, a Nação dos Portugueses através das suas organizações e instituições civis e por maioria de razão, dos órgãos do Estado que a devem representar, não poderem renunciar e deixar de reivindicar o retorno à sua Pátria da mui portuguesa Vila de Olivença e seu termo, ilegalmente ocupada pela Espanha, desde 1807, seguramente, desde 1815 (Tratado de Viena).
            Por isso foi um prazer ver, nas últimas comemorações do 378º aniversário da data luminosa do 1º de Dezembro de 1640, a banda filarmónica de Olivença, desfilar Avenida da Liberdade abaixo, bem como ouvir o Presidente da Sociedade Histórica para a Independência de Portugal – entidade promotora destas comemorações desde o seu início (como da iniciativa de erguer o monumento aos Restauradores, que dá o nome à Praça onde foi erigido), saudar Olivença Portuguesa.
            Na tribuna de honra também estiveram elementos da direcção do Grupo dos Amigos de Olivença, perseverante instituição da sociedade civil, fundada em 1932 e que sempre se associou a estas comemorações, depositando uma coroa de flores na base do monumento que evoca todos os heróis da longa luta que restaurou a completa soberania portuguesa, terminando com a Coroa Dual e inaugurando uma nova Dinastia de raiz exclusivamente nacional.[3]
            Recorda-se que os habitantes de Olivença estiveram sempre na linha da frente dessa luta e pagaram um preço elevado pela mesma.
            Mas sem sacrifícios, jamais Portugal preservará.
            Mais extraordinário foi ainda a presença de vários elementos da Associação Além-Guadiana (além do próprio Presidente do Ayuntamiento), fundada em Olivença, em 2008, e que desde então tem desenvolvido um notável trabalho de preservação da cultura e identidade lusíada em Olivença e seu termo (cerca de 450 km2), tendo inclusive conseguido um acordo para que os habitantes de Olivença que o requeressem obtivessem a nacionalidade portuguesa. E já cerca de 800 o fizeram.
            Os convites terão sido feitos pela Camara de Lisboa, através do Dr. Ribeiro e Castro, grande dinamizador do restabelecimento do ferido do 1º de Dezembro (em má hora extinto por um anterior governo) e que tem sido um elemento de ligação (se assim se pode dizer) com aquela Associação.
            De salientar ainda que já por dois anos consecutivos, o “Além-Guadiana” promove a comemoração do feriado do 10 de Junho, naquela vila transtagana.
            Os principais órgãos do Estado Português, porém, têm ignorado a questão de Olivença e mostram até, algum embaraço, quando não, enfado, quando são confrontados com as suas responsabilidades neste âmbito.
            O Estado assume (na prática) que Olivença é um “território português sob administração espanhola”, mas para além de não reconhecer “de jure” a soberania espanhola, em simples declaração de princípios; de manter os marcos de fronteira interrompidos na porção de fronteira comum existente (e apenas as cartas militares reflectem tal “status quo”), nada mais faz para repor a legalidade da situação, ao contrário da posição da Espanha, por exemplo, sobre Gibraltar, as cidades e enclaves que mantêm em Marrocos e até algumas acções menos próprias que vai tendo relativamente às nossas Ilhas Selvagens.
            Apesar do actual regime político português ter assumido (no nosso entendimento mal), os territórios de Macau e Timor (este último depois de invadido pela Indonésia), como territórios não portugueses, mas sob administração portuguesa, teve para com estes atitudes díspares relativamente ao que tem sobre Olivença.
            Para já não falar no triste reconhecimento “de jure”, da inclusão do Estado Português da Índia, nos idos de 1974/5, depois da escabrosa invasão militar de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana.[4]
            Esperemos que este último opróbrio não seja lançado também um dia, sobre Olivença…
            Sendo o artigo invocado tido origem na Constituição de 1822, o conteúdo do mesmo tinha sido sempre seguido e assumido (mesmo sem estar escrito) desde Afonso Henriques; impõe-se que a tradição, a lei e o direito continuem a ser preservados.
            Se quisermos, é apenas uma questão de Dignidade. De Dignidade Nacional.[5]




                                                                                  João José Brandão Ferreira
                                                                                Membro da Instituição Patriótica
                                                                                         Amigos de Olivença
           


