domingo, 2 de agosto de 2015

HOMENAGEM ao MAJOR PIL. AV. ANTÓNIO LOBATO

NO CENTENÁRIO DA AVIAÇÃO MILITAR


“Chamei Manuel Gouveia em Tripoli e disse-lhe:

- Você sabe Gouveia, que vamos cruzar uma região perigosíssima e o voo é longo, cerca de 1000 Km. Os perigos multiplicam-se. Se formos obrigados a aterrar, a morte é certa: no deserto ou morremos de forme senão encontrarmos ninguém, ou morremos decapitados se alguém nos vir; no mar, tão deserto como o deserto, se procurarmos esse refúgio a morte é certa, também. Se você quer vá para o Cairo num navio, nós o esperaremos aí.

Gouveia olhou para mim zangado e um pouco malcriadamente – porque não o direi? – respondeu-me apenas:

- O meu comandante parece que não me conhece, eu sou do Porto, da terra que deu nome a Portugal. Se for preciso, morrer, morre-se.”
Brito Pais
(extraído do relatório da viagem aérea Macau, em 1924)
 
A atleta Rosa Mota é figura destacada na actual campanha contra o cancro de pele, causado pela excessiva exposição ao astro-rei.

É uma boa ideia e faz bem. 

Rosa Mota está na calha, certamente, para ir para o Panteão Nacional. 

Foi medalha de ouro na mais difícil competição desportiva desde a invenção dos Jogos Olímpicos: a corrida da Maratona. 

Portou-se bem a nossa “Rosinha” e estou certo que a maioria dos seus compatriotas a considerou uma heroína. 

Não se lhe conhecem taras, nem consta que alguma vez tenha feito algo que envergonhasse a nação dos portugueses. 

E se não se enganar a apostar em eventuais candidaturas à Presidência da República terá direito – a avaliar por exemplos recentes – a lugar em sarcófago de pedra, na antiga Igreja de Santa Engrácia. 

O que esperamos aconteça – Deus assim o entenda – daqui a muitos anos.

É isto ser-se honesto, talvez a forma de se ser herói todos os dias, o papel mais difícil de ser feito em sociedade. 

Um herói, pode sê-lo apenas por um acto que, numa hora de bom e desprendido julgamento, coragem extrema, ou de uma virtude excepcional, faça com que um ser humano pratique um acto ou acção, que o distinga dos demais e que não está ao alcance da capacidade da maioria. 

Alguns casos existem assim na sociedade portuguesa e que não foram ainda reconhecidos como tal. 

Entre eles destaca-se, seguramente, o caso Major Piloto Aviador António Lourenço de Sousa Lobato, nascido em terras do Minho, mais precisamente na Aldeia de Sante, freguesia de Paderne, concelho de Melgaço, a 11 de Março de 1938. 

É aqui que começa a fazer sentido o título do escrito: é que António Lobato (AL) é Oficial Superior da Força Aérea, na situação de reforma.

Que fez então este nosso concidadão de tão notável que, não só merece uma homenagem nacional que nunca lhe foi feita, mas também que a sua história deva ser contada recorrentemente, em todas as escolas do país? 

Resumidamente: 1 AL alistou-se na FA em 1957 e fez parte do Curso de Pilotagem P3/57. Recebeu as suas asas em Junho de 1959, e tinha o posto de Segundo-Sargento.
1 Ver livro de sua autoria “Liberdade ou Evasão”, Erasmus, Amadora, 1995 – há demasiado tempo esgotado!

O outro avião despenhou-se e o piloto morreu.

Partiu em missão de soberania para a então Província da Guiné, em Julho de 1961, ainda a guerrilha não tinha tido início.

Ajudou a FA a operar naquele território a partir do… nada.

No dia 22 de Maio de 1963, após uma das muitas missões em que já participara, no regresso à base, suspeitando que podia ter sido atingido por fogo inimigo, pediu ao seu asa – piloto recém - chegado e inexperiente – que passasse por baixo do seu T-6 para ver se detectava algo de errado. O “asa” cometeu um erro na manobra, tendo chocado com o seu avião de que resultou AL ter de efectuar uma aterragem forçada. 

