quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ENCONTRO DE OFICIAIS DIA 22 DE FEVEREIRO

Caro camarada:
 
Já na vigência da nova Direcção, em que a percentagem dos que se encontram no Activo ombreia com a equivalente ao somatório dos que estão na reserva e na reforma, terá lugar o “ENCONTRO de OFICIAIS”, em 22 de Fevereiro.
 
Os TGEN ART Formeiro Monteiro e MGEN INF Raul Ferreira da Cunha, respectivamente, Presidente e Vice-presidente da Assembleia-Geral, bem como o MAJ INF Comando Musa Paulino, Vice-Presidente do Conselho Nacional, e o TCOR TINF António Mota, Secretário-Geral, iniciarão, por isso, na prática, nesse dia os bons serviços que, como todos os que integram o colectivo da AOFA, irão certamente prestar aos Oficiais das Forças Armadas.
 
O Encontro surge numa altura em que entendemos ser nosso dever dizer que chega de tanta afronta, desconsideração e humilhação infligida aos militares e aos insidiosos expedientes utilizados para desestruturar as Forças Armadas. Numa altura em que, é bom tê-lo presente, os nossos concidadãos, que não podemos, nem devemos esquecer, passam, igualmente, por grandes dificuldades.
 
Perante a Bandeira Nacional, jurámos servir a Pátria, se necessário com o sacrifício da própria vida, mas nunca sob a condição de sermos maltratados, desconsiderados, humilhados até.
 
No quadro, que a democracia por nós conquistada proporciona, temos de encontrar caminhos que nos permitam pôr cobro ao que está a acontecer.
 
Por isso, partindo do pressuposto de que os limites foram ultrapassados, seja pela dimensão, seja pela injusta e iníqua natureza das medidas que nos têm vindo a ser infligidas, é fundamental encontrarmos os melhores e mais adequados caminhos para, recordando as palavras do nosso saudoso camarada Salgueiro Maia na madrugada de 25 de Abril, “pôr fim ao estado a que isto chegou”, tal como afirmámos em declaração à imprensa no passado dia 23 de Janeiro (Aceda, fazendo Ctrl+clik em “Declaração à Imprensa”).
 
Concordará que a melhor forma de o fazer é certamente com aqueles que representamos – os oficiais (Todos, sejam ou não associados da AOFA, do Activo/Reserva/Reforma/RV e RC!).
 
Como anunciado, o Encontro realizar-se-á no ISCTE-IUL, com excelentes acessos (Aceda ao mapa, fazendo Ctrl+clik em “Percurso de carro”, a partir de Entre-Campos ou a partir do Eixo Norte-Sul e o “percurso a pé” a partir de Entre-Campos). Anote, também, que existe um parque de estacionamento muito próximo.
 
Importa assinalar que à comunicação social é facultada, apenas, a recolha de informação antes e depois dos trabalhos (normalmente, junto de dirigentes da AOFA), estando-lhe vedada a cobertura do período de debate.
 
É, pois, o momento de nos afirmarmos!
 
Sobejam-nos razões, já publicamente denunciadas, havendo que prevenir outras e mais gravosas medidas que estão a ser preparadas (EMFAR, Estatuto da Condição Militar, Suplementos, LDN, etc.), no âmbito de um objectivo mais vasto – fragilizar a Instituição que servimos deixando o País ainda mais exposto em matéria de Soberania.
 
Por isso é importante que cada um se mobilize e saia do seu conforto para, em uníssono, proclamarmos um rotundo “chega”!
 
Digamos que, se há ocasiões em que a quantidade transporta consigo uma imensa qualidade, é este o momento.
 
Por conseguinte, caro(a) camarada, liberte-se das dúvidas ou receios que porventura ainda o (a) acompanhem para, com a verdade, ajudar a desmontar a teia com que procuram iludir a opinião pública. Há que demonstrar que estamos indignados, zangados e ajudar a encontrar maneira de fazer parar este constante atropelo à nossa Condição Militar e à Instituição que servimos!
 
E dizer que basta!
 
