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Este blogue apresenta os pensamentos, opiniões e contributos de um homem livre que ama a sua Pátria.
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
domingo, 23 de outubro de 2016
UMA BALSA À DERIVA, CHAMADA PORTUGAL
UMA BALSA À
DERIVA, CHAMADA PORTUGAL
21/10/16
“É
necessário um sabre tendo ao lado um pensamento”.
Eça
de Queirós, 1890.
O recente despacho do Ministro da
Saúde, datado de 28 de Setembro, que obriga os hospitais a controlar a despesa,
obrigando à autorização prévia de qualquer “investimento” (o que inclui, por
exemplo, a reparação de um equipamento), é o mote deste escrito.
Salazar equilibrou as finanças em
menos de dois anos.
É certo que o “deficit” e a dívida,
não eram tão elevados como hoje, mas não deixa de ser certo que o país estava a
sair de 18 anos de granel, quarteladas mensais e bombas nas ruas.
A banca internacional já existia,
mas não existia o BCE, nem o euro.
A “Troika” da altura (a Sociedade
das Nações) quis impor-nos condições leoninas, mas estas foram rejeitadas. O
que se conseguiu “iludir” e ultrapassar foram a grande depressão de 1929 e a
crise da libra de 1931…
Salazar impôs uma ditadura
financeira, que estava apoiada nas baionetas da grande maioria dos militares e
não tinha a cáfila do compadrio e, ou, querelas partidárias a estorvá-lo – os
grandes causadores da crise em que o país então se encontrava.
Hoje, isto é, desde 2010, também se
ensaiou uma ditadura financeira só que o modo como se quer resolver “a crise” é
em tudo diferente, do que se passou há quase cem anos. E é diferente para pior,
mesmo pondo de parte a diferença de categoria entre os protagonistas de então e
os actuais.
Agora as forças políticas que querem
resolver o buraco e o desregramento financeiro existente são as mesmas que o
criaram com a sua incompetência, demagogia, antipatriotismo e incontinência
para o negócio (já nem falo noutras coisas); estão prisioneiros da tralha
partidária; não existe doutrina nem rumo definido, fora as alterações constantes
derivadas das eleições; dizem hoje uma coisa e amanhã outra, com a maior
desfaçatez; estamos tolhidos por tratados internacionais que nunca deveríamos
ter assinado e é raro encontrar na classe política e órgãos de soberania, quem
dê o exemplo de contenção, justiça relativa e moralidade.
Os recentes anúncios dos
vencimentos dos novos administradores da Caixa Geral de Depósitos, por ex., são
de uma escabrosidade inusitada! E não há pingo de demagogia no que estou a
dizer: a brutalidade da afirmação apenas condiz com a gravidade do erro, da
injustiça e da imoralidade!
Ora ninguém vai atrás, ou está de
boa vontade, com aqueles que não dão o exemplo.
Enquanto ministro das finanças e
depois como presidente do conselho de ministros, Salazar inspirou ou propôs
muitas leis, mas assim que estas eram decretadas ele era o primeiro escravo
delas.
As leis foram sempre poucas mas eram
maturadas, não continham excepções nem “alçapões”, estavam escritas em bom português
e não havia recurso a “outsourcings”.
Mas a verdadeira diferença que
pretendo trazer à colação com o recente exemplo deste despacho da “geringonça”
– até este termo se coaduna com as trapalhadas actuais e contrasta com a
seriedade de antanho – é o que ele representa.
Notem, o “tio” António, impôs
limites estritos nas diversas rubricas do orçamento de cada ministério, e
nenhuma despesa extra era permitida sem a sua chancela, mas não interferia na
gestão que os diferentes responsáveis faziam das verbas que lhes cabia gerir.
Hoje é o que se vê, um director
hospitalar não tem competência para comprar um rolo de papel higiénico, da
mesma forma que um general chefe de estado-maior não consegue promover um
soldado sem a anuência de um amanuense qualquer, do Ministério das Finanças.
E o “outro” é que era um
ditador!...
Tudo isto, além de entupir os canais
hierárquicos e burocráticos, desautoriza toda a estrutura dos diferentes
ministérios e não só, trata toda a gente abaixo da menoridade mental e
desmoraliza qualquer pobre de Cristo, o qual na melhor das hipóteses se senta a
um canto e deixa o tempo correr.
