quinta-feira, 9 de abril de 2015

A MENSAGEM DE PÁSCOA DO PM BRITÂNICO

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, surpreendeu tudo e todos com a mensagem de Páscoa deste ano.
Conseguem imaginar um político da nossa praça, investido em cargo de relevo, a fazer um discurso semelhante?
 

domingo, 5 de abril de 2015

O “ACIDENTE” DO A-320 DA “GERMANWINGS”

“Um piloto é apenas uma pessoa normal em excelente condição física (e psíquica) ”
Aforismo popular aeronáutico

Ao cabo de um milhão de textos e reportagens sobre este inverosímil acidente vou, também, tentar fazer uma síntese (in)conclusiva.

Partindo do princípio de que o copiloto intentou, deliberadamente, fazer o seu avião colidir com o solo – facto que apenas a comissão de investigação estará em condições de averiguar e determinar (tudo o resto deverá ser levado á conta da especulação) - o ocorrido tem várias vertentes sobre que ser equacionado.

Vertentes que confluem basicamente em duas: a selecção e formação dos pilotos (ou mais alargadamente, do pessoal navegante) e a supervisão.

Ora o que se tem passado em pinceladas largas? Isto:

Desde o início da aviação comercial que a grande maioria dos pilotos deste ramo da aviação, provinha da aviação militar.

Tal facto manteve-se, em termos gerais, até meados da década de 60 do século passado, nomeadamente no chamado Ocidente.

Ora sabe-se que as exigências das operações militares - a todos os níveis – são superiores ou, no mínimo, iguais aos da aviação civil. A partir daí a situação foi-se invertendo, ou seja, a maioria dos pilotos civis deixou de ter experiência militar.

A partir sobretudo dos anos 90 do século XX, deu-se um “boom” na Aviação Civil e a deslocação por via aérea passou a estar acessível ao poder de compra de uma cada vez mais alargada dos consumidores.

Para tal contribuiu o desenvolvimento exponencial do turismo, a cada vez maior internacionalização dos negócios, a multiplicação de organismos internacionais e a diminuição dos custos do transporte, por via da melhoria da tecnologia disponível, estruturas organizacionais e métodos de gestão.

Finalmente ocorreu o fenómeno das companhias “low cost”, que massificou o transporte aéreo.

Estas companhias tentaram optimizar todos os recursos e limitaram as ofertas de serviço ao estritamente indispensável. Mas para praticarem os preços que exibem tal só pode ser conseguido, aparentemente, com condições não direi inseguras, mas sem qualquer tipo de “gordura ou almofadas de ar”, em que operam.

Só as flutuações dos custos da energia baralham, por norma, o negócio do transporte aéreo.

As questões da segurança (física) tinham sobretudo a ver com áreas geográficas de conflito – sobre as quais se podiam aplicar normas e restrições adequadas – mas sobretudo com o terrorismo, que despontou a partir da guerra Israelo-Árabe dos “seis dias”, em 1967, mas que teve “curiosamente”, o seu início moderno, com o desvio do Paquete Santa Maria e o “Super Constellation” da TAP, por oposicionistas ao governo português, em 1961!...

Porém, o grande impacto no transporte aéreo em termos de segurança (“security”) deu-se após o atentado às Torres Gémeas, em 2001.

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Entretanto, o que se passou com a preparação dos novos pilotos?

Como o seu treino de base é muito oneroso para as companhias aéreas, a sua formação começou por ser feita nos aeroclubes mas como tal não era suficiente e a maioria dos mesmos também não tinha estruturas adequadas, começaram a despontar, como cogumelos, escolas de pilotagem.

Ora uma escola de pilotagem é um negócio, uma transportadora aérea é outro negócio e a lógica profissional é a de uma prestação de serviços em troca de uma remuneração, onde funciona o “mercado” (ou seja a lei da oferta e da procura) e onde a eficiência prefere à eficácia.

Tudo ao contrário das Forças Aéreas onde a lógica (até ver) é de serviço, não de negócio e onde a eficácia prefere à eficiência.

Ou seja, na primeira “está-se”; na segunda, “é-se”.

A postura é completamente diferente e assim deve ser (apesar de ter consequências!...), pois a missão é distinta e não se deve tentar “civilizar” os militares, tão pouco militarizar os civis…

Como pano de fundo a tudo isto tem-se assistido a um aumento exponencial da tecnologia, que está a ultrapassar a capacidade humana de lidar com tal facto, ao mesmo tempo que se diminuem os tempos de voo real na instrução, o número e quantidade de manobras efectuadas e o uso intensivo de simuladores – que são muito úteis, mas têm de ser usados com conta, peso e medida.

