segunda-feira, 15 de outubro de 2018

OS 60 ANOS DOS “FALCÕES"


OS 60 ANOS DOS “FALCÕES”
4/10/2018

“Aqueles que procuram agradar se enganam. Para agradar, tornam-se maleáveis, apressam-se a corresponder a todos os desejos. E acabam por trair-se em todas as coisas, para ser como os desejam. Que fazer com seres que não têm ossos nem forma?”

“O homem se descobre quando se mede com um obstáculo”.
                                        Antoine de Saint-Exupéry


            “Falcões” é a denominação atribuída à original Esquadra 51, da Base Aérea 5, sita em Monte Real, inaugurada com esta, em 4 de Outubro de 1958.
            Fez agora 60 anos, que foram devidamente comemorados como “bodas de diamante”.
            Não se trata, todavia, de uns quaisquer “Falcões”, pois a denominação refere-se apenas a um membro dessa “família” de aves rapaces, o Falcão Peregrino, “Falcus Peregrinus Tunst”, o falcão caçador mais feroz e letal de todos!
            A escolha não foi fortuita: a esquadra assim denominada e equipada originalmente, com o extraordinário F-86F Sabre, era uma esquadra de caça pura, destinada à defesa do espaço aéreo nacional.
            A missão mais nobre do “Poder Aéreo” e garante da soberania nacional.
            O primeiro comandante da esquadra foi o saudoso e já lendário Coronel Gualdino Moura Pinto (que tem uma sala com o seu nome na esquadra) extraordinário piloto, combatente e líder, que acabou a sua carreira após ser Comandante da Zona Aérea da Guiné e Cabo Verde e da Base Aérea 12, em Bissalanca, Guiné Portuguesa.[1]
             Nestas funções foi a pedra chave para a resolução do grave problema do aparecimento dos mísseis SAM 7 “Strella” (em 1973) naquele teatro de operações e que retirou à Força Aérea a supremacia dos ares, mas não a superioridade aérea.
            Foi ele que, em 1958, lançou, mais a sua equipa da altura, os fundamentos da organização e espírito da esquadra, fazendo jus ao ditado que diz que o que não nasce torto, sempre se mantém e endireita …
            A Esquadra dos Falcões sempre se manteve e nunca precisou de se endireitar.
            Estamos em face de uma unidade de combate de excelência – e não há unidade de “operações especiais” que se lhe possa comparar – que está na primeira linha das operações e do combate, velando 24 horas sobre 24 horas, todos os dias do ano, na vigilância do espaço aéreo nacional, com um grau de prontidão de uma parelha pronta a descolar em 10’.
            E está (bem) armada, para o caso de haver dúvidas ou julgarem que a Força Aérea é apenas um aeroclube muito dispendioso.
            Que o será, no dia em que deixar de ter armamento e, ou, não for capaz de executar missões tácticas de cariz militar…
            A esquadra tem um lema: “guerra ou paz tanto nos faz”, que se não deve ler no sentido literal da frase, como alguns poderiam deduzir – pois aos militares é mais caro e importante ganhar a guerra pela dissuasão, do que pelo combate – mas porque estão sempre aptos a voar e operar tanto na paz, na crise ou na guerra. Por isso tanto lhes faz…. E têm também um “grito”, síntese da sua agressividade e determinação que tenta imitar o som estrídulo do falcão peregrino: KIAK!
            E para que não haja dúvida da sua (serena e eficaz) ferocidade, existe uma frase, que encima a entrada da esquadra conhecida pelo “Palácio dos Falcões”, o local selecto onde estão prestes a entrar: “Por esta porta passam os falcões mais ferozes do mundo”.
            A frase ainda não foi desmentida…
            Aos abibes, isto é, os filhotes do Falcão, ou seja, os novos pilotos que lá chegam aspirando (mas apenas aspirando) em se qualificarem Falcões, não é permitido passarem na porta, enquanto ostentarem aquele “diminutivo”. Têm que crescer e aparecer.
