segunda-feira, 4 de novembro de 2013

IN MEMORIAM

Coronel Gomes Bessa (11/08/1922 – 01/11/2013)

Os caminhos do destino levam a que, ultimamente, de todas as gravatas que possuo, aquela que tenho utilizado mais seja a preta.

Preta, de luto.

Desta vez usei-a para acompanhar à sua última morada, o Coronel de Artilharia do Exército (até agora, português) Carlos Gomes Bessa.

Um homem bom e corajoso em todas as fases da sua vida, em que se revelou ser uma “força da natureza”.

Morreu na paz do Senhor.

Falecido no primeiro dia de Novembro – ex-feriado de Todos os Santos – contava 91 anos de uma vida cheia, em que soube sempre ultrapassar os obstáculos com firmeza e bonomia.

Exemplo disso foi a luta que travou durante 14 anos, a fim de tentar ultrapassar a injustiça do saneamento de que foi alvo – como muitos outros camaradas – na sequência dos eventos “revolucionários”, ocorridos a seguir ao Golpe de Estado de Abril de 1974.

A sua carreira estendeu-se e espraiou-se, fundamentalmente, em duas áreas: a militar e a de académico e historiador.

No âmbito militar fez jus ao lema artilheiro de que “a Artilharia morre em sentido”.

Foi um oficial completo com uma personalidade e formação, sólidas.

Depois do Curso na Escola do Exército, iniciado em 1942, foi colocado no Regimento da Serra do Pilar, uma unidade de grandes tradições militares, que ficou conhecida como “Os Polacos da Serra”, e que viria a comandar, como coronel, em 1973.

Em 1950 foi chamado para frequentar o exigente Curso de Estado - Maior, tendo ingressado no respectivo “Corpo” e desempenhado funções correlativas, durante vários anos.

Fez duas comissões no Ultramar – de que se tornou grande conhecedor e estudioso – a primeira na Guiné, entre 1956 e 1960, onde desempenhou as funções de Chefe de Estado – Maior do Comando Militar e, logo em Abril desse ano, marchou para Angola a convite do Governador – Geral de quem foi chefe de Gabinete, tendo regressado em Junho do ano seguinte, na sequência do início do terrorismo naquela Província.

Foi Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa entre 1966 e 1970 estando sempre muito ligado à educação da juventude tanto na Metrópole como no Ultramar, tendo criado a “Procuradoria dos Estudantes Ultramarinos, em 1962. Foi ainda director da Revista “Ultramar” entre 1961 e 1970.

Foram-lhe concedidos 16 louvores e nove condecorações.

Como académico foi um trabalhador incansável, desenvolvendo o seu labor em várias instituições de que se destaca a Academia Portuguesa da História, de que foi Secretário nove anos; Academia das Ciências; Sociedade Histórica da Independência de Portugal; Comissão Portuguesa de História Militar, de que foi um dos fundadores e, depois, Secretário; Sociedade de Geografia e Revista Militar, de que foi Director muitos anos.

São incontáveis os trabalhos, comunicações e conferências efectuados, sempre com uma qualidade elevada, muitas delas de âmbito internacional, tendo desenvolvido contactos sobretudo com o Brasil, a Venezuela e a Espanha.

É ainda autor de vasta bibliografia histórica, de grande mérito.

Assim se manteve até que um lamentável acidente o confinou à sua casa e o impediu de continuar a sua prestimosa e multifacetada produção intelectual.

Mesmo assim pude constatar a alegria e vontade que tinha em viver, estar informado e em vir a realizar mais coisas.

Manteve-se “jovem” até ao fim.

Conheci o Coronel Bessa, na Revista Militar, vai para 30 anos e mantive sempre um contacto mais ou menos estreito com ele, durante todo este tempo.

Aprendi a admirar a sua vasta cultura, a sua habilidade nas relações humanas, o espirito militar e o seu amor a Portugal.

Devo-lhe atenções, ajuda, ensinamentos e amizade.

Privar com ele representou, sem dúvida, uma das coisas boas que pude usufruir nesta vida.

Partiu um homem honrado e um português de rara fibra e qualidade.

Amortalhou-se na Bandeira das Quinas mas, porventura ainda magoado, dispensou as honras militares. Foi, talvez, a última mensagem que nos deixou.

E, deste modo, ficámos mais pobres.

domingo, 3 de novembro de 2013

QUESTÕES BÁSICAS SOBRE A “SAÚDE MILITAR”

“Porque será que uma junta de bois são dois, e uma junta de médicos são três?”

Questão magna que preocupa, desde tempos imemoriais, o “jornal da caserna”. E que, obviamente, nunca deve ser colocada a um clínico…
Com o final catastrófico e militarmente indecoroso, das últimas operações ultramarinas em que defendemos as gentes e o território nacional, no “além-mar” – onde os Serviços de Saúde Militar (SSM) cumpriram muito bem e prestaram relevantes serviços à Pátria [1]- que se perdeu, paulatinamente, a noção de que a razão principal e primária para a existência de serviços específicos de saúde militar, tem a ver com a necessidade de apoio sanitário às tropas em operações.[2]
E como razão secundária a necessidade de triagem médica nas fases de seleção, recrutamento e treino; no tratamento e recuperação de feridos na retaguarda e todo um âmbito de actividades relacionadas.
Cada Ramo das Forças Armadas tem, por sua vez, necessidades e especificidades próprias, que devem ser garantidas, seja qual for o modelo organizacional que se queira implementar.
É em todo este âmbito que existem hospitais de retaguarda.[3]
É nestes que o pessoal médico e de enfermagem têm contacto e praticam as técnicas da sua especialidade de modo a manterem uma proficiência e actualização adequada.
Para além disto os hospitais militares têm a importante missão de apoio à família militar, fundamental para o Moral e Bem-Estar dos profissionais das armas e suas famílias, o que, aliás, constitui um direito consignado em lei.
Um dos direitos - dos pouquíssimos que restam – em compensação dos especiais deveres impostos pela “condição militar”.
Condição militar, note-se, que é indispensável para o correcto funcionamento de qualquer força armada civilizada, e sem a qual as FA estarão, à partida, derrotadas; e da qual os bons militares se orgulham e aceitam, e a que não deixam de estar sujeitos.
Com isto dito, vamos tentar sintetizar os problemas de sempre (embora agudizados pela vivência das últimas décadas), relativos aos SSM.
É assim:
A generalidade dos oficiais generais não percebe nada de saúde (mas têm à sua disposição os meios necessários para equacionar devidamente o problema) e a grande maioria dos médicos não percebe nada de assuntos militares, nem quer perceber (alguns até têm raiva a quem sabe). Ora pôr a funcionar SSM nestas condições não parece ser nada fácil…
Dois exemplos simples ilustram o que digo; desde sempre o médico de uma unidade fazia parte (a que se deve juntar o capelão) do chamado “estado-maior” do comandante. Sem embargo ofereço um doce a quem tenha, nos últimos 35 anos, visto ou almoçado com o médico da unidade, na mesa de comando. E, que se saiba, a 2ª refeição é (ou era?) um acto de serviço…[4]
Por sua vez sabe-se da dificuldade em nomear um médico para um teatro de operações fora do território nacional; até para os Açores, às vezes, simplesmente, para fora de Lisboa…
Tal facto ocorre depois da Fazenda Nacional ter gasto uma nota preta na sua formação e não poucas vezes origina o pedido imediato do abandono do serviço activo.
A segunda síntese reza assim: “não haver nenhum senhor general ou almirante que não tenha que vir a mostrar o seu republicano cóccix, a um ou mais médico. É uma questão de tempo.
Ora acreditem ou não, este último postulado tem grandes hipóteses de interferir com o principal problema existente com o pessoal relacionado com o Serviço de Saúde (sobretudo médicos) e que é este: a dificuldade que existe em que eles cumpram o horário normal de serviço.[5]
O que configura um problema de funcionamento e disciplinar básico.[6]
Piora as coisas quando as inteligências que nos têm governado decidiram apoucar a Instituição Militar, destruindo a Justiça Militar e tornando a Disciplina Militar numa caricatura, após a última alteração ao respectivo regulamento.
*****
Serve o acima exposto, como introito para alguns comentários que o mais recente despacho do ex-candidato vencido à Assembleia Municipal da Camara da Invicta – que logo desistiu da sua participação em tão distinto areópago – e que nas horas vagas passa por um gabinete destinado a ser ocupado por uma figura que ostenta o título de MDN.
O despacho é o 160/MDN/2013, em que S. Exª nomeou um general da FA, na reforma (!), como gestor de projecto para a expansão do HFAR/PL.[7]
Ou seja mais um GT fora da estrutura organizativa legalmente constituída para resolver estes assuntos…
Porque se fez isto?
Simples, arranjaram um nó górdio de tal maneira surrealista e intrincado que agora ninguém o sabe desatar.[8]
Resumindo, por despacho “superior” determinaram-se coisas de qualquer maneira (porque sim!) sem haver o mínimo de consenso entre as partes envolvidas; sem estudos exaustivos; sem se terem comtemplado as questões orçamentais; sem se preverem verbas para as mudanças previstas – raramente, aliás, as alminhas responsáveis se preocupam com os investimentos iniciais sempre fundamentais em qualquer reestruturação séria.[9]
De seguida em vez de serem os Estados – Maiores dos Ramos – que vão passar serviços e pessoal para o novo órgão – e o EMGFA - que os vai receber e, posteriormente chefiar o HFAR – a tratar o assunto, como seria natural, curial e de bom senso, passou a ser o MDN a tratar de tudo.
Ou seja para além das chefias, pouco rodadas em assuntos de saúde e dos médicos pouco versados em questões militares, colocaram no circuito uns quantos civis, que não sabem nada nem de uma coisa nem de outra, a mandar nesta trapalhada toda![10]
Acresce ainda, que a FA dispõe de outros órgãos e unidades na Base do Lumiar – entretanto rebaptizada de “Campus da Saúde”[11] – como sejam a Banda de Música, os alojamentos para o pessoal em trânsito e a Direcção do Serviço de Saúde, que têm que ser reinstalados; O Centro de Medicina Aeronáutica, o Centro de Psicologia da FA e o Centro de Recrutamento, que lá vão ficar; prevê-se a instalação do Centro de Medicina Subaquática e Hiperbárica (transferido do Hospital de Marinha) e a criação da Junta de Saúde para os três Ramos, além da implementação da unidade de apoio a todo o complexo como era feito pela antiga Base do Lumiar (a extinguir).
Em sequência estão previstas obras de ampliação do “novo” hospital, tidas por necessárias já que com o HFAR se pretende substituir aos quatro hospitais militares existentes na área de Lisboa.[12]
Este conjunto de acções está previsto num outro documento, o Despacho nº 7002/2013, do MDN, que cria o HFAR/PL e mais dois grupos de trabalho, a saber: a Comissão de Acompanhamento (mais uma) e um segundo “para a definição do modelo organizacional para os cuidados continuados no âmbito do HFAR”.
Para a confusão ser maior ninguém sabe quem paga o quê, a quem e quando!
Ou seja, arranjaram um granel indiscritível, fora de todas as regras militares, sem linhas claras de autoridade, com os níveis de decisão baralhados e sem hipóteses de coordenação horizontal.
Em vez de repensarem toda esta meada de disparates consecutivos e colocarem as coisas no são, como sugerido acima, insiste-se em atamancar as coisas criando outro grupo de trabalho, indo buscar pessoas à reserva e reforma, quando se destruíram as carreiras pelo congelamento das promoções (fazendo-se às pinguinhas sabe-se lá por que critérios) e se aventa constantemente com o espantalho do “pessoal a mais”.
No meio disto tudo só espanta como a generalidade das pessoas que lá trabalha continue a prestar tão bons cuidados de saúde.
Mistério a que nem uma “Junta de médicos” (três) saberá responder.



[1] Como, de resto, toda a logística, que não funcionava tão bem desde que o João da Nova comandou a terceira Armada (1500 homens, do melhor que tínhamos) enviada à India, em 1501!
[2] Talvez por isso, ainda não se tenha ouvido falar neste pressuposto, em toda a discussão que, nos últimos anos, tem existido à volta da “reforma da saúde militar”. E era por aqui que se devia ter começado…
[3] Também existem hospitais de campanha para apoio directo das tropas em operações, cujos meios e dimensões estão dependentes do escalão das unidades empregues e da distância à frente de combate.
[4] Não digo que tal não tenha existido, sobretudo em quarteis mais isoladas. E a maioria das vezes tal ocorria com médicos civis (avençados) que tinham desenvolvido uma ligação especial, até de carinho, com uma dada unidade. Cheguei a conhecer alguns.
[5] Para os menos habituados às lides militares esclarece-se que uma das consequências da tal “condição militar” é o facto de os militares não terem (ainda) “horário de serviço”, mas apenas um “horário normal de serviço” pois por definição “estão sempre ao serviço”, isto é, trabalham quando é preciso e descansam quando podem…
E assim é que está correcto.
[6] Um outro problema que nunca foi devidamente resolvido é o da compatibilização da “carreira” técnica médica (agora também de enfermagem), com as funções inerentes aos diferentes postos. E não é nada fácil resolver.
[7] Lê-se Hospital das Forças Armadas/Polo de Lisboa.
[8] Deve, em abono da verdade, afirmar-se que as coisas só chegaram a este cumulo porque os Chefes Militares não se conseguem entender sobre coisa alguma – normalmente por questões corporativas – e, no mais das vezes, mostram-se incapazes de travar a equipa ministerial nos disparates que intentam fazer.
[9] Parafraseando o cronista “num esquecimento muito bem alembrado…”
[10] Chegaram até ao ponto de inocular uma espécie de “comissário político” civil, na estrutura superior do HFAR, para tratar de questões logísticas, numa atitude abusiva – diria mesmo ilegal – à revelia da organização militar, além de passarem mais um atestado de incompetência, de gozação mesmo, às Forças Armadas. Já não consigo imaginar o que terá que acontecer para que as chefias militares tenham um assomo de dignidade e vergonha e digam um “basta”!
[11] Não há paciência, será que o Senhor Ministro ainda julga que se passeia na Universidade de Coimbra, enquanto estudante?
[12] O da Marinha, sito em S. Clara; e dois do Exército, o de Belém e o da Estrela (este último com três polos separados); e o da Força Aérea, no Lumiar, que foi o escolhido para albergar tudo. Assim como quem tenta meter o Rossio na rua da Betesga…

