domingo, 20 de novembro de 2011

CONFERÊNCIA PROFERIDA NA SOCIEDADE DE GEOGRAFIA A 15 DE NOVEMBRO DE 2011

A GEOPOLÍTICA DA ANTÁRTIDA E OS INTERESSES NACIONAIS

“A identidade de interesses é o mais seguro dos vínculos entre Estados ou indivíduos”
Tucídides

INTRODUÇÃO
            O interesse efectivo de Portugal pela Antárctida é muito recente e partiu de “baixo para cima”. Quer isto dizer que a acção não teve origem em nenhum órgão governamental, mas resultou da acção de vários académicos e cientistas e do apoio de várias entidades e simples cidadãos comuns. Já vimos o posicionamento dinamizador que a Sociedade de Geografia teve em todo este processo.

            Terem os eventos esta origem não tem nada de mal – e sem dúvida é de louvar os protagonistas – quer dizer apenas, que foi a chamada “sociedade civil” a andar à frente do Estado e não este que determinou as coisas.

            Existe, todavia, consequências de tudo isto, sendo as principais que os eventos podem correr desgarrados; haver uma maior dispersão de esforços e uma falta de visão global (uma visão “polar”, se assim lhe quiserem chamar), para o tema.

            É, como em tudo, um caminho que se vai fazendo.

           O catalisador da presente evolução foi a comemoração do Ano Polar Internacional, em 2007/8, o que ocorreu pela 1ª vez em Portugal, e cujas iniciativas se prolongaram até 2009.

            Em Dezembro de 2007 foi lançado o Programa Polar Português, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) o que originou uma expedição de seis cientistas à Antárctida, em Janeiro de 2009.

            Os responsáveis por estas iniciativas avisaram, publicamente, que as investigações científicas portuguesas estavam muito limitadas pelo facto de Portugal não ter ainda ratificado o Tratado da Antárctida, o mesmo se passando com o estabelecimento de acordos internacionais.

            Por outro lado, durante a Cimeira Luso-Espanhola realizada em Zamora, em Janeiro de 2009, foi assinado um acordo de cooperação com a Espanha no âmbito da exploração polar.

            Na sequência, a Assembleia da República discutiu e aprovou, por unanimidade (entre 14/7/2009 e 9/11/2009), a Proposta de Resolução do Governo nº 139/X, de 9/7/09, que visava a adesão de Portugal ao Tratado da Antárctida (publicado no DR, I Série nº 217/X/1-19-11-2009).

            O pedido de adesão foi depositado em Washington, a 29 de Janeiro de 2010.

A Geopolítica e a Geoestratégia
“Não existem mais Alaskas à venda no mundo de hoje”
Cor. Walter Bischoff (Brasil)

            Vamos tentar dilucidar, em termos breves, os principais elementos que evidenciam a importância geopolítica e geoestratégica da Antárctida.    

1.      Em termos Físicos

a.       A Antárctida situa-se no Hemisfério Sul. Este hemisfério é considerado o hemisfério marítimo já que apenas contém 14,5% de terras emersas (ao contrário do Hemisfério Norte onde residem os restantes 85,7%. Por outro lado, os oceanos cobrem cerca de 81% da sua superfície. Tanto o Índico, o Atlântico e o Pacífico têm grandes constrangimentos geográficos a norte, mas para sul são extremamente abertos, sem qualquer limite geográfico definido até ao distante litoral da Antárctida. Daí que, em muitos casos, nem sequer se refere a existência do oceano antárctico. As águas que circulam em redor da Antárctida, formam a Corrente Circum Polar Antárctica. Estas águas movem-se segundo o sentido do ponteiro do relógio (visto do pólo sul) e vão tocando as correntes das águas temperadas dos oceanos referidos em latitudes que variam entre os 50º e 60º Sul, formando uma linha mais ou menos regular designada por Convergência Antárctica. Esta linha é uma zona de grandes temporais que dificultam a navegação. Deste modo, se quisermos definir o oceano Antárctico podemos considerar a convergência Antárctica como sua fronteira. A corrente circumpolar Antárctica sofre apenas um pequeno estreitamento entre a Terra do Fogo e a Península Antárctica, mas mesmo aqui a passagem de Drake tem 1000 km de extensão.

