sábado, 13 de setembro de 2014

SENTENÇA DO JULGAMENTO

Foi hoje lida a sentença do julgamento que opôs o cidadão Manuel Alegre à minha pessoa, tendo eu sido absolvido do crime de difamação.

Fica a reprodução de parte da noticia da Lusa que reflecte a decisão e o que se passou.

O tenente-coronel aviador (na reforma) Brandão Ferreira e o director do semanário "O Diabo", Esteves Pinto, foram hoje absolvidos do crime de difamação contra o histórico dirigente socialista Manuel Alegre.

"O Tenente-coronel João José Brandão Ferreira foi julgado por difamação por causa de artigos publicados em blogues, tendo o arguido reiterado em julgamento a tese que Manuel Alegre cometeu, aos microfones da rádio Voz da Liberdade, em Argel, traição à pátria, ao incitar os militares portugueses a desertar, ao conviver com os líderes dos movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné e ao ajudá-los na guerrilha contra as tropas portuguesas no Ultramar."

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

FORÇAS ARMADAS DE OUTROS TEMPOS!...

“O Exército é o espelho da Nação”
Antigo aforismo

Depois de terem, na prática, destruído a Justiça Militar, com a extinção dos tribunais militares, em 2003 e depois de terem transformado a Disciplina Militar, numa coisa patética, com a reformulação do Regulamento de Disciplina Militar, datada de 22/7/2009, os diferentes governos – após a maioria das forças políticas terem instaurado em Portugal, a chaga do “relativismo moral”- a que a revolução de Abril escancarou as portas – depois de muitas outras lamentáveis atitudes para com a Instituição Militar (IM), fez com que esta ficasse exposta à dissolução moral e dos costumes e muito mais permeável a toda a casta de crimes e de maus procedimentos.
Tudo escorado na demagogia maléfica dos três “Rs” (leia-se “reduzir, reduzir e reduzir”) e numa falsa modernidade balofa.
Apesar da IM e da Igreja serem os últimos baluartes em que a corrupção moral, material e do espírito, mais obstáculos tenha encontrado em medrar.
As FA e o Serviço Militar Obrigatório eram um símbolo de unidade, coesão nacional e espírito de serviço; escola de civismo, patriotismo e virilidade; um integrador notável da comunidade; um factor de amadurecimento pessoal e social, enfim, uma fonte estruturante, insubstituível, da sociedade.
A IM tratava o cidadão na sua globalidade.
Agora, para além dos instrumentos existentes, que permitam manter a Ordem, a Autoridade, a Disciplina e o Moral, estarem dramaticamente esfacelados, qualquer questão pode sair do seio das FA, para ir parar a um tribunal civil onde, para mitigarem a ignorância e falta de preparação dos juízes civis sobre os assuntos castrenses, colocam nos tribunais uns quantos oficiais, logo arvorados em juízes (mas sem poderem decidir nada), a fim de servirem os meritíssimos, veneráveis e colendos decisores, com o seu douto parecer – porém, não vinculativo.
Na nossa imodesta opinião uma asneira política/jurídica/militar, que não lembraria a um “cabo de esquadra”, mas que não suscitou a oposição de quase ninguém.
Parece que ainda não se arrependeram, mas lá chegaremos.
O aforismo, em citação, aplica-se como uma luva ao acima escrito, dado que a “osmose” é um fenómeno físico difícil de isolamento…
Para podermos ter termos de comparação (e apenas como exemplo) vou transcrever duas punições dadas na Armada (podia ser em qualquer Ramo), em 1971, as quais conforme a lei em vigor – e bem – eram publicadas em Ordem de Serviço.
“Página A- 7, da OP2/43/04MAR71/A
6. Disciplina:
 a. Penas Disciplinares
      Por haver fortes indícios de ter desflorado, em 20 de Dezembro de 1970, uma virgem maior de dezoito anos de idade utilizando, para tanto, promessas de casamento e aproveitando-se da circunstância de ter sido recebido em casa da mesma respectiva família, embora atendendo à circunstância de ter confessado a sua falta e de se comprometer a reconhecer como seu o filho que possa advir de tais relações sexuais. Infracção ao proémio e ao nº 16 do artº 4º do R.D.Militar, 20 (vinte) DIAS DE PRISÂO DISCIPLINAR AGRAVADA:
      87/67 mar. FZE             “XXXX”           CFFCONT
Castigo aplicado em 29-1-971, pelo Comandante da Força de Fuzileiros do Continente, António Eduardo Lopes Marques – Cap.m.Guerra.
(Nota nº87 de 11/2/971 do CFFCONT).
****
Por se ter ausentado novamente da unidade, falta pela qual fora punido há poucos dias. Ausente ilegalmente cerca de quatro dias e meio. No regresso não pagou o bilhete do combóio, tendo ludibriado o revisor e originado uma queixa da C.P.. Infracção aos nºs 1º,5º,7º,15º e 16º do artº 4º do R.D.Militar, com a agravante do nº 6º, do artº 134º do mesmo Regulamento. 20 (VINTE) DIAS DE PRISÂO DISCIPLINAR AGRAVADA:
2507/70   2ºgr.R              “XXXX”                      G1EA
Castigo aplicado em 19-2-971, pelo Comandante do Grupo nº 1 de Escolas da Armada, Henrique de Noronha – Cap.m.g..
(Nota nº 185/SC de 19-2-971 do G1EA).”
Tudo, é claro, feito segundo o velho lema de que “todo o militar tem direito ao golpe, mas se for apanhado, lixa-se”…
Face ao exposto pergunta-se: seriam estas punições possíveis hoje em dia? E quem as assumiria?
Creio que não seriam.
Mas não seriam desejáveis?
Para digestão e reflexão.

CONVITE LANÇAMENTO DO MEU ÚLTIMO LIVRO


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

LEITURA DA SENTENÇA DO MEU JULGAMENTO VS MANUEL ALEGRE

Para quem possa estar interessado, informo que a leitura da sentença do julgamento, da queixa que o cidadão Manuel Alegre interpôs contra a minha pessoa, foi adiada de hoje para o próximo dia 12 de Setembro de 2014, pelas 15 horas, no 1º Juízo Criminal de Lisboa - 3ª Secção, no Campus da Justiça.

Quem quiser conhecer melhor o advogado de defesa de Manuel Alegre pode clicar neste link.
http://www.ionline.pt/artigos/dinheiro/nuno-godinho-matos-seis-anos-entrei-mudo-saia-calado-bem-todos-os-administradores

E NESTE

http://observador.pt/opiniao/eu-tambem-quero-ser-verbo-de-encher/

E um poema de Manuel Alegre que me fizeram chegar... Sem comentários!

Em 1953, no Liceu de Alexandre Herculano, no Porto, editava-se um jornal orientado pelo professor de História e Filosofia, Dr. Cruz Malpique, com interessada colaboração dos alunos.
No nº 5, com data de 31 de Maio, de que abaixo se reproduz o frontispício da autoria de Manuel Oliveira, aluno do 6º ano, podia ser lido nas suas páginas centrais nºs. 4 e 5, o seguinte título profético:

"Esta é a página dos poetas que talvez ainda um dia venham nas Histórias da Literatura ..."
Um aluno do 5º ano, Manuel Alegre Duarte (que mais tarde se esqueceu do Duarte e passou a ser só Alegre), publicou aí um soneto intitulado "Heróis do Mar", dedicado à Mocidade de Portugal. Vai, mais abaixo, reproduzido por digitalização.

Será que o poeta que, na verdade, está hoje na nossa História da Literatura, ainda se lembra?

(repescado por Álvaro Lira, que em 1953 frequentava o 4º ano, e que guardou alguns desses jornais)





domingo, 24 de agosto de 2014

“TRATAMENTOS” E MUITAS COISAS MAIS!