[1] Figueroa era, na altura, Ministro dos Assuntos Exteriores de Espanha e fez estas declarações perante muita gente, em que se encontravam o Dr. Almeida Santos e o Dr. António Vitorino, que desempenharam. Altos cargos na estrutura do Estado. E também um distinto elemento do GAO que tem difundido esta importante declaração e que tem passado despercebida na opinião pública e publicada.
[2] O texto do Artigo 5º,3 da actual CR diz: “O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce, sem prejuízo da rectificação de fronteiras”. O que tem sido ligado objectivamente a Olivença. Não “Olivenza”.
[3] Lamentavelmente, numa conduta que tem sido constante, a generalidade dos meios de comunicação social ignoraram o evento e uma televisão que entrevistou o Ministro da Defesa, presente no mesmo, não foi para o inquirir sobre a cerimónia…
[4] Situação, aliás, muito mais gravosa do que aquela ocorrida com a Indonésia relativamente a Timor.
[5] Este escrito veicula apenas a opinião do autor.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A “CIVILIZAÇÃO” DA MINISTRA DA CULTURA


A “CIVILIZAÇÃO” DA MINISTRA DA CULTURA

23 NOV18
                      “Perdida a tradição e passada a snobeira, apenas
                        fica o nada! É isso que desejam os nossos ini-
                        migos políticos e raciais. Ajudando a destruir a
                        Tradição está-se a cavar a própria nacionalidade
                        e, a tais obreiros só cabe o epíteto de traidores.”
                        Engenheiro Sommer d’ Andrade,
                        In “Os Migueis de Vasconcelos”.                 

