domingo, 19 de outubro de 2014

ALPOIM CALVÃO: HERÓI NACIONAL

“… aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando.”
Camões, Lusíadas, Canto I, 2.

O Capitão de Mar-e-Guerra Guilherme Almôr Alpoim Calvão (AC) deu a alma ao criador, no pretérito dia 30/9/14, após longo e excruciante período de doença, que suportou com invulgar serenidade e estoicismo.
Sobre AC já disse o principal que sobre ele pensava na apresentação do seu livro biográfico, há cerca de um ano, na cidade de Viseu – a “cava de Viriato”.
No seu funeral estiveram presentes o PR, através do seu Chefe da Casa Militar; os Chefes Militares, através de oficiais generais de duas estrelas, com excepção da Marinha cujo Chefe de Estado - Maior – que, por motivos de agenda ponderosos, não pode estar presente – se fez representar por um Almirante de três estrelas. O General Ramalho Eanes também esteve presente.
Primaram pela ausência o Governo e o Parlamento (pelo menos que se desse conta).
A maioria da Comunicação social, tão loquaz e voluntariosa aquando de algum crime que envolva pederastas ou no acompanhamento de assuntos menores e barbaridades avulsas foi, desta vez, parca em notícias dando, invariavelmente, realce à acção de AC enquanto figura proeminente do MDLP.[1]
AC era um dos poucos portugueses vivos agraciados com a mais alta condecoração nacional – a Torre e Espada –[2] (não estamos a incluir os ex-PR, que a têm por diuturnidade), por altos feitos em combate e relevantes serviços ao país, no que está à altura dos Grão – Capitães portugueses da estirpe de um Duarte Pacheco Pereira, Francisco de Almeida ou Mouzinho de Albuquerque, só para citar estes.
Mas, mesmo assim, as gentes pequeninas que vão pontuando pelo país entenderam por bem, alhear-se de tão elevada figura ou tentaram mesmo menorizá-la.
AC pertenceu, ainda, à nobre plêiade de portugueses que entenderam que a Pátria nada lhes devia – pois apenas tinham cumprido o seu dever – e por isso nunca se colocou em bicos dos pés requerendo coisa alguma.
Deixou apenas um pedido a um antigo camarada de armas e de curso, para que as suas cinzas fossem largadas ao mar, na foz do rio Tejo, entre torres – designação que na gíria naval significa o espaço compreendido entre a Torre do Bugio e a Torre de S. Julião da Barra – e na maré vaza.
Era um desejo que honra a sua alma de grande marinheiro.
Quis a Marinha Portuguesa, através dos seus legítimos representantes assumir, ela própria, a consumação deste último desejo. Fez bem.
Foi um gesto da mais elementar justiça e que só a enobrece.
E que se deve assumir como preito de homenagem e finalização das honras fúnebres, como se fazem aos marinheiros no alto-mar.
Tive a honra de estar a bordo e assistir ao acto. Aqui fica um agradecimento público.
A juntar às incompetentes notícias, ou falta delas, já reveladas do anterior, veio agora o Bloco de Esquerda – esse grupelho desqualificado – questionar o, também, desqualificado Ministro da Defesa, sobre a licitude da homenagem e se ele, ministro, a autorizou - como se o CEMA fosse algum gaiato de bibe que tivesse que pôr o dedo no ar cada vez que queira ir à casa de banho…
Acompanhou o BE, o agora também desqualificado Diário de Notícias (DN), tido como jornal de referência – cabendo perguntar ser referência de quê? – através da pena de um jornalista amplamente referenciado.
É infelizmente prática antiga, permitir-se nos órgãos de comunicação social comentários anónimos e por vezes soezes, sobre as notícias ou textos de opinião que publicam. O DN não foge à regra permitindo que os cobardes e os sem carácter, bolsem os seus miasmas sem terem que assumir a responsabilidade do que dizem.
Isto não revela apenas quão longe estamos do tão propalado “estado de direito democrático”, como é sintoma de um grave retrocesso civilizacional!
Mas atentemos nas questões fulcrais dos ataques, das meias verdades, das meias notícias que acompanharam o passamento desta notável figura de português, de combatente e de carácter, que toda a gente tem evitado comentar?
Tirando a sua actividade como oficial do activo – que é aquela, note-se, pela qual a Instituição Militar o distingue- toda a gente sabe que AC foi uma pessoa controversa, mesmo no seio da Armada.
A primeira tem a ver com o facto de AC ter sido um herói nas últimas campanhas ultramarinas em que combatemos e as mesmas terem sido, desastrada e erradamente, taxadas com o epiteto negativo de “coloniais” e terem sido consideradas por muitos como “guerras injustas”.
Ora, para estes adiantados mentais não faz sentido, haver heróis em guerras injustas…
O que fez (e ainda faz) sentido, pelos vistos, foi “promover” desertores e traidores…
A segunda tem a ver com razões políticas e ideológicas – aquelas que tudo inquinam – que ocorreram durante o “PREC” [3], quando o país estava a ferro e fogo e quase à beira de uma guerra civil.
Como todos os portugueses AC sofreu na carne e no espirito a frenética agitação da época e reagiu.
Na altura estava desligado do serviço activo, a seu pedido, na situação de licença ilimitada.
Na iminência de ser preso na sequência do 11 de Março de 1975, conseguiu passar a Espanha, após fuga aparatosa, onde ajudou a formar o MDLP, cujo presidente era, recorda-se, o General Spínola (também fugido de helicóptero para aquele país e depois ido para o Brasil) – general entretanto reabilitado e promovido a Marechal do Exército.
Como operacional do MDLP AC participou e dirigiu variadíssimas acções, incluindo acções violentas, contra as forças internacionalistas (comunistas e muitos outros “istas”) que anarquizaram o país; levaram à paralisação do aparelho produtivo; quase destruíram as Forças Armadas; impediram qualquer descolonização, etc., numa palavra provocaram uma tragédia maior do que Alcácer Quibir, Alcântara, o terramoto de 1755 e as três invasões francesas, juntos!
E não contentes com tudo isto, ainda pretenderam impôr revolucionariamente, uma ditadura comunista e terceiro-mundista, na parte europeia que restava de Portugal.
Um assalto ao poder da forma mais despótica e infame.
Foi contra este estado de coisas que o Comandante Alpoim Calvão (e muitos outros) corajosamente se ergueu e combateu e que as forças vitoriosas no 25 de Novembro de 1975, apenas parcialmente derrotaram, permitindo que os vencidos (e apaniguados de ideologias erradas, antipatrióticas e vis) se pudessem retirar em boa ordem de marcha, passando ainda a outorgar-lhes credibilidade democrática!
Um erro (mais um) que inquinou o país, por décadas, e não tem fim à vista.
Ninguém julgou ninguém…
São os que restam desta estirpe e os que entretanto arregimentaram, que nunca perdoaram a AC o que ele fez.
A situação arrasta-se pois quase ninguém confronta estes infelizes com os seus erros e os seus crimes, transformando o debate ideológico num deserto de ideias.
Os “negócios” foram, entretanto falando mais alto.
Piorou tudo isto uma onda de imoralidade financeira por parte de capitalistas sem escrúpulos que, movidos pela ganância do dinheiro e do poder, têm andado a destroçar a sociedade nos países ocidentais, o que se agravou muito após o Muro de Berlim ter caído.
Ou seja, deram, com a sua acção, azo a que comunistas e outros “istas” de várias cores ganhassem novamente oxigénio e tenham de novo, razões que os sustentam.
AC é alheio, porém, a toda esta evolução e teve razão na sua luta. E é péssimo ter a memória curta.
Honra a Alpoim Calvão que é herói nacional – e sê-lo-á para sempre – e um cidadão esclarecido e actuante com uma coragem física e moral, inquestionáveis.
A Marinha Portuguesa esteve, simplesmente, bem.