Após a aterragem foi preso por um grupo de populares afectos ao PAIGC, que o entregou a uma força de guerrilheiros chefiados por Nino Vieira que viria, mais tarde, a ser Presidente da Guiné-Bissau, qualidade em que receberia AL em audiência. 

AL sofreu maus tratos por parte dos indígenas, mas foi bem tratado pela guerrilha – que viu nele um valioso troféu de guerra e o levou para a Ex- Guiné Francesa.

Ia começar para AL um longo e doloroso cativeiro, que duraria sete anos e meio, tendo sido resgatado na célebre operação Mar Verde, comandada pelo extraordinário combatente que foi o Comandante Alpoim Calvão, em 22/11/1970, juntamente com mais 25 portugueses, que jaziam numa masmorra em Conacri.

Um feito que D. João de Castro não desdenharia… 

No entretanto AL mudou três vezes de prisão, conheceu a “solitária”, fugiu e foi recapturado, três vezes, e passou por um processo mental de sobrevivência que bem poderia ser estudado por um grupo selecionado de psicólogos. 

Nesta luta teve um apoio precioso da família, sobretudo da sua jovem mulher – que esteve à sua altura – (tinham casado há poucos meses antes de ter sido feito prisioneiro), que chegou a pedir uma audiência ao Papa, visando a sua libertação.

No mesmo sentido, ainda está por fazer, a história do que foi feito a nível do Estado Português – e foi bastante – para o libertar. 

Mas o mais notável em tudo o que se passou, é que o Sargento António Lobato, manteve-se firme na sua qualidade de militar e combatente da FA Portuguesa, nunca traiu o seu juramento para com a Pátria, cumpriu sempre o Dever Militar, e, tentado várias vezes a trocar a prisão, pela “liberdade”, num país de leste, mais tarde na Argélia (onde pontificava a chamada Frente Patriótica de Libertação Nacional, de exilados portugueses), sempre recusou. 

Para a sua libertação tinha “apenas” que redigir uma mensagem radiofónica em que declarava a sua oposição à guerra – logo a justiça da luta do IN – e comprometer-se a nunca mais pegar em armas contra a guerrilha. 

Note-se que estas propostas chegaram a ser feitas pelo líder do PAIGC Amílcar Cabral, que o visitou na prisão. 

Um dia inquirido porque nunca quisera aceitar o que lhe ofereciam, deu esta resposta extraordinária, por simples e profunda e que diz tudo: “com que cara é que eu chegava ao largo da minha aldeia?”. 

Pois, caros leitores, é um homem desta têmpera, que se manteve posteriormente sempre impoluto, de que no século passado haverá, talvez, em todo o mundo, uma mão cheia de exemplos que se lhe igualem, que a grande família portuguesa desconhece e o Terreiro do Paço nunca reconheceu e homenageou. 

É certo que a FA e o Governo da altura, o reintegraram nas fileiras, pagaram-lhe todos os retroactivos e promoveram-no por distinção a Tenente. A seguir e mediante legislação para o efeito criada, passaram-no ao quadro permanente, na especialidade de piloto aviador. 

Mas até hoje, nem no activo – onde nunca se tentou tirar sequer partido em qualquer circunstância do valiosíssimo exemplo, experiência e valor, do militar em questão – na reserva e reforma se colocou este português dos quatro costados e pessoa de carácter, no lugar a que por direito próprio merece ocupar. 

E nós, os outros, também devemos ter direito a justamente nos orgulharmos dele.

Ora a FA nunca se lembrou que tinha AL entre um dos mais notáveis dos seus. Nem sequer o convida para o aniversário anual, onde AL devia ter lugar de honra… 

É claro que no actual regime sem norte, nem valores dignos desse nome, enfermo de corrupção, em que nos habituámos (mal) a viver, AL tem contra si, o facto de não ter sido desertor, traidor, tão pouco gozar da fama de antifascista, senão certamente já teria sido cumulado com várias “ordens da liberdade”, esgotado telejornais e entrevistas. 

Mas, parece, que não foi isso que ele aprendeu no largo da sua aldeia… 

A Força Aérea ainda vai a tempo de emendar a mão e colmatar uma injustiça, e promover uma homenagem ao Major Lobato. 