Que estamos fartos!
 
O Presidente
 
Manuel Martins Pereira Cracel
Coronel
 
PS: Pede-se aos camaradas que exercitem o “passa-palavra”.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O CRISTO DAS TRINCHEIRAS

No sector português da Flandres, que ficava entre as localidades de Lacouture e Neuve-Chapelle, encontrava-se um artístico cruzeiro com um Cristo pregado numa cruz de madeira que dominava a paisagem da planície envolvente.

A imagem deste Cristo não era, obviamente portuguesa, mas encontrava-se na zona defendida pelo Corpo Especidionário Português durante a ofensiva alemã que quase destruiu a 2ª Divisão de Infantaria.

No dia 9 de Abril de 1918, sobre aquela planície caiu uma tempestade de fogo de artilharia, durante horas a fio, que ametralhou, a incendiou e a revolveu. Era a ofensiva da Primavera de 1918 do exército alemão. A povoação de Neuve-Chapelle quase desapareceu do mapa, de tão transformada em escombros. A área ficou juncada de cadáveres e entre estes jaziam 7.500 portugueses da 2ª Divisão do CEP mortos ou agonizantes.
 
No final da luta apenas o Cristo se mantinha de pé, mas também mutilado. A batalha decepou-lhe as pernas, o braço direito e uma bala varou-lhe o peito. Mas, no meio do caos, foi trazida pelos militares que conseguiram reagrupar-se e regressar às linhas aliadas.

É quase inimaginável que, debaixo das barragens de artilharia alemãs, que dizimaram grande parte do contingente português, a opção de alguns militares fosse a de trazer consigo a imagem de Cristo, severamente danificada, e a colocassem em local seguro onde pudesse ser novamente venerada.

Em 1958 o Governo Português mostrou o desejo de possuir aquele Cristo mutilado ao Governo Francês. Tornara-se um símbolo da Fé e do Patriotismo nacional e passou a ser conhecido como o "Cristo das Trincheiras".

A imagem chegou a Lisboa de avião, a 4 de Abril de 1958, uma Sexta-feira Santa. Ficou em exposição e veneração na capela do edifício da Escola do Exército até 8 de Abril, quando foi conduzida para o Mosteiro da Batalha e colocada, a 9 de Abril à cabeceira do túmulo do Soldado Desconhecido, na sala do Capítulo.

A imagem foi acompanhada desde França por uma delegação de portugueses antigos combatentes da Grande Guerra, que residiam em França, e por uma delegação de deputados franceses, chefiada pelo Coronel Louis Christian. As cerimónias foram apoteóticas e milhares de portugueses desfilaram perante a imagem em Lisboa.

No dia 8 de Abril a imagem foi transportada num carro militar para a Batalha, sem qualquer cerimonial especial, e aí ficou exposta na sala do refeitório do mosteiro para no dia seguinte, 9 de Abril, se efectuar a entrega oficial.

No dia 9 de Abril, pelas 11 horas, começaram a concentrar-se junto ao Mosteiro da Batalha numerosas entidades civis e militares, entre elas os Embaixadores de Portugal em França e de França em Portugal, os Adidos Militares da França, da Bélgica e dos Estados Unidos, as altas patentes portuguesas do Exército, Marinha e da Força Aérea.

Ao meio-dia iniciaram-se as cerimónias com a chegada do Coronel Louis Christian (França) e o Ministro da Defesa de Portugal Coronel Santos Costa. A guarda de honra foi prestado por um Batalhão do Regimento de Infantaria N.º 7, Leiria. O andor que transportou o "Cristo das Trincheiras" entre a sala do refeitório e a sala do Capítulo esteve ao cuidado de representantes da Ligados Combatentes da Grande Guerra.

 
O "Cristo das Trincheiras" foi então deposto sobre um pequeno plinto adamascado à cabeceira do túmulo do "Soldado Desconhecido". Terminada as orações o Adido Militar Francês, Coronel Revault d'Allonnes, conferiu aos dois "Soldados Desconhecidos" duas Cruzes de Guerra, as quais foram depositadas sobre a campa rasa.