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

CHEGOU A VEZ DAS FORÇAS DE SEGURANÇA

Através das “Grandes Opções do Plano, para 2014. O Governo afirmou a sua intenção de reduzir os efectivos das Forças de Segurança (FS), através da não substituição de todos os elementos que se aposentam.

Do documento o que ressalta – e isso notou-se na maioria das notícias/comentários vindos a público, é que a razão principal para tal opção é a de que “a população portuguesa está a envelhecer e a diminuir, o que favorece a diminuição da criminalidade”!
 
Não sabemos em que estudo é que o Governo se baseou para chegar a esta conclusão, ou se tratou apenas de uma daquelas tiradas, saídas da cartola partidária, num momento de imaginação criativa, em que são férteis os políticos quando se trata de justificar as iniciativas mais mirabolantes…
Aparenta ser um argumento peco.
O facto de a população diminuir não vai em nada alterar as causas da delinquência, dos crimes ou da insegurança – pode quanto muito fazer diminuir o número das incidências – ao passo que o aumento da idade média da população parece configurar um factor de risco acrescido, pois as torna mais vulneráveis e com menos capacidades para se defender.
Tão pouco o território diminuiu nem as fronteiras mudaram, embora a população se vá “arrumando” de modo diferente.
A comunidade emigrante está a diminuir devagar e não parece que “a crise” nos seus diferentes aspectos possa favorecer a segurança…
Confessamos não ter o saber de experiência feito e a informação detalhada para opinarmos com fiabilidade sobre o dispositivo e o número de efectivos adequados para lidar com os diferentes vertentes da criminalidade e segurança.
Gostaríamos, sem embargo, de fazer dois exercícios reflexivos.
Em 1974 o País dispunha de cerca de dois milhões de Km2, espalhados pelo mundo, com uma população heterogénea (em termos de raça, religião, e graus de desenvolvimento) de 22 milhões de almas. E tínhamos fronteiras com 14 países diferentes.
E mantinha cerca de 220.000 homens, nas FA que combatiam uma guerra de guerrilha, em três dos territórios africanos, mantendo uma vigilância significativa em todos os restantes.
Vamos tentar ater-nos – sem deixar de ter em conta este pano de fundo – ao que se passava na parte europeia.
A PSP dispunha de 13 a 14.000 homens; a GNR (que raramente operou nos Açores e Madeira) tinha 8343; a PJ, cerca de 300; a PIDE/DGS cerca de 800;[1] a Guarda Fiscal com 6573 efectivos, os quais foram incorporados na GNR, em 1993 (constituindo a Brigada Fiscal); a Polícia de Viação e Trânsito, com 621 elementos, extinta em 1970, que veio a dar origem à Brigada de Trânsito da GNR.
 Havia, ainda um corpo de Guardas Florestais, que acabaram integrados na GNR, em 2006, como pessoal civil, depois de ninguém saber o que fazer com eles. Contava 425 elementos.
A PSP destacava “companhias de polícia móvel” para o Ultramar, nomeadamente Angola e Moçambique, e a GNR chegou a actuar em S. Tomé, entre 1961 e 1974.[2]
*****
Entrados no novo Regime Político foram sendo feitas várias reestruturações, agora apenas destinadas aos 92.000 Km2 e 10.5 milhões de habitantes, que nos restavam, onde se incluem, em média, cerca de 400.000 emigrantes e filhos destes.
Deste modo chegámos a 2013 com um quadro orgânico (QO) na PSP de 22.000 efectivos, praticamente preenchido; a GNR com, respectivamente, 26.000 e 23.000.
A PIDE/DGS foi extinta e substituída pelo SEF, com 1435 efectivos; uma pequena divisão de informações militares; o SIED e o SIS, cujos efectivos devem rondar os 500.[3]
A PJ passou para um QO de 3000 efectivos havendo 1200, em funções operacionais.[4]
A isto temos que juntar as Polícias Municipais de Lisboa e Porto, com cerca de 450 e 100 elementos, respectivamente – que são agentes da PSP destacados com um estatuto que lhes atribui, essencialmente, funções administrativas. Fora todos os outros que estão espalhados pelo país e que não pertencem à PSP.
Para já não falar na ASAE, com 498 elementos, criada em 30/12/2005, a qual não sendo uma força de segurança em termos estritos, poderemos englobá-la em termos latos.
Para tratar de todos os processos levantados (entre outras coisas) temos vários “batalhões” de procuradores do Ministério Público, além de toda a restante máquina judicial.
Tudo isto polvilhado de uma miríade de sindicatos e associações profissionais.[5]
Ou seja o País diminuiu (em tamanho, gente e complexidade); a tecnologia melhorou exponencialmente e a cooperação internacional no espaço UE/EUA, avançou muito (Interpol; troca de informação, etc.).
Sem embargo os efectivos “dispararam” e os “organismos” proliferam.
Tudo isto, tendo agora uma “Democracia”, semi – parlamentar, de tipo “ocidental”, onde já não haveria lugar a “vigilância e repressão sobre a população oprimida”.
Esta a primeira reflexão que deixo.
A segunda (e derradeira) tem a ver com o facto de o Governo/forças políticas, não estarem a falar verdade – o que se tornou recorrente – e, ou, a colocar os dedos nas verdadeiras causas dos problemas que, supostamente, pretendem resolver.
É que se houver razões para reduzir as FS, elas não têm nada a ver com as aduzidas pelo governo.
Centram-se, basicamente, em três áreas – todas olimpicamente ignoradas por políticos,  sindicatos/associações, comentadores e cidadãos em geral: na adequação das leis; na questão da autoridade e na clareza da definição de funções e âmbito de actuação das diferentes “polícias”.
