sexta-feira, 1 de agosto de 2014

MARCELINO DA MATA, COMBATENTE PORTUGUÊS, HERÓI ESQUECIDO

Entre o universo dos portugueses eu não serei o mais creditado para falar sobre o nosso Marcelino da Mata (MM) – permitam que o trate assim.

Peço que essa falha seja relevada pela vossa caridade cristã e também pelo facto do meu atrevimento ser fundado em boa mente.

Só estive com MM duas vezes, a primeira foi num encontro de “malfeitores” ali para os lados de Samora Correia; a segunda foi no Porto, em que o agora homenageado foi convidado de honra num encontro patriótico de angariação de fundos para a construção de um monumento aos combatentes do Ultramar, na Invicta. Eu fui o orador no evento.

“Malheureusement”, como diriam os franceses, a segunda cidade do País continua a ser um dos poucos municípios portugueses onde está por edificar tal monumento…

De tudo isto decorre não poder afirmar conhecer MM como pessoa, tão pouco aquilo que ele pensa.

Mas sei, de ciência certa, que o Tenente Coronel do Exército Português, Marcelino da Mata, foi um extraordinário combatente, um guerreiro, na verdadeira acepção da palavra e que honrou, até hoje, a sua condição de português de lei.

E não precisou para isso de possuir um alto grau de formação nem de nascer em berço de ouro.

É sobre tudo isto e o seu significado, que gostaria de dizer mais umas palavras.

O facto de estarmos a homenagear uma pessoa como MM – uma coisa que o Exército Português e outras “entidades” se têm esquecido injusta, mas muito convenientemente de fazer – é a prova provada de que as nossas últimas campanhas no Ultramar Português representaram uma guerra justa e que o grande projecto de expansão portuguesa, iniciado em 1340 e levado a cabo pela Ordem de Cristo, de inspiração Templária e sob a égide do Culto do Espírito Santo, estava certo e representou – e não deixou ainda de representar – uma das ideias mais grandiosas e esclarecidas que jamais ocorreram na Humanidade.

Daí que nós estamos aqui reunidos em fraternidade – que é a expressão mais elevada do antirracismo – em perfeita camaradagem – que só os combatentes verdadeiramente entendem – um negro, entre tantos brancos, de vários credos religiosos e ideológicos, mas unidos pela chama do patriotismo Lusíada, a qual se levantou acima do comum dos povos ao ponto de, no Oriente, dizerem dos portugueses que “A fortuna do Mundo é serem eles tão poucos, porque a natureza, como aos leões, felizmente os fez raros”. [1] 

Por isso nunca os europeus e a maioria dos povos nos compreenderão (ou perdoará), embora nos devam respeitar. E nós devemos exigir esse respeito.

Estamos pois, a anos-luz do “multiculturalismo” em voga no mundo ocidental, no após IIGM e que agora começa a revelar-se, na sua plenitude, um descalabro mentiroso.

Por complexas e estranhas metamorfoses da “maneira portuguesa de estar no mundo”, MM amalgamou-se, como a maioria dos seus conterrâneos, a esse ideário e tornou-se um combatente de elite, que lutou à sombra da Bandeira das Quinas.

Quinas essas, que são o símbolo maior da bandeira e da Pátria, pois nela se conservam desde a Batalha de Ourique, em 1139!

“Pai foste cavaleiro. Hoje a vigília é nossa”.

Assim escreveu Fernando Pessoa, o português mais misterioso e complexo que existiu até à presente época!

O pai era Afonso Henriques e é a nós que cabe, hoje, a vigília.

Marcelino da Mata com familiares
Marcelino da Mata, nascido a 7 de Maio de 1940, em Bula, Guiné Portuguesa, foi um grande combatente, porque se manteve íntegro e focado na sua missão.

Teve a audácia e a serenidade nos momentos críticos e foi competente, pois seguiu – mesmo sem o saber – o ensinamento desse grande cabo – de - guerra que foi o General George Patton, numa das suas frases mais célebres: “A verdadeira missão de um militar não é morrer pela sua Pátria, mas fazer com que o soldado inimigo morra pela Pátria dele”.

Acresce que, a maioria dos inimigos tinham a mesma Pátria, eram apenas renegados.

MM não renegou, não desertou nem traiu, ao contrário de alguns – felizmente uma minoria – que o fizeram e que um povo confuso e desnorteado por lideranças políticas fracas, erradas e incultas, tem deixado alcandorar a funções, prebendas e pedestais que não merecem e a que não têm direito e são o opróbrio e a cruz, das almas nobres e honestas e dos bons portugueses.

A Cristiano Ronaldo deram-lhe duas “botas de ouro”, por conseguir com mestria, meter uma bola, frequentemente, em balizas adversárias, num desporto chamado futebol.

Por tal facto é conhecido em todo o mundo e, sendo ainda novo, tem-se revelado um rapaz atinado e não fez ainda nada que nos envergonhasse.

Devemos estar muito contentes com isso.

Mas Marcelino da Mata foi ferido em combate, várias vezes, participou em 2412 operações de “Comandos” – tropa de excepcional valor, a que pertencia – e nelas praticou muitos actos de bravura e heroísmo, que lhe valeram, entre outras, cinco cruzes de guerra e ser, desde 1969, Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, da Lealdade e do Mérito.

Com isto ganhou jus a ser o militar mais condecorado na História do Exército Português.

Sem qualquer desprimor, creio bem, que este palmarés vale mais do que todas as botas de vil metal, que se possam ganhar na vida…

Mas MM vive humildemente e sem alardes – como é próprio das almas nobres – no seu canto do Concelho de Sintra, esquecido dos seus compatriotas. [2]

Eu como cidadão e oficial da Força Aérea quero testemunhar o meu respeito e admiração por tão singular soldado; orgulhar-me de ser um dos nossos e, como português, agradecer-lhe do fundo do coração.

E a melhor homenagem que lhe podemos fazer é comprometer-nos a tentar igualá-lo, alguma vez mais, que o que resta da Pátria Portuguesa seja ameaçada seja por quem for.

Recordo ainda D. Francisco de Almeida: “Se Deus fala português, não sei; estes canhões falam”.

Lembro D. João de Castro, a seu filho enviado em socorro de Diu: “Pelo que toca à nossa pessoa não fico em cuidado, porque por cada pedra daquela fortaleza arriscarei um filho; Eu vos ponho no caminho da Honra, em vós está agora ganhá-la”.

Cito Fernão Mendes Pinto, descrevendo um ataque a um barco de piratas chineses: ”E com muitos Padres-Nossos e pelouros, a eles nos fomos, e matámo-los a todos num credo”.

Mais recentemente Cunha Aragão, Comandante do NRP Afonso de Albuquerque, após gravemente ferido, no meio do combate, em 18/1/61, para os seus homens: ”Eu já estou, o Imediato que assuma o comando, não se rendam”.

Porque é que todos estes nossos compatriotas se comportavam assim e tal foi recorrente nos últimos nove séculos?

O grande poeta Rodrigo Emílio explica-nos no seu “Edital do Poeta às Portas da Morte”:

É preciso que se saiba porque morro.

É preciso que se saiba quem me mata.

É preciso que se saiba

que no forro desta angústia

é da Pátria tão-somente que se trata.

Caros compatriotas aqui presentes, tenhamos esperança (embora seja necessário contribuir para a Esperança…). Nesta semana apesar de, durante décadas, termos escutado em abundância, o elogio da cobardia; o escárnio da virtude; a elegia do vício e a defesa do relativismo dos Princípios é encorajador ver esta homenagem, a qual foi antecedida por uma outra, no dia 22 de Julho, ao heroico Subchefe Aniceto do Rosário, a que se associou a PSP e a Liga dos Combatentes (LC), morto na defesa do enclave de Dadrá, India Portuguesa, em 1954.

Aniceto do Rosário
Cerimónia, por sua vez, antecedida, no dia 13 do mesmo mês, pela inauguração de um singelo monumento evocativo dos mortos da freguesia de Sezures, no Portugal profundo, do Distrito de Viseu, iniciativa do Major General Campos de Almeida – colega de escola dos rapazes caídos no cumprimento do Dever – a que se associou a Junta de Freguesia, a Liga dos Combatentes e o Exército Português.

Mortos da Freguesia de Sezures.
Soldado Pedro Augusto - Guiné 25/11/1967
PCb José de Aguiar - Angola 11/7/1969
Temos assim uma homenagem àquele que foi o primeiro a tombar nesta campanha – Aniceto do Rosário – e um dos últimos a sobreviver – Marcelino da Mata – no mesmo conflito, passando por todos aqueles, desconhecidos, que verteram o seu sangue em nome da nossa existência colectiva.

Foram duas boas semanas e nada disto, à “boa” maneira portuguesa, foi planeado. Simplesmente aconteceu. [3]

Longa vida a Marcelino da Mata,

Abaixo os poltrões,

Vivam os heróis nacionais e, com eles,

Viva Portugal!

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[1] Gaspar Correia, “Lendas da India”.
[2] Alguns dos quais fizeram a vilania de o prender e torturar num quartel, nos idos de 1975!
[3] Mas, para quando a homenagem nacional que tanto Marcelino da Mata e alguns outros merecem?

segunda-feira, 28 de julho de 2014

ÍNDIA PORTUGUESA: O EXEMPLO DE ANICETO DO ROSÁRIO!

“Nesses anos, quando um soldado português desembarcava de um dos barcos da sua Nação para servir num forte de Moçambique, ou em Malaca, ou nos estreitos de Java, já previa, durante o seu tempo de serviço, três cercos, durante os quais comeria erva e beberia urina. Estes defensores portugueses contribuíram para uma das mais corajosas resistências da História do mundo.”

James A. Michener (escritor americano)

No dia 22 de Julho passou o 60.º aniversário da morte heróica do Subchefe Aniceto do Rosário, da Polícia do Estado da Índia, ocorrido em 1954.


Tal evento deu-se quando bandos armados da União Indiana, à revelia dos bons costumes e violando grosseiramente o Direito Internacional, ocuparam os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, contíguos a Damão.

O Tenente Coronel Pedroso da Silva teve a iniciativa de sugerir à PSP a evocação da efeméride, o que esta acabou por fazer, acto a que dignamente se juntaram a delegação da Liga dos Combatentes de Pinhal Novo, e outros cidadãos, nomeadamente ex-alunos do Instituto Militar dos Pupilos do Exército – estabelecimento militar de ensino onde o órfão de Aniceto do Rosário veio estudar seis anos depois da morte de seu pai. A cerimónia teve lugar na praça que tem o nome do herói, junto à Penha de França, em Lisboa. [1] 


Praça que, felizmente, sobreviveu à mudança de nomes que os desatinos políticos e sociais; as vinganças ideológicas e a má formação de muitos impuseram em vários locais, após o 25/4/74, e cujo expoente maior ocorreu com uma ponte inaugurada a 6/8/1966…

Sorte nossa, senão em vez de nos curvarmos respeitosamente perante tão subido nome, teríamos que virar a cara, compungidos e envergonhados de eventualmente termos de encarar com algum “revolucionário” de mau porte, inimigo manifesto da Nação dos Portugueses.

Para mal dos nossos pecados já quase ninguém conhece ou se lembra de Aniceto do Rosário. E, no entanto, ele pertence àquela imensa plêiade de portugueses que mantiveram o nome de Portugal, honrado, nos quatro cantos do mundo e elevaram bem alto a Bandeira das Quinas.

Não é de admirar que assim seja.