Ou seja, os pilotos têm cada vez menos experiência em voar o “avião à mão” e estão menos habilitados, naturalmente, na resolução de emergências.

Creio que a comunidade aeronáutica se deu, finalmente, conta disto aquando do acidente com o voo 447 da Air France, em 1/6/09, em que um A330 se despenhou no Atlântico, com 228 pessoas a bordo!

A massificação e abandalhamento do ensino, a todos os níveis – a recente decisão de anulação de 152 processos académicos, pelo Ministro da Educação é o expoente eloquente do saque a que a coisa chegou - tem levado a que a maioria dos alunos, seja ignorante sobre uma quantidade enorme de coisas básicas, afecta a sua capacidade de memória e raciocínio e não lhes incute o mínimo de hábitos de organização, disciplina, ética e boas maneiras.

A preparação física é medíocre e os “vícios” obtidos por vida desregrada, a vários títulos, e outras mazelas sociais – a desbunda/negócio em que se transformaram as viagens de finalistas, é bem evidência disso - vêm ainda complicar mais o quadro onde tudo se move.

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Como se consegue minorar tudo isto a nível aeronáutico, que é o que estamos a tratar?
 
Pois através das Autoridades Aeronáuticas Nacionais que, em Portugal, está consignada no INAC (agora ANAC), dependente do Ministério dos Transportes e Comunicações, a que se deve juntar o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves (GPIAA) (a questão da “Segurança” é outro assunto muito complexo, que não iremos abordar).

Ora sobre os órgãos de supervisão e tutela diremos que, nas últimas décadas, por razões várias, tiveram muita dificuldade em acompanhar o que se ia passando na prática, estando por várias vezes à beira da exaustão de meios.

A supervisão ao nível da maioria das empresas segue a lógica do “negócio” na gestão dos meios existentes (ou seja como obter máximo lucro) com uma mentalidade alargada de que qualquer investimento é um custo e da falta de escola empresarial que remonta à expulsão dos judeus em 1496…

Acresce a isto o facto da legislação europeia estar a ser concentrada em Bruxelas, aumentando o tempo na tomada de decisões e retirando capacidade decisória aos estados membros.

A massificação e o “negócio” do transporte aéreo com o correspondente aumento da necessidade de profissionais fazem tender, se não se tiver cuidado, que a qualidade sofra em detrimento da quantidade; a “lei da selva” do capitalismo selvagem, em guerra civil permanente com a “ditadura” dos sindicatos, faz o resto.

É em todo este âmbito que se deve encarar o que aconteceu com o copiloto alemão – como há fortes indícios de que outros já o terão feito (voo da Japan Airlines, em 9/2/82; Royal Air Maroc, em 21/8/94; SilkAir, em 19/12/97; Egyptair, em 31/10/99; LAM, em 29/11/13 e, eventualmente, o desaparecimento do avião da Malaysia Airlines, em Março de 2014) e cuja exposição mediática pode ter levado a que um acto solitário – o suicídio – passasse a ser encarado em conjunto, arrastando outros no mesmo destino. Trinta minutos de fama “oblige”!

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Ora aqui entra novamente o recrutamento e formação dos novos pilotos civis, já que os militares ainda têm estado um pouco ao abrigo destas modernices: é que a legislação existente (é a já europeia “EASA”) apenas (!) obriga ao 9º ano com matemática e física e um exame médico (não muito exigente) em organismo certificado para o efeito.

Não são exigidas nem provas físicas nem psicotécnicas.
 
Os alunos não as fazem e as escolas não os obrigam por serem onerosas e terem medo que os alunos “fujam” para a concorrência. Também não é de uso efectuarem-se despiste de drogas…

Algumas empresas exigem testes psicotécnicos quando fazem o seu recrutamento, mas tirando casos muito fora do desvio padrão, aparentam estar mais preocupados em não ter ao seu serviço, pessoas que lhes dêem problemas laborais. De resto não são mais repetidos.

Tirando isto, a supervisão é mais ténue e a hierarquia também e o convívio é esparso. Os tripulantes só convivem quando se encontram para voar, em acções de formação ou nas verificações.

Ao contrário dos aviadores militares, onde a hierarquia é mais rígida e compartimentada, o convívio é corrente e o treino e operação, é conjunto.