[1] MDLP, Movimento Democrático de Libertação de Portugal, constituído em 5/5/1975 e desactivado em 29/4/1976. De feição anti - comunista, tinha como objectivo a adopção de um sistema democrático pluralista.
[2] Do Valor, Lealdade e Mérito.
[3] PREC, Processo Revolucionário em Curso, período convencionado entre 25/4/75 e 25/11/75; 19 meses.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

RESPOSTA A ARTIGO DO JORNAL DE ALMEIRIM

Aqui deixo a minha resposta a um artigo de opinião publicado no Jornal de Almeirim e que podem ler no link abaixo.


RESPOSTA A “QUE FUTURO?”
(da autoria do Coronel Andrade da Silva,
publicado no “Notícias de Almeirim”, de 19 de Setembro de 2014)

Escrito no dia do desenfado, 6/10/14.
O Coronel de Artilharia João António Andrade da Silva, nascido a 9/5/48, entrou para a Academia Militar no ano lectivo de 1967/8 tendo jurado bandeira segundo a fórmula regulamentar. Foi alferes em 1971, entrando para o quadro permanente de oficiais, altura em que fez o juramento de fidelidade, como oficial, a fim de receber a sua carta patente.[1]
Em 1974 foi promovido a capitão. Reformou-se no actual posto, sendo pois, oficial superior do Exército Português.
Conviria, por isso, dar alguma substância entendível aos eventuais leitores ao invés de meter no mesmo saco, política partidária e luta ideológica misturada com apreciação de um processo jurídico e contradições q.b..
Começo por dizer que não me sinto melindrado ou diminuído por aquilo que o meu “distinto” camarada de armas (com “c” e não com “k”), da nobre Arma de Artilharia – aquela cujos oficiais se orgulhavam de morrer em sentido – escreveu.
Quem se deve sentir insultado são todos aqueles (membros da AOFA, ou não) a que apelidou de cobardes e outros epítetos, mas compreenderá que sendo eles maiores e vacinados e não tendo eu procuração para os defender, deixarei esse encargo aos próprios.
Para além destes (que não sei quantificar) pareceu-me que o orante e temente a Santa Bárbara – caríssima Padroeira dos artilheiros portugueses – se apresenta ressabiado (um sentimento que não ajuda ao discernimento), contra quem não aceitou a sua filantrópica oferta para testemunhar a favor do Vate Manuel Alegre (MA) – logo contra mim – por o terem julgado dispensável, como afirma.
Se fosse a si não amuava e encarava a coisa de outro angulo: o de que assim evitou ir fazer pior figura do que aqueles que lá foram e se prestaram ao acto!
Quanto ao que diz de Salazar, também nada me incomoda, embora entenda pertinente deixar um esclarecimento: ignoro se o antigo frequentador do polígono de Vendas Novas, tem o poder de ressuscitar os mortos – atributo até agora exclusivo de Cristo Redentor – mas eu confesso, desde já, que não possuo tal dom (e acrescento que, a tal, não aspiro).
Não me passa, pois, pela cabeça ressuscitar o mui íntegro, competente e patriota, que na sua vida terrena usou o nome de António de Oliveira Salazar, um português distinto (sem embargo de como humano poder ter as suas sombras) e estadista de rara qualidade.
Vamos mesmo ter que viver sem ele.
Mas quero sossega-lo, e às suas hostes – se é que alguma - que farei o que estiver ao meu alcance para preservar a verdade histórica, relativa a tão singular personagem, das mais capazes desde que Afonso Henriques se colocou à frente do Condado.
Diz Andrade da Silva que em Portugal não existe Democracia e, em simultâneo, que eu não sou adepto da mesma por “não concordar com o 25/4 e a Descolonização”.
Também aqui não parece haver lugar a desconsiderações.
Como é suposto saber, o golpe de estado efectuado em 25/4/74, pouco teve a ver com a implantação da “Democracia” em Portugal.
E por grosseira incompetência de quem colaborou e ficou à frente das forças vitoriosas (as outras renderam-se sem esboçar resistência), o dito cujo virou “revolução”, com o poder caído na rua.
O que daqui derivou ocasionou gravíssimas consequências para Portugal - das quais não iremos recuperar tão cedo – a pior das quais foi aquilo a que chamaram “Descolonização” (que não existiu) que considero, assumo, o pior e mais vergonhoso evento de toda a História do povo português.
Se o Senhor considera que a Democracia foi ou não implantada, é um problema seu, sobre o qual não me vou enredar.