Nos últimos 40 anos para além de um ensino médio medíocre, sob todos os aspectos e onde se esbanjaram incontáveis milhões de contos e, sobretudo, euros, e do destroço da educação a nível das famílias, assistiu-se a um discurso político e mediático em que se elogiava a cobardia; se branqueou malfeitorias e se casquinou da Honra e do Pundonor.

Já nem vale a pena elaborar sobre os altares a que se elevaram traidores, desertores e até simples autores de delito comum.

Aniceto do Rosário não procedeu assim. Foi antes a sua antítese. Por isso é, para muitos, um mau exemplo…

Dois dias antes da invasão dos enclaves – que um Estado Português, sem discernimento e sem vergonha reconheceu “de jure”, em 1975 – o governador de Damão foi impedido de se dirigir a Dadrá, pelas autoridades indianas.

Aniceto do Rosário, natural de Diu, que chefiava uma pequena força policial de sete elementos, enviou ao governador a seguinte mensagem: “Parta V. Exª descansado que eu não deixarei ficar mal a bandeira portuguesa”. Disse e cumpriu.

Dois dias depois um bando de Sathyagraha (pretensos libertadores), à mistura com membros do Exército Indiano, entrou em Dadrá e exigiu a rendição da autoridade portuguesa. Aniceto do Rosário recusou e abriu fogo. Ferido, acabou por ser morto, à facada e a tiro, juntamente com o guarda António Fernandes.

Missa por alma dos mortos, na Basílica do Bom Jesus.

A torpe ocupação de Dadrá e Nagar-Aveli constituiu a primeira acção violenta, por parte da União Indiana, que culminou na invasão de Goa, Damão e Diu, em 18/12/1961.[2]

Foi um longo calvário que começou logo após a independência da União Indiana, em 1947.

Pouco tempo passou para que aquele novel país - que apenas tinha direito a reivindicar o que herdou do Império Britânico - passou a exigir que o Governo Português lhe entregasse a soberania sobre os territórios do Indostão onde a bandeira que nos foi legada por Afonso Henriques flutuava há 450 anos.

De toda a vasta argumentação apresentada nada, mas absolutamente nada, justificava ou sustentava tal desiderato.

E nem sequer foi difícil ao governo de Lisboa, de então, desmontar todos os argumentos, um a um.

Por fim o Tribunal Internacional da Haia deu razão a Portugal quando submetemos o pleito à sua jurisdição e, até, o Conselho de Segurança da ONU, condenou a invasão de 1961, o que só não vingou pelo veto da U.R.S.S..

Por isso não descansarei enquanto em todos os livros de História em uso oficial e nos discursos dos responsáveis do Estado, não se diga a verdade, e se condene sem peias, aquela bárbara atitude dos responsáveis indianos, indigna de tão antiga civilização.

Esta seria a melhor homenagem que o que resta da Nação Portuguesa poderia fazer, não só a Aniceto do Rosário, como também a todos os bons portugueses que desde Vasco da Gama, viveram, lutaram, comerciaram, colonizaram e evangelizaram, tendo estabelecido naquelas paragens uma comunidade e uma presença que não deslustra perante seja quem for.[3]

Pode considerar-se Aniceto do Rosário, o primeiro combatente português a cair nas últimas campanhas ultramarinas que fomos obrigados a desenvolver para fazer face ao último – embora, suspeito, não derradeiro – grande ataque movido internacionalmente contra Portugal (1954-1975).

Quando a Escola Superior da PSP passar, um dia, a atribuir patrono a cada um dos seus cursos, Aniceto do Rosário deverá, seguramente, figurar entre os primeiros.

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[1] Escusado será dizer que não demos conta de qualquer notícia veiculada pelos “média”, excepção para uma notícia veiculada por Hernâni Balsa.
[2] Os enclaves eram território português desde o século XVIII, através de tratado celebrado com o Império Marata, em 1779.
[3]  E que têm mais do que o direito a fazer parte da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa…

sábado, 12 de julho de 2014

ALEGAÇÕES FINAIS (julgamento Manuel Alegre versus Brandão Ferreira)

No dia 10/7/14 teve lugar a sessão destinada às alegações finais do julgamento que o cidadão Manuel Alegre interpôs contra mim.

