A TROPA APAGOU-SE E O EXTERTOR
DA TERCEIRA REPÚBLICA
5/7/17
“Considerando
…
Considerando
…
Considerando
…
Manifesto a
minha concordância para a autorização do lançamento da empreitada de obras
públicas com a designação PM001/VNBarquinha – Polígono de Tancos – “
Reconstrução da Vedação Periférica Exterior no Perímetro Norte, Sul e Este dos
Paióis Nacionais de Tancos”, com o preço base de (euro) 316.000, ao qual
acresce o IVA à taxa legal em vigor”.
Despacho
5717/2017 de 05 de Junho, do MDN (DR nº 125/2017, série II de 30/6/2017
Apetece
dizer, tarde piaste!...
E também apetece perguntar como é
que, anúncios destes sobre matérias sensíveis que deviam ser classificadas, são
públicas…
O
alarido que para aí vai sobre o assalto aos paióis do Exército em Tancos, Deus
meu!
Tanta
virgem ofendida!
Tanta
admiração, tanta indignação, tanto espavento!
Será
que acordaram agora ou têm vivido noutro planeta?
Então
há cerca de 35 anos (trinta e cinco) que os sucessivos governos, parlamentos e
presidentes andam a destruir paulatina e sistematicamente a multisecular
Instituição Militar e agora querem que as coisas funcionem?
Trinta
e cinco anos não são 35 semanas ou meses (o que já seria grave)! Tudo isto com
a ajuda pressurosa da comunicação social e de uma chusma imensa de
intelectuais, políticos de partidos, comentadores, baladeiros e filhos d’ algo
avulsos e, de repente, incomodam-se por a coisa dar para o torto?
Sabemos
há muito que a generalidade da população está ignorante de tudo e mal preparada
para a vida em todos os campos, pois a Escola deixou de ser séria para se
transformar num recreio permanente onde se despejam alegremente biliões de
euros; meio imbecilizada que está, pela acção deletéria dos jornaleiros (que
não jornalistas) de serviço e confundidos e descrentes pela infrene demagogia
(a doença infantil da Democracia) vertida pela actuação dos agentes políticos -
que já não há saco que aguente - e só acorde quando há uma bronca qualquer.
O
que de resto também não os preocupa muito desde que no dia seguinte possam ir
até à praia, passear no centro comercial ou mandar uns “shots para a blusa”!
Para
além do mais é uma questão de horas até acontecer uma outra barbaridade
qualquer, passado o que, já ninguém se lembra da do dia anterior.
O
que se passou em Tancos – porque será que só agora há este alarido, quando já
assaltaram o paiol dos Comandos, na Carregueira; dos Fuzileiros, em Vale do
Zebro; da PSP, e outros roubos menores que não chegaram a vir a público? – não
deve ser objecto de qualquer admiração.
O
que nos deve admirar – e essa é a pergunta que se impõe – é isto: depois das
sucessivas barbaridades cometidas contra as Forças Armadas (que temos
denunciado activamente nos últimos 40 anos), como é que ainda há alguma coisa
que funciona?
De
facto a Instituição Militar tem uma “endurance” absolutamente notável!
Nos
últimos 35 anos – note-se que são problemas acrescidos e continuados – tem-se
subvertido todos os fundamentos em que assenta a Condição Militar; houve erosão
contínua do estatuto remuneratório e benefícios (que eram poucos) associados;
acabou-se com a Justiça Militar; deram-se facadas violentas na Disciplina;
invadiu-se o ensino militar através de exigências originadas no mundo
universitário (e político) civil, no mais das vezes desajustadas da realidade e
necessidades militares (mesmo assim este âmbito ainda é o que vai funcionando
menos mal); esvaziou-se a hierarquia militar de competências, a ponto de hoje
um general não ter autoridade para promover um soldado e ser difícil a um comandante
comprar um parafuso.
Acabou-se com o Serviço Militar Obrigatório;
torpedeou-se completamente o sistema de promoções; reduziu-se e cativou-se
despudoradamente os orçamentos, sem qualquer paralelo noutras áreas da vida
nacional; reduziram-se os efectivos, o sistema de armas e o dispositivo a
números ridículos e abaixo de qualquer funcionalidade – está tudo preso por
fios: não se cumprem as Leis de Programação Militar; não existem reservas de
guerra, nem sistema de mobilização; a sustentação logística é medíocre; não
existe representatividade política da IM e ninguém a defende institucionalmente
- a não ser por palavras de circunstância.