“Exmo. Sr. Duque de Cadaval
Se meu nascimento, embora humilde, mas tão digno e honrado como o da mais alta nobreza, me coloca em circunstância de V. Exª me tratar por tu, caguei para mim que nada valho.
Se o alto cargo que exerço, de Corregedor da Justiça do Reino em Santarém, permite a V. Exª, Corregedor-Mor da Justiça do Reino, tratar-me acintosamente por tu, caguei no cargo.
Mas, se nem uma nem outra coisa consente semelhante linguagem, peço a V.Exª que me informe com brevidade sobre estas particularidades, pois quero saber ao certo se devo ou não cagar para V.Exª.”
Santarém, 22 de Outubro de 1795.
Pina Manique, Corregedor de Santarém.

Foi notícia a deliberação (por unanimidade!) da Assembleia Municipal (AM) de Torre de Moncorvo, do passado dia 27/6, em abolir os títulos académicos no seu seio.
Ufano, o respectivo Presidente (pelos vistos, este título ele mantém), engenheiro, perdão ex-engenheiro, digo, ex-engenheiro lá dentro e engenheiro (talvez) cá fora, de seu nome José Mário Leite, veio justificar a decisão na “óptica da democracia republicana e da Revolução Francesa, de onde saíram os princípios da Liberdade, Fraternidade, e Igualdade, passando todos os deputados a ser iguais.”
A gente já sabia que as novidades, antigamente, chegavam a Portugal – segundo diziam – com décadas de atraso; e mesmo tendo em conta que o ocorrido se deu em terras de Trás (quer dizer, atrás dos) – os – Montes, não deixa de pasmar – e isso sim seria a notícia – que a Revolução Francesa só agora chegue a Moncorvo, 225 anos depois!
Provavelmente já se esqueceram que os tais defensores da “Liberdade, da Fraternidade e da Igualdade” (paragem na escrita, para riso intenso), a quiseram exportar na ponta das baionetas e nos retalharam o país, o corpo, a fazenda e, até, a alma, entre 1807 e 1811 e deixaram umas sementes malditas, que nos ensanguentaram em guerra civil durante cerca de 100 anos (pausa para meditação profunda).[1]
Parece que ainda não acabou…
Mas, aparentemente, a AM não tem mais com que se entreter e gasta tempo com estes rodriguinhos, a não ser que o edifício da AM se tenha transformado nalgum templo de inspiração maçónica. Quem sabe?[2]
Só não entendo é porque em vez de se passarem a tratar por “deputados” e “vereadores” – outros títulos! – não se designam apenas por “cidadão fulano tal”; e se passaram a ser todos iguais, um não bastaria? Sempre se poupavam uns trocos…
A igualdade é uma das maiores mentiras postas a correr, pela simples razão de que somos todos diferentes.
A igualdade tem que ser vista e equacionada no respeito, consideração e justiça que cada ser humano deve merecer e não em querer transformar todos numa massa amorfa e indiferenciada, ou a querer tornar igual o que é naturalmente diferente (caso dos homens e mulheres).
Um título é uma diferenciação de habilitações que identifica melhor um determinado profissional. Que mal haverá nisso?
Será que o passo seguinte é o das pessoas passarem a ter vergonha do que conseguiram na vida?
Os títulos académicos não devem à partida ser adjectivados ou implicarem qualquer estigma ou preconceito. Mas, de facto, cada um dos seus titulares pode comportar-se relativamente a eles, num amplo espectro que vai da inveja à arrogância, passando pela vaidade.
Tais comportamentos têm a ver com a maneira de ser de cada um e não com o grau académico ou profissão que ostentam.
E o que é realmente importante não é o grau académico nem se há ofícios bons ou maus, melhores ou piores. O que interessa é saber se há bons ou maus profissionais.
Mas, enfim, em vez de se assumir tudo isto, naturalmente, gosta-se é de arranjar confusão e sarna para se coçarem…
