Este blogue apresenta os pensamentos, opiniões e contributos de um homem livre que ama a sua Pátria.
terça-feira, 10 de outubro de 2017
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
EFEMÉRIDES “ALGO” DIFERENTES
EFEMÉRIDES “ALGO”
DIFERENTES
5 de Outubro de 2017
“Nós somos livres, nosso Rei é livre,
nossas mãos nos libertaram”.
Grito da Liberdade Portuguesa
(Das míticas Cortes de Lamego – Almacave)[1]
Comemorou-se
a cinco de Outubro, os 874 anos do Tratado de Zamora (de 1143), em que nesta
cidade do então Reino de Leão, estando presente o Rei D. Afonso Henriques, o
Rei Afonso VII e um delegado do Papa, Cardeal Guido de Vico, foi reconhecido a
passagem do Condado Portucalense, a Reino e confirmado o título de “rei” ao
filho de Henrique da Borgonha.
É
também comemorada a implantação do regime republicano em Portugal, evento
ocorrido há 107 anos (1910).
O
primeiro é evocado apenas em Coimbra, na Igreja de S. Cruz, onde repousam os
restos mortais do fundador da nacionalidade portuguesa e do seu filho D. Sancho
I.
E
a iniciativa de tais comemorações é da Real Associação de Coimbra a que, por
norma, se associam as suas congéneres de Aveiro e Viseu.
Em
boa hora o fazem.
O
resto do país ignora o evento, salvo uma ou outra iniciativa académica ou
patriótica.
A
evocação da República é feita um pouco por todos os 90.000 km2 que nos restam,
mas apenas pelas autoridades do Estado, e de alguns autarcas, mais por dever de
ofício e cumprimento de calendário, do que por qualquer tipo de convicção ou
doutrina.
Até a
Maçonaria deixou, há muito, a coisa perder o viço…
Aliás a
comparação do que se passou lado a lado em Coimbra – já que a Câmara Municipal
se situa adjacente ao vetusto templo que serve de “Panteão Nacional” aos dois
primeiros monarcas – ilustra bem o ponto em que estamos.
A cerimónia
republicana durou uns 20 minutos onde se hasteou a
bandeira do regime ao som de “A Portuguesa”, hino patriótico contra a
humilhação do ultimato de 1890 e logo aproveitado para hino da República,
quando devia ser apenas “Nacional”, e finalizou com mais duas marchas. Por
todo, não juntaram 50 pessoas, mesmo tendo em conta os mais de 20 elementos da
banda filarmónica contratada para abrilhantar a cerimónia, transeuntes e
turistas de ocasião.
Ao menos a
Igreja estava composta com cerca de 200 pessoas, missa evocativa, bandeiras,
coral, palavras sentidas, deposição de flores.
Foi simples,
mas teve elevação; deu-se preferência ao espiritual, à bem-aventurança e à
perenidade da Pátria.
Como convém à
verdadeira Aristocracia do Espírito.
Ao contrário
do momento republicano, laico – apesar da Nação não o ser – efémero, sem alma.
De um lado o
enlevo espiritual da independência – a soberania é a questão mais séria de
qualquer povo – o apelo à coesão da individualidade e a identidade portuguesa e
a continuidade da sublimação pátria.
Do outro,
comemora-se a divisão dos portugueses, a luta ideológica fratricida, o apelo ao
nada.
E cujo
substrato se baseia numa revolta armada ilegal, que nada justificava,
antecipada de um crime de regicídio e que nunca teve sequer a coragem de se
referendar.
A Monarquia
teve sempre em conta a “Res pública” – (do latim “coisa do povo” ou “coisa
pública), ou seja o governo da cidade, enquanto a “República”, além de ter
traços antinaturais, representa a perturbação permanente no governo da cidade.
É o granel institucionalizado.
Não é
seguramente por acaso que às casas onde grupos de estudantes, da Universidade
de Coimbra, resolvem viver juntos, se dá o nome de “Repúblicas”…
Apenas uns
comentários finais sobre a data do Tratado de Zamora, que pensamos dever
continuar a ser comemorado, mas não com o carácter de dia da independência de
Portugal, já que nunca se chegou a nenhum consenso sobre tal. Daí o dia de
Portugal ser a 10 de Junho, mas também aí não se comemora bem a independência.