É uma clara demonstração de incompetência,
arrivismo, desconfiança e falta de saber e capacidade em responsabilizar seja
quem for, pois é disso sobretudo, que se trata.
É uma clara demonstração de
fraqueza, escondida atrás do maior absolutismo esclarecido, que deixaria o
Sebastião José - também conhecido por Marquês de Pombal - com as faces
ruborizadas!
De facto não há sabre nem pensamento
que nos salve; apenas existe uma balsa sem leme nem timoneiro e com os
ocupantes a baterem nos remos uns dos outros.
Iremos parar, pois, onde a “corrente”
nos levar…
Vamos, porém, contentes, pois
conseguiram meter na generalidade das cabeças, que esta calamidade moral e
política onde vegetamos se chama um “estado de direito democrático”.
João José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
5 DE OUTUBRO DE 1910: INFAUSTA DATA!
5 DE OUTUBRO DE
1910: INFAUSTA DATA!
8/9/16
“Atolados há mais de um século no mais funesto
dos ilogismos políticos, esquecemo-nos de que a unidade nacional, a harmonia, a
paz, a felicidade e a força de um povo não tem por base senão o rigoroso e
exacto cumprimento colectivo dos deveres do cidadão perante a inviolabilidade sagrada da família, que é a célula da sociedade; perante o culto da religião,
que é a alma ancestral da comunidade e permite o culto da bandeira, que é o
símbolo da honra e da integridade da Pátria.
Quebrámos estouvadamente o fio da nossa
História, principiando por substituir o interesse da Pátria pelo interesse do
partido, depois o interesse do partido pelo interesse do grupo, e por fim o
interesse do grupo pelo interesse individual de cada um”.
Ramalho Ortigão
Comemorou-se, mais
uma vez, a implantação da República, com a presença do actual Presidente da
mesma.
É um feriado de má
memória.
As revoluções, como
tudo na vida, valem ou devem ser avaliadas e julgadas, pelos seus resultados,
no que deram origem a coisas positivas para a vida em sociedade e o prestígio e
a dignidade da Nação.
Ora não consta que
do 5 de Outubro de 1910, salvo uma ou outra medida pontual, tenha resultado
algo de positivo.
Antes pelo
contrário, deu origem a um descalabro político, social, económico, financeiro e
moral, catastrófico, que desqualificou o país e demorou 16 anos a parar e
muitos outros a inverter.
Foi, por isso, uma
data das mais funestas de toda a História de Portugal.
Quando o governo do
jovial Passos Coelho cometeu a inabilidade de querer mexer nos feriados,
poderia ter feito uma boa acção mudando a razão deste – essa sim relevante –
para a comemoração do Tratado de Zamora, assinado no mesmo dia, mas em 1143.
Assim não se fez e,
por isso, o 5 de Outubro devia ser um feriado de profundo silêncio e meditação.
A Monarquia estava,
sem embargo, ferida de morte, desde a revolução - maçónica e jacobina – que
implantou o Liberalismo em Portugal, em 1820.
Esta revolução
estilhaçou a coesão nacional, tornou o monarca e a família real, em figuras
pouco mais do que decorativas e lançou as sementes da guerra civil. E “ela”
veio e durou (e devorou-nos), por cerca de 30 anos (de facto, até 1933…).
Quando um dos
nossos melhores reis, o esclarecido Rei D. Carlos I, quis assumir o que lhe
competia, face à bandalheira em que o país voltara a cair, logo o assassinaram
vilmente. Estava-se a 1 de Fevereiro de 1908.
Dali ao 5 de
Outubro (de 1910) foi um pulo recheado de ignomínias.
É certo que foi o
comportamento cobarde e pouco esclarecido, quando não traidor, de muitas
figuras monárquicas bem como a acção desprezível, corrupta e inepta dos
partidos políticos monárquicos, os principais culpados do avanço dos
republicanos - que, note-se, gozavam das maiores liberdades para a sua acção
política e social – e na falta de coragem na repressão das sucessivas
ilegalidades que foram cometendo.[1]
De tal modo assim
foi, que um arguto jornalista, creio que brasileiro, telegrafou para a sua
redacção, no dia 5/10, noticiando que “após várias tentativas, alguns grupos de
monárquicos conseguiram implantar a República em Portugal”. Queria ele dizer,
em Lisboa, já que para o resto do país, a mesmo entrou em vigor por telégrafo…
De facto, foi uma
organização subversiva, revolucionária e secreta, importada, que dava pelo nome
de Carbonária, que teve a despesa da acção.