            Assim deve ser.
            A vinda do F-86F, que contabilizou cerca de 65 unidades, foi acompanhada pela montagem do restante Sistema de Defesa Aérea (comando, controlo, comunicações e radares de defesa aérea), que não chega a ser concluído, por entretanto ter sido desencadeada a agressão militar internacional aos territórios portugueses de Angola, Guiné e Moçambique.
            Após o fim das operações em África, em 1974/5, o F-86F foi finalmente abatido em 30 de Junho de 1980 – após 60.000 horas de voo e, mais tarde (tardiamente), substituído pelo A-7P, em 24 de Dezembro de 1984, opção encontrada por não haver disponibilidade financeira no país (isto é, querer político) para o substituir por um avião de caça moderno.
            A denominação da esquadra passou então, para 302.
            Com o abate destas máquinas, que somaram um total de 50, em 10/7/1999, após 64.000 horas de voo – e que eram uma excelente plataforma para atacar alvos marítimos e terrestres, mas não para defesa aérea – em boa hora foi a Força Aérea equipada com duas esquadras de F-16 que, depois de modificados, constituem ainda um excelente sistema de armas em qualquer parte do mundo.
            Parte dos aviões passou a equipar a Esquadra dos Falcões, que mudou a sua designação para Esquadra 201.
            A partir de 1978 (Directiva do Cemfa, de 19 de Outubro desse ano) começou a ser implementado um novo sistema integrado de Defesa Aérea, o SICCAP, maioritariamente financiado por acordos NATO, e de cujas duas primeiras fases foram concluídas (a terceira contemplava os Açores e foi abandonada por questões de prioridades e ameaças dentro da Aliança, decorrentes da queda do Muro de Berlim, em 1989). Mas o que foi implementado está a funcionar, mas já com algumas limitações dado que as opções políticas de desinvestimento sistemático nas missões soberanas do Estado e da Nação, nomeadamente as Forças Armadas, reduziram já estas à ínfima espécie, desarticulando-as nos últimos 30 anos, em termos financeiros, administrativos, em pessoal, em autoridade, em apoio social e cívico e na subversão da condição militar dos seus servidores.
            Não existe no vocabulário da língua portuguesa adjectivos suficientemente fortes e cáusticos para definir a acção empreendida!
            As comemorações decorreram com brilho, com graça, com dignidade, com simplicidade e tocando um conjunto alargado de eventos presenciados por mais de uma centena de antigos falcões (embora pudessem e devessem ter sido mais …), incluindo alguns falcões da primeira “postura” de 1958, a que se juntou um lote apreciável de “companheiras” (não “falcoas”), o que aconteceu pela primeira vez em eventos deste género.
            Tendo terminado com um Jantar de Gala, o que também ocorreu pela primeira vez.
            E, para que conste, a “Fazenda Nacional” não contribuiu com um cêntimo para o evento.
            A esquadra 201, Falcões, está pois de parabéns.
            São poucos os Falcões no activo e, nomeadamente, na esquadra (mas nós também nunca fomos muitos…) a quem estimamos boas “caçadas” e estamos certos que saberão continuar a honrar os pergaminhos do “ninho”.
            E um “falcão” só dá baixa aquando da sua descolagem para o voo eterno!
            As minhas saudações, comovidas, para todos aqueles que já o efectuaram e aguardam no seu “poleiro” (agora já sem necessidade de “entrar ao passo”) a reunião dos que cá estão.
            A certa altura das comemorações foi afirmado que enquanto houver Força Aérea, haverá Falcões.
            Eu diria antes, que enquanto houver Falcões, haverá Força Aérea!
            KIAK!