E tem uma oportunidade de ouro agora, aproveitando as comemorações do centenário da aviação militar, que se iniciaram a 14 de Maio do ano passado, mas que por estranho silêncio, ninguém sabe de nada, nem o Estado Português se associou. 

Parece até, que a própria FA tem vergonha do evento!... 

Atitude que desmerece a citação do “grande” Tenente Manuel Gouveia e que, em boa verdade, sintetiza e consubstancia a missão da Força Aérea: voar e lutar. 

Já tarda e já basta. 

Pelo António Lobato

“Acção, acção, acção, …..Aviação”!
(Início do “grito” da Força Aérea)

À CONQUISTA DE CEUTA

sábado, 1 de agosto de 2015

ESTARÁ A SANTA SÉ NO BOM CAMINHO?

“Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado: não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvide disso não conhece a natureza humana.”
Mikhail Bakunin (1814-1876)
Anarquista russo do século XIX

Este pontificado corre célere.
 
Célere e algo trapalhão.
 
Depois do pontificado de Bento XVI assertivo e de grande clareza e coerência doutrinária; de tomadas de posição e decisões ponderadas e faseadas no tempo; antecedido que foi de um Papa de enorme carisma, espírito de iniciativa, corajoso e tenaz no bom combate; viajante incansável de peregrino e evangelizador, como foi João Paulo II (o curtíssimo consulado de João Paulo I, ficou envolto nas maiores dúvidas que o próprio “Espírito Santo”, não aclarou); temos agora um comportamento algo errático e populista, com muitas afirmações mal “mastigadas” ou impulsivas, do actual Papa Francisco em que a opinião publicada tem posto grandes esperanças e elogios.
 
Sua Santidade tem-se comportado talvez, com demasiada loquacidade e ri-se muito.
 
Mostrou firmeza na questão da correcção, absolutamente necessária, dos problemas da pedofilia no seio da Igreja (apesar de raros), mas – e não pretendo ser injusto – muito do que já veio a público aparenta revelar tendência para relativizar Princípios. Ora isto no seio de uma Instituição como a Igreja, que sendo servida por homens se deve orientar pela imanência do imaterial e do Espírito, destrói-a e pode levar a cismas.
 
Espera-se prudência e muito cuidado com eventuais ambiguidades.
 
Um problema existe, porém, e é de monta – e não tem nada de espiritual - que se arrasta pelo menos desde meados do século XIX, e que nenhum Papa tem sabido, querido ou podido resolver: o problema das finanças do Vaticano e das entidades, sejam bancos ou outras, que dele têm tratado…
 
Sua Santidade viaja por estes dias pela “sua” América do Sul de onde é natural – e isso pode explicar muita coisa.
 
Acontece que na visita à Bolívia (9/7/15) – esse estranho país que a geopolítica espanhola criou, como estado “encravado”, no meio do continente sul - americano – o Presidente daquele país que não esconde as suas convicções marxistas, ofereceu ao Sumo Pontífice um crucifixo na forma de uma foice e martelo, símbolo do comunismo internacionalista. Pondo de lado o mau gosto da oferta, o gesto é, claramente, uma provocação e um desafio.
 
E continua a ser uma provocação quando alguns vêm defender que o Comunismo, na sua essência mais pura, se pode equiparar à doutrina de Cristo, que é a tolice principal em que incorrem os chamados “católicos progressistas”…[1]

O Papa, aparentemente, comeu e calou.
 
Os serviços do Vaticano vieram na mecha dizer que desconheciam que tal iria acontecer.
 
Bom, mas se desconheciam, mais uma razão para ter havido uma reacção imediata, porventura, o cancelamento da visita, pois o acto é de uma descortesia intolerável. Mesmo para quem deve oferecer a outra face…[2]

Além do mais nada disto abona nada a favor da Diplomacia do Vaticano que é “só” a mais antiga e experiente em todo o mundo e cujo estricto cerimonial só deve ser ultrapassado pela Monarquia Nipónica.
 