Acresce a tudo isto que nas escolas civis praticamente ninguém chumba. Vão desistindo…

Mas mesmo que tudo corresse bem – e devemos tentar sempre esse desiderato – e tudo fosse feito “by the book”, não é possível garantir uma segurança total, com a resolução dos problemas a 100%. Casos destes irão fatalmente acontecer, pois a natureza humana é como é, e está cheia de tarados, apesar da teoria do “Bom Selvagem” nos tentar convencer do contrário.

Para já não falar na célebre “Lei de Murphy”…

Decidir a quente, legislando a fim de garantir sempre duas pessoas no cockpit -depois de tudo se ter feito para lá não entrar ninguém, a não ser depois de estritamente autorizado - não parece que vá resolver nada e é apenas fruto de demagogia comicieira que visa, por causa do transtorno mediático, tentar conseguir uma acalmia rápida na opinião pública e publicada.

Apostar, porém, na luta do Bem contra o Mal, talvez fosse mais profícuo… a longo prazo.

Mas quem é que estará interessado nisso?

João José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador (por vocação)
Comandante de Linha Aérea (por vicissitudes da vida)
Instrutor de voo (por expiação)

sábado, 28 de março de 2015

COMPORTAMENTOS (MILITARES E CIVIS) INSÓLITOS, NUM PAÍS INSÓLITO

“O que não funciona vai dando para o que não existe.”
Autor desconhecido

 
A frase expressa na introdução do seu último livro, pelo Professor Cavaco Silva, defendendo que o seu substituto na Presidência da República tivesse experiência em política internacional, provocou uma pequena tempestade política num copo de água.
 
Não devem ter mesmo mais nada para fazer.
 
Vejamos, a afirmação em si, é de uma evidência cristalina e simultaneamente confrangedora, não representando qualquer ideia política original, pensamento profundo sobre qualquer assunto ou decisão que possa influir seja no que for.
 
É aquilo que em termos científicos se poderia designar por “vulgaris de Lineu” e na gíria castrense, de “generalidades e culatras”.
 
Mas logo vários pelotões de políticos e comentadores vislumbraram na oração presidencial, intenções capciosas sobre os putativos candidatos ao cargo e sei lá que mais maquiavélicos pensamentos. Não há pachorra.
 
Lembramos que a extraordinária lei eleitoral de que usufruímos, apenas impõe a um eventual candidato que seja português (até ver) e que tenha mais do que 35 anos. Não exige mais nada (nem sequer um registo criminal limpo), a não ser 7500 assinaturas de pessoas que devem estar assaz preocupadas se os candidatos que apoiam sabem alguma coisa de política externa….
 
Ofereço uma ideia: optem por ter um Rei, que além de ter de saber dessa matéria, tem o problema da sucessão resolvido!...
 
Um a zero na imbecilização do povo.
 
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O Ministro da Defesa fez um despacho em que delega cerca de 90% (ou será mais?) das suas funções ao alvedrio da sua Secretária de Estado.
 
Porque o fará?
 
Para que é preciso então, um ministro?
 
Já se sabia das preocupações que S. Exª tem com o governo da sua firma de advogados (e eu a julgar que uma coisa seria incompatível com a outra, até em termos de disponibilidade), mas que diabo alguma coisa há-de ter para fazer no edifício do Restelo. Será que necessita do seu precioso tempo para outras actividades, agora que se aproximam épocas eleitorais?
 
Ou trata-se apenas de passar a assumir publicamente a importância que dão à Defesa – que se resumiu sempre e apenas, às Forças Armadas – e que agora como estas estão a caminho da exaustão, atira-se-lhes com um “para quem é, bacalhau basta”?
 
Se assim for, porque poupa na austeridade e não desaparece de vez, leva a Dr.ª Berta consigo e designa um Director Geral com o título de “Presidente da Comissão Liquidatária”?
 
Não entenderá que é mais honesto e consentâneo?
 
Dois a zero, na tal imbecilização.
 
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Um Conselheiro de Estado perdeu (depois de ter recorrido para a Relação), um processo que intentou em tribunal contra um cidadão por se sentir difamado por ter intuído que lhe tinham chamado traidor á Pátria, por alguns factos ocorridos no seu passado já longínquo.
 
Continua, porém, Conselheiro de Estado, apesar do assunto ser pouco conhecido no país, já que a comunicação social praticamente não fez eco do que se passou.
 
Felizmente que o julgamento terminou desta forma, senão os cerca de um milhão de compatriotas, mobilizados nas últimas campanhas ultramarinas (o caso tem a ver com este conflito) ficava em maus lençóis por não terem seguido o exemplo em causa.
 
Podendo inferir-se até, que seriam eles os traidores…
 
Mas não se tendo, por douta sentença, seguido este caminho, ficam as perguntas seguintes: porque é que as autoridades do país, na altura (referimo-nos ao pós 25 de Abril de 1974) consubstanciados na Junta de Salvação Nacional e no Movimento das Forças Armadas, não “arrecadaram” os que se tinham portado como o queixoso para os julgarem sobre o que tinham feito, como se fez, por exemplo, com alguns daqueles que foram na Legião Portuguesa lutar nas hostes napoleónicas, em 1807?
 
E como se permitiu, depois deste “pecado original”, que a pessoa em causa e muitos outros, ocupassem altos cargos em órgãos de soberania?
 
E como é que se permite que um cidadão nestas condições (mesmo que eventuais crimes já tenham prescrito) se possa candidatar ao mais alto cargo da Nação?
 
Porque não existe qualquer censura social e quase toda a gente lhe aperta a mão?
 
Três a zero, a aumentar a imbecilização do povo.
 
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Quase clandestinamente o Parlamento votou a favor da ida de Eusébio da Silva Ferreira para o Panteão Nacional.
 
A coisa foi feita algo envergonhadamente e quando nada o faria supor.
 
Pudera, depois do “Pai da Democracia”, cheio de verdete por o “Pantera Negra” nunca ter dito mal do Professor Salazar, o mais apropriado que achou por bem dizer, após o passamento do ídolo do futebol, foi tentar achincalhá-lo com um “bebia whisky ao pequeno - almoço”, que se poderia esperar?
 
Lamentavelmente nada de institucional existe para definir quem tem direito a dormir o sono eterno no antigo templo de Santa Engrácia, ficando tudo à mercê das maiorias parlamentares do momento.
 
Será até curioso, um dia ver o que acontece quando se der um movimento para tirar de lá alguém…
 
Mas o que gostaríamos de focar nesta crónica é, tão só, uma notícia veiculada nos órgãos de comunicação social, e com origem, ao que se sabe, num deputado do PSD, que comentando a novidade – que alguns órgãos de comunicação social propalaram acriticamente - saiu-se com esta tirada digna de Horácio, Tucídides, quiçá, Virgílio: “Eusébio é o primeiro português que vai para o Panteão e que não nasceu em Portugal”!
 
Gostaram?
 
Então nasceu onde, pode-se saber?
 
Lourenço Marques, capital de Moçambique, onde chegámos em 1497, e que fez parte de todas as Constituições portuguesas desde 1822, era território pária? E ninguém esfrega um pano encharcado no “fácies” destes broncos?
 
Quatro a zero na imbecilização do povo!
 
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A Escola Secundária “C+S de Cascalhais de Baixo” está com o ar condicionado avariado há um mês. Resultado, manifestação de professores e alunos à frente da escola sendo, amiúde, os portões da dita cuja fechados a corrente e cadeado; cinco minutos de imagens nas televisões (todas á excepção do 2º canal); os comentaristas espraiam-se em voluptuosa verve; clama-se para que o ministro da pasta respectiva se apresente no Parlamento, a fim de ser interpelado (às vezes ele vai) e, não raro, se pede a demissão do chefe do governo; chovem acusações de que o PR não tem opinião sobre coisa alguma, (aliás, quando ele fala, é o que se sabe…).
 
Os exemplos podiam multiplicar-se por “ene factorial” (N!).
 
Em contrapartida, a Força Aérea, a Marinha e o Exército – este último consegue bater os outros dois aos pontos – estão numa situação dramática, com falta de tudo, sem verba para se sustentarem, sem pessoal, com os equipamentos (que restam) quase todos parados e não há uma voz neste país (as das associações militares ouvem-se baixinho), que exale um “ai” de preocupação a começar pelas chefias militares que quando abrem a boca é para exprimirem um ar de “tranquilidade”.
 
Deve ser por ser segredo de Estado, não vá o inimigo dar-se conta!...
 
No fim do reinado do Rei, Senhor D. João V – e não se podia alegar então, haver falta de verba – os sentinelas chegavam a pedir esmola à porta dos quartéis.
 
Deve ser por isso, que agora, os estão a substituir por empresas de segurança…
 
N! a zero na imbecilização do povo!