A questão não
é pacífica e podemos ilustrá-la do seguinte modo:
A
independência, “de facto”, ocorreu no dia 24 de Junho de 1128, no fim do
combate de S. Mamede, onde os interesses do Condado Portucalense, se
individualizaram, face ao Rei de Leão (que incluía a Galiza), e ao Conde Fernão
Peres de Trava, que pretendia assumir o controlo do Condado, tendo em conta a
vitória obtida.
Muitos outros
combates foram necessários para a completar. Mas essa tarde, pode, e deve, ser
considerada a primeira tarde portuguesa!
Poderíamos
ainda considerar o dia 25 de Julho (de 1139), como data a considerar, já que no
fim da batalha de Ourique os guerreiros da hoste portuguesa elevaram Afonso
Henriques a Rei, à maneira visigótica (ele até essa data intitulava-se
“infante” ou “príncipe”); ou algures em 1140, ano do primeiro documento em que
Afonso Henriques aparece já como Rei (o que foi aproveitado para se comemorar o
duplo centenário da Fundação e da Restauração, em 1940), ou até o 14 de Maio de
1179, data em que, finalmente, o Papa Alexandre III (a fonte do Direito
Internacional, na altura), através da Bula “Manifestis Probatum”, reconhece a
soberania do Reino de Portugal, apesar do nosso Rei nunca ter pago a quantia
acordada em onças de ouro…
Temos assim,
que o Tratado de Zamora configura “apenas” um reconhecimento “de jure”, digamos
a nível regional, mas mantinha uma vassalagem de Afonso Henriques a Afonso VII,
já que este se intitulava “Imperador de toda a Hispânia”. E não estamos com
isto a retirar importância ao tratado.
Deste modo
parece-me que a data mais consentânea para se assumir como a da independência
nacional, seja a de 24 de Junho, pois essa data é que deu início e permitiu
tudo o resto, e só se reconhecer “de jure”, algo que já existe “de facto”!
Tendo-se ainda
em conta o gesto de Afonso Henriques ao armar-se cavaleiro a si próprio, em
1125, (também em Zamora) e não se ter conhecimento certo da data das míticas Cortes
de Lamego – Almacave, que terão proclamado a independência e liberdade do
Reino, por não haver prova documental de que se tenham realizado.
E enquanto não
houver uma decisão abalizada – já não direi consensual – sobre o assunto, e ao
fim de tantos séculos não acredito que vá haver, nem tão pouco se vislumbra
qualquer órgão do Estado, ou instituição, que queira discutir o assunto, pois que
se continue a comemorar o Tratado de Zamora, para não nos esquecermos de quem
somos e de onde viemos.
Fazê-lo, mesmo
sem o querer, e não sendo esse o objectivo, em contraponto a uma data funesta,
em que ocorreu uma revolução que melhor seria não ter existido, também não
parece de somenos.
Afonso
Henriques, meu velho “pai”, repousa lá no céu eternamente, e faz com que a tua
Espada, Valentia e Saber, continue a proteger a doce terra Lusitana.
João
José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
A HIPOTÉTICA INDEPENDÊNCIA DA CATALUNHA
A HIPOTÉTICA INDEPENDÊNCIA
DA CATALUNHA
6/10/17
“Obrigar o Governo às cedências que rebaixam e às
violências que revoltam”.
Brito Camacho
Tem
sido notícia durante algum tempo, e sê-lo-á, previsivelmente durante algum
mais.
Em metropolitano
rápido da História:
A
Catalunha (que também tem território do lado francês, do qual ninguém fala, tal
como o País Basco), integrou o Reino de Aragão, no século XII, após união
dinástica com o Condado de Barcelona, o qual Reino, por sua vez, se uniu a
Castela – que entretanto já tinha integrado as Astúrias, o Reino de Leão e se
expandia pela Andaluzia até ao mar – ao tempo dos Reis Católicos, Fernando e
Isabel, o qual tinham juntado esforços para conquistarem ambos, o Reino de
Granada, grande parcela de território que restava aos muçulmanos, desde que
estes tinham posto pé na Península Ibérica, em 711, com Tárique.[1]
Em
1492, ficou formada a Espanha, a qual veio a aglutinar também o Reino de
Navarra, em 1512, ao passo que obtinham a soberania sobre as Ilhas Canárias,
pelo Tratado de Alcáçovas/Toledo, de 1479/80, celebrado ainda em vida do rei D.
