“A Natureza é avara de homens
superiores e distribui com abundância homens medíocres”
Paul Bourget, para o Conde de
Haussonville, citando Bonald.
Ouvimos, há poucos dias, o PM
Passos Coelho fugir-lhe a boca para a verdade ao afirmar que precisamos de um
governo de “união nacional” (o corifeu Marcelo veio, célere, opinar que
preferia “unidade” em vez de “união”).
De imediato outros corifeus vieram a terreiro
polemizar que não gostavam da expressão, pois tal fazia-lhes lembrar a União
Nacional, que designaram por partido único que servira de esteio ao “Estado
Novo”.
Estado Novo que, segundo o líder do principal
partido da oposição, correspondia a um “dos períodos mais negros da nossa
História”.
Em favor da curiosidade
intelectual, até que gostaria de saber quais teriam sido os outros…
Néscio que sou, assaltaram-me
dúvidas sobre o que tal frase quereria dizer e procurei na memória, algumas
questões que pudessem justificar tão categórica afirmação do jovem “Tó Zé”, que
de seguro tem muito pouco – não parecendo haver no mercado ansiolíticos que lhe
aplaquem as ânsias em que anda, para se meter em S. Bento.
Coitado dele e de nós…
Escarafunchando no baú da
História – que, seguramente, a rapaziada das “Jotas” não tem tempo sequer de
entreabrir – verifiquei que o “Estado Novo” se institucionalizou em 1933, com a
aprovação, em plebiscito, de uma nova Constituição – consulta popular a que
nenhuma outra Constituição portuguesa foi sujeita, até hoje, desde 1822,
inclusive a de 1976 (cujo Parlamento onde se discutia, chegou a estar cercado
por uma multidão ululante).
Antes, porém, (de 1933) tinha
havido três “ditaduras”: a primeira apenas militar, entre 1926 e 28; depois uma
ditadura financeira, de 1928 a 32, a que se seguiu uma ditadura política entre
aquela data e o ano seguinte.
E porque terá havido uma ditadura
militar?
Bom, talvez o Dr. (creio que o
posso tratar assim) Seguro não acredite mas Lisboa, naquele tempo, parecia a
Bagdad actual, com bombas a rebentar nas ruas e tudo!
É possível que os seus mestres
políticos se tenham olvidado de lhe dizer, mas tal era resultado da “balbúrdia
sangrenta”, como antevira Eça, em que se transformara a I República que, em 16
anos conheceu 45 governos, dezenas de golpes e contra golpes militares, com
civis à mistura; assassinatos políticos q. b. (incluindo um PR e um PM),
participação escusada na frente de batalha europeia da IGM e a maior
conflitualidade político- social (sobretudo nas grandes cidades), que causou
grande disrupção na vida económica e uma bancarrota crónica, nas finanças, em
todo o mundo português.
Por junto o país estava exangue e
desqualificado em termos internacionais.
Este tinha sido o resultado
trágico da implantação da República a qual, segundo os seus próceres iria
trazer o paraíso a Portugal.
O Partido Republicano nasceu num
ambiente liberal (e de liberalidade) e podia actuar e exprimir-se à sua
vontade. Mas isso não lhe bastou: sem qualquer razão que o justificasse, tentou
subverter a sociedade de então, atacou miseravelmente a Família Real e, ajudado
por uma organização secreta de cariz violento (a Carbonária), provocou
atentados, tentativas de golpe de estado e acabou manchado com o sangue do
crime ignominioso, do regicídio.
Com estes antecedentes escabrosos
não admira que a República tenha dado no que deu.
Porém, já antes a Monarquia
Portuguesa, antiga de 700 anos, ficou ferida de morte, após a implantação do
Liberalismo, em 1820; a expansão dos ideais da Revolução Francesa, o ataque à
Igreja e três guerras civis.
Pior do que tudo isto, todavia,
foi que a Nação Portuguesa ficou refém e foi pasto das sociedades secretas,
maçónicas, que quebraram a unidade da Pátria e minaram os esteios da antiga
nacionalidade.
Enfim, os desastres e as barbaridades foram
tais e tantas que se contam pelos dedos os portugueses que se aventuram pelas
páginas do século XIX, que é aquele que a maior parte dos compêndios de
História rapidamente saltam, sem embargo de merecer o mais demorado estudo e
ponderação.
Creio que não necessito ir mais atrás para
enquadrar o que exponho.
Não sei como o Dr. Seguro – e o
rebotalho esquerdoíde que por aí andou, anos a fio, a falar da “longa noite” –
qualifica as épocas que muito pela rama descrevi, mas como chama ao Estado Novo
um período negro da História de Portugal, por certo que este teria que ser pior
do que aqueles; e, relativamente ao que vivemos, então nem se fala…
Fomos, novamente, ao baú da História e saiu
isto.
Em menos de dois anos o Dr.
Salazar – de longe o principal obreiro e ideólogo do Estado Novo – equilibrou o
orçamento (cujo “deficit” e dívida eram, apesar de tudo, menores do que
actualmente), o qual nunca mais “descarrilou” até 1974, ano em que, salvo erro,
o escudo era a sexta moeda mais forte do mundo; pagávamos a pronto; tínhamos o
crédito que quiséssemos, sem haver “ratings” que nos tolhessem, havendo em cofre
50 milhões de contos em divisas e mais de 800 toneladas de ouro.