            A Dona Graça Fonseca fez mais uma das suas. Admitiu (defendeu) que em sede de especialidade para a discussão do orçamento (para 2019), o eventual alargamento da redução do IVA nos espectáculos, de 13 para 6% não abrangesse a Tauromaquia.
            E de seguida tentou pregar “um ferro” definitivo e inexorável, assegurando ex-cátedra que “era uma questão de civilização”.
            Devemos começar por dizer que o “espectáculo” proporcionado pelos nossos queridos políticos, devia ser taxado, não em 13%, mas sim em 100%! Talvez assim nos deixassem de agredir diariamente com barbaridades…
            A razão pela qual os Partidos Políticos, que devem ser a pior invenção da Ciência Política, estão isentos de pagar tantas coisas, que depois os seus membros eleitos obrigam os outros a pagar, é que também está envolta no nevoeiro dos mistérios insondáveis…
            No âmbito que tratamos, tem-se distinguido o minúsculo partido PAN, que caíu no goto de parte da Comunicação Social – a tal que quer ser “poder” sem estar mandatada para isso – ou de quem nela mexe os cordelinhos, e que se quer avantajar (o tal PAN) a uma expressão que não tem.
            Mas a jovem, apesar de já grisalha, membro (e não “membra”) do governo, veio falar em civilização; isto é, pelo que se deduz as touradas são anti-civilizacionais ou contra a civilização ou a sua evolução. É “certo, óh Graça, que ela (civilização) evolui, mas olhe que também involui!”
            No momento, o Dr. A. Costa veio dar uma preciosa ajuda à sua pupila, espicaçado que foi, publicamente, por um socialista da pesada e poeta nas horas vagas.
            Meteu um bocado os pés pelas mãos, além de ter tentado fazer uma “chicuelina” ao simpático ouvinte, dando o feito pelo dito, relativamente a uma célebre actuação no Campo Pequeno, em 8 de Abril de 2010, quando era presidente da edilidade. Agora “choca-o” a transmissão de touradas na televisão, mas como é um “ganda democrata” e crente da liberdade (que tem as costas largas) não lhe passa pelo bestunto proibi-las.
            Eu no meu pensamento duro como cornos, entendo, porém, que devia era ficar chocado por políticos como o senhor, andarem a dizer uma coisa um dia e o seu oposto, uns dias depois…
            E que se saiba as leis da República dão liberdade às televisões de fazerem ou não, reportagens sobre tauromaquia, ao contrário dos municípios, onde se aplica a lei geral e não se poder discriminar espectáculos.
            Ou será que um município pode proibir teatros, quartéis da GNR ou venda de selos?
            O PM confundiu ainda na sua prédica, o taxar o açúcar e o sal com a tauromaquia ou seja confundiu dois produtos químicos orgânicos com espectáculo e cultura, como se fossem coisas idênticas.
            E vai mais longe ao estender a comparação ao tabaco e ao álcool; só é pena é que o Governo não trate da mesma forma viciados em tabaco e álcool e os drogados. Aos primeiros penaliza-os e caustica-os, chama-lhes nomes, isola-os, etc.; aos últimos, despenaliza, desculpa e até lhes fornece droga e parafernália higienizada a fim de os deleitar!
            Já agora não vejo como não coletar os hinduístas por discriminarem as vacas relativamente aos restantes animais. E não poderão os mesmos serem considerados racistas, exclusivos e xenófobos?
            Que ordem vai dar à senhora, sua ministra da “coltura”?
            E que vai fazer com os muçulmanos que embirram com os cães ou com os judeus, que olham estranhamente para os ungulados?
            Não me desiluda, senhor PM!
            Estará, porventura, a pensar proibir-me de comer carne de reco? Já viu a quantidade de gente para quem tal é anti-civilização?
            E já perguntou à senhora D. Graça se ela já provou carne de touro bravo, ou será que ela só deglute frutos secos?
            Olhe o que me parece que vai ter de fazer é coordenar melhor o seu governo com o grupo parlamentar principal, que o apoia para não dar ideia de que andam a tourear-se uns aos outros, ah, ah, ah…
            Mas voltemos à questão civilizacional.
            O que é que se pode entender por civilização?
            Esta pode ser entendida pelo conjunto de características próprias da vida social, política, económica e cultural de um país, povo ou região. É fruto de um cadinho complexo e multidisciplinar de um conjunto de seres humanos moldados, pela genética, pela geografia, pelo clima, pela língua e por uma história comum, onde se desenvolveram hábitos culturais e sociais específicos.
            Por isso nós conseguimos distinguir perfeitamente um português, de um índio, de um sueco, de um chinês, etc. E isso não tem nada de mal, ao contrário de uns adiantados mentais da engenharia social que querem amalgamar tudo num “melting pot” universal…
            Por isso a tauromaquia insere-se perfeitamente na matriz cultural portuguesa, na nossa maneira de ser e de estar, apesar de nem sequer ter o mesmo desenvolvimento e aceitação nos diferentes distritos do país, o que também se explica.
            Atentado á civilização e agressão á cultura de um povo, é pois, vilipendiar tal prática, como se quiséssemos estar a compará-la a algo negregado.
            E só defendendo a nossa civilização, podemos resistir a que ela soçobre perante outras que nos sejam estranhas e agressivas.
            Quererá a dileta apreciadora da Vénus de Milo explicar-nos porque é que as touradas são uma questão civilizacional, melhor dizendo contra o actual “statuos quo” civilizacional?
            Uma actividade que se perde nas brumas dos tempos com raízes medievais, que está ligada seguramente à caça (que também, pelos vistos, querem proibir), às Justas e Torneios, tendo tomado e estabilizado na actual forma, por todo o século XVIII (ganhando esplendor no reinado de D. João V); que era praticada por toda a nobreza portuguesa, incluindo a realeza e que, por tal facto, se diz que a Cavalaria Portuguesa se distinguiu, apesar do seu número sempre reduzido?
            Não sabe que a tauromaquia está ligada à arte equestre (apesar de provocar natural “stress” nos cavalos), ao rendilhado do toureio a pé, ao apuramento da raça taurina?