Afonso V.[2]
Na
Catalunha manteve-se sempre algum espírito independentista, havendo revoltas
severas em 1639 e 1705, que foram esmagadas militarmente.[3]
A primeira
aproveitou à Restauração da completa independência portuguesa, em 1640, embora
os dois casos sejam em muito, distintos.
Após o século XVIII, o Iluminismo e a Maçonaria tiveram grande
proeminência na Catalunha apesar da repressão exercida.
A
Catalunha, com uma área de 32.114 Km2, dispõe actualmente de 7,5 milhões de
habitantes, dos quais apenas metade será oriunda de sangue e nascida no
território. Tal representa respectivamente 6,3% do território espanhol e 15,7%
da população.
Muitos
outros catalães (não se sabe quantos) estarão disseminados pelo resto da
Espanha.
Desde
o princípio do século XX despontou na Catalunha uma forte corrente comunista e
anarquista que teve grande influência na guerra civil espanhola entre
1936-1939, e que ficaram derrotados no fim do conflito tendo sofrido uma
repressão posterior apreciável.
Com a
morte do Generalíssimo Franco, em 20 de Novembro de 1975, e na evolução
política e social que se lhe seguiu, a Catalunha veio a usufruir de uma ampla
autonomia – talvez a mais ampla de todas, que ficou consignada na Constituição
de 1978 e cuja democraticidade ninguém até hoje contestou – tendo a região de
Barcelona passado a ser concorrente e desafiadora de Madrid, e não poucas
vezes, adversária.
Agora
está a querer tornar-se inimiga.
Em
1994, a completa autodeterminação de Andorra veio, também, incentivar os
instintos independentistas de Barcelona.
Esta
autonomia que, penso, foi levada longe demais pela permissibilidade do Estado
Espanhol, teve a sua origem próxima, na irresponsável independência do Kosovo,
em 17 de Fevereiro de 2008, forçada pelos EUA, e que o governo de Madrid foi
dos primeiros a não reconhecer – o que se mantém até hoje – e no reforço das
forças esquerdistas na política catalã o que condiciona o tratamento do tema em
grande parte dos “média” ocidentais, dominados por tais tendências ideológicas.
A
questão catalã não configura obviamente nenhum caso de colonialismo, como os
definidos após a Segunda Guerra Mundial e constam da Carta da ONU.
Mas
independentemente de tudo mantém-se o princípio de autodeterminação dos povos.
Esta
autodeterminação pode conseguir-se pela integração (no Estado actual ou noutro),
ou emancipação e tal ser conseguido por meios violentos ou por referendo.
Ora a
questão neste caso como em todos – e não vamos aqui discutir quem tem razão ou
deixa de ter – é que se uma população, por razões de religião, rácicas,
culturais, sociais ou outras, ganha uma consciência nacional que a leva a
querer libertar-se do controlo político de outra entidade, vai ter de lutar
para o conseguir. E, na maior parte dos casos, vai ter que verter o seu sangue
para obter tal desiderato.
Isto
não tem nada a ver com Democracia, nem com “Estados de Direito Democrático”, é
escatológico, ou seja, tem a ver com o princípio e o fim das coisas.
Por
isso é que eventuais consequências são secundárias aos fins em vista, havendo
apenas que os pesar em termos de Estratégica, ou seja, em termos de saber se os
meios existentes conseguem atingir os fins e subsistir.
Ora o
que não tem sido devidamente sopesado e evidenciado é que, se os catalães têm o
direito de querer ser independentes (e não se sabe qual é a sua real
expressão), o resto da Espanha também tem o direito a se lhes opôr. Ou não será
assim?
E, no
fim, se chegarem a tanto, será a força (isto é o poder de coação) a impôr a sua
lei.[4]
É
evidente que à luz do Direito espanhol (e, até, Internacional) o referendo ou a
declaração de independência, são ilegais.
Por isso o uso de violência pela Polícia e Guardia Civil, espanholas –
resta ver o que acontecerá quando e se, enviarem o Exército – é perfeitamente
lógica e decorre da natureza das coisas (e também do que afirmou o Brito
Camacho…).
O que é de admirar é que ainda não tenha morrido ninguém. Mas lá
chegaremos.