Tudo isto apesar da depressão de
1929; a crise da libra, de 1931; a Guerra Civil de Espanha (1936-39); a II GM
(1939-45); 14 anos de operações militares em larga escala, em três teatros de
operações diferentes (1961-74) - fora a questão da Índia (1954-61) e ainda
devolvemos, em “cash”, em 1962, o pouco que usufruímos com o Plano Marshall…
Passemos à Economia.
Em 1926 a Economia, como tudo o
resto, estava arrasada em todos os sectores. As próprias infraestruturas
existentes – estradas, portos, caminhos - de - ferro, comunicações,
transportes, etc., que tinham tido algum desenvolvimento no fim da Monarquia
Constitucional, estavam num estado lastimoso. Algumas delas e outros serviços,
tanto na Metrópole como no Ultramar, estavam em mãos estrangeiras, sobretudo
inglesas.
Aliás, o País estava, na altura, perfeitamente
colonizado economicamente pela Inglaterra e, culturalmente, pela França. Também
foi o “Estado Novo” que operou essa “descolonização”…
Com as Finanças em ordem, deu-se
início à recuperação das infraestruturas atrás apontadas – sem as quais a
economia não se desenvolve – e cuidou-se do sector primário, pois este é a base
de tudo o resto e é necessário dar de comer à população todos os dias…
Parece que os políticos,
antepassados recentes do Sr. Seguro, se esqueceram destes pormenores!
Quando as infraestruturas estavam
prontas, nomeadamente a energia, começou a implantar-se a indústria. E, pela 1ª
vez desde Afonso Henriques, gizou-se um plano (chamado de fomento), a partir de
1951, devidamente estruturado, estendido no tempo e sustentado, que permitiu
desenvolver o sector secundário e, acompanhando-o, o terciário.
Tal veio a desenvolver-se, sempre
positivamente, não sendo sequer prejudicado pelas agressões ultramarinas a que
nos sujeitaram.
Em 1973 crescia-se a 7% ao ano e
em Angola e Moçambique era superior.
Não se fez tudo o que era preciso
fazer, mas fez-se tudo com calma, com segurança, institucionalmente e com
critério.
Não há notícias de escândalos com
negociatas, “comissões” individuais ou para o partido, derrapagens, engenharias
financeiras tipo “PPPs” ou outras.
A subversão comunista estava
posta em sentido, as multinacionais não faziam o que queriam e o capital
estrangeiro não mandava no Governo.
A corrupção, não sendo
inexistente, era combatida e estava controlada.
Tudo isto se conseguiu porque
havia ordem nas ruas, apesar das “quarteladas” se terem feito sentir até aos
anos 40 – após o país ter estado, na prática, em guerra civil por mais de um
século, não era fácil acabar com a agitação de um dia para o outro – e porque o
governo governava sem ter que passar a vida em lutas político-partidárias
estéreis e fratricidas.
Em termos diplomáticos o País
retomou o seu normal entrosamento na vida internacional, não se limitando ao
exercício das relações internacionais, como hoje maioritariamente acontece.
Tinha interesses a defender e defendia-os.
Atingiu até, picos de excelência,
nomeadamente durante a Guerra Civil de Espanha, na II GM, na entrada para a
OTAN, para a EFTA e quanto ao acordo com a CEE; e na defesa das parcelas
ultramarinas, que grande parte da comunidade internacional queria subtrair à
soberania portuguesa.
Neste âmbito só há a lamentar a
perda do Estado Português da Índia, e só ao fim de 14 anos de patifarias
culminando com um deplorável uso da agressão militar. Mesmo aqui não se pode
acusar os órgãos de soberania de qualquer comportamento antipatriótico.
Não consta ainda, que qualquer
entidade estrangeira tenha interferido na condução da política nacional nem que
o Governo Português alguma vez solicitasse ajuda seja a quem fosse.
Por acaso o Dr. Seguro imagina o
FMI ou a “Troika” a passear-se no Terreiro do Paço no tempo da “outra senhora”?
Tentando perceber o imaginário do
líder do PS, será que ele pensa que os tribunais há 50 anos levavam dez, para
julgar um assunto simples, como agora acontece?
Que a Segurança Social é uma
invenção pós abrilina?
Que os alunos e os pais dos
mesmos batiam nos professores, como acontece um pouco por todo o país e não
apenas na Musgueira?
Ou que muitos professores deviam
era estar no lugar dos alunos e que muitos destes chegam ao 12º ano a saber
menos do que eu sabia quando fiz a 4ª classe?
Pensará que as crianças ficavam
fechadas em casa, ociosas a comer guloseimas e hidratos de carbono, frente a um
visor qualquer, em vez de virem brincar para a rua com os amigos?
O Dr. Seguro pensará que se
andasse a passear em meados dos anos 60, no auge da chamada revolução sexual,
do movimento hippie, e da porcaria que representou o Maio de 68, em França,
encontrava alguém a injectar-se nas ruas da Mouraria?
Pensará que os cuidados de saúde
só passaram a existir depois de terem inventado o Serviço Nacional de Saúde?
(uma coisa, aliás, bem pensada, mas porque só agora começou a ser controlado e
aferido, está em vias de colapsar).
Diga-me, Dr. Seguro, o que lhe
vai na cabecinha para considerar, em qualquer área da sociedade, tais tempos como
ominosos?
Ah, creio finalmente ter
percebido um sussurro: o regime não era democrático!...
(Continua)