            Que é uma actividade que envolve um cerimonial típico e castiço; uma mística marialva, regras e procedimentos difíceis de cumprir, mas que permitem a criatividade e desenvolvem uma estética?
            Que na corrida as oportunidades de vitória e derrota se distribuem entre os participantes? Que o touro é respeitado na sua bravura e que existe sempre risco envolvido? (Convindo salvaguardar que o corte das hastes não envolva o nervo, o que debilita o touro).
            Esta é uma actividade para gente corajosa, determinada, esforçada, lutadora e empreendedora. A afirmação viril de um povo.
            Não é para gente de córtex engordurado e habituados a camas fofas e banhos quentes.
            Não há nada a melhorar nas touradas? Há, mas o que há passa-se sobretudo nos bastidores das mesmas. É outra discussão.
            Acusa, como quem a convidou (devia estar mesmo desesperado!) para o lugar de ministra, que a tourada é um espectáculo violento (como se a violência fosse estranha à natureza humana)? E no que concerne às “Corridas”, a violência parece estar a ser criada pelos abolicionistas das mesmas…
            Violento é, por ex., o que se passa à volta do futebol e às vezes dentro do campo. Vai propor o fim da modalidade? Que os jogos deixem de ser transmitidos pelas televisões? Vai taxá-los forte e feio?
            E a seguir vai proibir a caça submarina? Não acha uma violência que o mergulhador ferre os peixes com um pequeno arpão?
            Por falar em arpão, porque não vai chatear o seu colega que tutela a Pesca para votar na UE o fim da caça á baleia a tiro de canhão?
            Então e essa do “divertimento” com o sofrimento dos animais? Segue-se o fim da Falcoaria? Das lutas entre os bois em Trás-os-Montes? Das corridas de Galgos?
           Vai recomendar à CPLP que os timorenses (por onde estivemos 450 anos) acabem com a luta de galos?
            Olhe, por acaso tem um cão? Também atira um pau para longe, para o pobre animal o ir buscar a correr? Acha que ele também se diverte? Já lhe perguntou?
            Por acaso está preocupada com o mar de dejectos dos canídeos cujos donos os passeiam pelas vias e parques das nossas vilas e cidades, que ficam abandonados na via pública (e mesmo os que se dão ao dever de apanhar os sólidos, estão impossibilitados de eliminar os líquidos)?
            Já agora porque não tenta proibir a domesticação dos animais (até já proibiram a exibição de animais no circo) e não manda fechar os Zoo? A privação da liberdade não será uma violência para os pobres bichos – que deixaram, e bem, de ser coisas, mas não deixam de ser bichos?
            As polícias vão poder continuar a ter cães polícias? …
            Sabe verdadeiramente o que não é civilização, nem ser civilizado?
            Não creio que saiba.
            Não ser civilizado é ter uma quantidade de políticos a bacorar, a mentir, a virar a casaca, a prometer coisas que nunca cumprem, a fomentar (pelo exemplo), ou nada fazer, para acabar com a corrupção.
            É não combater o “Relativismo Moral”, confundindo o Mal com o Bem; santificar os vícios e ridicularizar as virtudes; é tentar mudar e torcer a História dos antepassados, é defender a estúpida, anti-natural e escabrosa “Teoria do Género”, é querer matar os velhos e os doentes com as ideias da eutanásia; a liberdade para o infanticídio dos seres no útero materno; defender a desresponsabilização dos actos humanos e uma sociedade apenas baseada em Direitos e nenhuns Deveres; tentar igualar o indivíduo a Deus de si mesmo e mais uma quantidade de fantasias (subversivas) idiotas e perigosas.
            É a (anti) civilização do ridículo, onde impera um sistema educacional, onde se despeja biliões de euros, para formar analfabetos encartados, que depois se apelida de “geração mais bem preparada de sempre”!
            Como passar reportagens, recorrentemente, nas televisões a perguntar ao pobre do cidadão o que é que ele vai fazer para se proteger do frio, da chuva, do calor ou qualquer outro fenómeno meteorológico mais agreste!
           E tantas, tantas outras coisas.
            Mesmo no âmbito do seu ministério não lhe faltam cuidados civilizacionais que a deviam preocupar, como são exposições fotográficas em Serralves como a das “águas do Tamisa” ou sobre o “Olho do Cú” (era assim que se chamava); espectáculos teatrais onde os supostos artistas urinam e defecam no palco (vá lá, ainda punham jornais por baixo), possivelmente com subsídios dos nossos impostos, como foi o caso daquele filme de um realizador (que “educadamente”, mandou o público “à m….”- foi assim que ele disse), onde havia uma única imagem, que era escura como breu!
            E não se deviam ter lembrado que não era apropriado fazer jantares no Panteão Nacional?
            Isto para já não falar na quantidade insuportável de concertos de rock da pesada, dos metais e demais parafernália de nomes inventadas, onde impera no ar o cheiro a “erva” e alienação…
            E que dizer da ordinarice de algumas telenovelas e “talkshows” que nos entram pela pantalha adentro e a horas impróprias?
            Claro que isso não lhe passa pela cabecinha, pois não? Seria censura, cruz credo! E querer acabar com as touradas é o quê?
            Mas a senhora ministra, muito cheia de si (de ar), está é preocupada com as touradas, mesmo tendo em conta, que as mesmas representam uma actividade económica relevante, promoção turística, milhares de empregos (directos e indirectos) e uma mais -valia artística e cultural, fazendo parte, há séculos, de tradição e costumes nacionais.
            Devia até ser proposta para Património Imaterial da Humanidade, como o é já, em França, cujas tradições tauromáquicas, comparadas com as nossas, são risíveis.
            E, para o caso de andar distraída, representam (as touradas) também a garantia da sobrevivência do touro no seu estado natural selvagem, o qual não é “incomodado” até aos cinco anos de idade…[1]
            Um dia quiseram discutir a Pátria e ela quase se foi. Resta poucochinho…
            Por isso D. Graça, não “chateia branco”, vá-se coçar, instrua-se, leia qualquer coisa de útil, não confunda gostos e opiniões com cultura e civilização e, quando quiser taxar, pense em algo que mereça tal distinção. Sei lá, talvez as casas de alterne para invertidos?
           