Se a moda pega ainda veremos o Papa visitar a Coreia do Norte e ser presenteado com um espectáculo num redondel (tipo coliseu) onde alguns dissidentes seriam despedaçados por cães selvagens esfomeados…[3]
 
Mas o Santo Padre – que, recordo, representa todos os católicos e onde estes se devem rever – ficou e, usando ainda de uma humildade cristã sem limites, entendeu pedir desculpa pelas atrocidades cometidas pela Igreja, durante a “conquista da América”.
 
Confesso que já me começo a sentir incomodado e enfadado com estes constantes pedidos de desculpa por parte dos responsáveis da Igreja, com a agravante de nunca virem acompanhados de um enquadramento das situações, por mínimo que seja.
 
Não cai os parentes na lama a ninguém pedir desculpa quando há motivos para isso e a Igreja, tem-nos seguramente, até porque os Santos alçados aos altares são uma ínfima parte dos que se dizem ou disseram cristãos (que são de carne e osso). É um acto de humildade e, até, de lucidez e, também, de querer construir o futuro emendando os erros do passado.
 
Mas quando tal empenho, se torna repetitivo, passa a entrar no campo do masoquismo e em dar tiros nos pés.
 
Sobretudo se tivermos em conta que a Igreja tem expiado – e não pouco – os seus pecados, e o seu exemplo de contrição não conseguiram, até hoje, contagiar mais ninguém com o seu “exemplo”.
 
Nunca ouvimos o Presidente Evo Morales, Fidel Castro, a ex-terrorista que acampou no Palácio do Planalto, em Brasília, por ex., ou qualquer líder comunista presente ou passado, acabando no português Álvaro Cunhal, sua pandilha e descendentes – fazer qualquer mea culpa pelos horrores cometidos em nome daquela ideologia maldita que trucidou mais humanos em média por ano, do que todas as hordas de Gengis Khan e de Tamerlão, juntos!
 
Nunca me soou aos ouvidos quaisquer pedido de desculpa por parte de um líder muçulmano pelas lutas fratricidas que espalham entre eles e vizinhos; nada consta relativamente a luteranos, calvinistas e anglicanos, quanto às perseguições e guerras civis que provocaram, ou ao tráfico de escravos em que foram exímios; tão pouco nos chegou ao pavilhão auricular, qualquer remorso de judeus e sionistas por terem, ao que se sabe, inventado o juro e a usura e terem desde então, sujeito a humanidade à política da agiotagem e para poderem voltar ao território que reivindicam no Médio Oriente, terem expulsado (e não só) uns milhões de palestinianos.
 
Tão pouco, alguém no mundo inteiro tem conhecimento de que a Maçonaria tenha assumido algum passivo pelos atentados que semeou, das revoluções que fomentou e dos monarcas que apeou, só para ficarmos por aqui.
 
Nem sequer um único republicano que se diga herdeiro dos jacobinos, ciciou até ao presente, qualquer remorso pelas cabeças que guilhotinou e afogou em terras e rios de França, após a Revolução que – dizem – deu origem à Declaração Universal dos Direitos do Homem, e que em poucos anos ultrapassou largamente as vitimas das fogueiras da Inquisição, em três séculos!
 
Não, só a Igreja Católica é que pede desculpa. Abençoada, ao menos, que seja por isso!
 
E relativamente à conquista da América, também gostaria de chamar a atenção do Santo Padre e da Santa Sé – peço desculpa, mas o dogma da infalibilidade do Papa aplica-se apenas a questões espirituais e de Fé – que não deve meter tudo no mesmo saco.
 
Quero referir-me aos portugueses.
 
A Igreja portuguesa, os seus missionários e a generalidade dos “colonizadores” portugueses nunca se dedicaram a exterminar os gentios, nem na América nem em lado nenhum. Educavam-nos, misturaram-se com eles, integravam-nos e assimilavam-nos à medida das probabilidades e o tempo permitia. Os missionários portugueses catequizavam pelo dom da palavra, através do conhecimento das respectivas culturas e não pela lei da força ou do chicote.
 
Tudo tinha a cobertura superior da coroa portuguesa que nunca decretou leis ou instruções iníquas. E nunca passou pela cabeça de ninguém meter indígenas em reservas (como aconteceu por exemplo, nos EUA e no Canadá) e nunca se chegou à vilania de distribuir coberturas com bacilos de doenças, aos índios, como ocorreu com autoridades sitas em Washington. Também nunca os ouvi pedir desculpa por isso.
 