Ora tudo isto
– que está longe de esgotar a lista de erros, barbaridades e malvadezas – tinha
de afectar gravemente o Moral da tropa. E afectou!
E o Moral é a
mola real que mantém um Exército de pé.
As coisas,
aliás, estão de tal modo graves que agora até afectou a Moral dos
militares, vide as recentes prisões de militares da Força Aérea!
Há muito que
os três Ramos sobrevivem apenas para manter no estrangeiro umas pequenas
unidades ou grupos de instrutores, que o poder político entende ter interesse
enviar para o exterior, onde por norma se têm portado muito bem (enfim, também
houve alguns fiascos individuais aqui e ali), mas até isto pode ter os dias
contados!
O resto passou
ao campo da quase ficção. Destruir um Exército faz-se num instante (veja-se o
que aconteceu nos meses a seguir ao 25 de Abril); pô-lo de pé novamente leva
anos ou até décadas. É como a floresta que arde…
A grande
responsabilidade, pois, de tudo o que se tem passado recai no Poder Político,
devido à sua reiterada ignorância, má-fé, irresponsabilidade e, até,
revanchismo.
No meio disto
tudo, as Forças Armadas estão isentas de responsabilidades? Infelizmente não
estão.
As Forças
Armadas sendo a instituição nacional mais antiga e hierarquizada da Nação,
juntamente com a Igreja (por isso têm sido as mais atacadas), estão muito
dependentes dos comandantes que têm e cuja hierarquia culmina nos respectivos
Chefes de Estado-Maior. Embora nem tudo se possa ou deva empurrar para cima…
O que é um
facto é que, sobretudo depois das chefias militares terem passado a ser
essencialmente escolhidas através de critérios políticos, desde o primeiro
mandato do Professor Cavaco Silva, como PM, as coisas pioraram
significativamente.
Percebe -se
que estejam à partida condicionados, mas não se pode aceitar tal estado de
coisas.
Ora o que se
tem verificado é que a hierarquia militar deixou de existir em termos práticos:
ninguém os vê - a não ser com ar de perú em vésperas de Natal, a espreitarem atrás
do senhor Ministro – e é raro conhecer-lhes uma ideia, um pensamento, uma
doutrina.
Não se sabe o
que fazem e ninguém lhes liga nenhuma.
Não se
conseguem, por norma, entender sobre coisa alguma, e têm dificuldade em fazer
frente seja ao que for. E quando o fazem não se sabe nada. Resultado, continuam
a não lhes ligar peva.
Afirmam sempre
comedidamente que têm de trabalhar com o dinheiro que o governo da Nação (como
se esse termo pesasse alguma coisa no conceito dos actuais políticos) atribui
aos Ramos, mas não se manifestam quanto à impossibilidade de continuarem a
cumprir qualquer missão atribuída, seguindo a velha máxima que não há dinheiro
a menos mas sim missão a mais...
Às vezes
(poucas) chega-lhes a mostarda ao nariz e demitem-se, nem sempre pelos melhores
motivos. Uma atitude que após dois minutos de “glória”, se torna inconsequente,
não só porque não tem repercussão nas fileiras e vem logo outro, prestes,
ocupar o lugar (ficando ainda mais na mão do ministro que o indigita), e porque
depois de se “libertar” do fardo, nunca explicam minimamente as razões que os
levam a abandonar a função.
Por isso tem
faltado aqui muita coragem, o que desde tempos imemoriais é considerada uma
virtude e um atributo dos militares…
E já nem falo
daqueles que se deslumbram pela fofice das alcatifas…
Tudo, porém,
muito bem explicado e camuflado através de termos como “sentido de Estado”;
“prudência”; “não prejudicar o Ramo”; Ética, etc., e, por vezes, um mais pueril
“não estou para me chatear”.
Acho que serve
para aliviar a consciência.
O ridículo é
tanto que quando foi do ataque às torres gémeas, em Nova Iorque, em 2001,
colocou-se o País no estado de ameaça “Alfa”; até hoje “esqueceram-se” de o modificar…
*****
“R.I.9
As sentinelas dos terrenos do paiol farão fogo
sobre
quem tente escalar os muros.
1948”.