                                                 João José Brandão Ferreira
                                                       Oficial Piloto Aviador


[1] O nosso touro bravo, segundo o que está convencionado, é descendente de uma raça pré - histórica denominada “Auroque”, cuja representação mais antiga se pode apreciar no palácio real de Knossos, Creta.

O Maior Desfile Militar dos Últimos Cem Anos

O meu camarada (não "camarado"...) e amigo Jorge Barreira, que desempenhou altos cargos na PSP, enviou-me o texto abaixo, tecendo algumas criticas sobre um artigo que escrevi intitulado "O Maior Desfile Militar dos Últimos Cem Anos" ( e que junto).
    Pediu-me ainda que distribuisse os seus comentários a todos aqueles a quem distribuí o escrito - o que agora faço - acrescentando naturalmente, uma pequena réplica de esclarecimento, o que não fere a lisura de qualquer procedimento.
    Trata-se apenas de discussão de ideias ou de pontos de vista diferente que não parecem esconder qualquer acrimónia.

    Cumpts
   BF



  Caríssimo!  
Como sempre, leio com atenção os escritos que tens a gentileza de me enviar. Genericamente, concordo com a maior parte do que dissertas, mas no caso do presente artigo, não ficaria de bem comigo se não fizesse também alguns "reparos".
É que, apesar da minha formação militar, prestei serviço na PSP durante 22 anos...
Seguindo a tua redacção "não deveria ter direito a Estandarte Nacional". Onde é que está escrito que o Estandarte Nacional é exclusivo dos militares? Ou são os militares (alguns) que se arrogam essa exclusividade, sem suporte legal?
Porque não deve o Estado dar a uma força de segurança o direito a Estandarte Nacional?
Da Lei Orgânica da PSP (Lei 53/2007 de 31 de Agosto:
"A Polícia de Segurança de Segurança Pública, adiante designada por PSP, é uma força de segurança, uniformizada e armada, com natureza de serviço público e dotada de autonomia administrativa...  
... A PSP e as suas unidades de polícia, incluindo as unidades constituídas para actuar fora do território nacional, e os estabelecimentos de ensino policial, têm direito ao uso do estandarte nacional.
1 – A PSP tem direito a brasão de armas, bandeira heráldica, hino e selo branco.
2 – A Direcção Nacional, as unidades de polícia e os estabelecimentos de ensino têm direito a brasão de armas, bandeiras heráldicas e selo branco."
A Lei Orgãnica das Forças Armadas (Lei 6/2014 de 1 de Setembro) nada diz sobre direito a uso de Estandarte Nacional, tão pouco o decreto-lei que estabelece a orgânica do Exército (DL 186/2014 de 29 de Dezembro). A única referência que vi a símbolos foi no artigo 29º do referido DL,
 "O Exército tem brasão de armas, bandeira heráldica e hino e as suas unidades, estabelecimentos e demais órgãos têm brasão de armas e bandeira heráldica."
Não contesto, nem me passa pela cabeça, que as Forças Armadas não tenham Estandarte Nacional, mas onde era, para mim, suposto encontrar a referência a esse direito, não a encontrei. Talvez me possas esclarecer...
Também me poderás esclarecer porque é que os estabelecimentos de ensino básico e secundário sob a tutela do Exército (CM e IMPE), que também não vi contemplados na legislação supra, têm direito a Estandarte Nacional, uma vez que não são estabelecimentos de ensino militar e apenas frequentados por civis.
"...uso de espada, específicos dos militares"
porquê específicos dos militares? E as pistolas e as pistolas-metralhadoras usadas pela PSP já não são específicas dos militares? Onde é que isso está especificado, ou legislado? Os elementos da PSP usavam, como equipamento de patrulha, uma pistola e uma espada curta, devidamente suportado por directivas superiores e, claro, fornecidas pelo Estado nos idos anos 20, 30, 40 do século XX. Porque são um símbolo de Comando? Quando estive a comandar o Comando Metropolitano de Lisboa tinha, a nível de Oficiais, 16 Comandantes de Divisão e 135 Comandantes de Esquadra...
"A PSP está organizada hierarquicamente em todos os níveis da sua estrutura, estando o pessoal com funções policiais sujeito à hierarquia de comando e o pessoal sem funções policiais sujeito às regras gerais de hierarquia da função pública", tal qual as FA...
E a talhe de foice, os alunos do CM e IMPE que desfilavam de espada, não são militares, nem comandantes definidos por legislação do Estado e, no entanto... iam de espada... apenas o refiro para que te dês conta das tuas incongruências, porque, de resto, acho muito bem que assim fossem.