Como existem vários modos de a interpretar (presumo que a sua seja a das ocupações selvagens em que andou entretido, nos idos de 75), aguardo que um dia possa explicitar o seu entendimento para melhor esclarecimento dos leitores do “Notícias de Almeirim”.
Onde andou a pisar o risco do insulto foi na infeliz frase em que me misturou com “racistas, colonialistas, defensores de salazarismos” (sic); convém dar alguma elevação à escrita mesmo estando habituado a linguagem de caserna.
E quando me chama demagogo não sei se está ciente do significado do termo empregue.
Palavra de origem grega compõe-se de “demos” – povo, ou população – e “agogôs” – liderar ou liderança – que na Grécia e Roma antigas referiam-se ao orador que falava em nome da população menos afortunada.
Mas já Aristóteles no seu livro “Política” aponta a demagogia como a corrupção da Democracia. Se ler Aristófanes e Tucídides verá, na discrição que fazem do ateniense Cléon, exemplo disso.
Mas já na Idade Média o conceito evoluiu para diferentes formas até que Maquiavel atribui ao Estado a figura de demagogo, no sentido em que encarnava em si o poder de manipulação das massas.
Daqui o conceito espalhou-se para as diferentes correntes políticas.
Não sei, pois, onde me situa ou engloba, mas permito-me facilitar-lhe a vida dizendo que por norma tento juntar na mesma actuação o que penso, o que digo e o que faço.
Por isso fará o favor de ir limpar numa parede o labéu que me intentou. E não se esqueça que as munições, por vezes, fazem ricochete.
*****
Analisemos, que já é tempo, o fulcro da sua redacção, ou seja as considerações que faz sobre a queixa do cidadão, poeta e radialista – creio que ser deputado ainda não é profissão – MA, fez contra mim.
O nosso coronel (“nosso” por expressão regulamentar, mas também por supostamente pertencer a um grupo profissional, cuja essência ultrapassa em muito, a figura da profissão para se irmanar em superiores virtudes morais e espirituais – aspecto que talvez tenha escapado à perspicácia do autor), Interiorizou, dizia, coisas de que nem MA falou.
Aqui há alguns reparos a fazer.
Diz o plumitivo, referindo-se à minha pessoa, que “retratou MA como um desertor; um ladrão (terá levado o dinheiro do seu batalhão), um traidor, porque terá dado a ordem de batalha ao inimigo para este matar militares portugueses”.
Ora, eu nunca redigi nada disto.
Podia, ao menos, ter lido o que escrevi e alguns pormenores do processo para perceber que o crime de difamação de que fui acusado se baseava no seguinte trecho do artigo que então escrevi: “O cidadão MA quando foi para Argel não se limitou a combater o regime, consubstanciado nos órgãos do Estado, mas a ajudar objectivamente as forças políticas que nos emboscavam as tropas”.
O que reitero.
Ora isto configura um crime de traição à Pátria (que já prescreveu, mas não devia ter prescrito…).
E não o que o Coronel Silva bolsou, adjectivando-me a vários títulos e alegando “que dei azo ao lançamento de uma campanha negra contra MA”.
Saiba que as acções ficam com quem as pratica, não com quem as relata…
Quanto às “caranguejolas aéreas”, de que aleivosamente fala, eram as que tínhamos (e não me parece que o armamento do Exército fosse melhor) e cumpriram muito bem as suas missões e nunca até ao fim do conflito deixaram de garantir a supremacia e, ou, a superioridade aérea, às operações em curso. Pergunte aos seus camaradas, que eles sabem e ao inimigo, que ainda se deve lembrar.
E sabe ainda outra coisa? Quando vamos para a guerra é com aquilo que temos, não com o que gostaríamos de ter, e a qualidade do armamento não justifica actos de deserção, traição ou outros puníveis pelos regulamentos militares.
O Senhor, pelo posto e pelo que diz, revela que deve ter três ou quatro décadas de serviço, mas aparenta nunca deve ter passado pela tropa…
Por norma também, não se dá conselhos a quem não os pede, mas eu abro uma excepção consigo, que espero entenda como acto de caridade cristã: leia, reflita e instrua-se.
Fará o favor em não se maçar em responder pois não lhe vou dar mais troco. E agradeço que não ceda à tentação de me tentar insultar.
Passar bem.