Alguns missionários portugueses no Brasil, Santo Padre, oriundos da mesma Companhia de Jesus, onde professou, sofreram até agruras, com o governo local e até em Lisboa, por quererem proteger e cuidar dos indígenas para além do que era o entendimento oficial da altura.
 
Por isto e por muito mais, não é justo colocar os portugueses e a sua Igreja, em generalizações descuidadas, muito menos quando as mesmas podem ser tidas como demagógicas.
 
Temos Sua Santidade como pessoa de bem e bem - intencionada. Nem outra coisa se pode pensar.
 
Mas estou em crer que saberá – o Núncio Apostólico poderá confirmá-lo – que nós aqui no canto mais ocidental da Europa temos um ditado que afirma estar o inferno cheio de boas intenções…
 
E temos ainda um outro, que reza não ser grande coisa “querer ser mais papista que o Papa”.
 
E com esta tirada me vou.
 
Para o Purgatório.



[1] Conhecidos na gíria como “peixinhos vermelhos em pia de água benta”…
[2] “Não resistirás àquele que é iníquo; mas, a quem te esbofetear a face direita, oferece-lhe também a outra”. Sermão do Monte, Mateus 5:39. E convém também, não distorcer o significado da parábola…
[3] Estranha-se ainda aquela ideia de pôr o Papa a mastigar coca. Convenhamos que não é a mesma coisa do dar a provar, por hospitalidade, um pastel de nata….

terça-feira, 30 de junho de 2015

A TRANQUIBÉRNIA DO COSTUME

“Um povo que tenha a coragem de se manter pobre é invencível.”
Oliveira Salazar


A Fundação Oriente promoveu no passado dia 11/6/2015 uma conferência sobre o presente e o futuro da União Europeia (UE).

Em boa hora o fez, pois se há assunto que mais afecte a nação portuguesa, e os portugueses menos noção tenham do que está em causa, é justamente este.

Foram oradores a Deputada do Parlamento Europeu Dr.ª Maria João Rodrigues (PS) e o conhecido eurocéptico – se assim lhe podemos chamar – Prof. João Ferreira do Amaral.

A moderadora foi a conhecida jornalista e “especialista” em assuntos europeus, Dr.ª Teresa de Sousa.

A Dr.ª Rodrigues, que tem uma boa presença e excelente dicção, fez uma exposição dos pontos que considera relevantes de uma forma clara e bem estruturada de pendor favorável (embora não optimista) à manutenção da “União”, não apresentando, porém, grandes saídas para os actuais impasse e cacofonia, existentes.

O Prof. Amaral expôs os seus conhecidos pontos de vista críticos relativamente à UE e sobretudo relativamente ao euro, chegando a considerar a hipótese de Portugal, dever não só equacionar a saída do euro, mas também da própria UE (o que ouvimos pela 1ª vez), visão com a qual concordamos e só peca por tardia.

O Prof. Amaral fala pausadamente e com critério, o que é bom, mas falta-lhe viço e emoção, pelo que o seu discurso sai pouco apelativo; as ideias força dificilmente impressionam o negativo da mente e a poucos arrastará com o seu discurso.

A Dr.ª Teresa de Sousa está uma sombra do que já, certamente foi, mas não se limita a ser moderadora, intervindo e opinando sobre tudo um pouco.

O seu comportamento faz jus, aliás, à designação de “fundamentalista” da União Europeia, expressão que se me afigura feliz para a caracterizar.

Em todo o debate, porém, incluindo a assistência que interveio, todos laboraram num equívoco que foi o de falar na “Europa” como se tratasse de algo que vá para além de uma realidade geográfica – e mesmo sobre os limites desta, está longe de haver consenso…

Isto é, todos assumiram estar a falar de uma realidade política, quando pelo menos em termos da ciência política ninguém se atreve a dar-lhe uma designação como actor político na cena internacional.

Mas não é nestes aspectos que pretendo focalizar a ponta da caneta, embora não possa deixar de reafirmar, que todos os cenários previsíveis para o futuro desta pretensa UE, serem maus para Portugal e o nosso país dever procurar rapidamente uma estratégia de sobrevivência fora do referido âmbito.