O resultado tem sido o cada vez maior nivelamento, por baixo, tendo como consequência a imbecilização da sociedade e a menorização do ser humano.
*****
Outros exemplos têm vindo a medrar, desde há muito, como é o caso de jornalistas da Rádio e Televisão estarem sempre a forçar o “tu cá, tu lá” com o público, entrevistados, concorrentes a concursos, etc., sem que até hoje se tenha ouvido alguém colocar o jornalista no seu sítio, numa cobardia parola de não quererem parecer “démodés” mas antes muito modernaços; a prática de entrarmos num estabelecimento comercial qualquer, tratarmos o empregado por “senhor” e recebermos em troca um “você”; a de dizermos “bom dia” e ecoar o silêncio, mais a recente moda, possivelmente iniciada nos “call centers”, de tratarem os indígenas por senhor, seguido do primeiro nome, quando costume antigo sempre tratou os portugueses pelo apelido, reservando o nome próprio para a família próxima e a amiga intimidade.
Para já não falar nos pais que se querem assumir como “amigos” dos filhos, como se ser pai fosse ser inimigo dos mesmos…
Toda esta prática desregrada tem levado, não a uma informalidade saudável, uma franqueza de atitudes, ou a uma lealdade de relacionamento, mas sim a um relaxamento rasteiro e sem nível nas relações de trabalho, na educação, cortesia, e em todas as instituições, a começar pela escola, e já há muito atinge as próprias Forças Armadas e de Segurança.
A coisa arrisca-se a ficar fora de controlo e acabar tudo à chapada, pois onde não há regras a tendência imediata é voltar à lei da selva.
Os professores da maioria das escolas e Universidades que o digam.
Até nos hospitais militares houve uma tentativa – felizmente frustrada, até ver, apesar dos pecadilhos – de omitir os postos, alegando-se que ali só havia doentes, como se um doente perdesse o direito à sua personalidade jurídica ou passasse à categoria de número![3]
Por tudo o que disse e ficou por dizer, ninguém deve abdicar do tratamento a que tem direito, no mínimo porque o mesmo lhe deu muito trabalho a obter e aos outros não lhes custa nada…
A moda deste “relaxamento” social começou com a informalidade anglo-saxónica que, sem embargo, sabe distinguir o que é “bagaço” do que é “serviço – ao contrário dos latinos; teve um movimento uniformemente acelerado com os diferentes movimentos “hippy”, “pacifista”, “libertação das mulheres” e mais uns quantos “ismos” e explodiu com o “Maio de 68”, em França.
Entre nós entrou de supetão, quando as comportas que seguravam as águas se romperam em 1974/5.
O que aconteceu em Portugal, porém, foi mais grave não só pela rapidez e anarquia em que tudo se passou mas, também, porque para além das transformações políticas e sociais visava derrubar qualquer tipo de hierarquia, logo de autoridade.
Nada foi feito inocentemente, pois intentava-se criar sobre os escombros algo de radicalmente diferente: uma sociedade comunista, socialista, terceiro-mundista, maoísta, ou o raio que os partisse, o que só foi parado a 25 de Novembro de 1975.
Mas a tábua rasa da hierarquia e da autoridade manteve-se, porque servia por razões semelhantes a todas as forças políticas que despontaram e, sobretudo, para quem quis impor um jacobinismo serôdio, o laicismo e o relativismo moral. O que conseguiram.
Tudo isto facilitou o apoucamento e o controlo das instituições estruturantes da Nação e as manobras subterrâneas. Também não é por acaso ou incompetência, que nos últimos 40 anos não se conseguiu pôr de pé um Serviço de Informações minimamente credível.
Ora sem Autoridade – e esta não tem que ser adjectivada, simplesmente, existe ou não – nada se consegue edificar…