                                                       João José Brandão Ferreira
                                                            Oficial Piloto Aviador
                                                                Falcão da postura de 1976


[1] Passou à situação de reserva, a seu pedido, após regresso da Guiné, por portaria de 26/09/1973.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

AS CAUSAS DO FILME DE TERROR

AS CAUSAS DO FILME DE TERROR
05/10/2018

“Verba vólant scripta mánent exempla traúnt”
                    Aforismo latino.

       (“As palavras voam, os escritos permanecem, o exemplo arrasta”).

            Escrevemos há uns dias um pedaço de prosa em que comparámos a sucessão sucessiva de sucessos que se sucedem sem cessar, no nosso burgo, a um filme de terror. Melhor dizendo, a um festival de filmes de terror.
            Vamos tentar hoje, apontar as razões (causas) por que tal acontece.
            Este desacerto em que vivemos tem a sua razão próxima na estabilização assíncrona e mal mastigada, e até criminosa, das consequências dos eventos ocorridos após a data de 25 de Abril de 1974 e da réplica ocorrida a 25 de Novembro do ano seguinte.
            Como convém os considerandos têm de ser simplificados, sem embargo de se começar por dizer que a “verdade” política e social, oficial, que daí resultou, estar ferida de numerosas mentiras.
            O que já de si representa um símbolo de impossibilidade para que o edifício entretanto construído pudesse assentar em alicerces bem escorados, com tudo o que isso implica.
            Na prática e sem entrar em estudos sociológicos que deixamos para os serventuários dessa área algo esotérica que toma o nome de “Sociologia”, as principais causas do “status quo” existente – e que volto a adjectivar de filme de terror, a que devo acrescentar o termo “democrático” – são por ordem decrescente de importância, o Sistema Político; o Sistema de Ensino e o Relativismo Moral.
            Vamos ser sucintos.
            O sistema político é uma manta de retalhos mal equilibrado, baseado numa Constituição palavrosa, mal engendrada, escrita quase sob sequestro, meio utópica e claramente antidemocrática e até, anti nacional.
            Para já o sistema existe sob a forma republicana, o que representa uma realidade política e social menor, relativamente à Monarquia; é o “reino” da estúrdia.
            Depois não é carne nem é peixe, ou seja é “semi-presidencialista” e, neste caso, não é no meio que está a virtude, muito menos devido ao ADN do português.
            Por outro lado é jacobino serôdio, inspirado nos ideais terroristas da Revolução Francesa e na tão gabada teoria do Montesquieu da divisão de poderes (executivo, judicial e legislativo). Ora isto nunca funcionou bem e está ultrapassado (bem como a divisão idiota entre “esquerda” e “direita”), em primeiro lugar porque não há independência alguma, pois todos influenciam todos, depois porque há outros poderes, até mais reais que estes, que os subvertem.
            Depois porque está baseado, quase exclusivamente nos Partidos Políticos que são péssimos (sempre foram), pois são organizações medíocres e funestas, onde não há escrutínio, nem formação, nem prestação de provas entre os seus membros, eivados de doutrinas e ideologias erradas (algumas criminosas) que nunca resolveram nenhum problema e agravaram todos.
            São estruturas viciadas e viciosas cujo futuro é a degradação e “partirem-se”, como deriva do seu próprio e infeliz nome.
            Tudo se fazendo em completo desrespeito e menorização das instituições nacionais (Magistratura, Diplomacia, Forças Armadas, Universidade, Academias, Igreja, organizações de carácter cultural, desportivo, apoio social e recreativo, etc.) e de toda a população onde se tenta explorar os baixos instintos das pessoas.
            Apelidam, com desfaçatez e ar sério, tudo isto de “democracia” e alcandoraram a coisa aos píncaros da boa aventurança, ao ponto de ninguém poder criticar ou pôr em causa o “sistema”.
            “Máxime” é perigoso pois a ideia é veiculada de modo a convencer psicologicamente os votantes (tudo está baseado no voto) a pensarem que influenciam ou mandam em alguma coisa…
            O “sistema” não se regenera e só tende a piorar.