b.      É pois no centro deste autêntico “deserto” de água, que se encontra o Continente Antárctico. Este continente representa uma massa terrestre quase circular com um diâmetro médio de 4000 km. Representa 9,6% das terras emersas do nosso planeta, com uma área de 14.245.000 Km2, bastante superior à Europa (9.700.000 Km2). Daquele território apenas 2 a 3% não é coberto por neve, mas no Inverno o oceano gelado chega a estender-se por 800 milhas isolando o continente e duplicando-lhe a extensão. A altitude média é de 4000 m e o ponto mais alto chega aos 5150 m.

c.       A Antárctida dista 1000 km da América do Sul; 2500 km da Ilha da Tasmânia (junto à Austrália) e 4000 km da África do Sul. O Pólo Sul não fica no centro da massa continental mas mais próximo do istmo da Península Antárctica. A temperatura média do continente, é de -25º C, mas a estação russa de Vostok já registou temperatura de -88º C.O continente está dividido em Antárctida Ocidental e Oriental. Os gelos têm uma espessura média de 2000 m, chegando a 2400 m, nalguns pontos. Apesar disso no Pólo Sul apenas caem seis centímetros de neve por ano. A mil metros de profundidade, por exemplo, os gelos contam 1000 anos. Porém, na Península Antárctica chegam a cair dois metros de neve por dia. Se os gelos por acaso derretessem totalmente, calcula-se que o nível dos oceanos subiria 60 metros. Na Antárctida não há vegetação (apenas poucos líquenes e musgos) e todos os seres vivos alimentam-se exclusivamente no mar e do mar, que é dos mais ricos do globo.


2.      Recursos Naturais

a.       O maior recurso natural da Antárctida é, sem dúvida, a água. O continente possui 90% da neve e dos gelos do globo e 10% das reservas de água doce. Existe, inclusive, conhecimento de enormes lagos em profundidade, em temperaturas mais amenas.

b.      O segundo recurso mais importante é o peixe, os cetáceos e o krill - uma espécie de camarão pequeno que existe em grandes quantidades e que é um elemento fundamental em toda a cadeia alimentar. Possui alto valor económico e já é intensivamente explorado pela Rússia, Japão, Polónia e Chile. Algumas das aves existentes, são comestíveis.

c.       Finalmente, temos que referir os hidrocarbonetos e os minerais. Já se sabe que existem e têm valor comercial, mas está-se ainda longe de saber a totalidade das reservas existentes. À medida que o tempo passa e melhora a tecnologia existente e aumenta a necessidade destes produtos, tal irá, certamente, aumentar as cobiças e o desejo de explorar estes recursos o que, para já, está proibido por tratado. Para se ter uma ideia, já foram referenciados cerca de 200 minerais entre os quais ouro, urânio, prata, ferro, carvão, mica e manganês. Existem apreciáveis lençóis de gás natural e petróleo e isto apenas tendo sido feitas pesquisas nas regiões costeiras e na plataforma continental. Existem ainda algas com valor comercial e que já são exploradas pelo Chile e Tasmânia.


3.      Instrumentos Jurídicos

a.       O que de principal se passa na Antárctida é regulado pelo Tratado da Antárctida, de 1 de Dezembro de 1959, sendo doze os países signatários. Entretanto associaram-se ao Tratado como membros consultivos mais 16 estados, elevando o total para 28. Com o estatuto de não consultivos, existem 21 estados que ratificaram o tratado, o penúltimo dos quais foi Portugal, e o último a Malásia. Este é o primeiro estado muçulmano a fazê-lo. Basicamente o tratado obriga:

·         À desmilitarização da Antárctida e o seu uso unicamente para fins pacíficos;

·         À promoção da cooperação científica internacional (a qual é livre);

·         Ao congelamento das reivindicações territoriais em termos soberanos, existentes;

·         À afirmação do território como zona desnuclearizada e de protecção ambiental.

b.      Independentemente do congelamento das reivindicações territoriais, estas não foram abandonadas e constituem uma realidade que não pode ser escamoteada.

c.       O Protocolo de Madrid, de 1991.