A fanfarra do Regimento de Infantaria n.º 19, Chaves, tocou a silêncio no final da cerimónia, enquanto uma Bateria de Artilharia do Regimento de Artilharia Ligeira de Leiria, salvava com 19 tiros.

Mais do que um episódio ocorrido durante a 1ª Guerra Mundial, o "Cristo das trincheiras" simboliza a fé que manteve os militares portugueses na linha de frente durante um par de anos, praticamente sem licenças, mal abastecidos, sentindo-se abandonados por quem os enviou para combater por algo que a maioria não entendia.
 
Este texto extraído do blogue de marinheiros "NRP CACINE" é uma viagem pelo nosso passado.

Um passado que não devemos ignorar e relembrar de quando em quando. Faz bem ao espírito.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

AMÁLIA E O PANTEÃO NACIONAL

Republico artigo escrito após a morte da grande fadista Amália Rodrigues, escrito em 14/7/2001.
Nele se equacionava a questão do Panteão Nacional e se antecipou o que se passaria com a morte do não menos "grande" Eusébio. Se a gestão do meu tempo mo permitir, voltarei ao assunto.
 
A vida tem destas coisas e como o povo bem diz: “vale mais tarde do que nunca”. Vem isto a propósito das justas homenagens a Amália Rodrigues, parte das quais feitas por muitos daqueles que não só a maltrataram nos idos de 74/75 (chegando a proscrevê-la!), como também atacavam o Futebol, Fátima e o Fado como “sustentáculos” do Estado Novo, visando obviamente o deu ideólogo, o Dr. Salazar [1].
 
E é curioso ver como hoje em dia os três “F” voltaram em forma: o futebol, infelizmente, com um cortejo de contínuas poucas vergonhas, como os “média” documentam e ganhando preponderância sobre o que de realmente importante se passa; Fátima, consagrada como verdadeiro altar do mundo, recebendo em pouco tempo, por três vezes, a visita Papal, e o Fado, perfeitamente consolidado, sem falta de artistas e de público de que o musical em cena há largos meses, no Politeama é sinal indesmentível.
 
A vida tem destas coisas.
 
Amália, que não precisou de ser reabilitada [2] pois nada tinha feito para tal e nunca saíra do coração dos portugueses, acabou por ser condecorada e o seu corpo transladado para o Panteão Nacional – o que se supõe constituir a homenagem oficial maior, passível de ser feita. Partimos do princípio (não está em causa a nossa opinião), que Amália merece a distinção. E é sobre os termos “se supõe” e “partimos do princípio”, atrás empregados, que queremos elaborar.
 
De facto, a Nação e o Estado Português, antigos de quase nove séculos, não tiveram, até hoje, uma doutrina definida relativamente a quem deve ou não, ter acesso a uns metros quadrados de Panteão.
 
São todos os Presidentes da República? Os Primeiros-Ministros? Só, de entre estes, aqueles que se distinguem? E quais as formas dessa distinção? Que feitos têm de cometer? E os restantes portugueses que altos serviços têm que prestar para serem objecto de tão subida Honra? Eusébio está a caminho do Panteão? Os túmulos têm de ser todos iguais? Qual o processo legal a seguir até à decisão final?
 
Muitas questões se podem e devem levantar. Aqui se deixa o alvitre para os senhores deputados se dignarem debruçar sobre este tema, de modo a encontrar uma solução, que vá para além das conveniências políticas de momento. Não dá nas vistas, é certo, mas é importante.
 
Uma ideia mais: estamos em crer que o estipulado no regulamento da Medalha Militar, seria uma boa base de partida para o trabalho a realizar.
 
Dado que a história do Panteão, já foi suficientemente dilucidada pelos diferentes órgãos de comunicação, para voltarmos a ela, queremos abordar um último aspecto e que é este: Partindo do princípio que aqueles que repousam no Panteão merecem lá estar, os mesmos não merecem, por certo, o Panteão.
 