[1] Assinada, normalmente, nas Repúblicas, pelo respectivo Presidente e pelo Monarca nos regimes Monárquicos.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

MORREU ALPOIM CALVÃO

 PN  AM
 
Faleceu esta manhã, em Cascais, o Grão-Capitão do Mar e Terra,
Guilherme de Alpoim Calvão.
Herói Português. Simplesmente.
Combatentes em APRESENTAR ARMAS!
Que o Senhor o receba no Reino dos justos.

PS. O corpo segue para o Mosteiro dos Jerónimos dia 1/10/14, pelas 17:00h.
Missa 11:00h do dia seguinte; Funeral para cemitério dos Olivais.

A PROPÓSITO DO LANÇAMENTO DO LIVRO "Á FRENTE DO TEMPO II"

“… Escrevo por muitos motivos que expressei no lançamento do volume I, mas não explicitei, na altura, que também o faço por egoísmo puro. Isto é, escrever ajuda a manter o equilíbrio psicossomático e evita que tenha tentações para sair para a rua e desatar a agredir coisas e pessoas. É assim como se a ira e a agressividade saíssem pela ponta da caneta, como se estivesse debaixo de uma lei da Física que aprendíamos no liceu, conhecida pelo “poder das pontas” – as coisas que a gente aprendia!"