Já agora, e só por piada: a PSP desde os seus primórdios que remontam a 1876, tem Esquadras na sua orgânica. Será que a Força Aérea, na tua linha de pensamento, terá direito a usar esse termo para designar um tipo das suas unidades orgânicas?
A PSP não abandonou o RCHM. Foi obrigada a isso, por recusa de reciprocidade por parte das Forças Armadas!!! Daí a demora em criar um regulamento específico para a PSP.
"Só os corpos especiais desfilaram"
Mais uma observação tendenciosa: se bem me lembro, a GNR apenas desfilou (apeada) com a Unidade de Honras do Estado... não desfilou (e bem) com o pessoal patrulheiro. Porque o deveria fazer a PSP?
E acrescento eu: centenas e centenas de patrulheiros, equipas de intervenção rápida, pessoal do trânsito, da investigação criminal e elementos da Unidade Especial de Polícia estiveram fortemente empenhados para que a Cerimónia decorresse em ordem e segurança, contendo a assistência, evitando distúrbios, mantendo os corredores de entrada e saída de tudo o que desfilou, orientando a entrada e saída das Entidades, fazendo prevenção criminal (carteiristas, por ex.), guarnecendo os espaços destinados a parqueamento de tudo quanto é viatura do desfile, Entidades e convidados, cortando trânsito, desviando-o, criando corredores de evacuação e emergência, durante vários dias, e ainda a segurança pessoal das Entidades, o posicionamento de atiradores especiais, a limpeza da área no que se refere a possíveis ameaças de bomba, quer à superfície, quer no subsolo para que tu, e todos os presentes pudessem ver, ou participar, na Cerimónia tranquilamente, sem terem qualquer sobressalto de insegurança ou desordem.
"A PSP perdeu o direito a participar numa parada militar"
A PSP deixou de  participar em paradas militares por iniciativa própria. Foi em 1997, ou 98 que o então Comandante-Geral determinou que a PSP não participaria mais em paradas militares. Daí para cá, apenas o fez este ano, a convite, nesta cerimónia e na celebração do Dia dos Capacetes Azuis.
Mas acrescento: quem sofreu o primeiro embate do terrorismo no Ultramar foi a PSP. Quem teve prisioneiros de guerra na Índia, foi a PSP. Quem foi sempre mobilizado para o Ultramar durante toda a guerra foi a PSP, criando graves problemas de recrutamento porque os seus agentes faziam uma comissão como militares e, logo a seguir, outra como polícias. A militar GNR nunca lá esteve...
Os primeiros a irem para os Balcãs, em 1991, foram os PSP, os primeiros internacionais portugueses a entrarem no Kosovo foram os PSP, a segurança das embaixadas em países de alto risco, ou em guerra, é feita pela PSP. Quando foi necessário projectar Força para países de expressão portuguesa para proteger e retirar nacionais, avançou a PSP, etc... Porque carga de água é que a PSP haveria de ter direito a participar em paradas militares? E de ter Estandarte Nacional? E de ter espadas?
Ah, sim!... tem 16 sindicatos!!! 
Mas isso não impediu a PSP de garantir com os seus sindicalizados, mas que estavam de serviço, a ordem pública e a segurança dos Orgãos de Soberania aquando da manifestação convocada, entre outros, pelas Associações Profissionais da GNR e (não tenho a certeza) das FA.
Espero que tudo isto tenha sido útil para te esclarecer, teres uma opinião menos enviesada da PSP e orgulhares-te de teres uma Polícia Portuguesa altamente profissional, capaz, considerada internacionalmente como uma das melhores do mundo civilizado, que contribui para que Portugal seja um dos países mais seguros do mundo, em que as grandes operações por si conduzidas, tais como a segurança do Euro 2004, a segurança das visitas papais, a segurança de Cimeiras internacionais (ibero-americana, NATO, UE), foram observadas por Polícias de outros países, com o intuito de connosco aprenderem, e que ainda hoje constituem "case study" , levando a que tenha sido ministrada, quer cá, quer por deslocação ao estrangeiro, muita formação a Polícias de outros países. O "Police Adviser" da ONU é um oficial da PSP. 
Mais haveria para dizer, mas fico-me por aqui, não resistindo no entanto a uma observação de somenos importância: do que vi na televisão, quer em directo, quer depois nos vários canais noticiosos, os piores que eu vi a desfilar foram os cadetes da Academia da Força Aérea.
Termino com um pedido, apelando à tua honra e isenção: que dês a este meu "direito de resposta" a mesma difusão que deste ao teu artigo.
Forte abraço do teu camarada Cadete-Aluno nº 89 da Academia Militar,
Jorge Filipe Moutinho Barreira
Superintendente-Chefe (Ap)






RÉPLICA DE ESCLARECIMENTO AOS COMENTÁRIOS FEITOS SOBRE AFIRMAÇÕES CONTIDAS NO ARTIGO DE MINHA AUTORIA, INTITULADO “O MAIOR DESFILE MILITAR DESDE HÁ CEM ANOS”.1
24/11/18