Pretendemos, outrossim, focarmos num comentário que a citada moderadora fez a uma pergunta (pertinente) de um compatriota da assistência, sobre o equacionamento de outros cenários onde o nosso (ainda) país de pudesse mover, chamando a atenção para a centralidade atlântica e ultramarina da maioria da nossa História.

A Dr.ª Teresa antes de passar a pergunta, farpou-a a despropósito e, agastada, afirmou que em 1974, o país “era pobre, para já não falar na falta de liberdade”…

Oh Dr.ª Teresa…

Então nós, como país devemos “aliar-nos” ou fazermos opções políticas para ficarmos mais ricos? Eu julgava que era por razões de geopolítica e de geoestratégia!…

E, se até Maastricht, a CEE/CE, se podia considerar uma aliança, a partir daquele tratado a “aliança” ficou para trás, a fim de se tentar a integração. Ou seja elevou-se o patamar das intenções para tocar os aspectos verdadeiramente relevantes e sensíveis, que são aqueles relacionados com a soberania e o próprio carácter dos povos.

Já percebi, pelos vistos a Dr.ª Teresa não se importa de matar a própria mãe, para ficar rica…

Ser rico está acima de tudo? Ser rico é algum ideal de humanidade? Ser rico tem a ver com o Bem, com a Justiça, com a harmonia da sociedade? Com o Belo? Com a Moral?

Ser rico é, para a Dr.ª Teresa, um fim teleológico?

Ficámos pois a saber que a Dr.ª Teresa quer ser rica ou, pelo menos, não quer ser pobre.

Seguramente, que se sentia pobre em 1974 - gostava também, que me dissesse se nalguma altura fomos ricos...

*****

Vejamos, pelas minhas contas, em 1974, a economia do país, crescia a 7% ao ano (Angola e Moçambique cresciam mais); o escudo era a sexta moeda mais forte (e respeitada) do mundo; nos cofres do Banco de Portugal, jaziam cerca de 850 toneladas de ouro e 50 milhões de contos, em divisas. Havia paz social, apesar de rebentarem umas bombas, de quando em vez, accionadas por umas duas ou três “associações filantrópicas” de inspiração comunista, que sobreviviam.

As contas estavam equilibradas desde 1929/30 (apesar da crise de 1929 – “crash” da bolsa de Wall Street); da crise da Libra, de 1931; da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial; lançando-se ainda as bases para a industrialização do país, que teve início a partir do Plano de Fomento de 1951 – o que acontecia pela 1ª vez desde Afonso Henriques…[1]

Tudo isto note-se, feito com meios próprios, sem qualquer tipo de ajuda externa (Plano Marshall, por exemplo) e com parco recurso ao crédito externo – sempre pago a horas – e com pouquíssimos casos de corrupção ou “derrapagens” de prazos, conhecidos.

Assim chegamos a 1974 em que a Dr.ª Teresa se sentia pobre e com falta de liberdade, lembrando ainda que como pano de fundo, o país mantinha cerca de 230.000 homens em armas, espalhados por quatro continentes e três oceanos, 130.000 dos quais lutavam vitoriosamente e com garbo, em três teatros de operações enormes, separados ente si e a base logística principal (que era a Metrópole) por milhares de quilómetros!

Um “pormenor” que provavelmente escapou à perspicácia (e pesporrência) da Dr.ª Teresa de Sousa.

*****

Mas eis que se ultrapassou o ano de 1974 e a citada senhora passou a sentir-se (depreende-se) rica e libertada.

Contudo, vendo bem as contas (e as coisas), estas não devem ser as do rectângulo florido (a cravos) à beira mar plantado – mas agora de costas voltadas para o mesmo e só com olhos postos em Bruxelas!

A “Liberdade” pelos vistos é má administradora pois, num ápice, isto é, em 1978, já o país estava em bancarrota e com uma intervenção do FMI, a que se seguiu episódio semelhante, em 1981.

As divisas foram-se; o dinheiro para as pensões delapidado e da pesada herança em ouro, restam agora 382 toneladas (nunca foram apresentadas contas da sua alienação) das quais o Banco de Portugal não pode dispor, pois estão “hipotecadas” ao euro!