            Em súmula, enquanto tivermos “partidos” jamais teremos país…
            O Ensino, vítima disto e da subversão neomarxista e neocapitalista, emanadas por órgãos e estruturas difusas e mal identificadas (mas muito reais), vem a seguir e é um desastre.
            E em Portugal atinge paroxismos de estupidez e do politicamente correcto no que toca à dimensão mastodôntica do Ministério da (des) Educação (que se dá em casa e não na escola); autoridade e hierarquia (inexistente); indisciplina (consequência da falta daquelas); experiências pedagógicas (delirantes); avaliação (inexistente na prática), desorganização de carreiras e influência dos sindicatos; o vácuo do desporto escolar, inadequação ao mercado de trabalho, etc.. (A que se tem que acrescentar os negócios com obras e livros escolares).
             A coisa só aparentemente não é caótica e dura há 44 anos…
            Sem embargo nela se despeja (é o termo) em cada orçamento do Estado mais de um bilião de euros (há largos anos)!
            Resultado: milhares e milhares de jovens atirados para a vida profissional e social, muito deficientemente preparados em termos culturais, éticos, físicos, cívicos, morais e intelectuais, embora altamente proficientes em ouvir o MP3, enviar SMS, entrar no “Google” e fazer “downloads” da internet e anormalmente espertos na identificação de géneros, orientações e práticas sexuais.
            Depois aparecem uns “castiços” nas pantalhas da TV que, com ar ufano como se estivessem a acreditar naquilo que dizem, afirmam estarmos perante a geração mais bem preparada de sempre!
            Só com um pano encharcado na cara.
            Finalmente o “relativismo moral”, posto em prática pelas tais “agências” acima referidas, cuja mais conhecia, dá pelo nome de “Escola de Frankfurt” e suas derivadas (como o “Fórum de S. Paulo”, por exemplo).
            O Relativismo Moral tem sido a maior ferramenta que tem solapado a civilização dita ocidental e o maior aríete contra a Igreja que tem sede em Roma e que esta, em vez de combater com todas as suas forças, resolveu tentar “adaptar-se” e contemporizar, após o Concílio Vaticano II!
            Tudo tem sido posto em causa: os fundamentos da família tradicional; a religião (com predomínio para a cristã e nesta, a católica); o valor da Nação como a melhor expressão de agregação dos povos; as virtudes; as tradições: a preservação da cultura dos povos (pelo multiculturalismo); pela exaltação dos vícios; a subversão da própria natureza humana, através do aborto, da eutanásia, da teoria do género, pelo homossexualismo, etc.; a subversão da arte, pela cultua do feio; da grosseria; do ruído; do deboche, etc.; da sociedade, pelo individualismo, sincretismo religioso; hedonismo, materialismo, feminismo e outros ismos.
            Enfim, uma soma astronómica de utopias balofas, antinaturais, anticientíficas, antiéticas, antimorais, anti - religiosas.
            Em síntese, a verdadeira encarnação do Mal. Do Mal Absoluto!
            Em tudo e acima de tudo e transversal a tudo, os mentores da sociedade actual fizeram colapsar a Autoridade. Ora só a autoridade permite executar decisões, estabelecer rumos e realizar coisas.
            Ela caiu, entre nós, no PREC e não foi reposta.
            De seguida – e como a sociedade se rege por leis – desataram a fazer leis em catadupa, uma autêntica diarreia legislativa que podem ser muito boas para dar emprego e fazer ganhar dinheiro aos diferentes ramos dos licenciados em Direito (que são quem as elabora), mas que é péssimo para o funcionamento seja do que for.
            E como se deixou de ensinar português (lá está o ensino…), deixam muito a desejar na forma e na substância.
            Eis as três principais causas do filme de terror em que se transformou a nossa existência.
            Muitos poderão pensar que o Sistema de Justiça - porventura outras coisas) - se deveria juntar às causas.
            Sem dúvida que sim, mas tornaria o escrito demasiado extenso, sendo que o estado da justiça depende e deriva directamente das três apontadas.
            Passamos a viver noutro tipo de filme, eis o desafio que temos.
            Parece-me relevante que esse desafio seja aceite e saia vencedor.
            Embora não vá desistir, não estou nada seguro disso.