Criou células,
infiltrou quartéis, sobretudo na Armada, e eram exímios na utilização de
“bombas”.
Mesmo assim, quase
tudo falhou, salvando-se 500 civis, poucos sargentos e um guarda-marinha – que
montou a cavalo pela primeira vez nesse dia – de seu nome Machado Santos, e
meia dúzia de peças de artilharia, que se entrincheiraram na Rotunda. E dois
cruzadores amotinados no Tejo.
A Marinha e o
Exército, basicamente deixaram cair a Monarquia (que tinham jurado defender), e
as forças fiéis que restavam, renderam-se sem que nada o justificasse, a não
ser o desnorte e a desmoralização reinante.
O regime estava
podre e não encontrou forças para se regenerar. Foi por isso que o “Estado
Novo” substituíu um e outro.
Os Republicanos
podiam ter aproveitado a oportunidade que tiveram, quase de bandeja, e o país
apalermado, que lhe ficou aos pés, mas desbarataram tudo numa sucessão
inacreditável de erros e enormidades que todos os adjectivos depreciativos
existentes, não chegam para qualificar.
Facto a que não era
estranho a iniquidade ideológica que os orientou, caracterizada por ser uma
transposição serôdia de 100 anos, do pior que a Revolução Francesa pariu;
misturada com os erros da Maçonaria, o fanatismo dos Carbonários, o anticlericalismo
militante, misturados com as mais extravagantes loucuras que o género humano é
capaz de conceber.
Uma espécie do
mesmo que aconteceu após o 25 de Abril de 1974 (e parado apenas parcialmente, a
25/11/75), mas num estádio assaz mais primitivo.
Fez “bem” o actual
Presidente da dita, em escolher este dia para condecorar o cidadão Manuel
Alegre, lídimo representante do chamado “Grupo de Argel” (ala esquerda do PS),
que se mancomunaram (infelizmente não foram os únicos) com os agora excelsos
movimentos de libertação – antigamente conhecidos por “turras” – que combatiam
as Forças Armadas Portuguesas, onde o celebrado poeta também assentou praça.
A coisa coaduna-se.
Só falta a esta
moral e ideologicamente pestilenta III República, herdeira quase directa da
primeira - bastarda, algo iberista e devorista, fundada num crime de regicídio
e nunca devidamente referendada - condecorar o Costa e o Buíça, assassinos do
Rei e do Príncipe herdeiro, (mais os 16 que estavam emboscados no Terreiro do
Paço e em mais dois locais, e muitos outros dirigentes republicanos moralmente
responsáveis, que se encontravam convenientemente “a banhos” em S. Paulo ou
desenfiados das vistas do “Inimigo”, quando rebentou a revolução).[2]
Tenhamos esperança,
talvez para o ano a coisa se componha.
João
José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador
[1] Costuma apontar-se a figura de José de Alpoim, como a encarnação da
traição dos monárquicos. Mas está longe de ser o único.
[2] O Costa e o Buíça foram abatidos no local; tiveram ao menos essa
coragem. O processo do regicídio desapareceu até hoje. Na antiga freguesia de
S. Paulo, perto do Cais do Sodré, existiam uns banhos públicos, onde se
encontravam alguns dirigentes monárquicos, não fosse a revolução falhar…
sábado, 8 de outubro de 2016
O 57º ANIVERSÁRIO DA BASE AÉREA Nº 5
Coincidiu também, com o facto de
fazer 40 anos que lá me apresentei (os militares ainda se “apresentam”), pela
primeira vez. Mas não estou a escrever por isso; apeteceu-me, simplesmente.
Assistir a uma cerimónia militar
digna, é sempre um lenitivo para o espírito e um bálsamo para a alma, o que
ajuda a retemperar o cada vez mais alquebrado corpo. Foi o caso.