Sim ao euro, já que ficámos sem a tal 6ª moeda mais forte e respeitada do mundo, coisa que nem a Dinastia Filipina se tinha atrevido a fazer!

O povo, ou parte dele, também anda muito satisfeito, sendo rara a semana desde então, em que não houve uma greve ou manifestação….

Entretanto entrámos para a CEE, em condições de extrema fraqueza, em 1986 – ao contrário de 1973, em que negociámos um tratado de comércio altamente favorável - sem debate que se visse e sem referendo, mas engalanando em arco: estávamos (finalmente!) sentados à mesa dos ricos e os nossos problemas estavam resolvidos!

Trabalhar e organizarmos em conformidade não estava, obviamente, na equação. Para quê maçar os portugueses com estes preciosismos, devem ter pensado os adiantados mentais que nos meteram neste imbróglio…

Ainda tramavam a demagogia do voto através do qual o povo, embriagado de liberdade, tratava do seu destino!

Foi assim, não foi, Dr.ª Teresa?

E ainda havia a NATO, que nos defenderia de qualquer eventualidade, obviamente descartada para o símbolo das impossibilidades – esquecendo convenientemente, que para sermos parte de uma Aliança também temos de contribuir para ela…

Ora, como ainda por cima já não tínhamos “colónias” e não havia ameaças, as Forças Armadas (essa “Instituição anacrónica”) não eram precisas para nada.

Desta forma começam a destruir a Instituição Militar estando o processo em vias de conclusão, no mínimo, bem encaminhado.

O mesmo caminho levou a Diplomacia.

Ora com a entrada para a CEE começou a chover dinheiro fácil, de vários programas comunitários, que a falsa elite tuga entendeu como oportunidade de negócio e promessa de caça ao voto, em vez de os aproveitarem para o que se deviam destinar, ou seja para serem usados parcimoniosamente no desenvolvimento do país e na reestruturação do Estado.

Em vez disso o país corrompeu-se e deixou-se corromper entre “fugas” para a frente, irresponsabilidade, negociatas ilícitas e na monumental estupidez de se pensar que tudo não passava de almoços grátis; que os recursos eram ilimitados e, ou, quem viesse atrás que apagasse a luz e fechasse as portas…

A classe política que desgovernou o país – originária na ditadura dos Partidos Políticos – é, sem dúvida, a que maior responsabilidade tem em tudo isto e o regime/sistema dito democrático implantado, entre sequestros e loucuras várias, nos idos de 1975/76, tem-se mostrado tão competente, que até faz com que o povo vote na sua própria destruição e no desaparecimento do País!

Mas, ao fim de 20 anos de entrarem nos cofres do Estado, cerca de dois milhões de contos/dia – uma soma astronómica que bate tudo o que trouxemos da Índia, do Brasil e de África, por larga margem e que nem sequer custou trabalho, vidas e fazenda a ir buscar – o país entrou novamente em bancarrota, ficando sujeito à humilhação não da bota cardada de algum exército inimigo, mas à muito pior vestimenta de veludo da “Troika”, a qual à pala de nos baixar os juros dos empréstimos que passámos a contrair desenfreadamente, empobrecerem a população em geral – obrigando, entre muitas outras, à inaudita medida do corte das pensões, medida esta que não lembraria nem ao pior Sátrapa do antigo Império Persa.

E não se ficaram por aqui: os “homens de fraque”, a mando de rostos invisíveis, obrigaram à alienação liberal de empresas e património, que já deve ir no valor de cerca de 40 mil milhões de euros, para mão estrangeiras.

A última vai ser a TAP e os transportes públicos de Lisboa e Porto, que a bandalheira de sindicatos e administrações, de mãos dadas com a pusilanimidade dos sucessivos governos, provocaram a acumulação de um passivo de biliões de euros!

E, Dr.ª Teresa, ao contrário daquilo que o governo do Professor Salazar que a senhora indecorosamente abomina, mas que conseguiu recuperar, nos anos 30 e 40, quase tudo o que estava em mãos estrangeiras, aqui e no Ultramar (portos, caminhos de ferro, carris, telefones, etc., etc.), nem daqui a 200 anos o que agora se foi, terá hipóteses de retornar à lusa gente.