                                                                      
                                                    João José Brandão Ferreira
                                                         Oficial Piloto Aviador

           

terça-feira, 2 de outubro de 2018

UM FILME DE TERROR EM SESSÕES CONTÍNUAS


UM FILME DE TERROR EM SESSÕES CONTÍNUAS

02/10/18

“O Exército é o espelho da Nação”. Frase utilizada em Portugal, na acção psicológica durante o último conflito ultramarino.

Estamos a falar da sociedade portuguesa num país (ainda) chamado Portugal.
Relativizemos o “terror”, que não é comparável ao que se passa na Síria, no Congo, ou na Bolívia…
Mas falamos do nosso país já entrado no século XXI, amadurecido, por um lastro de 850 anos de História comum, que vive o dia – a - dia sem ameaças violentas no horizonte, mas com uma conflitualidade política e social permanente e latente.
Não estamos em guerra nem numa situação de “PREC”. 1
Se bem que, verdadeiramente, o país nunca saiu do PREC, apenas o amenizou…
Neste âmbito a “geringonça” tem andado – com alguma inteligência até, diga-se em abono da verdade (o que torna a coisa mais perigosa) – a exacerbar as coisas.
Estranhamente, ou não, o “órgão” Presidência da República tem proporcionado um caldo de cultura em que tudo isto medra.
Pois palavras e “selfies” leva-as o vento…
Daí que assistirmos a um telejornal ou ler os títulos dos jornais seja um filme de terror. Em sessão contínua.
As pessoas nem conseguem respirar de umas para as outras…
A que se deve o que estou a referir?
Fundamentalmente ao aumento geométrico dos casos de corrupção; de crimes vários e de incompetência manifesta.
Pode-se argumentar que a acção desenfreada de concorrência entre os diferentes órgãos de informação (sendo estes muito superiores às necessidades) tem um efeito multiplicador e cacofónico em tudo o que se passa.
De facto é uma avalanche de notícias e ruído (por isso muitos cidadãos já não os consegue ler, ouvir ou ver), mas as coisas não deixam de acontecer e ser reais.
Não passa um santo dia sem que sejamos brindados com desbragamentos, roubos, subornos, malfeitorias, desfalques, crimes passionais, vigarices, etc., etc.
A Justiça está atulhada de processos e tem sido (por via da natureza das leis e de como as coisas estão organizadas) de uma ineficácia monumental!2
O cidadão comum anda estarrecido com tudo isto, em revolta surda acumulável, a falar mal por todos os cantos e deixou de acreditar seja em quem for.
Mas a sua intervenção cívica não passa disto, sobretudo enquanto tiver dinheiro no bolso e comida nas lojas, “esquecendo-se” que tal só se consegue à custa de uma dívida interna e externa que não pára de aumentar; venda de património nacional e alienação de soberania!
Tudo muito tipicamente português…
A corrupção é transversal, gangrena tudo e manifesta-se sobretudo na classe política, autarquias, futebol, no mundo da finança, enfim, em tudo o que cheire a negócio.
Está a ficar muito preocupante e só diminuirá (como os incêndios florestais) quando se cortar a cabeça a uma dúzia alargada de cabecilhas. E se saiba.
Agora a débacle – que já infestava a Instituição Militar há muito tempo – chegou em força às Forças Armadas, por via de exposição pública de vários casos (seguidos) mediáticos.
Começa (mas não se esgota no que vou referir), na auto - demissão do CEME, General Jerónimo e mal conseguida substituição; situação nos estabelecimentos militares de ensino secundário (CM, IO e IMPE); no assalto aos paióis de Tancos (antecedidos dos roubos já havidos, nos Comandos, nos Fuzileiros e na PSP, etc.) – uma vergonha inominável; o caso das messes da FA; a guerra sobre a Autoridade Marítima; a morte de dois recrutas durante o curso de comandos; continuado “assalto” governamental ao IASFA; no congelamento das carreiras (uma coisa inaceitável desde o início); na cativação escabrosa e continuada das verbas destinadas ao funcionamento dos Ramos e da Lei de Programação Militar; na degradação do Serviço de Saúde Militar e do Hospital das FA (ninguém se entende sobre nada desde o início) para agora vir desembocar no inacreditável caso da prisão do Director da PJM, de um civil e da arguição pesada para mais três militares da mesma polícia e outros três da GNR, que investigavam o caso do assalto aos paióis de Tancos.