É que cada vez somos agredidos diariamente por barbaridades imorais.
O livro permite percorrer a vida nacional e, pontualmente, a internacional, nas matérias abrangidas (Política, Politica e Defesa Nacional, Geopolítica/ Geoestratégia/ Estratégia/ Relações Internacionais, Forças Armadas e Sociologia Militar, História, Sociedade e Diversos).
Convém ao em que agora estamos, dissecar o título do livro.
A palavra “tempo” surte como a mais importante. Tempo não tem aqui nada a ver com as condições meteorológicas ou climáticas de um dado momento ou local.
O tempo aqui invocado tem uma definição científica: “a grandeza física directamente associada ao correcto sequenciamento, mediante ordem de ocorrência, dos eventos naturais; estabelecido segundo coincidências simultaneamente espaciais e temporais entre tais eventos e as indicações de um ou mais relógios adequadamente posicionados, sincronizados e atrelados de forma adequada à origem e aos eixos coordenados do referencial para o qual define-se o tempo”.
A definição é de Einstein e dita assim, ninguém a entende. Faz lembrar até, uma pergunta de algibeira e que é esta: como é que se conseguiu acertar a hora ao 1º relógio, depois de inventado?
Toda a gente, porém, tem a noção do que é o tempo, mesmo sem o saber explicar.
Para facilidade de entendimento, limitamo-nos a referir que, independentemente da percepção que os nossos sentidos nos dão do passar do tempo, o tempo é um recurso aparentemente inesgotável, que se vai renovando anualmente – na justa proporção em que a Terra perfaz a sua elipse de translação à volta do sol.
Este intervalo foi então dividido - agora com a preciosa ajuda do nosso único satélite, a Lua – em meses e semanas; dias – estes resultantes do movimento de rotação da Terra – horas, minutos e segundos.
Querem divertir-se com a definição actual de “segundo”, como unidade padrão? Aqui vai: “é o tempo de duração de 9.192.631.770 vibrações da radiação emitida pela transição eletrônica entre os níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de Césio 133”.
Imaginem o que é que os caloiros da Academia Militar, conhecidos na gíria como “infras”, teriam sofrido se eu, na altura em que lhes infernizava a existência, já conhecesse esta definição?
Bom, acredito que não imaginem. Adiante…
*****
Estamos assim situados relativamente ao “tempo”; e ao “à frente”?
Creio que o poderemos colocar no âmbito dos advérbios de tempo, modo e lugar.
Ou seja, o conteúdo do livro – isto é os escritos, nele incluídos, andavam ou estavam adiante do calendário vivido no momento.
Isto não tem nada a ver com adivinhação pois não tenho, ao que sei, o dom de prever o futuro. Basearam-se apenas em análise das circunstâncias, das pessoas e dos actos, e das suas possíveis consequências.
Por isso são sempre falíveis.
Andar à frente do tempo é um desconforto, um desgaste e uma frustração.
Por isso é que, em Política, não se pode ter razão antes de tempo – a não ser que se tenha autoridade para tal – e, daí, não ser de espantar que o comportamento comum seja o de andar como a cortiça, acompanhando a espuma do tempo e a corrente das águas.
Daqui deriva também, o politicamente correcto e a célebre frase “só os burros é que não mudam”!
Estar à frente do tempo é estar sempre em dessíntonia com a maioria dos demais e é correr o risco de ser acusado de “perturbador” e portador de más noticias.
Sabe-se como era costume no Império Otomano cortar as cabeças aos assim chamados. Não parece ter sido uma prática despicienda: a “Sublime Porta” aguentou-se como império por cerca de 500 anos e ainda hoje dispõe de um poder nada desprezível!...
*****
Andar à frente do tempo, quer hoje dizer tomarmos consciência que Portugal – o nosso país – está, como Nação independente, numa das esquinas mais perigosas da sua História. E corre sério perigo de ir desaparecendo, como já está a acontecer.