Aliás, daqui a 200 anos ainda vamos estar a pagar a dívida entretanto contraída e que não pára de crescer. A tal dívida com que a senhora julga que ficou rica…

Nessa altura os descendentes da Dr.ª Teresa, se é que algum, hão-de estar riquíssimos e inchados de liberdade. Tenha esperança!

Isto claro, se entretanto uma multinacional preta, amarela, branca, árabe, assim-assim, etc., não tenha comprado já o país todo e a Dr.ª Teresa já nem um metro quadrado de terreno disponha para plantar cenouras e assim ficar com os olhos mais bonitos.

Ou, até, que o grande capital internacionalista, em grande parte de inspiração (e usufruto) sionista, onde aparecem aflorações de índole reformista, consigam impor um governo mundial de que já não têm escrúpulos em falar (não é Dr. Durão Barroso?) e de que a UE aparenta ser uma peça importante do puzzle (estando a posição da Alemanha e da Rússia novamente a baralhar essas contas - ironias do destino…).[2]

Ou seja, Dr.ª Teresa, O actual regime político, depois de deixar alienar num ápice, cerca de 95% do território e 60% da população portuguesa – semeando guerras civis por todo o lado, que provocaram perdas estimadas entre um e dois milhões de mortos -, nada fez com riqueza que criou, já que tudo o que realizou desde o 25/4, foi feito com os bens que herdou, recebeu de bandeja de Bruxelas e, ou, pediu emprestado.

É difícil ser-se mais incompetente em qualquer parte do mundo!
 
*****
Agora a Liberdade.

Não sabemos o que a Dr.ª Teresa entende por liberdade, mas sempre lhe quero dizer que esta, sendo um bem absoluto – por isso intangível – tem aplicação relativa.

Em termos comezinhos, tal quer dizer que a liberdade de cada um acaba quando colide com a liberdade do outro; que há vários “tipos” de liberdade e que há, até, hierarquia na liberdade.

A liberdade individual é para a Dr.ª Teresa mais importante do que a colectiva?

Como em tudo na vida, tem que ter regras que disciplinem e harmonizem as coisas, à luz da evolução dos conceitos morais de cada época.

O que é uma procura de sempre, mas não significa seguramente, cada um fazer o que quer. O que está sempre limitado pelo Direito Natural – conceito combatido por racionalistas, jacobinos e positivistas - e que quase desapareceu da escola, da família e da sociedade; pela Moral, pela Ética e pelas leis.

Estou seguro que, a agora moderadora, está também ciente de que em metade dos países da UE, existe o delito de opinião sobre certas matérias. Como vê uma medida muito democrática e respeitadora da liberdade…

Presumo que a Dr.ª Teresa já não seja do tempo daquele senhor que quando ouvia gritar por liberdade, ia à janela ver quem a turba levava preso, mas sempre lhe digo que este meu escrito tem 5% de hipóteses de alguma vez ser publicado, lido ou debatido, nos meios onde a senhora se movimenta e debita.

Do mesmo modo que, presumo, jamais entenderá(ão) a profundidade da citação do extraordinário estadista, que abre o texto, até porque todos, pelos vistos, querem ser ricos - o que está longe de significar, ter uma boa existência!

E ser “invencível” é superar as contrariedades e perseverar como nação independente e individualizada no concerto e desconcerto da Humanidade.

É isso que garante verdadeiramente a liberdade de todos nós e com isso as liberdades individuais.

A Dr.ª Teresa é livre de deixar a Nação dos Portugueses, mas já não lhe reconheço o direito, e por isso a liberdade, de querer acabar com a mesma.

E quando uma parte substancial das pessoas se começar a aperceber disto – e por toda a Europa já começaram – não há UE que resista. Dá guerra.





[1] Os afloramentos de desenvolvimento industrial tentados pelo Conde da Ericeira, pelo Marquês de Pombal, Fontes Pereira de Melo e Alfredo da Silva, comparado com os planos de fomento dos anos 50 e 60 do século XX, podem apenas ser considerados de incipientes.


[2] Fukuyama, Fukuyama, não voltes, pois não estás perdoado!...

Brandão Ferreira e as últimas campanhas ultramarinas