Numa cerimónia militar tudo tem o
seu significado e razão de ser, todos sabem o seu lugar e função, como estar e
como fazer, e nada deve estar a mais ou a menos.
Existe ordem, tradição e
cerimonial.
Entre cada acto cerimonial,
marca-se a sua individualidade, intervalando-a por dois toques de “firme”; “sentido”
e outros dois, de “descansar”; “á vontade”.
Não há atropelos nem confusões.
Tudo está previsto e não há lugar
a improvisações. Tal também se aplica à assistência e os civis devem ser
benevolamente educados pelos militares relativamente à parte da compostura que
lhes cabe.
O dia ajudou no seu azul (Força
Aérea) esplendoroso, e o silêncio que ecoava do “pinhal” - termo carinhoso como
na gíria se apelida a Base - alternava com os acordes da banda (em que notei
melhorias de performance), os discursos e as vozes de comando.
Qualquer cerimónia militar começa
com a chegada da entidade que preside à mesma e respectivas honras militares.
É a maneira como os militares
recebem as altas entidades que os visitam, reconhecem e preservam o princípio
da hierarquia e dão as boas vindas.
Como na vida militar tudo tem um
carácter biunívoco, a entidade retribui, correspondendo à continência; postando-se
respeitosamente frente ao Guião da Unidade e passando em seguida revista às
tropas, verificando o seu aprumo, uniformização e atavio. Esta revista não deve
ser feita “à pressa” ou displicentemente, por motivos que julgo óbvios (o que
se cumpriu).
A apresentação da entidade é
apenas antecedida da chamada a “sentido”, aquando da chegada do oficial mais
antigo presente, que já esteja retirada do serviço activo. É mais uma vez a
preservação do princípio hierárquico, da afirmação da importância da
antiguidade e uma demonstração de respeito por quem já não tendo funções de
responsabilidade, serviu e continua a pertencer à Instituição e à grande
família militar.
Segue-se a integração do Estandarte
Nacional, à guarda da Base, na formatura, sem o que nenhuma cerimónia militar,
neste âmbito, pode decorrer.
Vem acompanhado da respectiva
escolta, que pode ser aumentada em ocasiões mais solenes, ou disponibilidade de
efectivos.
É o momento patriótico por
excelência. Fica o Estandarte numa posição central, à vista de todos, sendo
recebido em “ombro arma”.
É o símbolo da Nação sublimada,
em cuja defesa e por quem os militares combatem e morrem – não morrem (não
devem morrer) por ideologias, regimes políticos, partidos ou interesses
mercenários…
Apresentam-se armas e abatem-se
espadas; a banda toca o hino e a formatura canta e a assistência também o vai
fazendo.
É sempre bom relembrar o que somos,
no que estamos e ao que vimos.
O Estandarte coloca-se, então, à
cabeça das tropas como deve ser o seu lugar.
Pela alocução do Comandante
ficámos a saber o que a unidade realizou no ano transacto, e não fez pouco, o
que é notável face às dificuldades existentes e aos tempos de vacas magras que
vivemos – que têm atingido a Instituição Militar numa proporção lamentavelmente
muito superior à generalidade do país e sobretudo aos restantes organismos e
instituições do Estado.
Dificuldades que, por pudor,
contenção e sentido de Estado, são normalmente dissipadas nestes momentos de
celebração. Mas “alguém”, ou muitos, têm de o dizer nas instâncias e ocasiões
apropriadas, usando os métodos adequados às circunstâncias.
Sendo normalmente gasto 1/5 do
tempo em agradecimentos às entidades presentes, protocolo “oblige”, o segredo
de um bom discurso, segue o do sal na comida: nem de mais nem de menos; e a
habilidade em dizer algumas coisas relevantes e passar mensagens de uma forma
que não fira o disposto no artigo quarto do RDM [1]…
Seguiu-se a rendição do Porta - Estandarte
Nacional e do Porta - Guião da Unidade e respectivas escoltas.
A nomeação de Porta – Estandarte
e do Porta - Guião recai, respectivamente, na figura do subalterno e
sargento-ajudante mais condecorados, ou considerados com mérito para a honra da
função.
Sim, porque a função deve ser
encarada como uma honra, que não é despicienda.