Este protocolo proíbe a exploração de minérios na Antárctida por um período de 50 anos.
Existem alguns convénios relativos à preservação ambiental.

d.      O SCAR (Scientific Committee on Antartic Research – Comissão para a Investigação na Antárctida).

      Foi criada em 1971 e representa uma sociedade científica do Conselho Internacional das Uniões Científicas, que procura organizar um programa global de investigação e de divulgação de resultados obtidos. Existem actualmente cerca de 60 estações científicas da responsabilidade de 29 países diferentes.                                

e.       ONU.

      De quando em vez diferentes países têm levantado a questão da Antárctida na ONU, pretendendo que esta organização aumente a sua intervenção relativamente ao que se passa no “Continente gelado”. A maioria dos países signatários do Tratado de Washington tem, contudo, feito oposição a tais desideratos. Sem embargo, em 1990, foi decidido criar uma estação científica da ONU na Antárctida e estabelecer um programa de reavaliação ambiental no continente.


4.      Aspectos Estratégicos

a.    O tratado da Antárctida foi o primeiro tratado a definir uma zona do globo   livre de qualquer tipo de armas ou de qualquer utilização militar. Proíbe ainda experiências ou explosões nucleares, mesmo para fins pacíficos, bem como o depósito de resíduos radioactivos. Até hoje tudo isto foi respeitado.

b.   Da Antárctida pode-se controlar os estreitos de Drake e de Magalhães e exercer algum controle, embora remoto sobre a Rota do Cabo. Estes “choke points” são tão mais importantes, quanto a vulnerabilidade dos Canais do Suez e do Panamá, aumentarem. Com meios militares, logísticos e tecnológicos apropriados pode ser feito o controlo das rotas marítimas entre os oceanos Atlântico, Pacifico, e Indico.

c.    Os mares antárcticos têm constituído em diferentes conflitos, além de área de trânsito, excelentes refúgios para navios, nomeadamente aqueles empenhados em guerra de corso. Hoje em dia, a detecção por satélite, diminuiu muito essa importância, que se mantém válida para os submarinos, já que os mares continuam a ser opacos às ondas electromagnéticas e os satélites ainda não detectam objectos submersos. Lembra-se que os submarinos ingleses, durante a guerra das Malvinas, nunca foram detectados.

d.   A regulação futura da extensão da plataforma continental antárctica também deve ser acautelada para prevenir conflitos.

e.    A teoria da “Defrontação” desenvolvida pela escola de geopolítica brasileira, onde pontificou Theresinha de Castro, pode vir a criar novas tensões (como já criou), caso não seja harmonizada com o Tratado de Washington.

f.    A contestação da soberania inglesa sobre o Arquipélago das Falkland, por parte da Argentina, manter-se-á como um foco de tensão na região. O mesmo se aplica às reivindicações territoriais originais, da Inglaterra, Chile e Argentina, na península Antárctica, e que se sobrepõem umas às outras.

g.   Conforme a evolução futura, pode vir a levantar-se também, um conflito entre a Alemanha e a Noruega, dado que esta passou a reivindicar território, antes ocupado por aquela.

h. As rotas aéreas polares representam uma significativa economia para as ligações entre a América do Sul e até do Sul de África, a Austrália e restante Oceânia. Por exemplo na ligação entre Buenos Aires e Auckland, uma redução de 17.400 para 6.000 milhas.


5.   Âmbito Militar

Apenas para relembrar conflitos passados.