Os perigos são internos e externos e até agora a sociedade portuguesa – com os seus dirigentes políticos à cabeça – não tem tido a presciência de andar à “frente do tempo” e por isso perdemos a capacidade e até o interesse em agir. Apenas reagimos, por norma, tarde e mal.
Sem embargo de já se terem feito dezenas e dezenas de análises, diagnósticos e propostas de terapia. Tudo em vão.
Há 40 anos que não temos uma Ideia de, e para Portugal; não temos uma política clara sobre nada, nem prolongada no tempo; tão pouco qualquer estratégia para a alcançar e manter.
A Moral relativizou -se; o facilitismo instalou-se, a Ética, foi-se!
O partidarismo, o reduzir tudo a negócio, o materialismo e o hedonismo, tomaram conta da sociedade e o país, no seu todo, resvalou inclinadamente, para a corrupção. Corrupção moral, corrupção mental e corrupção física.
Apesar das coisas mais fundamentais só fugidiamente constarem das notícias e do comentário público, o que acabo de descrever vem estampado em catadupas, diariamente, na proliferação de OCS de que somos servidos.
De pouco serve, porém, já que raramente se emenda a mão ou se resolve um problema.
Ou seja, a tão incensada liberdade de expressão, de imprensa, de opinião, etc., de pouco tem servido (ou seja, serve para nos ir desmoralizando cada vez mais e a não se acreditar em nada).
Por isso é que considero a sentença do processo “Face Oculta”- apesar de ainda só ir em 1ª instância – como histórico!
É uma esperança…
*****
Este é o pano de fundo – muito sucinto – que acomoda os grandes desafios político/estratégicos que nos ameaçam o horizonte.
Vou apontar os que considero como principais.
  • Liderança política/sistema/regime político, inadequados;
  • Não se fazer uma política nacional;
  • A nossa prestação na União Europeia;
  • A globalização financeira;
  • O relativismo moral.
Vou tentar dar umas pinceladas rápidas sobre cada um deles.
Quanto ao primeiro existe uma necessidade imperiosa de questionar, alterar e melhorar o regime e o sistema político em vigor. Eles são os principais responsáveis pela maneira como a sociedade funciona e o país progride.
E – não menos relevante – é responsável pelo modo como se escolhem os cidadãos que vão ocupar os cargos políticos e que, supostamente nos representam.
Seria bom e desejável que a Nação Portuguesa se tentasse nivelar pela Aristocracia do Bem, do Carácter e do Saber, em vez de se degradar pelo nivelamento acéfalo e individualista, da quantificação massificada, a que passaram a chamar e confundem com “Democracia”.
É bom que se faça isto por evolução em vez de revolução, pondo fim a um ciclo que perdura, desde 1817.
Daqui decorre que a política deixou de ser nacional para estar ao serviço de interesses estranhos e dos … negócios.
Ora já alguém, que sabia o que dizia e do que falava, que “a política ou é nacional, ou não o é”.
Como a política deixou de ser nacional decorre, entre muitas outras coisas, que nos estamos a suicidar colectivamente. Estamos a desaparecer. Dou alguns exemplos.
  • Destruição acelerada de todo o Poder Nacional; ora sem poder não há estratégia, por não poder haver opções de se fazer seja o que for; não havendo estratégia, não se pode delinear uma política. Apenas se finge que temos uma Política. É o que acontece;
  • Alienamos soberania, alegremente, em todos os campos; o vocábulo “individualidade” deixou de se ouvir e apenas se vai mantendo a “identidade”. Porém é papa para enganar os tolos, já que esta não se consegue manter sem aquela. Aliás, passámos constitucionalmente a nossa soberania para Bruxelas – essa entidade que ninguém sabe definir – e engalanámos em arco;
  • Suicidamo-nos em termos demográficos, não só porque não nascem crianças – um problema terrível sobre cujas causas não se quer falar a verdade – mas também porque emigramos muito (e não é por excesso de população) e deixamos que outros imigrem para cá em quantidades de difícil absorção e com regras permissivas de muito duvidosa qualidade e interesse, das quais os vistos “gold” são a última aberração: uma autêntica prostituição da identidade!