A relevância do Porta -
Estandarte ficou na memória e na tradição militar nacional, desde a Batalha de
Toro, em 1/3/1476, em que o Alferes – Mor de D. Afonso V, Duarte de Almeida,
que empunhava o Estandarte Real, no mais aceso da peleja se obstinou em
defender o símbolo de todos, mesmo depois de lhe terem cortado ambas as mãos, à
cutilada, agarrando – o com os cotos e os dentes.
Com a sua acção e mesmo depois de
derrubado, permitiu que o estandarte fosse recuperado por Gonçalo Pires, e se
salvasse.
Ficou para a História com o
cognome de “o decepado”, tendo sido levado moribundo para um hospital em
Castela, onde recuperou, tendo voltado ao reino mais tarde, depois de ter
merecido o respeito e consideração dos seus captores.
A responsabilidade de um porta - estandarte
é, pois, muita: ele pode morrer, mas as “cores nacionais” têm que ser salvas e
preservadas…
O ponto alto da cerimónia ocorre
a seguir: a homenagem aos mortos.
É o momento dos olhos húmidos e
do nó na garganta.
É a homenagem aos que já partiram
na sequência, que se pretende perene, com aqueles que os substituíram e a quem
passaram o testemunho.
Inicia-se com o toque “de
silêncio”, em “ombro arma”, que impõe a ausência de qualquer ruído no local,
que é o ambiente que melhor quadra ao recolhimento; segue-se o toque “a
mortos”, em apresentar armas (posição de máxima elevação cerimonial), em que num
momento de interiorização se lembram os amigos e camaradas já desaparecidos,
mas que, enquanto forem assim lembrados pertencem “àqueles em quem poder não
teve a morte”; pelo meio o capelão profere uma oração alusiva e no caso da
Força Aérea, uma esquadrilha de aviões sobrevoa o local, executando o n.º 4, a
manobra do “missing man”.
Finalmente a banda toca a “marcha
da alvorada”, novamente em “ombro arma”, que simboliza o porvir, a esperança no
futuro, a vida que se reata.
É altura agora de nos
congratularmos com o presente e destacar publicamente, os servidores da
Instituição Militar que se distinguiram no cumprimento das suas missões e
deveres.
É a cerimónia das condecorações e
entrega de prémios.
O exemplo que se aponta a todos…
Aqui o que está em causa é a importância
da condecoração e não o posto ou categoria, dos condecorados; por isso a
sequência é ditada pela condecoração mais elevada, independentemente da
hierarquia dos agraciados.
Representam as condecorações, uma
distinção de mérito, um prémio à competência e às virtudes militares, que não
tem expressão monetária – embora tenha influência na avaliação do mérito
relativo para promoção – o que evidencia mais uma vez, a condição de servidores
do bem público, atribuída aos militares.
Situação cada vez mais difícil de
“entender” pela sociedade contemporânea…
A cerimónia termina com o desfile
das forças em parada (infelizmente cada vez mais diminutas devido à falta de
efectivos existente), onde só há uma maneira de fazer as coisas, que é bem, com
garbo, queixo levantado e batimento forte.
Outra agradável constatação pois
tudo saíu certinho e até com “souplesse”!
Desfile de meios aéreos em
formação cerrada, ao passarem as últimas tropas, como é de boa tradição e num
“timing” perfeito.
Foi o momento do “da pele de
galinha”…
Este desfile aéreo não deve ser
posto em causa por maiores que sejam as restrições orçamentais, pois é nos
meios aéreos e suas tripulações, que está centrado o âmago do cumprimento da
missão, para a qual todas as restantes especialidades e órgãos concorrem.