Vou tentar sintetizar tudo isto em escassas linhas.
As leis devem estar adequadas à população em que vão ser aplicadas, por uma simples razão: a de não se conseguir fazer, ainda, pessoas para as leis…
As leis do actual sistema político, que enformam a sociedade portuguesa não parecem estar adequadas à matriz ética, sociológica e cultural do povo português, além de pecarem por uma extensa prioridade dos direitos e garantias face aos deveres e responsabilidades.
E desequilibraram-se perigosamente, a favor de um pano de fundo ideológico - mistura de teorias jacobinas serôdias com destroços herdados do Maio de 68 em França - em detrimento da realidade nua e crua da natureza humana.
Os principais instrumentos legais onde todo este feixe de ideias erradas – concedo que algumas bem-intencionadas, mas que povoam amiúde o inferno – são o Código Penal, o Código do Processo Penal e demais legislação avulsa.
Os restantes actores do sistema judiciário sofrem, na sua maioria, do mesmo mal e ainda de outros que não vêm agora ao caso tratar.
Temos a seguir a questão da autoridade (“Autoritas”), o que não deixa de estar ligada também ao edifício legislativo.
Esta questão é sobretudo ideológica: por um lado ainda sofre do complexo da comparação com o “Estado Novo”; de complexos de “esquerda” que são contra por definição (a não ser que seja uma “autoridade” revolucionária”); complexos de “direita”, por receio de se assumirem e parvoíces avulsas.
O Relativismo Moral fez o resto.
Ora a Autoridade é o poder investido numa determinada pessoa ou organização, para levar a efeito determinadas tarefas. A Autoridade para ser efectiva, para além de dispor de gente preparada, deve possuir um código ético-deontológico e meios de coação.
E funciona tanto melhor quanto melhor forem a liderança exercida, a estrutura de comando/chefia e a organização, disciplina e clareza da missão atribuída, à qual devem corresponder (de preferência) os meios adequados.
Porém, nada disto funciona sem uma hierarquia (palavra que virou maldita…) bem estruturada.
Caros leitores, nas últimas décadas quantos de vós tem ouvido falar destas coisas?
Algures descobre-se um responsável político falar em autoridade, mas rapidamente lhe junta o termo “democrática”…
É como o caso da Ética… republicana!
A Autoridade, tal como a Ética não carecem de adjectivos; a autoridade existe, ou não, e a Ética é “apenas” a ciência do Bem.
Assim se tem espalhado a confusão pelo País…
Os membros das FS têm que ter a capacidade de se fazerem obedecer pela palavra e disporem da panóplia de meios de coação necessários para obter aquela, caso esta falhe.
E tal tem que estar salvaguardado em lei, do mesmo modo que devem existir mecanismos para proteger os cidadãos de eventuais abusos.
O ponto de equilíbrio de tudo isto deve ser objecto de busca permanente, o que não tem nada a ver com andar a mudar as coisas constantemente.
Finalmente enfatiza-se a necessidade de coordenação e definição clara de áreas de actuação e respectivas competências de modo a evitar conflitos e criar complementaridades.
Alguma coisa se tem feito neste âmbito – nomeadamente na área sensível mas fundamental, de fazer chegar a informação a quem dela necessita.
Mas muito há para fazer, do que damos alguns exemplos:
  • O conflito de competências sobre a Autoridade Marítima – onde tem havido uma “guerra surda” entre a GNR e a Armada (e uns quantos “civis” que espreitam), deve ser rapidamente sanado e aclarado;[6]
  • Agentes da PJ a escoltar droga para hospitais e a fazer a respectiva guarda;
  • Agentes da PSP a fazerem segurança a aeroportos e a licenciar e fiscalizar armamento a particulares e os explosivos das empresas mineiras;
  • O SEF a combater o tráfico de droga, até fora das fronteiras;
  • A GNR a fazer de bombeiros;
  • Competências simultâneas entre a GNR e PSP, relativamente a auto estradas, aeroportos, defesa de pontos sensíveis, segurança de órgãos de soberania, etc.
Não se pode dizer que não haja responsabilidades de todos, pois quando se trata de “poder”, ninguém quer ficar de fora…
E tem havido sobretudo responsabilidades governamentais, pois ninguém quer arriscar decidir nada (o que acaba por não ser mau de todo, dadas as barbaridades que se têm cometido…).
Se o governo quiser actuar, seriamente, neste âmbito, terá que o fazer nas três áreas referidas, ou seja:
  • Simplificar e adequar todo o edifício legislativo que dá todas as defesas aos criminosos e caustica quem se porta bem; está um emaranhado em que é difícil alguém entender-se e se destina a ser aplicado numa “espécie” de portugueses inexistente – trata-se ainda de uma necessidade premente, mas não única, para “agilizar” o funcionamento dos tribunais;
  • Dar autoridade efectiva aos agentes da mesma;
  • Desconflituar a actuação da multitude de entidades dedicadas à Segurança Interna e torna-las verdadeiramente complementares.
Se conseguirem fazer isto podem, seguramente, não só reduzir efectivos, como aumentar em muito os resultados operacionais e a eficiência.
Se assim não for, podem até aumentar os efectivos para 300.000 que não se sairá da cepa torta.
Mas, obviamente, tal significaria atacar as causas dos problemas e não os seus efeitos, o que não está nada na tradição nacional.
E também não dá votos.