Dizeres escritos numa placa de rocha
Existente
nos terrenos do mesmo.
Finalmente
sobre a gravidade do roubo dos paióis, ainda parece que querem agravar tudo.
Não há
soldados para fazer nada; não há cabos quarteleiros para pernoitarem e, ou,
cuidarem dos paióis; não há sequer por vezes, já, oficial de dia, mas sim um
graduado de serviço – que por norma não tem pessoal para fazer o serviço…
Não há
dinheiro nem pessoal para manter ou substituir vedações; os espaços entre os
paióis não estão minados pois isso é contra os “direitos do homem”; não há
electrificação das redes pois não há dinheiro para tal tecnologia “de ponta”
que ainda se arrisca a matar uma ovelha que se encoste; o sistema de vídeo
vigilância estava avariado, etc.
O pessoal da
ronda passava de quando - em - vez, e ainda bem que desta vez não passou, pois
se tivesse confrontado os assaltantes, ou não faziam nada e davam meia volta ou
arriscavam-se a ser abatidos.
Porquê,
perguntarão: por duas gravíssimas razões: primeiro porque o poder
político não quer que os militares possam defender violentamente as instalações
e material à sua guarda não lhes outorgando autoridade para tal.
Deste modo
qualquer sentinela que pregue um tiro em alguém está tramado para o resto da
vida e, pelos vistos, não pode esperar que alguém assuma a responsabilidade do
acto. Mas também porque, desde o tempo do General Firmino Miguel, como CEME, o
pessoal de serviço ou não tem munições reais ou estas existem em carregadores
específicos que estão por regra, lacrados e, ou, têm duas a três munições de
salva, por cima da primeira munição real.
Todos os responsáveis sabem que isto
é verdade.
Por tudo isto,
há muito que as Forças Armadas Portuguesas se podem considerar decalcadas da
célebre charla da guerra do Solnado!
Acresce que há
enormes suspeitas de que pode haver conivências do interior, o que não
espantará vivalma, dado que, desde 1974, que não temos serviços de informações
(e há muito que estão entregues a pessoal aparentemente membro das Maçonarias…);
os registos criminais deixam muito a desejar e o crivo não é grande coisa.
Parece que também é contra os direitos do homem, agora também dos animais.
Ora o General
- Chefe de Estado-Maior do Exército, aqueles que o antecederam, bem como os dos
outros Ramos, estão carecas de saber tudo isto que acabei de dizer.
E não podem
alegar que não sabem, pois isso significaria que seriam ignorantes,
incompetentes ou estiveram a dormir na forma.
E por isso se
estranha também, porque é que segundo notícias vindas a público, o CEME terá
exonerado (temporariamente) quatro Coronéis e um Tenente-coronel sitos nas
unidades militares da área de Tancos. E tenha acrescentado que seria para não
“interferirem” nas investigações (será que os segundos comandantes já não
interferem?).
Se isto é
verdade, é muito grave: primeiro essa da exoneração temporária, não
existe nem faz qualquer sentido (o PR já enviou até um remoque acerca disto!) –
tão pouco foi aplicada no recente processo ocorrido nos “Comandos”; e dar como
racional, a hipotética interferência dos seus comandantes (como?) no processo,
é de uma inconveniência e gravidade extremas. E que irá ter consequências.
Aparenta, até,
ser uma manobra dilatória, de mãos dadas com o senhor MDN a fim de
salvaguardarem os seus imaculados traseiros.
A situação é
de tal modo grave (algum dia tinha que rebentar) que o Conselho de Chefes
Militares, não se deve alhear, como costume, do que se passa. Isto toca a todos
e deixou apenas de ser uma derrocada institucional e nacional (há muito
anunciada), para passar a ser uma vergonha internacional inominável.
Só falta
assistirmos a um General CEMGFA vir frente às camaras dizer que está tranquilo…
E sobre os
assaltantes que, pelos vistos entraram calmamente pela porta do paiol, ninguém
sabe nada.
Podem,
senhores governantes limpar as mãos à parede e agora já nem conseguem
responsabilizar o “cabo quarteleiro”, pelas simples razão de que é uma figura
do passado.
O País e as Forças
Armadas só não bateram no fundo por isto: deixou de haver fundo.
Não foi nestas
Forças Armadas em que assentei praça.
E sinto-me
envergonhado.
João
José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador