sábado, 14 de janeiro de 2012

  Instituto Dom João de Castro
CONVITE 
O Presidente do Conselho de Fundadores do Instituto Dom João de Castro, Prof. Doutor Adriano Moreira, convida V. Ex.ª e Exma. Família para a sessão a realizar-se no próximo dia 26 de Janeiro (5ª feira), pelas 21.00 horas, neste Instituto, durante a qual o Senhor Tenente-Coronel João José Brandão Ferreira proferirá uma conferência subordinada ao tema “Geopolítica da Antárctida e os interesses nacionais”.

R.S.F.F: 213 032 150; TM: 969 654 732
Rua D. Francisco de Almeida, 49

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O JANTAR DA ACADEMIA

Foi no dia 12 de Janeiro, dia da “velha” Escola.

O toque de “formar” fez reunir na Academia Militar cerca de 2500 oficiais e alguns civis, todos ex-alunos. A ideia foi feliz (e oportuna) e o acontecimento bonito de ver.

O evento foi extremamente importante, pois marca o início do reencontro da Instituição Militar consigo própria depois dos graves acontecimentos ocorridos em 1974 e 1975, que cindiram as Forças Armadas. É preciso não esquecer que os militares andaram a prender-se e a sanear-se uns aos outros! Daí talvez que a mensagem que sobressaiu no encontro fosse a de “Camaradagem, coesão, camaradagem”, lema que se encontrava espalhado em várias salas. De salientar ainda, que todas as “sensibilidades” existentes no meio militar se encontravam presentes.

E tudo se passou numa altura em que a Instituição Militar e os seus servidores não deixam de ser alvo de ataques num giro de 360º do horizonte…

Estranha-se, no entanto, a presença de uns quantos cujo esquecimento dos Deveres Militares (não estão em causa as opções políticas), levou à prática, em tempos não muito recuados de acções menos dignas que a Justiça Militar e, ou, demais leis da República, infelizmente não puniram. A vergonha, se a houvesse, teria recomendado a ausência.

Estiveram a mais.

Por outro lado, houve quem primasse pela ausência, notada por o seu passado, responsabilidades ou funções, melhor os fazer junto dos seus.

Fizeram falta.

Como é tempo de dar a cara, também se fica a saber onde nos posicionamos.

Foi pena que no fim não se tivesse dado o “grito da casa” e que umas palavras de boas vindas não tivessem sido escutadas.

Mas o saldo é muito positivo: o ar de festa, o encontro de gerações, o bom ambiente em que tudo decorreu, as caras que não se viam há muito, as palmadas nas costas, os nomes de guerra relembrados, etc., etc., tem um efeito moral que não é contabilizável.

Constitui, certamente, um bálsamo para o Moral que tão debilitado anda.

Temos um longo e árduo caminho à nossa frente para conseguirmos uma Instituição Militar mais respeitada e mais apta a cumprir as suas missões.

É necessário convergir esforços, realçando o que nos une e pondo de lado o que possa separar. Não é sequer preciso que tudo se faça para amanhã. Importante é criar uma dinâmica positiva para realizar objectivos.

Se isso for conseguido será fácil já no próximo jantar gritar com orgulho “Vivam as Forças Armadas”.

Publicado no “Centurião” n.º 6, Jan. /Fev. 1990

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

RAZÕES HISTÓRICAS PARA MOTINS MILITARES


Tinham-nos dito, no momento em que deixámos a terra natal, que partíamos em defesa dos direitos sagrados que nos são conferidos por tantos cidadãos instalados lá longe, tantos anos de presença, tantos benefícios concedidos às populações que têm necessidade do nosso auxílio e da nossa civilização”. “Pudemos verificar que tudo isso era verdade e, visto que era verdade, não hesitámos em derramar o imposto de sangue, em sacrificar a nossa juventude, as nossas esperanças. Não lamentamos nada, mas enquanto aqui este estado de espírito nos anima, dizem-me que em Roma se sucedem as intrigas e as conspirações, se desenvolve a traição e que muitos, hesitantes, perturbados, cedem com facilidade às tentações do abandono e aviltam a nossa acção”. “Suplico-te, tranquiliza-me o mais breve possível e diz-me que os nossos concidadãos nos compreendem, nos defendem, nos protegem como nós próprios protegemos a grandeza do império”. “Se tudo fosse diferente, se tivéssemos de deixar em vão os nossos ossos embranquecidos sobre as pistas do deserto, então, cuidado com a cólera das Legiões.”
Marcus Flavinius,
Centurião da 2ª Coorte da Legião Augusta, a seu primo Tertulius

Da análise da História Militar sabe-se que desde os Assírios, os Persas, os Egípcios, os Macedónios, os Gregos, os Romanos, etc., que os motins militares têm origem, fundamentalmente, em três coisas: o não pagamento atempado do soldo (donde deriva a palavra soldado) devido; quando se interfere aleatoriamente na carreira (sobretudo na Idade Moderna) e quando os militares se sentem atraiçoados por quem os tutela.

Foi sempre assim e não se vislumbra (dada a natureza humana), que possa mudar.

Acontece que as numerosas malfeitorias que têm sido feitas à Instituição Militar (IM) e os militares, por parte de sucessivos governos nos últimos vinte e tal anos - o que representa um passivo de problemas acumulado, único em quase 900 anos - vieram, por sorte vária, confluir no actual governo e chefias militares, em que:

- Relativamente ao soldo ainda não deixaram de pagar (embora já tenha havido um atraso de um dia, no ano passado, no Exército), e há mais de 10 anos que a rubrica de “pessoal” é sistematicamente sub-orçamentada, mas fizeram pior, fizeram regredir cerca de 4000 militares à tabela remuneratória de 31/12/2009. Uma coisa inaudita, que certamente nunca ocorreu em nenhum país, nem na “América Latrina”!

E tudo depois de um conjunto de episódios pouco dignificantes cuja origem primeira, foi terem querido meter os militares na tabela salarial da função pública. O que à partida nunca devia passar pela cabeça de ninguém, já que um militar jamais poderá ter um estatuto de funcionário público!

Relativamente à “carreira” - que nos militares adquire uma importância que não tem paralelo em qualquer outra profissão - o actual congelamento das promoções faz com que o decreto-lei 373/73 (que deu origem ao 25 de Abril), pareça uma brincadeira de crianças. Julgo que não preciso de dizer mais nada.

E quanto ao facto dos militares se sentirem atraiçoados, ainda se pode distinguir três vertentes: o “Comandante Supremo” (que aliás não manda nada), que desapareceu, aparentemente, em combate; os governantes que não sabem o que querem, não têm política para coisa alguma, a não ser para os 3Rs - reduzir, reduzir e reduzir - não cumprem leis que aprovam, mudam regras a meio do jogo e têm, numa palavra, destruído paulatinamente uma Instituição sem a qual o País não se sustém; e sentem-se também atraiçoados pelas chefias militares, pois não têm ninguém que os defenda.

Não contentes, porém, em deixar medrar uma das razões que historicamente levam a motins nas forças militares, juntaram-nas todas três, em simultâneo. Convenhamos que era difícil fazer pior em qualquer parte do mundo!

Ora tal só é possível com enorme irresponsabilidade, incompetência, arrogância e muita falta de prudência.

E por terem encontrado pela frente muita gente capaz, disciplinada, com espírito de serviço e de missão, que anda há 20 anos (muito tempo antes da crise) a dar exemplo de contenção de despesas, reorganização e redução que, sem estar isento de erros ou críticas, não tem paralelo em mais nenhuma área do Estado. Mais ainda, apesar dos cortes constantes em tudo, ainda não se deixou de bem cumprir nenhuma missão atribuída, nem se envergonhou (antes pelo contrário) as armas lusas e o País, nos numerosos teatros de operações espalhados pelo mundo, onde marcou presença nos últimos 25 anos.

Não vai ser possível aguentar mais este estado de coisas.

Os contemporâneos julgam, quase sempre, que determinados eventos pertencem ao passado ou só acontecem aos outros.

E, por norma, só descobrem que estão enganados demasiadamente tarde.

COLOMBO OU COLON?

Irei participar como orador neste debate, pelo que os convido a todos para estarem presentes!

sábado, 7 de janeiro de 2012

CHEFIAS MILITARES E O QUE SE PASSA POR AÍ…

Gostaria que soubessem que lamento ter escrito este texto e cada vez sinto mais vergonha do estado em que as FAs foram colocadas e se deixaram colocar.

Publicado no jornal "O Diabo" de 17 de Janeiro de 2012

General GEMGFA Luís de Araújo
“…mas havemos de nos acomodar às situações que existem”

General CEMGFA
(noticia da Lusa, de 31/12/11)

A Força Aérea vai começar o ano a perder cerca de 260 oficiais e sargentos, que pediram para abandonar o serviço activo, ou por terem atingido o limite de idade.

É uma perda brutal.

Não conhecemos ainda os números da Armada e do Exército, mas estes servem para ilustrar o ponto.

Estes números vieram a público por causa da saída inesperada do 2º Comandante do Comando Aéreo (CA). Esta saída deve-se a um “desaguisado” interno que não é relevante para o grande público.

Esta saída tem, todavia, origem na decisão do anterior comandante do CA, há cerca de dois meses, em retirar-se da vida militar e para o substituir ter sido indigitado um Major General (duas estrelas), quando o cargo vence um Tenente General (três estrelas).

Cabe aqui referir, que as saídas previstas de generais e o inconcebível congelamento das promoções em vigor, faz com que a FA tenha, neste momento, quatro generais: o chefe, o vice-chefe e o Comandante do Pessoal. O quarto está fora do Ramo e há pouco tempo na função.

Ora por alturas do Natal S. Exª o Ministro da Defesa fez saber ao Chefe de Estado Maior que pretendia um general de três estrelas no CA, restando saber as razões do senhor ministro ou, o que é mais curial, quem tal lhe foi sussurrar ao ouvido e porquê.

Daqui decorreu a indigitação de um general de três estrelas...

Para o lugar agora vago pelo número dois do CA, marchou o Major General que o senhor ministro (ou alguém por ele) não tinha querido como nº um. Já regressaremos a isto.

Especulou-se, entretanto, porque é que tanta gente quer abandonar as fileiras e aventaram-se umas poucas de hipóteses que podemos sintetizar na seguinte frase: já ninguém consegue aturar o que se passa!

E o que se passa dava para encher páginas, que vamos reduzir a meia dúzia de ideias, nenhuma delas aduzida, aliás, na citada notícia da Lusa, baseada numa entrevista ao CEMGFA.

Em primeiro lugar já não se consegue suportar a continuada má relação político-militar de décadas e o enfado, a acrimónia, a deslealdade e as ilegalidades com que os políticos, em geral, têm tratado as FAs e os militares; depois o continuado ataque à condição militar em todas as suas vertentes, que intentam destruir, por não lhes convir, não entenderem, ou não acharem necessária; em seguida, porque os militares não têm, há muito, hierarquia que os defenda; finalmente por não haver aviões para voar, navios para navegar e homens para comandar!

Hoje em dia, só quem não sabe ou gosta de fazer mais nada; não arranja emprego, ou ainda julga que pode desviar o eixo da terra a fazer flexões de braços, é que permanece na Instituição Militar. Quem tem condições pira-se (é o termo), num fósforo!

As intenções governamentais – e nisto o PSD/CDS têm-se revelado mais perniciosos e perigosos para a IM, porque são mais metódicos e cínicos a fazer as coisas, ao contrário dos socialistas que são desastrados a lidarem com fardas – devem ser, para já, como segue:

Meter o Exército inteiro, a três batalhões (menos), em Santa Margarida; a Marinha fica circunscrita ao Alfeite (onde já está), com alguns pontos de atracagem espalhados pela costa, ficando à espera que os navios encostem todos, à excepção de dois patrulhas para a busca e salvamento; e reduzirem a FA a duas bases, provavelmente Monte Real (que diabo a Nato até gastou lá uma palete de massa), e Beja, digo Montijo, já que não dá jeito andar para a frente e para trás com o Falcon. E, claro, fazendo migrar o comando da Defesa Aérea para Madrid…

Isto numa primeira fase; imaginem o que será a segunda.

Voltemos agora ao CA para analisarmos o facto – de gravidade inaudita – do MDN ter interferido directamente nas atribuições de um chefe militar, neste caso, nas de gestão do seu pessoal.

Não está em causa se a decisão de nomear um determinado oficial para uma função, foi boa ou má – a função em causa obriga, até, que a nomeação seja ratificada pelo Conselho Superior de Defesa Nacional, o que ultrapassa o próprio ministro – mas sim a ingerência em âmbito que não lhe compete. Ainda por cima com o desaforo das implicações que a não autorização de promoções acarreta.

Tudo isto representou uma desautorização do CEMFA e sobre isto mais não digo.

O passo lógico seguinte, a ser dado pelo senhor ministro, será o de passar a colocar todos os comandantes de unidades e por aí abaixo. Não, não corro o risco de ser acusado de lhes estar a dar ideias, já há muito que estão mortinhos por fazer isso e só não põem um “boy”, ou uma “girl” lá deles, a comandar o Regimento de Infantaria de Viseu (em tempo de paz, claro), porque é manifestamente difícil – embora não impossível. Mas lá que gostavam…

Não contentes em terem transformado os chefes militares, na prática, em figuras decorativas – por terem vindo, paulatinamente, a esvaziá-los de todas as competências - ainda os querem transformar em “quartos secretários” do Presidente da Comissão Liquidatária (da tropa). E sabem que mais? Tenho esperanças de que se hão-de mostrar contentes com isso.

A iniquidade miserável do último despacho conjunto dos Ministros das Finanças e da Defesa, de 30/12 (que faz regredir os militares à tabela salarial de 31/12/09), só encontra paralelo na patética reacção (ou falta dela), da alta hierarquia militar, perfeitamente incompatível com aquilo que se ensina aos cadetes, na escola!

Fomos todos postos de castigo, voltados para a parede e com orelhas de burro.

Sem querer tirar a frase citada, do CEMGFA, do contexto em que foi dita, mas extrapolando-a, pode-se entendê-la como a síntese quase perfeita da atitude da generalidade da hierarquia militar, desde 1982[1] (depois de se terem zangado no dia 26 de Abril de 1974): “havemos de nos acomodar às situações que existam”.

Nem imagina o senhor general o alcance da verdade que agora lhe escapou.

Resta apenas saber o que acontecerá quando houver alguém que não se queira “acomodar”.

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[1] Data da promulgação da Lei 29/82, Lei da Defesa Nacional e das Forças Armadas.

A DEMOCRACIA E AS SOCIEDADES SECRETAS

Para os que não acreditam em bruxas (mas lá que as há, há), e a propósito da actual celeuma que por aí vai sobre serviços secretos, maçonaria, "Ongoing", etc., relembro o artigo que sobre a temática escrevi, em 3/8/2010.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

D. SEBASTIÃO, O DESEJADO (1554-1578?)

O personagem D. Sebastião é (isto é, tornou-se), uma das figuras mais controversas da História de Portugal e o seu desaparecimento no fim da batalha de Alcácer-Quibir, em 4 de Agosto de 1578, ainda constitui um dos maiores enigmas do nosso rico e conturbado destino comum.

Estarão os leitores, eventualmente, curiosos de saber porque começa-mos o ano a escrever sobre o “Encoberto”. Já lá iremos.