Já se referiu que durante as I e II Guerras Mundiais os mares antárcticos foram excelentes áreas de refúgio.

      Nestas duas guerras, as primeiras batalhas navais foram travadas entre navios que cruzavam os mares do Sul dos Continentes Americano e Africano: as batalhas de Coronel, em 1 de Novembro de 1914; Rio de Prata, em 13 de Dezembro de 1939. Durante o conflito das Falkland entre a Argentina e o Reino Unido, a importância estratégica do arquipélago esteve sempre presente.


6.      Diversos

a.    Climatologia

A Antárctida constitui um observatório privilegiado para a observação e estudo do clima. Alterações no clima desta zona do globo podem vir a afectar a restante superfície da terra.

      Eventuais experiências para se poder utilizar as alterações climáticas como uma arma devem ser cuidadosamente vigiadas. Para além do clima e dos fenómenos meteorológicos a Antárctida revelou-se ser um laboratório precioso para estudos oceanográficos, ionosféricos, cósmicos, magnéticos, etc.

b.   Turismo

      O turismo na Antárctida é uma actividade em expansão na última década e o seu interesse comercial tenderá a aumentar (já desembarcam por ano, cerca de 10.000 turistas na Península Antárctica).

      Esta actividade terá que ser regulamentada antes de vir a criar eventuais tensões entre Estados e, também, para prevenir e tratar os seus efeitos sobre o ambiente. Recorda-se, como exemplo, que em 1989 um navio turístico e abastecedor argentino naufragou e, durante dois anos, foi vertendo 680 mil litros de fuel.

d.      Em todas as considerações e análises sobre a Antárctida existem quatro considerações que devem estar sempre presentes:

- A distância e o isolamento;

- As condições extremamente agrestes para a sobrevivência humana;

- A adequação e as adaptações que são necessário fazer para garantir o funcionamento de todo e qualquer material e equipamento em tão extremas condições:

- O elevadíssimo custo de qualquer operação.

Tudo isto representa um extraordinário conjunto de desafios e limitações, que não podem ser encarados de ânimo leve.

A Posição de Portugal
“Não temos de fiarmos de outras potências mas sim de nós próprios”
D. João V

            Com as devidas distâncias e proporções a “corrida” ao Continente Antárctico assemelha-se à corrida a África no Século XIX, e o Tratado de Washington, configura a Conferência de Berlim de 1884/5.

            Ora já em Berlim nós fomos amplamente prejudicados quando os direitos de “ocupação efectiva” se sobrepuseram aos direitos históricos. Quer isto dizer, no âmbito tratado, que para se poder usufruir de algo é preciso estar e desenvolver capacidades.

            Portugal esteve fora deste “corrida” até 2010. Como se deve posicionar daqui para a frente?

            Vejamos, em primeiro lugar, que interesses poderemos ter lá:

            - Não ficar de fora da exploração, conhecimento e usufruto de uma das últimas “fronteiras” da Terra; ou seja projectar poder (mostrar a bandeira) e interesses, marcar posição. Prever é uma função de qualquer liderança esclarecida;

            - Investigação científica;

            - Riquezas do subsolo;

            - Recursos piscícolas;

            - Acesso a reservas de água doce (nunca se sabe...). A água tende a ser mais preciosa, no futuro, do que o petróleo.

            Ora tudo isto parece, ou pareceu, uma aventura para além das nossas possibilidades. Devo dizer que os portugueses só se dão bem com objectivos que aparentemente os ultrapassam.

            Mas, de facto, não nos devemos, nem podemos, partir para o paralelo 60 Sul sozinhos. Aliás, mesmo antes de aderirmos ao Tratado da Antárctida se procurou fazer acordos e parcerias com vários países para projectos científicos. O maior de todos foi efectuado com a vizinha Espanha, na citada Conferência de Zamora.

            Devemos procurar ter as melhores relações com o país (único) vizinho e não devemos fechar as portas a acordos que nos sejam favoráveis. Mas a História e a Geopolítica não aconselham a que se façam acordos de âmbito estratégico com a Espanha, por razões que me dispenso de enumerar.

            Tão pouco se deve, na Europa, ir além de cooperação científica, acesso a conhecimento de ponta e eventuais financiamentos específicos. E isto na base de acordos bilaterais e não no âmbito de Bruxelas, pois acreditamos numa de duas coisas: ou Bruxelas se despedaça ou avança no caminho federativo. Ambas as soluções são péssimas para Portugal, embora a segunda seja pior que a primeira.

            A grande alternativa de Portugal neste âmbito, como em outros, deve ser o Brasil e, por extensão, a CPLP. É aqui que deve residir a nossa grande aposta estratégica e a sinergia de acções.

            Neste particular nós devemos utilizar uma postura semelhante à que a Inglaterra tem com os EUA: estes têm os recursos, a tecnologia avançada, a dimensão; os ingleses dão a doutrina. É nesta mais - valia e mestria que nós temos que desenvolver e apostar. A partir daqui é necessário envolver Angola e Moçambique que estão de certo modo projectados geograficamente para o Continente “Branco”, e depois cada um dos outros.

            Esta política seria boa para todas as partes, aumentaria a influência de Portugal no âmbito europeu e mundial e, especificamente, na Conferência Ibero-Americana.

            O programa polar brasileiro iniciou-se em 1984 e nada deve ao espanhol que se iniciou quatro anos depois. Não tenho tempo para me debruçar sobre cada um deles.

            Sendo de louvar todo o esforço que tem sido feito pelos cientistas portugueses até agora, deveremos tentar fazê-lo convergir para o desenvolvimento da economia nacional, prioritizando a afectação de recursos, que são escassos.

            Os interesses nacionais passam ainda pela complementaridade dos estudos na Antárctida e a extensão da Plataforma Continental Portuguesa, acrescida da extensão das plataformas continentais dos outros países da CPLP.

            E, até, da complementaridade do desenvolvimento da tecnologia de satélites, que Portugal infelizmente abandonou, com o POSAT1, e onde deve entrar, novamente, o Brasil e a CPLP.

            Finalmente devemos tentar constituir uma base de dados sobre a Antárctida e garantir a formação de núcleos de cientistas e de especialistas em Direito e na Geopolítica da Antárctida, que nos permita dominar os assuntos no âmbito tratado, estar presente nos “fora” relacionados e trocar “serviços”.

            Quando já tiverem sido criadas um mínimo de capacidades e houver recursos financeiros, deve ser adquirido um navio oceanográfico especialmente concebido para os mares antárcticos (de preferência em estaleiros nacionais) a ser operado pela Armada e que permita melhor concretizar os projectos aprovados.

Conclusão
“Não há vento favorável para aquele que não sabe para onde vai”
Séneca

            Face ao exposto, aparenta ser pertinente montar uma estrutura ao nível adequado do Governo, para organizar, coordenar e tornar operacional um plano português para a Antárctida e que trabalhe em função do Conceito Estratégico de Defesa Nacional, definido.

            Torna-se necessário manter um nexo político que privilegie a Segurança, já que não há desenvolvimento sem segurança. É necessário harmonizar toda a investigação científica e restantes actividades relativamente aos objectivos definidos e às estratégias traçadas. Não deve haver actividade deletéria na investigação já que não faz sentido fazer-se investigação pela investigação.

            Os recursos são escassos e há que os aproveitar criteriosamente.

            Na Antárctida tem, felizmente, prevalecido uma convivência única, na História da Humanidade, entre todas as nações que têm visitado e estabelecido na região. Mas todos devemos ter a consciência que este equilíbrio se pode romper em qualquer momento.