“A identidade de interesses é o mais seguro dos
vínculos entre Estados ou indivíduos”.
Tucídides
Gostava de começar por dizer que o texto que escrevi não contém em si mesmo, qualquer apreciação negativa para a PSP, tão pouco afirmei qualquer ilegalidade existente relativamente ao apontado.
Os pontos em diferendo parecem ser:
- A existência de Estandarte Nacional, na PSP;
- O uso de espada por membros da mesma corporação;
- A participação conjunta em cerimónias militares;
- O vínculo ou não ao Regulamento de Continência e Honra Militares.
*****
Para se analisar (sucintamente) as questões em apreço, é mister recuar um pouco atrás na História.
Na sequência do Golpe de Estado militar ocorrido em 28 de Maio de 1926, a antecessora da actual PSP, chamava-se “Corpo de Polícia Cívica”.
Acontece que devido ao estado caótico e comatoso em que a I República deixou a Sociedade Portuguesa, o Estado e as Instituições Nacionais, a Polícia foi intervencionada pelos militares, passando à actual designação no ano seguinte ao golpe.
Quando a situação estabilizou, nomeadamente a partir de 1933, as sucessivas reorganizações mantiveram-na como força militarizada e comandada e enquadrada por militares.
Não interessa agora fazer uma análise crítica do que se passou mas sim ater-nos a factos.
A situação descrita transitou para o período pós revolucionário no seguimento de outro golpe de estado militar, este agora ocorrido em 25/4/1974.
Forças e pareceres vários foram fazendo o seu caminho defendendo que a especificidade policial era distinta da militar e que a PSP devia possuir os seus próprios quadros e ser, consequentemente, “desmilitarizada”.
A situação correu paredes meias com a tentativa de criação de sindicatos na polícia - cujo maior arauto (mas sem alarde) foi o PCP – pretensão que ao poder político de então, só ocorreu contrariar, alegando a existência de oficiais das Forças Armadas, na PSP…
O que se revelou ser manifestamente curto.
Tinha, todavia, um corolário lógico: logo que saíssem os militares da PSP, podia haver sindicatos…
Foi o que aconteceu.
Estabeleceu-se uma data limite para os militares optarem por regressarem ao respetivo Ramo ou abandonarem as fileiras e tornarem-se polícias de corpo inteiro.
Tal ocorreu em 1987.
Simultaneamente criou-se a Escola Superior de Polícia, em 1982, que iria formar os futuros “oficiais”, estabelecendo-se um período de transição.
A partir daqui foi autorizada a criação do primeiro sindicato (de inspiração comunista), liderado pelo Subchefe Carreiras (se bem me lembro), após a aprovação da Lei nº 14/2002, de 19/2, que regulava a liberdade sindical na PSP. Culminava uma longa “luta” que se tinha agudizado após o célebre incidente entre “secos” e “molhados”, no Terreiro do Paço, em Abril de 1989. Desde então evoluiu-se para os actuais 16 (ou 17?) existentes.
Não entendo porque é que não os haveria de referir…
Aproveitando uma querela de má memória, com início na morte de um meliante, em Évora, que acabou numa “greve” em que os agentes entregaram simbolicamente as pistolas, e na saída do então Comandante - Geral, o General Gabriel Teixeira, em ruptura com o ministro da tutela, Alberto Costa (de péssima memória…).
A partir daqui o Governo mudou a designação de Comandante-Geral para Director Nacional, o que acarreta, por óbvio, extensas consequências.
Sem embargo, enquanto os militares se mantiveram na PSP, naturalmente tentaram manter as ligações ao múnus militar.
Mas a partir do momento em que, à PSP, foram retirados todos os vínculos militares e se tornou uma polícia completamente civil (o ter armas aqui é irrelevante – não há nenhuma policia desarmada - e a PJ, o SEF, SIS, até os Guardas Prisionais as têm…), não faz algum sentido que mantenham prerrogativas, tradições, estatuto, ou qualquer outra característica que só aos militares cabe e justifica.
E este é que é o ponto fundamental e creio que tal é de uma evidência cristalina.
Para os mais simples, também se pode deitar mão de um proverbio português que diz não se poder ter, em simultâneo, sol na eira e chuva no nabal…
Deste modo não cabe à PSP ter um Estandarte Nacional, que apenas lhe foi atribuído em 1935, por via do que atrás se disse.
E por acaso até existe algo escrito, sim, no Decreto-Lei nº 150, de 30de Junho de 1911. Diz assim no seu art.º 3: “Nas bandeiras das diferentes unidades militares, serão talhadas em seda, a esfera armilar, em ouro, será rodeada por duas vergônteas de loureiro, também em ouro, cujas hastes se cruzam na parte inferior da esfera, ligadas por um laço branco, onde, como legenda imortal, se inscreverá o verso camoniano: Esta é a ditosa Pátria minha amada”.