Junto o texto que li quase na sua totalidade nessa ocasião.

Não quero deixar de afirmar que, antecedendo a leitura do mesmo e em toda a vida que já levo, nunca ouvi uma diatribe tão miserável, anti-patriótica e repugnante, como aquela que o advogado do assistente fez, aquando da sua intervenção.

Pena que não tenha ficado gravada, pois só pode ter vindo dos confins do Inferno."

ALEGAÇÕES FINAIS (julgamento Manuel Alegre versus Brandão Ferreira)

Na estrofe 33, do Canto IV dos Lusíadas, Camões (esse sim um verdadeiro poeta da Pátria) declamava assim:

“Ó tu, Sertório, ó Nobre Coriolano,
Catilina, e vós outros dos Antigos
Que contra vossas Pátrias com profano
Coração vos fizestes inimigos:
Se lá no reino de Sumano
Receberdes gravíssimos castigos,
Dizei-lhe que também dos Portugueses
Alguns traidores houve algumas vezes.”

Como podem verificar o que estamos aqui a tratar tem raízes antigas…
É minha convicção que este julgamento não existiria e não teria razão de ser, caso o agora assistente tivesse sido acusado e julgado, quando voltou a pôr pé na terra que lhe deu o berço, nos idos de 1974.

Ele e todos aqueles que procederam como ele.
Só os tempos de grande perturbação política, militar e social e de absoluto desnorte, então vividos, explica, mas não desculpa, o sucedido.

Estamos hoje, pois, a dirimir questões com 40 anos de atraso, as quais podem prescrever face às leis da sociedade, mas não prescrevem na memória e consciência dos homens, nem no julgamento da História.
Lembro Judas Iscariotes, apóstolo de Cristo que o traiu após a última ceia, que é o caso mais conhecido a nível mundial e não há memória, entre nós, de que o Miguel de Vasconcelos tenha tido, até hoje, qualquer estátua em Portugal!

*****
Neste caso, eu e o cidadão Manuel Alegre, não podemos estar certos ou errados, ao mesmo tempo.

As razões pelas quais intervim na Fundação Gulbenkian no início de Maio de 2010 e questionei o queixoso, no fim da sua arenga e, na sequência, escrevi o artigo “Manuel Alegre combatente por quem” – e apenas esse – não se destinou a prejudicar o assistente enquanto candidato a PR. Até pela simples razão de que ele não tinha qualquer hipótese de ganhar.
Sem embargo, quem ouviu os testemunhos da outra parte e não saiba do que se trata, podia ficar a pensar que Manuel Alegre não ganhou as eleições presidenciais, por causa desse artigo…

Tão pouco estabeleci contactos fosse com quem fosse para fazer o que fiz – apesar de querer deixar bem claro que no enquadramento legal existente, esses contactos mesmo que fossem para prejudicar a campanha do putativo candidato, eram lícitos, dado que eles são parte da intervenção cívica e do exercício dos direitos de cidadania.
O que essa intervenção tem é que ser verdadeira e não ir contra a lei e os costumes e não ofender a Moral e os ditames consciência pública.

Ora eu só referi a verdade, não atentei contra a lei nem ofendi a Moral pública!
Exemplo disso é que nunca lhe chamei desertor, pois apesar de ser “vox populi” tal epíteto, eu conhecendo um pouco mais da vida de MA sabia que, técnica e juridicamente, ele não o era.

Pelo contrário, eu é que me sinto ofendido na minha qualidade de cidadão português!
Intervim por um imperativo de consciência, de boa-fé e por entender que a denúncia era de interesse público.