Resultou que todos os governos de que fomos servidos se limitaram a gastar e a vender o que havia e tudo o que construíram não foi com riqueza criada, mas com o dinheiro que pediram emprestado ou receberam da UE (e nunca houve almoços grátis).
Deixaram a sociedade à solta, tendo o cuidado de aspergir subsídios (enquanto foi possível), eleições e paz social, “oblige”.
Criaram uma mentira enorme, baseada na autocensura e na distorção da realidade, onde quem tinha um olho e má formação, foi roubando o que pôde.
E como tudo isto atingiu proporções inauditas, quase ninguém o quer ou pode admitir.
Resta a bancarrota que deixou de ser possível esconder.
Não estou a poupar nas palavras nem tenho receio de ser acusado de mentiroso.
*****
Mas voltemos ao “tratamento” para vermos como regredimos em termos civilizacionais e em educação.
Comecemos pela Igreja.
O Papa tem direito ao tratamento de “Sua Santidade”; um Cardeal a “Sua Eminência Reverendíssima”; um Bispo a “Excelência Reverendíssima” e um Padre a “Reverendíssimo”.
Quanto à realeza – cingimo-nos à portuguesa já que pelo mundo fora as designações variam – o monarca deve ser tratado por “Majestade” ou “Sua Majestade” e um Príncipe por “Vossa Alteza” ou “Alteza Real”.
Relativamente à Magistratura, um Juiz do Supremo Tribunal, vence o tratamento de “Colendo”; o do Tribunal da Relação é “Venerável” e o do Tribunal de 1ª Instância antecede de “Meritíssimo”. Já o Ministério Público tem “Procuradores”.
A Universidade fica-se pela designação de “Magnífico” dada ao Reitor, sendo os degraus académicos de “Professor Doutor” (com vários graus, e por extenso), para os Doutorados; “Mestres” para os detentores de um mestrado e de Dr. (sem ser por extenso), engenheiro, arquitecto, etc., em função das diferentes licenciaturas.
Já a Diplomacia reserva o tratamento de “Excelência” (por extenso) a Embaixadores e Ministros Plenipotenciários, e o de “Vossa Senhoria” para Encarregados de Negócios e Cônsules.
As coisas são assim e assim é que estão bem.
O problema é que tudo isto caiu em desuso e já quase ninguém quer saber de tais “peculiaridades pré-históricas”, ou sequer as conhece.
E as instituições, apesar de não as terem renegado, apenas usam o tratamento entre si (quando usam), e em discursos protocolares, numa espécie de circuito fechado e já só falta pedirem desculpa por o fazerem.
*****
Deixámos propositadamente a Instituição Militar para o fim.
Até 1974, o tratamento aplicado aos oficiais era o seguinte: Aspirantes, Subalternos e Capitães/1ºs Tenentes tinham direito ao tratamento de Vossa Senhoria a anteceder o posto, que já de si era acompanhado da palavra “Senhor” ou do característico “Meu”; os oficiais superiores venciam “Vossa Excelência”, bem como os oficiais generais; ao passo que “Sua Excelência” era reservado a Marechais e Almirantes.
Em 1977/8 – note-se que ainda funcionava o Conselho da Revolução, pelo que não houve aqui qualquer influência civil – a hierarquia militar deu um tiro nos pés (o que tem feito, infelizmente, amiúde), ao reformular o Regulamento de Continências e Honras Militares e retirou o direito à dignidade do tratamento a todos os oficiais, à excepção da atribuída aos oficiais generais, marechais e almirantes.[4]
As razões por que o fizeram nunca foram explicitadas (creio), mas tal explica-se por todas as vicissitudes entretanto vividas e de que ainda hoje não recuperaram.
Já a população transmontana merecia melhor sorte (embora a sorte dê muito trabalho), mas ainda está a tempo de aprender com o antigo – e abençoado – Corregedor de Santarém.