Quase em rajada e simultâneo, somos confrontados com mais uma morte de um soldado no “Regimento” de Comandos, (aparentemente por suicídio), poucos dias após a substituição do Comandante – a qual (substituição) teve contornos menos próprios e foi largamente publicitada (originando um almoço público de desagrado e desagravo); a arguição de uma oficial farmacêutica da Marinha por alegadamente “traficar” medicamentos, logo seguida do desaparecimento de uma caixa de munições transportada numa viatura dos fuzileiros (recuperada entretanto por um elemento da população que a encontra na via pública e a entrega à PSP).
Tendo como pano de fundo a paralisia de tudo, pois a FA não voa, a Marinha não navega e o Exército não treina; não há dinheiro, não há material, não há pessoal, não há autoridade, não há carreira, o moral é medíocre, as poucas unidades operacionais existentes estão mercenarizadas; parte da opinião pública acha (em Portugal toda a gente acha qualquer coisa e opina sobre tudo) que a “tropa” não serve para nada e as autoridades políticas e os “média” retiraram cirurgicamente a Instituição Militar e os militares da vida nacional. Só são notícia quando se dá uma bronca qualquer…
Se isto não é um filme de terror só pode ser um festival de filmes de terror!...
A situação nas FA vai piorar. Só pode piorar.
A razão fundamental prende-se com o menosprezo, degradação, e ataques vários a que foram sujeitas pelo Poder Político; má vontade em algumas áreas da intelectualidade nacional – tudo reflectido nos OCS. Esta situação dura há mais de 30 anos. Não são 30 meses…
Isto tem consequências fundas, que as chefias militares não têm sabido ou conseguido antecipar, impedir ou remediar.
E somos chegados a um ponto em que estas mesmas chefias estão, aparentemente, inermes, arrastando com elas toda a hierarquia militar.
Estou em crer que, se amanhã, por exemplo, (e não por absurdo…) acabasse o Conselho de Chefes Militares, ninguém no país – nem mesmo na tropa – daria por isso.
Imagine-se o Moral que percorre as fileiras…
A Instituição Militar é aquela que no país inteiro, é a mais resiliente, devido à formação dos seus servidores; hierarquia, disciplina, estrutura, etc., consubstanciada na “Condição Militar”, alicerçada num conjunto de “virtudes militares”.
Mas quando parte, parte a sério. Veja-se o que aconteceu no PREC.
As Forças Armadas estão abaixo de todos os mínimos há muito. Não é, pois de estranhar o que está a acontecer. É de admirar, apenas, como não acontece pior.
As Forças Armadas não são também, imunes, ao que se passa no resto do país…
Uma palavra mais para terminar sobre o evento da posição do Coronel Vieira até agora Director da PJM.
O caso de Tancos – cujos verdadeiros contornos ainda se desconhecem – irá ficar para a História como o exemplo do que não se deve fazer e actuar.
Em primeiro lugar porque representa uma falha de segurança grave; um acto de desleixo, incompetência ou incapacidade militar; absoluta incompetência político/militar para lidar com o caso publicamente; inenarrável confusão de competências e autoridade na investigação desencadeada e em curso; falta de liderança e todos os níveis.
Enfim, um “case study” pelos piores motivos e que, à boa maneira portuguesa, dificilmente reverterá em ensinamentos, apuramento de responsabilidades ou mudança de procedimentos e estruturas. Com o perigo muito grande de caso se venha a mudar algo, seja para pior.
O fulcro de todo este caso, que devia ser o apuramento do crime e suas envolvências, passou a ser uma guerra entre corporações, em que ninguém até agora pôs ordem.
Ou seja a PJ e a PJM em vez de investigarem o acima descrito, passaram a espiar-se mutuamente, vítimas de desacertos legislativos, quezílias de poder e desentendimentos pessoais. E também ninguém os pôs na ordem.
Já nem as aparências se salvam.
Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto (não é fado), é … um filme de terror!