De facto, sendo oficial superior da FA, não me esqueci da minha formação, tão pouco dos juramentos que fiz. E, ao contrário de oficiais, alguns dos quais ouvidos por este tribunal como testemunhas do assistente, que se esqueceram dos deveres e valores militares, eu só penso dar baixa deles para a cova!
Destas testemunhas apenas pretendo referir-me a duas por serem os únicos que me mereciam consideração. Refiro-me aos Maj. Gen. Manuel Monge e Gen. Ramalho Eanes.

Quanto ao primeiro – e complementando o que foi dito pelo meu advogado, Dr. Lafayette, a quem quero agradecer publicamente tudo o que tem feito e por ser um “combatente do bom combate" – pretendo salientar o esforço que fez em arranjar um discurso diferente que o salvaguardasse das contradições em que se enredou.
Falo da tentativa de tornar a definição de “traição” relativa e subjectiva. Ora o significado de Traição à Pátria, para além de ser intuitivo, isto é, toda a gente o entender, está perfeita e legalmente definido nos normativos dos Código Penal e no Código de Justiça Militar.

Mas, se por acaso, o termo fosse considerado subjectivo ou de aplicação relativa, passaria à categoria de opinião e, nesse caso, eu também tenho direito a uma, o que dispensaria este julgamento.
Manuel Monge quis ainda ilustrar o que defendia dando como exemplo a condenação à morte do General Gomes Freire de Andrade, por “traição à Pátria” e hoje existir uma rua e um busto, em Lisboa, com o seu nome.

Todavia, não podia ter escolhido pior exemplo: é que Gomes Freire foi enforcado, não por traição à Pátria, mas sim por ter liderado uma tentativa falhada de golpe de estado…
E se tem rua e estátua, em Lisboa é, talvez, por ter sido Grão - Mestre do Grande Oriente Lusitano…

Quanto ao Gen. Eanes – que conheci ainda cadete, em 1972, quando ele foi proferir uma palestra à Academia Militar sobre a situação na Guiné (de que já deve estar esquecido) - apenas pretendo referir uma dúvida que me assalta: o que é que ele faria se tivesse visto o assistente, frente a frente, quando havia guerra? Por exemplo, logo após uma unidade do PAIGC ter assassinado quatro oficiais e três guias civis, desarmados que estavam a negociar a paz com vários grupos de guerrilheiros (como já referido neste tribunal). Dava-lhe um abraço ou um tiro?

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Lembro ainda que a única matéria que foquei na minha intervenção, refere-se ao período em que Manuel Alegre passou na Argélia, como membro do PCP (até 1970), e da Frente Patriótica de Libertação Nacional (entre 1964 e 1974), e naquilo que disse aos microfones da “Rádio Voz da Liberdade”, também conhecida por “Rádio Argel” – e apenas essa, pois nunca referi qualquer outra, nomeadamente a Rádio Brazzaville”, como já aqui se tentou insinuar na tentativa de confundir o tribunal.
 
Eu nunca ouvi a rádio Argel, nem cheguei a combater nos teatros de operações africanos (porque era novo), mas desde cedo na minha carreira e até hoje, que ouvi falar do que lá se passava e dizia, além de ter lido alguma da documentação que existe sobre o assunto. Documentos e pessoas das quais não posso, nem devo, duvidar. Pois os tenho, aos primeiros como fidedignos, e às pessoas como dignas de crédito, por as conhecer, por serem gente de bem e combatentes valorosos e patriotas, como V.Ex.ª tiveram ocasião de verificar, quando alguns deles testemunharam nesta sala.

Por isso não existe qualquer dúvida no meu espirito, que parte do que Manuel Alegre dizia na chamada “Rádio Voz da Liberdade”- note-se que foram 10 anos, não foram 10 dias – não constituía apenas luta política contra o regime de então, mas configurava um crime de traição à Pátria, à luz do Direito Penal então vigente e do actual, por estar a apoiar objectiva e concretamente, os movimentos de guerrilha que nos emboscavam e matavam os soldados e tentavam separar territórios portugueses, da Mãe-Pátria.