[1] Sem falar nas desgraças que nos aconteceram a partir de 1795 e no combate e perseguição que lhes tivemos que dar, para os correr de Espanha, e os perseguir até que se rendessem, o que só aconteceu em Toulouse, em 1814.
[2] E atenção, no areópago da “Loja” a hierarquia é severa: tem 33 graus e a cada um corresponde um “título”.
[3] A “grande reforma” dos hospitais militares já fez com que se misturassem oficiais, sargentos e praças no mesmo quarto…
[4] Regulamento actualmente em extinção por inanidade!

A CAUSA PRIMEIRA, ÚLTIMA E ÚNICA, DA CRISE

“Devo à Providência a Graça de ser pobre.”
A.O. Salazar [1]

Nós, os humanos, aprendemos pouco e tarde.
E quando sabemos algo que se aproveite, morremos.
Esta é uma das chaves para se entender o sempre presente conflito de gerações e para perceber a importância de preservar a Informação, o Conhecimento e o Saber (três coisas distintas), nos centros de Saber tradicionais: a Universidade, a Igreja, a Magistratura, a Diplomacia e a Instituição Militar.
No fundo conseguir ampliar, ordenar e arquivar toda a sabedoria que os avós passavam aos netos desde que a organização social não ia além dos clãs e tribos nómadas.
Uma das coisas que julgo ter aprendido foi que, entre a natureza humana – que não muda na sua essência ao longo dos séculos, por mais que isso possa doer ao Rousseau e seus discípulos – existe uma matriz que, grosso modo, funciona assim:
Dez por cento das pessoas porta-se sempre bem; outros dez por cento, portam-se sempre mal e os restantes oitenta por cento, portam-se bem ou mal, conforme. Conforme as referências em vigor e conforme o “pau e a cenoura” existentes (portas-te bem comes cenoura, caso contrário, levas com o pau…).
Dito de outro modo: muitas das pessoas só não se porta mal se forem devidamente educadas, forem dissuadidas e, ou, não tiverem oportunidade para isso![2]
Lembremos o que disse o cronista depois da morte do agora Santo, Nuno Álvares Pereira: ”Foi em seu tempo claro espelho de honestos costumes”; e dele dizia amiúde o próprio Rei D. João I, “ Que os bons costumes que havia em Portugal que o Condestável os pusera todos”.
Numa palavra, é necessário – e é uma luta de sempre – organizar a sociedade no sentido do Bem e no castigo do Mal. Para isso é preciso que haja boas referências (foi esse o maior legado de Cristo na Terra) ensiná-las e pô-las em prática.
A “prática” é corrigida e mantida por um adequado sistema de Justiça e uma activa consciência cívica que leve a uma aprovação ou censura social, saudável.
Toda esta arenga serve para dizer que aquilo que entendemos pela “crise” actual tem uma hierarquia de causas e a primeira é, justamente, moral, depois política e só a seguir vem a financeira as quais originam, em consequência, um desastre económico e social.
Ora como a evidencia da crise só ganha foros mediáticos com o que se passa no campo das finanças e a maioria das pessoas só se indigna quando lhes vão ao bolso (e, mesmo assim, poucos agem), as verdadeiras causas morais que influenciam a política e a sociedade, tendem a ser ignoradas e, até, tidas por incorrectas.
Daqui resulta atacarem-se os efeitos em vez das causas dos problemas. Ou seja, estes nunca se resolvem...