  • Sobretudo estamos a suicidar-nos por dentro, por desmoralização, por descaso, por falta de percepção dos perigos, por vício de raciocínio ligado a mitos e por descrença no devir da Portugalidade como imperativo nacional.
A nossa prestação na UE é um desastre de proporções calamitosas só atenuado pelos erros que outros países pertencentes ao “grupo” também cometem.
Sintetizando direi que a entrada na CEE, pouco ponderada e enfraquecida pela derreada situação política/económica/financeira/social, da altura, enformou de um erro capital, que se tem agravado em muito, desde Maastricht: ter-se encarado a CEE como um objectivo nacional permanente histórico, logo teleológico – o que aquela entrada não deve ser – em vez de se ter considerado como um objectivo nacional importante, e por isso transitório (ou seja, enquanto servir os nossos interesses), que é como essa adesão devia ter sido assumida.
A entrada no “Euro” representou um dos erros que nos estão a ser fatais e que foi agravado pelo mau uso que se fez dele.
Hoje já se fala em sair do euro, mas apenas se invocam razões económicas e financeiras; ainda não ouvi ninguém dizer que as verdadeiras razões não são essas: são razões de geopolítica.
As mesmas razões, que deveriam ter sustentado “ab initio”, a nossa não adesão ao mesmo... 
A UE – que caminha rapidamente para a “Eurábia”, logo para uma miríade de mini guerras civis por todo o lado – só pode ter tês caminhos daqui para a frente:
  • Continuar a patinar como até agora, e nós a patinar com ela;
  • Desmembrar-se, indo cada um para seu lado, voltando-se à hierarquia das potências – que, verdadeiramente, nunca foi abandonada – e, nesse caso, nós ficamos com a “união ibérica”;
  • Haver fuga para a frente (que, penso, será o que vai ser tentado), a caminho de um federalismo de contornos indefinidos o que representa, a prazo, o desaparecimento de Portugal.
Nenhuma das hipóteses é boa para nós mas, aparentemente, ninguém se preocupa com isso, nem se preparam alternativas. E mais não digo.
Finalmente temos a “Globalização” que, ao contrário daquela – espiritual – que os portugueses liderados pelas Ordens Militares Religiosas, onde sobressaía a Ordem de Cristo, quiseram implantar no século XV e início do XVI.
Agora a globalização é económica, baseada na concentração e no domínio financeiro, o que tem logrado ultrapassar as nações supostamente representadas pelos seus órgãos estaduais, pois estes já são na sua maioria, no mundo ocidental (mas não exclusivamente) – e em Portugal a partir dos anos 80 do século XX – por pessoas recrutadas e endoutrinadas no seio de organismos “transnacionais”, que se mantêm na “sombra” do conhecimento da generalidade dos cidadãos.
“Cidadãos” tidos, ao que se constata, como peões descartáveis no tabuleiro de xadrez do poder e cuja importância reside apenas no consumo que realizam.
Não tenho tempo, nem este é o local próprio, para ir mais além, mas não posso deixar de frisar que tal estado de coisas, só se pode manter e é potenciado, pelo relativismo moral (onde impera o ataque à Igreja de Cristo); a destruição da família e das Pátrias, em que caímos, e pelo “pão e circo” de que nos alimentamos.
*****
Poderão pensar que acabei de fazer um manifesto político. Se assim pensaram, pensaram bem, pois foi exactamente o que intentei fazer.
Nós temos que parar com o desaparecimento da Pátria Portuguesa e do baixar das guardas que sempre a protegeram. E temos que tentar passar a viver de bons Princípios. Devemos fazer tudo isto, usando de todos os meios ao nosso alcance.
Já chega de cobardia e desmoralização colectiva.
O que estou a dizer não representa uma bravata, é um discurso amadurecido.
Este é o meu pensamento, este é o meu sentir. De pouco servirá, partindo do princípio que tem algum valimento, se não o passar a ninguém e possa servir de mínimo divisor comum – que tanta falta faz à velha casa Lusitana.
Daí estar a lançar este livro que é dedicado a Portugal e aos Portugueses.
Que viva Portugal (naturalmente).