Sim, porque esses territórios nos pertenciam por direito próprio e eram, simplesmente, Portugal mais longe! (Faziam parte, por ex., de todas as Constituições e não apenas da de 1933…).
E não ajudava só estes, mas também as potências estrangeiras que patrocinavam os movimentos ditos emancipalistas!

Por muito menos foi um desgraçado soldado português fuzilado na Flandres, em 16 de Setembro de 1917…
Além do mais não concordar com uma guerra, não dá o direito a ninguém de trair os seus, como a participação portuguesa na frente francesa, na I Guerra Mundial, tão bem ilustrou.

Seria até curioso saber como é que o assistente designa os autóctones que se mantiveram fieis à sua condição de portugueses tendo combatido ou não, nas Forças Armadas nacionais e foram fuzilados pelo inimigo, muitos deles já depois das hostilidades terem cessado. Serão traidores? E a quem?
A apreciação que faço é válida naquele tempo, no anterior, actualmente, e sê-lo-á, certamente, no futuro.

Ora chamar a atenção, publicamente, para o passado de uma figura como a do assistente, que exerceu e exerce cargos de relevância política, nos últimos 40 anos, não é de somenos importância – sobretudo quando tal figura pretendia vir a exercer o mais alto cargo da Nação que, por inerência de funções, acumula com o de “Comandante Supremo das Forças Armadas”.
Tem, outrossim, a maior relevância, não sendo apenas uma “aresta” sociológica, como o advogado do assistente tentou fazer crer na 1ª sessão do julgamento.

*****
Gozei até hoje da plenitude dos meus direitos e deveres cívicos. A minha atitude limitou-se a usufruí-los.

Não foi um caso isolado; uma embirração de momento; um fugaz interesse que despertou. Tem sido uma postura de sempre, patente nos cerca de 1000 artigos, cinco livros e dezenas de conferências, que escrevi, o podem atestar. Um destes livros versa, especificamente, a justiça e o Direito em fazermos a guerra que travámos no Ultramar; a sua legitimidade, sustentabilidade e as razões porque desistimos de lutar e sofremos a maior derrota da nossa História!
Derrota, aliás, humilhante e vergonhosa, para a qual o assistente activamente contribuiu e que apenas encontra paralelo nas consequências de Alcácer-Quibir.

Por isso a minha eventual condenação seria, também, uma ofensa a todos os combatentes de sempre e por maioria de razão aos heróis, alguns dos quais me orgulho de ter como testemunhas, e de cuja acção vou condensar num trecho do relatório dos sobreviventes da guarnição da Lancha Vega, relativo ao seu comandante, Segundo-Tenente Oliveira e Carmo, morto heroicamente nas águas de Diu, em 18 de Dezembro de 1961, e cito:
O Senhor comandante dirigiu-se à Camara e fardou-se de branco, dizendo que assim morreria com mais honra. “Rapazes, sei que vocês vão cumprir assim como eu e que mais vós quereis! Acabarmos numa batalha aeronaval. Fazemos parte da defesa de Diu e da Pátria e vamos cumprir até ao último homem e última bala se possível”. “Algumas despedidas se fizeram e até as fotografias dos entes queridos foram beijadas e guardadas nos bolsos dos calções”.

Permitam, para finalizar, que leia o penúltimo parágrafo, do meu livro “Em Nome da Pátria”: “Não soubemos merecer os nossos antepassados, poderá ser a síntese que nos leva ao veredicto final: aqueles que não souberam defender a Pátria, por não a terem sabido amar, acarretarão para sempre, e perante a posteridade, a responsabilidade e a vergonha de a terem deixado perder”.

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Meritíssima Juíza,

Passei horas de minha vida sentado nesta sala, a olhar para o símbolo maior deste tribunal: a imagem da balança e da figura vendada, pintadas na parede à minha frente e que representam a Justiça e da qual, neste caso, é V. Exª, o fiel garante.

Estou certo e quero crer, que esse valor maior que é a Justiça será preservado neste julgamento.

João J. Brandão Ferreira