De facto o fulcro dos problemas no mundo ocidental, sobretudo após a queda do muro de Berlim, nada tem a ver com ideologias políticas – todas elas, aliás, já experimentadas e gastas, num caminho já feito pela Humanidade de que só resultaram guerras e desgraças; Direito Internacional – de que a ONU é apenas um arremedo sombrio; organização do comércio mundial – cujo principal organismo, a OMC, aparenta estar ao serviço dos tubarões da finança; enfim, com Justiça relativa ou a procura da Paz – os dois termos mais invocados em vão, desde a invenção da escrita!
O que se tem passado tem a ver quase exclusivamente com a avidez e ganância humanas que leva ao mau uso que se faz do dinheiro.
Neste particular, o dinheiro – essa extraordinária invenção que como todas as invenções podem ser bem ou mal utilizadas – serve para acumular riqueza, comprar bens (e consciências), etc., podendo tornar-se num dos mais maquiavélicos instrumentos do Poder.
O dinheiro cuja origem e história é ignorada por 99,9% da população – algo que estranhamente não se ensina quase a ninguém – passou a ser o alfa e o ómega de tudo. “Hélas”, o Deus Mamon!
O que faz bem jus ao aforismo latino de que “nenhuma cidade cercada resiste a um burro carregado de ouro”…
Na actualidade assiste-se a um verdadeiro conúbio e promiscuidade entre políticos e banqueiros, escritórios sonantes de advogados e lugares rendosos (quer públicos quer privados), que sequestraram o poder político através de uma teia de leis e compromissos que blindou o “sistema”, visando a sua perpetuação em circuito fechado.
E como se defende mentirosamente, que tudo se passa segundo as regras “democráticas”, eis que tudo passa a legal e legítimo. Uma verdadeira armadilha.
Na prática, porém, nada do que se passa visa o bem comum nem o governo da cidade. Visa o lucro desmedido, usura, controlo político – logo social e económico – e baseia-se na falta de escrúpulos, corrupção e muitas fraudes e outros ilícitos criminais.
Tudo envolto em secretismo e em “organizações” de que apenas se fala à boca pequena.
O poder político fica deste modo cativo e refém de interesses inconfessáveis e a Nação perfeitamente desprotegida e “escravizada”.
Como medida cautelar, não vá o diabo tecê-las, apaga-se e eliminam-se as Forças Armadas da face do país.
Como lapidarmente escreveu o Professor Pedro S. Martinez em artigo recente, “Quando os governantes são de mãos limpas, também os banqueiros têm dificuldade em sujar as deles”.
A teia que levou a este estado de coisas começou a ser tecida no mundo há mais de 200 anos, embora em Portugal só tenha sido implementada a partir dos anos 80 do século passado.[3]
Neste momento estamos completamente enredadas nela (a teia) e apesar da grande “débacle” só ter estalado a partir de 2008, ainda agora a procissão vai no adro.
E não iremos sair da crise senão pelos factores morais: pela instituição de valores e princípios que não sejam relativos nem relativizados, que imponham a supremacia do espírito sobre a matéria e tragam para a Política pessoas integras – de preferência que não queiram ser ricas e tenham a coragem (rara) de agradecer à Providência a graça de ser pobres.
Políticos – cuja primeira qualidade a exigir, é que sejam patriotas - que consigam elaborar uma Constituição simples, se ela for mesmo necessária – já repararam que a melhor constituição alguma vez escrita, são os 10 Mandamentos da Lei de Deus? – com poucos artigos, despida de ideologia e onde os deveres estejam à frente dos direitos e onde estes derivem do cumprimento daqueles.
E onde um modelo jurídico, que dela decorra, permita meter em prisões adequadas (não hotéis de três estrelas), os muitos “Madoff” que por aí pululam, de modo a fazer do sermão do bom ladrão, do eterno Padre António Vieira, um resquício do passado: “Não são ladrões apenas os que cortam as bolsas. Os ladrões que mais merecem este título são aqueles a quem os Reis encomendam os exércitos e as legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais, pela manha ou pela força, roubam e despojam os povos.
Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam correndo risco, estes furtam sem temor nem perigo.

Os outros, se furtam, são enforcados; mas estes furtam e enforcam.”
Deixo à consideração dos leitores se será possível fazer tudo isto, democraticamente.
Isto é, se conseguimos convencer a maioria dos 80% da população a querer comportar-se dessa maneira.


[1] “O meu depoimento”, discurso proferido a 7 de Janeiro de 1949.
[2] Lembro o ditado: “A ocasião faz o ladrão”.
[3] Sem embargo do que se passou a partir das invasões francesas e suas consequências, que quase destruíram o país e a que só a reforma financeira de 1928, começou a por cobro. Com êxito.

terça-feira, 12 de agosto de 2014