[1] De um total de cerca de 2100 (360 administrativos) em todo o então território nacional, onde não entram os “Flechas".
[2] Possuíam um QO de um oficial subalterno, dois sargentos, nove cabos e 26 soldados.
[3] Por razões óbvias, não se sabe ao certo.
[4] Convém referir que a investigação criminal para os crimes a que correspondem penas menores (que rondam os 80%), passou, em 2000, da jurisdição da PJ para a GNR e PSP.
[5] Seria ainda interessante analisar o “Corpo de Guardas Prisionais”, dependentes do Ministério da Justiça, que não constam da Lei de Segurança Interna, como FS, mas que na última revisão do seu estatuto, conseguiram tal equiparação para efeitos de regalias, mantendo, porém, o direito à greve o que está vedado àquelas…
[6] E não parece haver razão alguma para se pensar em eventuais estruturas tipo “Guarda Costeira”.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

OS “JEAN PIERRES – PILOTES DE CHASSE!

“O dever do piloto de caça é o de patrulhar a sua área do céu e abater qualquer caça inimigo nessa área. Tudo o resto é disparate.”
Barão Manfred Von Richthofen

O meu escrito “O Juramento do Falcão”, sobre os pilotos de caça portugueses, não colheu a totalidade da boa disposição dos leitores que, entre outras coisas, pretendia atingir.

Isto porque alguns pilotaços da nossa praça não têm o sentido de humor bem apurado, sofrem de alguma “partidarite aeronáutica” aguda e – “quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? - se recusam a aceitar a evidência da superioridade inquestionável, daqueles conhecidos pelo “suprassumo da essência do sublime”!

Antes de entrarmos no “briefing” do voo – isto é falar longamente sem dizer nada – a que se seguirá, inevitavelmente, o “debriefing” – ou seja continuar a falar longamente sem dizer nada, depois de se ter realizado o mesmo – vamos tentar provar, inequivocamente, aos coitados que vão desafiar as leis da gravidade em aeronaves demasiado disformes aerodinamicamente, para poderem executar o pleno, nos três eixos da máquina e nas três dimensões do éter, quão longe estão de poder igualar aqueles que, bafejados por invulgares dons da natureza, mais perto estão de igualar as mais nobres aves rapaces.

E é bom que o façamos depressa, antes que a mui nobre arte de Altanaria seja extinta pelos “pilotos” que, fardados de fato de voo e tudo, controlam “UAVs” em salas com ar condicionado, a milhares de Km do teatro de operações.

Uma situação muito perturbadora…

Enfim, nem sequer precisamos de procurar argumentação nova, basta adaptar a já existente, há décadas, aproveitando frases comuns de origem anglo-saxónica.

Fá-lo-emos partindo do princípio de que todos os profissionais do Ar estão conscientes daquilo que não lhes serve de nada, de um ponto de vista aeronáutico, ou seja:

• A altitude acima deles;

• A pista atrás de si;

• O combustível no camião;

• Meio segundo na História;

• Cartas de aproximação no carro;

• A velocidade que não se tem.

No que abaixo se diz, “fazem-no” quer dizer “voam”. Nada de confusões…

Todos o sabem, mas não fica mal recordar, sobretudo aos que não são da Caça; então aqui vai:

• Os pilotos de linha aérea fazem-no direitos e nivelados;

• As hospedeiras fazem-no pelo mundo inteiro;

• Os pilotos instrutores sabem-no melhor;

• Os pilotos de bombardeiros fazem-no com um enorme ruído;

• Os pilotos de reconhecimento apenas ficam a ver;

• Os pilotos de planadores fazem-no silenciosamente;

• Os pilotos de helicóptero fazem-no para cima e para baixo;

• Os pilotos de transporte fazem-no durante horas;

• Os pilotos de modelos fazem-no no chão;

• Os alunos pilotos fazem-no com entusiasmo (mas debaixo de controlo);

• Os pilotos reabastecedores fazem-no tentando acertar com a mangueira;

• Os engenheiros aeronáuticos não o fazem.

Mas, e aqui é que está a grande diferença, os pilotos de CAÇA fazem-no MELHOR! Yes!

“Vermelho um, dentro”!

“Vermelho um, fora”!

“Vermelho dois, dentro”!...

João J. Brandão Ferreira

(caçador reformado, mas sempre pronto para uma perninha)

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1 - O mais célebre às alemão da I Guerra Mundial, que acabou abatido, depois de ter averbado 80 vitórias.
2 - “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?” Apóstrofe de Cícero contra Catilina…
3 - Nota: este parágrafo deve ser lido de um só folego e debaixo da pressão de pelo menos quatro “Gs”…
4 - UAV – aeronave não tripulada.