E não posso, para terminar, deixar
de referir a missão primária e fundamental, da Base Aérea 5, consubstanciada
nas Esquadras 201 e 301, que é a da Defesa do Espaço Aéreo Nacional, e que mais
ninguém pode, ou está apto, a cumprir.[2]
Por via desta missão e do cunho
inicial que lhe foi dado pelo primeiro pessoal que a guarneceu, a partir de
1959, esta base tem um “espírito” diferente de todas as outras bases e isso é
transversal a oficiais, sargentos, praças e civis; bem como às diversas especialidades
existentes, havendo um maior entrosamento entre o pessoal navegante e o
restante para o cumprimento das missões operacionais. [3]
O que nada diminui as restantes
bases existentes, a velhinha e aristocrática BA1, em Sintra; a vetusta e, na
altura, pólo de força e modernidade, ex-Base Aérea nº 2, na Ota; a Base Aérea
nº 3, em Tancos, que transitou (mal) para o Exército e devia ser a última Base
Aérea a encerrar, se alguma vez chegássemos a tanto; a BA4, nas Lages, sentinela
avançada no Atlântico; a BA6, no Montijo, construída de raiz para ser a melhor
base da Antiga Aviação Naval; a extinta BA7, em Aveiro, berço de tantos pilotos
e a BA11, em Beja, magnífica (senão a melhor) infraestrutura aeronáutica, do
inventário, cuja construção herdámos dos alemães.
Mas é na BA5 que está centrada a
missão mais importante (não direi nobre, pois todas as missões o são), por relevante
e única, do Poder Aéreo: A defesa aérea consubstanciada na aviação de caça.
E serão eles, dada a natureza das
coisas da guerra que, normalmente, primeiro entrarão em combate, caso essa
situação se venha a verificar.
E não é todos os dias que
assistimos a uma formação de sete F-16 em escalão para a direita, entre a
“inicial” e a “ruptura”, seguido da aterragem. [4]
Confesso que ainda fazia uma perninha.
[1] RDM – Regulamento de Disciplina Militar.
[2] Esquadra 201, Falcões,
lema “Guerra ou Paz, tanto nos faz”; Esquadra 301, Jaguares, lema “De nada a
forte gente se temia”.
[3] Devia-se fazer um esforço
em convidar o maior número de pessoal que lá prestou serviço, para assistirem
ao dia da “sua” base!
[4] Espero que não tenham a
triste ideia de venderem mais dos nossos…
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
OS COMANDOS: AGORA A SÉRIO
OS COMANDOS:
AGORA A SÉRIO [1]
“A Infantaria não é
uma pêra doce”.
Capitão Moura (meu
instrutor em 1972/73).
Um determinado
tipo/especialidade/arma/serviço de um Exército (no conceito lato de Forças
Armadas) deve ser criado ou extinto, por uma simples e única razão: existir ou
não, uma necessidade doutrinária/estratégica/táctica, para a sua criação,
manutenção ou extinção. Tudo o resto são divagações.
Por isso é que os
Alabardeiros foram extintos a partir do fim do século XVI e os Fuzileiros
renasceram em 1961.[2]
Os Comandos também
surgiram em 1962, devido a uma necessidade premente de ter uma força específica
de contra - guerrilha que cumprisse missões que mais ninguém fazia,
ultrapassando rapidamente a especialidade de “caçadores especiais” – que tinham
a sua inspiração remota nos Batalhões de Caçadores das Guerras Peninsulares –
preparados em Lamego e que tiveram uma vida efémera.
No fundo a
preparação dos caçadores especiais, era aquela que devia ser comum a todas as
unidades de infantaria…
É evidente que a
partir do 25 de Novembro de 1975, no caso específico português[3],
e na queda do muro de Berlim, em 1989, na generalidade dos países europeus,
passaram a existir dois outros aspectos que condicionaram a maneira como os
políticos e a opinião publicada passaram a olhar para as FA: a sua
dispensabilidade e a alocação de meios financeiros.
O resultado tem
sido um desastre extenso em termos de segurança e de vivência em sociedade.
Daí que, e agora vamos
reportarmo-nos apenas ao âmbito nacional, as FA tenham vindo a ser reduzidas a
termos simbólicos e a IM e os militares, a serem apoucados; a condição militar
– que é o fulcro da idiossincrasia da profissão militar – a ser destruída e a
Deontologia triturada.
Tudo, porém,
acompanhado de um conjunto de mentiras matraqueadas “ad nauseum”, e em que
quase todos colaboraram, de que tudo era feito para “racionalizar” a estrutura
e os meios existentes; adequado e adaptado às novas “realidades” estratégicas e
geopolíticas; às necessidades de “contenção financeira” (enquanto se esbanjavam
e roubavam biliões em todas as outras áreas) e “last but not least”, tudo se
passando em harmonia e de acordo com as chefias militares…
Que cambada de
despudorados mentirosos!