O SEF e a PJ também não dispõem de Estandarte Nacional. E, já agora, também ninguém jura bandeira.
E mesmo que nada estivesse escrito deveria aplicar-se o Direito Consuetudinário, pois sempre foi assim nas diferentes cambiantes que ocorreram ao longo dos séculos, e que são muito anteriores à criação da PSP que remonta ao reinado de D. Luís I, quando se criaram as polícias cívicas de Lisboa e Porto, em 2 de Julho de 1867 (e não em 1876).
Na realidade a Lei Orgânica da PSP referida, contempla a existência do Estandarte Nacional, mas não o devia fazer atento ao atrás exposto.
Também parece evidente que os Colégios Militares (sublinho militares) são unidades do Exército, comandados e enquadrados por militares; sendo menores também andam fardados, armados, cumprem o RCHM e têm um estatuto próprio, derivado da sua especificidade.
A questão da espada (ou do espadim, no caso dos oficiais da Força Aérea) não tem qualquer equiparação ao restante material de guerra (seria por isso que a PSP também em tempos quis adquirir carros blindados?). Tem apenas a ver com o simbolismo do “comando”.
Quando falas em espada curta (mais o chanfalho, já agora), usada nas patrulhas, ela era usada como objecto de defesa/ataque, não como símbolo de comando, não fazendo parte de nenhum uniforme.
Em boa verdade os civis não comandam, dirigem. Por isso não faz sentido a PSP ter comandantes de esquadra ou de Divisão, mas sim chefes das mesmas.
E a designação de “esquadra” nas unidades operacionais da FA (e não só) é marginal à discussão e teve um desenvolvimento próprio que em nada toca com a designação da usada na PSP. O significado é ainda, perfeitamente distinto.
O que não faz sentido algum é terem retirado da terminologia da GNR os termos batalhão, regimento, brigada, etc., e substitui-los por designações perfeitamente descaracterizadas (e idiotas) para designar unidades e orgãos daquela força militar. Mas isso já é outra discussão.
Enganas-te ainda - creio eu – ao dizeres que “a PSP está sujeita às regras gerais da hierarquia da função pública, tal como as FA…”. O que caracteriza as FA é a condição militar e convenhamos que comparar a hierarquia ou o comando militar à da Função Pública é, no mínimo, risível!
A questão do RCHM não é tão simples como a colocaste, embora eu apenas a tenha puxado por estranhar como é que uma força que não adopta esse regulamento (e já quase não pratica ordem unida), pode integrar-se numa cerimónia militar.
A questão da reciprocidade, ao que julgo saber, não tem a ver com este âmbito, mas sim à questão da reciprocidade em termos de cumprimento através da continência. Concedo que a questão não é linear.
Mas temos, mais uma vez, de recuar à militarização da PSP, durante a Ditadura Militar e o Estado Novo. Nesse tempo os oficiais da PSP tinham o posto máximo de “comissários” (galões prateados), os quais eram equivalentes a tenentes. Ou seja só tinham que cumprimentar os postos daí para cima.
Os novos postos da polícia, da actualidade vieram mudar tudo isto mas, mais uma vez, o fundamental foi a mudança de estatuto que os “civilizou”.
Ora os militares não fazem continência a civis, por subordinação hierárquica, apenas por deferência de educação, que nem sequer os obriga, por exemplo, a descobrir-se ou a descalçar as luvas, perante uma senhora…
Não houve, por outro lado, qualquer observação tendenciosa relativa à frase “só os corpos especiais desfilaram”, relativamente à PSP. Foi decidido superiormente que a PSP e a GNR participariam com 359 elementos cada. Presumo que cada uma levou o que quis.
As missões que referes no antigo Ultramar ou, agora, no estrangeiro, e que conheço (não enviesadamente) são, outrossim, excêntricas ao que está em discussão.
Quanto aos sindicatos não me obrigues a dizer mais nada…
Registo a tua opinião sobre os cadetes da Academia da Força Aérea, terem sido os piores a desfilar. Presumo que só tenhas visto o desfile na TV. Eu vi na TV e estive lá.
E por aqui me fico.
Para mim serás sempre o cadete aluno nº 89 da Academia Militar, e não perderás tal estatuto. Mas para as Forças Armadas, tu serás apenas o Superintendente – Chefe Barreira. Lembra-te que pediste (voluntariamente) o abate ao quadro do Exército.

Aquele abraço do,
Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador, Ex - Cadete – Aluno 59/71

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