Porém é raro, se é que em algum caso, se tenha
declarado uma independência sem dor…[5]
E
já repararam o que pode acontecer ao actual Reino de Espanha se tergivizar
neste caso face às 17 comunidades autónomas e duas cidades autonómicas (Ceuta e
Melilla) em que se dividiu?
Se
houver conflito, os diferentes países que constituem o Planeta Terra, apoiarão
uma ou outra parte e a maioria ficará neutra, pois o conflito não os afecta.
O
silêncio que se ouve na UE e nos governos do mundo inteiro é sinal da
incomodidade que a situação provoca. [6]
Os
apelos que se ouvem para obstar à violência são inúteis e supérfluos, numa
situação destas. É evidente que irá haver violência, de um lado e de outro.
A
Soberania é uma coisa séria e tem que ser levada a sério. Parece que só em
Portugal é que se deixou de perceber isto.
Acontece
que pela História e situação geográfica, Portugal não pode ficar neutro em toda
a questão nem vai conseguir “desenfiar-se” como fez com a questão do Kosovo.
Mas
isso ficará, talvez, para uma próxima oportunidade.
João José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador
[1] Convém lembrar que o Reino
de Aragão se tinha expandido para sul, até Valência, e no Mediterrâneo,
conquistando as Ilhas Baleares e a metade sul da Península italiana, a Sicília
e ainda conseguiram criar os Ducados de Atenas e Neopatia (entre 1311 e 1390)!
[2] O Reino de Navarra foi
fundado no século IX e continha territórios de ambos os lados dos Pirenéus,
incluindo o País Basco desde o século XII.
A parte francesa foi anexada em 1620 e definitivamente
incorporada em 1789. A parte espanhola manteve um vice-rei até 1841.
[3] A revolta de 1640 durou
até 1652 e ficou conhecida pela “Guerra dos Segadores”, contra o domínio de
Filipe IV; O conflito de 1705 nasceu da Guerra da Sucessão de Espanha e só
terminou em 11/09/1714. Este dia passou a ser considerado como o dia nacional
da Catalunha.
[4] Existem vários tipos de
coação, a saber: política, diplomática, económica, financeira, psicológica e
militar.
[5] A
não ser na “Descolonização” portuguesa em que, na prática, se obrigou a
população dos vários territórios ultramarinos a ser independentes mesmo
naqueles onde não se tinha disparado um tiro, como foi o caso de Cabo Verde e
S. Tomé e Príncipe e a empurrar a de Macau para os braços da China…
Ao passo que se reconheceu a escabrosa
anexação militar do Estado Português da Índia pela União Indiana. Malhas que o
mal fadado fim de império teceu!
[6] Apenas o Presidente Russo
foi lapidar no que disse, por sinal aquando da apresentação de embaixadores
estrangeiros entre os quais o português: “Estamos muito preocupados com a
situação na Catalunha, mas isso é um problema interno da Espanha”…
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
domingo, 1 de outubro de 2017
domingo, 24 de setembro de 2017
LANÇAMENTO DO LIVRO SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE
LANÇAMENTO DO
LIVRO SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE
ACADEMIA DE MARINHA, 21 DE SETEMBRO DE 2017.
Exmº Senhor Almirante Vidal Abreu
Restantes membros da mesa
Caros académicos
Minhas senhoras e meus senhores
Bem hajam por se terem dado à
maçada de virem assistir ao nascimento deste meu último descendente, já que o
livro ora lançado perpetua uma parte do meu pensamento, logo da minha
existência.
Vou falar-vos um pouco sobre
Afonso de Albuquerque, pois é dele que trata o livro que agora dá à estampa.
E vou começar por dizer um poema de Miguel
Torga, a ele dedicado e que foi musicado para o CD “Portugal Sempre”, por José
Campos e Sousa. Reza assim:
“Quando esta
escrevo a Vossa Alteza
Estou com um
soluço que é sinal de morte.
Morro à vista
de Goa, a fortaleza
Que deixo à
India a defender-lhe a sorte.
Morro de mal
com todos que servi,
Porque eu
servi o rei e o povo todo.
Morro quase
sem mancha à tona deste lodo.
De Oeste a
Leste a Índia fica vossa;
De Oeste a
Leste o vento da traição
Sopra com
força para que não possa
O rei de
Portugal tê-la na mão.