E ainda com uma
outra particularidade, ainda mais despudorada e deveras infantil: a de que, até
hoje, ninguém ter tido a coragem e a decência, de cortar uma única missão que
fosse, a qualquer ramo das Forças Armadas!
Está tudo preso por
fios e ninguém tem vergonha na cara.
Por isso o que é de
admirar – e já agora de louvar! – é que não haja mais problemas, incidentes,
acidentes ou falhanços – quando se pretende cumprir todas as missões com cada
vez menos dinheiro, homens, treino, logística, concorrentes às fileiras,
disciplina, moral, etc..
Não tenho dúvida em
afirmar que, se qualquer empresa, organismo do Estado ou instituição civil,
tivesse passado por um/vinte avos daquilo por que tem passado a Instituição
Militar, já tinha cessado há muito, a sua actividade!
*****
É sobretudo pelos
resultados que qualquer organismo deve ser avaliado.
Ora, com todas as
“facadas” que a IM levou, as mais dolorosas das quais, foram facadas
espirituais e não materiais, e de terem emergido do caos do maldito “PREC” [4],
onde se meteram e se deixaram meter, rapidamente se convertendo numa força
armada tão boa como as mais modernas existentes, descontando os “hiatos”
logísticos, tecnológicos e em armamento, existente para as mais avançadas e
equipadas, nestes âmbitos.
E esta avaliação
passou a ser feita não só no âmbito dos exercícios da NATO como também pelos Comandantes
de Teatro (mais de 30), onde desde os anos 90 do século passado, forças militares
portuguesas actuaram.
O mesmo se passou,
até com especial destaque, para com as tropas “Comando”, sempre empregues nas
zonas e nas operações mais difíceis e exigentes.
Ora tudo isto não
se consegue propriamente com jogos de escuteiros (embora sejam excelentes),
exercícios de ginástica sueca, das nove às cinco, concertos rock ou com actividades
tipo daquelas efectuadas nos acampamentos do Bloco de Esquerda.
Requer muito
empenho, treino, suor, estudo, carácter, nódoas negras, sacrifício,
desenvolvimento de capacidades múltiplas, disciplina e doutrinação mental e
muitas coisas mais, completamente arredadas do dia-a-dia da gorda, titubeante,
baralhada, ignorante e imbecilizada, maioria da sociedade contemporânea.
E todas as
actividades de treino militar são envoltas em risco elevado, não havendo volta
a dar! Uma evidência que muitos pretendem escamotear…
Por outras
palavras, os acidentes são sempre uma possibilidade acrescida.
Não está em causa –
e nunca esteve – que tudo se deve fazer para minimizar os riscos e quando
existam acidentes, estes devem ser investigados para se tirarem ensinamentos
para o futuro e apurar responsabilidades – outro âmbito em que a sociedade
civil deve aprender com os militares, vide a matança existente nas estradas e o
rol de acidentes no trabalho, ocorridos anualmente (só para citar estes)!
E que se saiba, a
CP ainda não deixou de enviar comboios para Espanha, depois do inexplicável
acidente recente, na Galiza, onde houve a lamentar vários mortos…
O que é de procurar
entender, especialmente neste último caso ocorrido nos Comandos, é o facto de
tal ter acontecido no primeiro dia de instrução do curso e ao fim de seis horas;
numa prova apelidada de “aptidão comando”, especialmente desenhada para o
Ultramar, onde antigamente se dava um cantil por dia, por instruendo e agora já
se distribui 7,5l…[5]
Como é que um instruendo
apresenta, aparentemente, o fígado destruído (a sede ataca sobretudo os rins) e
ainda não se sabe se alguém utilizou substâncias químicas para melhor superarem
o rigor dos treinos. A autópsia o dirá.
A decisão médica de
evacuação e em que termos, também me parece ser um ponto critico neste caso -
seguramente que não foi avaliado nenhum problema de extrema gravidade, senão
ter-se-ia accionado o helicóptero de alerta na BA6 (Montijo) a cinco minutos de
tempo de voo.
E o que dizer do
facto do actual Hospital das Forças Armadas (o Serviço de Saúde Militar tem
vindo a ser destruído pelos sucessivos governos anteriores), não se atrevesse a
receber e a tratar, os militares evacuados, enviando-os para os hospitais
civis? Para que serve pois, o HFAR?