Ou, por outras palavras, o Panteão tal como está – visitámo-lo há poucas semanas, antes da transladação de Amália. O que vimos?
 
Um edifício imponente, arquitetonicamente equilibrado e limpo. Adequado a Panteão Nacional. As boas notícias acabam, porém, aqui.
 
Toda a área circundante do Panteão, não condiz com o mesmo. Está degradada, suja, em desalinho. Aproximando-nos, verifica-se que a porta de entrada, por pequena e discreta, não está em consonância com o resto do edifício. Lê-se, ao lado (com dificuldade) as palavras “Panteão Nacional” com as letras mais pequenas que, certamente, havia no mercado.
 
Entrámos, deixando ao critério dos leitores, decidirem se acham bem que se pague para entrar em semelhante local, que devia funcionar como uma espécie de “Altar da Pátria”. A atmosfera era soturna. A iluminação muito deficiente, talvez porque naquele momento, o Panteão albergava uma exposição de arte sacra – o que de facto também não se entende! Espalhados pela nave principal e por salas menores laterais, uns poucos túmulos, alguns dos quais nem sequer dispondo de uma pequena biografia de quem, pelos seus feitos “se foram da lei da morte libertando”.
 
De resto, apenas salas vazias, paredes nuas, ambiente frio, incaracterístico. Para podermos usufruir de uma das mais belas vistas sobre Lisboa, tivemos que perguntar onde nos levaria um elevador com que topámos.
 
O Panteão como está é uma ofensa à memória dos que lá estão, um péssimo exemplo cívico e uma chaga patriótica. Nem uma Bandeira Nacional existe!
 
O edifício está subaproveitado, os empregados são cinzentos; a atmosfera não é respirável; vários dos túmulos existentes têm os corpos ausentes (caso de Camões, Nuno Álvares Pereira e outros), além de que são pouquíssimos; não há indicações sobre o que visitar, etc.
 
Numa palavra, o conjunto tem apenas a dignidade da pedra, não tem recheio e não tem alma!
 
E, estamos certos, de que era um nome desconhecido antes de Amália ir lá morar, para a grande maioria dos portugueses.
 
Tudo isto nos parece lamentável. E mais lamentável se torna quando existem termos de comparação. Não falemos sequer dos grandes países. Sejamos mais modestos.
 
S. Domingos é a capital da República Dominicana onde a actividade profissional, nos levou um destes dias. Sabem que mais, a República Dominicana, país paupérrimo, sem expressão no concerto de países e com uma História que ninguém conhece e, sem desprimor, sem qualquer relevância – tirando a que lhe é dada por nela terem permanecido Colon e seu filho [3] - possui um Panteão Nacional que envergonha o nosso.

Querem saber porquê? O edifício, um antigo convento dos Jesuítas, tem dignidade. Neste âmbito, estamos empatados. Mas só neste. A polícia obriga as senhoras a cobrirem-se e os homens a usarem calças para poderem entrar. À entrada um militar impecavelmente uniformizado está em sentido; há luz natural, para além da iluminação interior e incenso, no ar; obras de arte ornamentam a ampla nave, bandeiras em profusão, vitrais e túmulos em sequência lógica e acabamento esmerado. O espaço está preparado para serviços religiosos e um itinerário marcado orienta os visitantes, pelo monumento.
 
Discrições sóbrias identificam as diferentes personalidades distinguidas com a homenagem de ali estarem. O “local” está vivo, porque o presente se vive dia a dia, mas projecta o passado no futuro.
 
Escrevemos em 14 de Julho de 2001 e a vida tem destas coisas.


[1] Que, por acaso, não apreciava o futebol nem o Fado e que sempre soube separar muito bem o que dizia respeito à Igreja e o que tocava ao Estado.
[2] Precisava era que alguns figurões da cena política portuguesa lhe pedissem desculpa, e ao povo português, do que fizeram!
[3] Por acaso um notável navegador português (ver Mascarenhas Barreto, “O português Salvador Gonçalves Zarco, agente secreto de El Rei D. João II”)