Em Deus e em
mim o império tem raízes
Que nem um
furacão pode arrancar…
Em Deus e em
mim, que temos cicatrizes
Da mesma lança
que nos fez lutar.
Em mais
alguém, Senhor, em mais ninguém
O meu sonho
cresceu e avassalou
A semente
daninha que de além
A tua mão,
Senhor, lhe semeou.
Por isso a
índia há-de acabar em fumo
Nesses doiros
paços de Lisboa;
Por isso a
pátria há-de perder o rumo
Das muralhas
de Goa
Por isso o
Nilo há-de correr no Egito
E Meca há-de
guardar o muçulmano
Corpo dum
moiro que gerou meu grito
De cristão
lusitano.
Por isso
melhor é que chegue a hora
E outra vida
comece neste fim…
Do que fiz não
cuido agora:
A índia
inteira falará por mim.”
O fidalgo Afonso que foi
governador da índia, também conhecido pelo ”Grande”, o “Leão dos Mares”, o
“César do Oriente”, o “Marte Português”, o “Tirribil”, e a quem D. Manuel i,
depois da sua morte e arrependido do modo como o tratara, fez vice-rei daquela e
distinguiu com os títulos de Duque de Goa, Senhor do Mar Vermelho e, ainda,
concedendo-lhe o tratamento de “Dom”.
E a quem, um notável ancião de
Orfação ofereceu um livro em persa, sobre a figura de Alexandre Magno – de quem
Albuquerque era admirador – tendo considerado os portugueses mais valentes do
que aquele grande - capitão.
Não me parece vã e desajustada esta asserção.
De facto Albuquerque reunia
todas as qualidades de um estadista, para além das de chefe militar que foi o
seu mister inicial e mais prolongado no tempo. Onde revelou sempre serena e
ponderada coragem e energia debaixo de fogo, e nas circunstâncias mais
extremas.
Como guerreiro combateu em Toro,
e esteve duas vezes em Arzila. Foi na armada a Taranto e participou na tomada
de Graciosa e em todas as campanhas militares onde Portugal esteve
contemporaneamente envolvido.
Foi à Índia pela 1ªvez sem
piloto e foi o primeiro europeu a penetrar no Mar Vermelho.
Como administrador e político, a
Índia fala por ele. Foi inovador e estava à frente do tempo.
Tinha senso diplomático e era de
uma argúcia sibilina.
Era um geoestratega de alto
gabarito, tendo delineado um plano de dominação do Índico que até hoje não foi
superado!
E complementava tudo com uma
humanidade que tocava os simples, sem quebra do seu escrúpulo de justiceiro
implacável, afastado de toda a cupidez que tantos demonstravam ter. Conhecia a
natureza humana e não tinha ilusões sobre os homens.
Albuquerque via tudo e atendia a
tudo!
Que exemplo para todas as
gerações! E é desse exemplo que é mister falar na actualidade.
Esta é a razão principal para a
elaboração deste pequeno ensaio – que será a sua eventual mais-valia - já que
não pretende ser uma obra de fôlego, sobre esta grande figura da história dos
portugueses, muito menos uma “obra definitiva”.
Que exemplo pode então ser Afonso
de Albuquerque para os portugueses de hoje, sobretudo para aquelas gerações
completamente arredadas e desconhecedoras da História dos seus maiores?
A História dos países é feita
pelos grandes vultos desses países: os estadistas, os chefes militares, os
jurisconsultos, os filósofos, os artistas, os cientistas, os escritores, enfim
todos aqueles que se destacam positivamente nos diferentes campos e profissões
em que se distribui a actividade humana. Onde se avantajam os santos e os
heróis.
Por todos aqueles que se atêm
aos princípios elevados e â prática do bem.
E também pela qualidade da
generalidade do povo, que vive, trabalha, luta e muitas vezes morre e, quando
devidamente liderado e enquadrado, sustenta os maiores sacrifícios em prol da
pátria comum.
A História não é feita, como
defende o compêndio marxista por lutas de classes; movimentos de massas;
baseado em factores de estipendio económico.
Muito menos por anti-heróis.
Tão pouco explicada e distorcida
por correntes ideológicas; ou orientada por uma pseudo União Europeia que se
esforça em ocultar tudo aquilo que pode dividir os países membros em prol de
uma mestiçagem histórica, postiça, mentirosa e apócrifa.