Esperemos que todas
as questões sejam esclarecidas, e a opinião pública e sobretudo as famílias,
informadas da causa da morte dos militares, naquilo que não ponha em causa
qualquer aspecto que seja considerado classificado.
Como pano de fundo
de tudo isto devemos ainda referir, e para terminar, um aspecto transversal a
toda a sociedade portuguesa e ocidental, que é mister acudir: a falta de
candidatos à vida militar em quantidade e qualidade suficiente.
A juventude – e os
mais velhos também, pois esta situação já leva décadas – perderam toda a
rusticidade, deixou de ser preparada para as dificuldades da vida e está
inundada de individualismo e relativismo moral.
Pode dizer-se que é
o preço do “desenvolvimento”, eu diria que são os sintomas da decadência. Desde
a queda do Império Romano que se sabe que é assim, mas nunca se quis assumir
tal consciência!
A instrução dada no
sistema de ensino, é um desastre extenso, a educação familiar, acompanha quando
não fomenta o mesmo, em conluio com sindicatos, políticos, “media”, etc..
O desporto escolar
e universitário é quase inexistente e deixado à balda; os “campus”
universitários passaram a ser espaços onde campeiam os desregramentos e
excessos com álcool, estupefacientes, batota e sexuais, já sem contar com toda
a casta de experiências pedagógicas delirantes que começam na pré - primária…
Salvo raras e
honrosas excepções pode-se acreditar tanto no sistema de avaliação, como na
qualidade dos relógios vendidos pelos ciganos na feira da Amareleja…
A malta nova, mal
nutrida – apesar das campanhas todas de sensibilização – anda com a coluna
deformada pela falta de postura no assento e camas fofas; tem a vista num molho
de brócolos por causa dos vídeo jogos e os ouvidos estuporados por causa dos
MP3, música rock aos berros e discotecas sem regras nos decibéis.
E como lhes andam a
dizer desde pequeninos que têm direito a tudo e dever a nada (menos pagar
impostos); que o dia de amanhã será cor-de-rosa (demagogia dos Partidos), são
super protegidos desde o berço e deixaram de jogar à bola na rua, ou subir às árvores
para verem os ninhos (ninhos, o que é isso?), etc., deixaram de ter vontade
própria e tendem a desistir à primeira dificuldade que lhes surja, tal como
privá-los de telemóveis durante uns dias...
Os resultados de
todo este desastre que se perpetua (pois ganhar votos não se compadece com
emendar seja o que for), salta bem à vista nos resultados dos concursos de
todas as incorporações militares, desde as praças até aos candidatos às
Academias Militares.
Estes resultados
deviam ser estudados e sobre eles elaborados relatórios adequados, pois
permitem visualizar em corte, o estado da juventude à volta dos 20 anos.
Estes relatórios
deviam ser entregues e discutidos em Conselho de Ministros e Parlamento, pois são
as únicas entidades que podem influir nas eventuais correcções a fazer.
É sobretudo neste
âmbito que valeria a pena debruçarem-se nas investigações a realizar ao que se
passou nos “Comandos” (que têm problemas específicos de recrutamento, que não
vou esmiuçar).
Com esta sociedade
que criámos, é impossível ter um Exército digno desse nome…
Mas isto digo eu,
que sou estúpido, ao ponto de andar, há décadas, a malhar neste ferro, que
nunca está quente para se poder modificar.
João
José Brandão Ferreira
Oficial
Piloto Aviador
[1] Embora a crítica ao Bloco de Esquerda também fosse muito a sério…
[2] Os Alabardeiros foram sendo postos de lado a partir das derrotas dos
Suíços em meados do Século XVI e com a vulgarização da arma de fogo. Tiveram
durante muito tempo depois, uma função honorífica.
[3] Mais propriamente, a partir de 1982, com a extinção do Conselho da
Revolução e a Lei 29/92, Lei da Defesa Nacional e das FA.
[4] Processo Revolucionário em Curso – 11/3/75 (no fundo desde 26/4/74) –
25/11/75.
[5] De referir que todos os instruendos eram já militares com a recruta
feita.
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