IN MEMORIAM

IN MEMORIAM
CORONEL TIROCINADO DE INFANTARIA
MANUEL CARLOS TEIXEIRA DO RIO CARVALHO (28/06/35 - 22/9/14)[1]


O Coronel Rio Carvalho fez parte da plêiade de homens (e mulheres), que constituem o esteio de um País e o equilíbrio da Sociedade.

São os que oram, trabalham, preocupam-se com a Justiça e a Moral, estudam, defendem a Nação, esforçam-se pela rectidão de atitudes, dão o que sobra de si à comunidade, agem pelo exemplo e são patriotas.
Numa palavra, têm o sentido da vida e do Dever.
O Coronel Rio Carvalho era tudo isto e muito mais.
Fazia tudo isto com simplicidade, educação e sem ponta de afetação, nem arrogância, tão pouco falsas modéstias.
Era sóbrio e sensato.
Foi, na sua essência, um homem bom que praticava o Bem!
Era entranhadamente português, sem alardes, porém, sem deixar que qualquer ideologia política tal pusesse em causa.
O Coronel Rio Carvalho foi, para além de tudo, um soldado. E foi-o desde os 10 anos - como ouvi uma vez dizer ao seu filho mais novo – desde que entrou para o Colégio Militar (era o 124/35), instituição de que chegou a Director, que amava profundamente e que uma infeliz, insensata e escusada decisão política, está a descaracterizar e a destruir.
Pude constatar as grandes qualidades humanas e militares do Coronel Rio Carvalho desde cadete do 3º ano da Academia Militar e ao longo de 40 anos, em que se cimentou entre nós, uma sólida relação de amizade e camaradagem, até uns dias antes do seu passamento, em que o vi pela última vez, no seu leito de hospital.
O Exército Português acaba de perder um dos seus mais fiéis servidores e Portugal um dos seus diletos filhos.
Resta-me a consolação de estar seguro que a justiça divina o sentará, também, à direita do Pai e que uma recordação doce, da sua memória consiga, espero, preencher o vazio da sua ausência.
Meu coronel e amigo, até sempre.[2]

[1] Palavras proferidas na missa de corpo presente, na Basílica da Estrela, em 24/09/14.
[2] Esta intervenção representa apenas uma sentida homenagem pessoal, ao Coronel Rio Carvalho e não um texto biográfico. Não queremos, sem embargo, deixar uma referência às suas incontornáveis quatro comissões, duas em Angola e duas em Moçambique, sempre no comando directo de tropas, e a sua dedicação à cultura, nomeadamente à escrita, onde se destacou como Director do Jornal do Exército, como sócio efectivo da Revista Militar e como membro da Comissão para o Estudo das Campanhas de África (CECA).