A História é feita por homens e
mulheres que em função das suas crenças, posição, oportunidade e circunstância,
decidem actuar de um modo e não de outro.
Ora Albuquerque é um paradigma
de tudo isto.
Ele representa uma ideia de vida
com dimensão espiritual; um defensor de causas; um lutador determinado sem
desfalecimentos; a lealdade consciente e lúcida ao seu país e ao seu rei,
apesar de todos os vilipêndios de que foi alvo.
Este homem, da confiança de D. João
II, era uma força da natureza; era culto, era competente e era bravo. Tinha
consciência das suas capacidades – ou seja conhecia-se a si próprio e aos
outros - mas não exorbitava, sem embargo de alguns acessos de cólera que tinha,
que eu diria compreensíveis face a tudo por que passou.
E como disse aquele que foi
provavelmente o maior estadista português de todos os tempos: ”existem santos
entre os homens, mas os homens não são santos”…
Significando a perfeição estar
longe dos humanos.
Uma realidade que todos nós e sobretudo os
legisladores, teimamos em ignorar!
Albuquerque é um exemplo
extraordinário de militar, cujos feitos e actuação nos emocionam, fazem correr
o sangue mais depressa nas nossas veias e nos impelem a saltar da cadeira onde
estejamos sentados!
Ao ler a descrição dos seus
combates percorre-nos uma corrente eléctrica incontrolável que nos põe a
epiderme em “pele de galinha” e nos enche de um orgulho incontido.
Albuquerque gozou do raro
privilégio de ser respeitado e admirado, para além de temido, pelos seus
inimigos (que não os da Corte…).
E um homem cuja memória ainda
hoje é venerada no principal território que refundou, que se manteve 450 anos
português, mesmo 60 anos após a nossa lamentável partida, não pode ser um homem
qualquer.
E tem de ser um homem com “H” maiúsculo e um
homem bom.
*****
Afonso de Albuquerque é, porém,
para a maioria da sociedade moderna e modernaça, uma espécie de anacronismo!
E, todavia, ele representa um
pilar da sobrevivência dos povos.
A Honra, de que as suas barbas
representavam uma espécie de penhor, valia mais do que todas as riquezas do
mundo.
Mas só quem tem o desapego das
coisas materiais e, até da vida – entendida como terrenamente finita – pode
realizar grandes coisas e, mesmo falhando, é invencível.
Só um crente pode comportar-se
assim e Albuquerque era-o. E pertencia à mui nobre ordem militar/religiosa de
Santiago da Espada.
E, caros compatriotas aqui
presentes, nós estamos a necessitar de “ordens” como aquela, como de pão para a
boca.
As Ordens Militares foram
transformadas e depois extintas e substituídas, primeiro pelo absolutismo real;
depois pelos partidos políticos.
Só as ditaduras de
"nuances" marxistas e aquelas dos financeiros capitalistas apátridas
conseguiram e conseguem, ser mais funestas que aquelas!
Ora um país que se esquece, por
ignorância, diletantismo ou má-fé, de evocar, comemorar e exaltar os 500 anos
do passamento desta figura maior da História Pátria, é um país e uma sociedade
profundamente doente e a caminho da auto - destruição.
Que é o caminho que levamos, até
em termos demográficos.
É dos feitos deste nosso ilustre
antepassado provavelmente o maior combatente português de todos os tempos, que
trata este meu livro cuja chegada a bom porto – não podemos esquecer que
estamos numa casa da Marinha - devo agradecer sinceramente e com gosto, à
editora “Nova Vega”, na pessoa do Sr. Assírio Bacelar, à Academia de Marinha,
na pessoa do seu presidente Almirante Vidal Abreu e ao seu Secretário-Geral,
Comandante Zambujo, que operacionalizou a cerimónia, e ao Almirante Vieira Matias,
a quem saúdo especialmente, pela consideração demonstrada, por ter escrito o
prefácio e feito a apresentação.
Desse modo o livro também passou
a ser seu.
A V.Ex.ª que com a vossa
presença, deram o brilho necessário ao evento e que aguentaram firme tudo o que
aqui foi dito e, com a vossa generosidade se espera fazer face aos custos da
edição, o meu muito obrigado.
Como faço anos daqui a dois
dias, creio ter usufruído, por antecipação de uma boa prenda.
E que viva Afonso de Albuquerque!
Muito obrigado.
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