                                                      João José Brandão Ferreira
                                                         Oficial Piloto Aviador

sábado, 15 de setembro de 2018

O SIGNIFICADO DO ALMOÇO AO CORONEL PIPA AMORIM


O SIGNIFICADO DO ALMOÇO AO CORONEL PIPA AMORIM
13/09/18

“Quá, Senhor, trazem me tam afagado e tam cerymoniado, e mostram me tantas dores suas, e que maus sam já pera trabalhar; e depois de me terem bem manso, e bem seguro de nam esprever eu a verdade a Vossa Alteza, entam Vos esprevem lá, senhor, essas cartas!”
Afonso de Albuquerque
Cartas I, p. 290, 20 de Outubro de 1514.

            Como foi amplamente noticiado um grupo de militares (sobretudo na reforma e na reserva) e alguns civis, resolveram organizar e estar presentes num almoço de homenagem ao último Comandante do “Regimento” de Comandos – Regimento que, por junto, não arrebanha duas companhias (que é, aliás e infelizmente, o espelho de todas as unidades das Forças Armadas e sobretudo do Exército) – Coronel Comando Pipa de Amorim.
            O evento teve lugar no pretérito dia 8 de Setembro, num restaurante da capital e congregou mais de 400 convivas.
            É normal aos comandantes das unidades que estão de partida dos seus comandos (como a outros militares), serem homenageados num jantar de despedida que ocorre, por norma, na própria unidade ou em restaurante perto da mesma.
            Desses almoços não consta notícia pública. São rotina. [1]
            Porque é que este almoço então, concentrou tanta polémica e reportagens em televisões e jornais?
            É na resposta a esta questão que o significado do evento se amplia e deve ser escrutinado.
            É certo que o fito do almoço era homenagear o Coronel Pipa Amorim – que passou desgostoso e prematuramente, à reserva – mas seria esse o único fito ou, até para alguns, o principal?
            Não parece nada que fosse.
            Não tenho dúvidas que o oficial em causa é merecedor desta homenagem castrense pela sua folha de serviços, por ter subido a pulso, pelas suas qualidades pessoais e competência técnica, por ter dado boa conta de si e da missão (incluindo em situações de combate) e por, tendo já dado provas de coragem física e espírito militar mostrou, como Comandante dos Comandos, não tergiversar na defesa dos seus homens e da sua missão e ser possuidor de elevada coragem moral, a mais difícil e elevada de todas.
            Ora foi contra este oficial – a que não há a apontar qualquer falta de lealdade – que se virou a hierarquia do Exército, na pessoa do Chefe do Estado-Maior do mesmo. Quero até crer que, exclusivamente, nesta figura.
            As razões são conhecidas, pelo que não me vou alongar nelas, mas deixando a pessoa do CEME, como homem e como militar, assaz esborratada.
            E, lamentavelmente, nunca se assumindo claramente as decisões e motivações, ao mesmo tempo que se exibia uma falta de “jeito” natural incrível, para substituir o Coronel Pipa Amorim, sem se poder alegar qualquer “anormalidade”. E não era difícil tê-lo feito.
            A ira, porém, não é boa conselheira…
            Apenas um comentário sobre a questão (uma das questões que terão enfurecido a chefia) relativa ao patriota, combatente de primeira água e comandante de linha aérea, Victor Ribeiro, que tive a honra de conhecer.
            Este homem foi condecorado à última hora – última hora pois foi condecorado já no seu leito de morte a horas do seu passamento - por intervenção de amigo comum e do PR (a proposta de condecoração corria os seus trâmites do anterior) e isso explica porque só um grupo de amigos íntimos esteve presente e justifica a ausência do CEME (que, presumo, nem soube do que se passou). [2]
            Não é aí, pois, que está o busílis – o busílis está em que a referência de exaltação a Victor Ribeiro (mais do que apropriada) por parte de Pipa Amorim num dos seus discursos públicos foi, aparentemente, objecto de censura por parte do CEME.
            Ora corre no “Jornal da Caserna” que o CEME, coitado, não faz nada sem “ouvir” o actual MDN (Dr. Azeredo Lopes), com o qual se encontra umbilicalmente intrincado desde a sua nomeação na sequência da saída do General Jerónimo, do cargo.
            A situação compreende-se (mas não se aceita): o PS, ou parte dele, que no 25 de Novembro de 1975, esteve do lado dos vencedores – que por acaso era o lado (mais) certo – está agora metido em conluio com as forças derrotadas nessa época, numa coisa a que chamam geringonça.
            Ora Victor Ribeiro foi um interventor de monta na derrota desses desqualificados…
            Portanto é mais do que claro que este almoço de homenagem é também, ou sobretudo, uma afirmação de desagravo e de protesto contra o estado a que isto chegou. E não há que ter receio de o afirmar explicitamente.
            O caso Pipa Amorim foi apenas mais um episódio da saga deste CEME que se tem revelado como totalmente incapaz para o cargo que ocupa; o que resulta do modo como as chefias militares têm sido escolhidas desde que nos tempos do ministro Fernando Nogueira, o Governo, a AR e o PR, mudaram a lei sobre a escolha das mesmas (que depois se repercute por aí abaixo), o que tem resultados desastrosos, nomeadamente na “partidarização” das Forças Armadas; na desgraça em que todo o aparelho militar está submerso – o qual está a funcionar em “modo de sobrevivência”; na desqualificação em que a Instituição Militar se encontra perante o País, etc..
            Tudo obra de uma ditadura partidocrata fomentadora de corrupção e que tem destruído e alienado o País.
            É dever de qualquer chefe militar (e político) antecipar problemas e resolve-los, antes que se tornem problemas.
            Por haver falhas graves e contumazes neste âmbito, a coisa repete-se.
            Andamos nisto com fugazes intervalos, desde 1817.
            O sistema, esse, vai triturando os melhores.
            Coube agora a vez ao Coronel Pipa Amorim.


                                                           João José Brandão Ferreira
                                                               Oficial Piloto Aviador


[1] Estamos lembrados de um outro jantar de homenagem (esse só juntando oficiais generais da mais alta patente) ao General Viegas quando este se demitiu de CEME alegando ter perdido a confiança no Ministro da Defesa…
[2] Horas antes deste acto (que pecou por tardio), Victor Ribeiro tinha recebido a maior condecoração de todas as existentes à face da Terra: foi baptizado!