D. Sebastião, “desejado” como o crismaram, bem poderia ser chamado de “infortunado”. De facto nasceu no “fio da espada”, pouco tempo após da morte de seu pai, o príncipe D. João. Ficou sem a mãe, D. Joana de Áustria, pouco depois dos primeiros afagos, por razões políticas e muita desumanidade, que a obrigaram a regressar a Madrid (mãe e filho mantiveram sempre o contacto epistolar e através de retratos que a mãe pedia, sendo curial pensar ser esta a razão porque D. Sebastião é dos reis mais retratados entre todos eles).
Infortunado também, porque cresceu numa Corte dividida e cheia de intrigas, com uma avó castelhana (Regente) e um tio Cardeal, também regente (mais tarde Rei), já algo senil. Apenas teve sorte com alguns dos seus mestres. Como pano de fundo, um país ainda orgulhoso dos seus feitos, mas já em acelerada decomposição moral e material.
O infeliz desfecho da jornada marroquina – cuja razão de ser está longe de ter sido uma “loucura”, como muitos observadores “pouco atentos” teimam em classificar – fez voltar contra ele muitos autores por ligarem a derrota à perda da independência; a acção dos Filipes e a posterior historiografia espanhola, não lhe foram nem serão, por razões óbvias, favoráveis.
Por seu lado a Dinastia de Bragança, apesar de ter a sua origem na Casa de Avis, não tem por esta grande apreço, desde que D. João II fez degolar o 3º Duque de Bragança, mesmo estando este envolvido em alta - traição contra o seu soberano; além disso, durante a Restauração, a Casa de Bragança (entretanto reabilitada por D. Manuel I), encabeçou o salvamento do país e este estava unido à volta de D. João IV. D. João, este, que não poderia ser rei caso D. Sebastião fosse vivo ou aparecesse…
Finalmente, muitos dos historiadores liberais do século XIX a que se seguiram outros “democratas” da I República, quase diabolizaram o Rei - Menino, assacando-lhe incontáveis chagas físicas e morais. Neste âmbito se embrenharam, inclusive, alguns médicos arvorados em historiadores, cujas teses estão hoje desmentidas.
Houve de tudo um pouco, desde António Sérgio que se desqualificou ao chamar a D. Sebastião coisas como “pateta”, “imbecil”, “perfeito pedaço de asno”, “tonto”, “bobo”, “idiota”, “torpe”, “vil”, etc.[1]; até ao insuspeito Prof. Veríssimo Serrão[2] que, aparentemente, foi na onda do “diz-se”sem se ter tomado de cautelas.
Ora o jovem Sebastião – e aqui entra a razão deste escrito – escreveu um memorial, antes de fazer 14 anos – ou seja antes de ter sido coroado Rei – que quase se pode haver como um “programa de governo”, seguramente um código de conduta [3] ·.
Ei-lo, sendo os sublinhados de minha autoria:
    Terey a Deos por fim de todas as minhas obras, e em todas ellas me lembrarey delle.
     Em me deitando, e levantando, conta com elle muito particular.
    Cuidar à noite, em que falley naquelle dia.
    Trabalharey muito por dilatar a Fé.
    Favorecerey muito as coisas da Igreja.
    Armar todo o Reyno.
    Defender alfayas, e delicias.
    Fazer mercê a bons, castigar a máos.
    Não crer levemente, e ouvir sempre ambas as partes.
    Fazer justiça ao grande, e ao pequeno sem exceição de pessoa.
    Tirar as onzenas.
    Conquistar, e povoar a Índia, Brasil, Angola, e Mina.
    Todo o que me fallar deshonestidades, castigallo rijamente.
    Quando houver de fazer alguma cousa, comunicalla primeiro com Deos.
    Reformar os costumes começando primeiro por mim no vestir, e comer.
    Em negócios ter primeiro conta com o bem comum, e depois com os particulares.
    Tirar alguns tributos, e buscar modo, com que Lisboa seja abastada.
    As leys que fizer, mostrallas primeiro a homens de virtude e letras para que me apontem os inconvenientes, que tiverem.
    Levar os súbditos por amor, em quanto poder; ser inteiro aos Grandes, humano aos pequenos.
     As Commendas sirvão se a África.
    Não ter junto de mim, senão homens tementes a Deos.
   Devaçar dos Oficiais de Justiça, e Fazenda cada anno.
    Escrever a todos os Prelados, que fação dizer Missas e Oraçoes por mim, e pedir Jubileo ao Papa.
    Terey nos póstos do mar homens de confiança, e os que entrão, que não sejaõ suspeitos na Fé.
    As cousas, que naõ entender bem, communicallas primeiro com quem me possa dar parecer desenganado.
    Naõ dar, nem prometer nada, sem saber se he injustiça, ou mal feita.
    Mostrar bom rostro, e agasalhado a todos.
    Prover os cargos, e Officios em quem for para isso, e naõ por outros respeitos.
    Naõ desmayar nas dificuldades, antes ter mayor fé, e confiança em Deos.
    Tirar a cobiça.
    Mostrar sempre animo liberal, e naõ aquanhado.
    Gavar os homens, e cavalleiros, que tiveram bons procedimentos, diante de gente, e os que tiverem préstimo para à República, e mostrar aborrecimento às cousas a ella prejudiciaes.
   Naõ dizer palavras, que escandalizem, mayormente quando estiver agastado.
    Os meus Embaixadores andaraõ sempre vestidos à portugueza.
    Em todas as cousas, que fizer, terey primeiro conta com a honra de Deos.
    Serey pay dos pobres, e de quem naõ tem quem faça por elles”.
Ora o que este texto notável revela é um carácter forte, cheio de espírito de missão e uma invulgar soma de conhecimentos e bom senso, em tão jovem cabeça, perfeitamente incompatíveis com os defeitos que os detratores assacam ao “Desejado”.
Resta dizer que a “teoria” apontada pelo Rei foi posta em prática no seu curto reinado, e com invulgar determinação e sentido de justiça.
Permito-me, até, recomendar a sua leitura a todos aqueles que têm assento em edifícios bem identificados ali para os lados de Belém, S. Bento e na Gomes Teixeira. Ámen.

[1] “Ensaios” T. I
[2] História de Portugal, 3º Vol.
[3] Transcrito por D. António Caetano de Sousa, in "História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Lisboa, 1733; e citado por Mário Saraiva,in "Nosografia de D. Sebastião", Delraux,1980.