            Vale o pensamento deixado por um viajante, no livro de visitas da Base Uruguaia de Artigas:
Talvez a novidade de que os ventos antárcticos levarão ao mundo não seja o fruto das nossas pesquisas, senão a da nossa vida em harmonia com a natureza e a convivência fraterna entre os povos. Cremos que as gerações futuras, com espírito mais sereno, valorização a riqueza do descobrimento da paz

A Alemanha e a Antárctida

            Reservei ainda cinco minutos para vos falar de um assunto controverso e de contornos mal definidos: as reivindicações alemãs sobre a Antárctida, na IIGM.  

            O início da exploração alemã da Antárctida remete-nos para o ano de 1873, quando a Sociedade Alemã de Pesquisa Polar, enviou uma expedição com um navio – o Grönland – o 1º navio a vapor em águas polares – chefiada por Eduard Dallmann Esta expedição descobriu numerosas novas regiões incluindo as ilhas Kaiser Wilhem.

            Outras expedições se seguiram, das quais se destacam a comandada por Wilhelm Fichtner, em 1910, e a dirigida pelo Dr. Albert Metz, em 1925.      

            Durante o governo nacional – socialista, foi tomada a decisão de enviar uma grande expedição, em 1938, sob o comando do Capitão Alfred Ritcher, com o intuito de anexar o território que pudessem reivindicar e inclui-lo na soberania alemã.

            A expedição partiu de Hamburgo, uma semana antes do Natal de 1938 e chegou ao continente branco a 19/1/1939.

            O navio utilizado foi o “Schwabenland” que haveria de dar origem ao nome dado ao novo território “Neu-schwabenland”.

            Este navio estava colocado na ilha do Faial, Açores, dando apoio aos hidroaviões da Lufthansa que faziam o percurso entre Berlim e Nova York.

            Após receber ordem secreta da Alemanha, o navio abandonou os Açores a 19 de Outubro de 1938 e dirigiu-se para Hamburgo a fim de ser rapidamente preparado para rumar à Antártida com 82 homens a bordo, alguns deles altamente qualificados e dois hidroaviões pesados, que eram directamente catapultados do convés do navio.

            Esta expedição reivindicou a posse de 600.000 km2 de território na parte atlântica da Antárctida, depois de terem explorado, cartografado, fotografado, medido e delimitado tudo o que puderam, numa área maior do que a Península Ibérica.

            O navio estava de volta à Alemanha, em 11 de Abril de 1939.

            Esse território foi reivindicado pelo Governo Alemão, da altura.

            Uma segunda expedição civil gorou-se por via do início da II GM.

           Neste ponto acaba aquilo que é oficialmente admitido, embora escondido.

            O que vou dizer a seguir são hipóteses não confirmadas, para alimentar a vossa curiosidade intelectual e a ter em conta em eventuais investigações/desenvolvimentos futuros.

            Como poucos saberão ou recordarão, a Alemanha é o único país contra quem as potências aliadas lutaram na II GM que, até hoje, não teve tratado de Paz.

            Tal deveu-se, provavelmente, ao facto do Almirante Doenitz, nomeado chefe do governo alemão, após o desaparecimento de Hitler, ter ordenado a rendição de todas as forças militares alemãs, sob o seu comando. O que se deu pela assinatura do General Jodl, na frente leste, relativamente aos soviéticos e pelo Marechal Keitel, na frente ocidental relativamente a americanos, ingleses e franceses.

            Este procedimento foi corrigido, relativamente à guerra na Pacífico, onde se obteve a rendição incondicional do Japão e não apenas das suas FAs.

            O que é que isto terá a ver com a Antárctida perguntarão? Tem isto: na possibilidade do governo alemão ter preparado a sua sobrevivência em caso do território europeu alemão, ser ocupado.

             A base, eventualmente, construída em Neu-Schwabenland, teria o nome de código “Base 211”, para onde teriam sido transportadas pessoas e materiais, durante a guerra.

            Estão oficialmente contabilizados 1153 submarinos construídos pelos alemães, na IIGM, em 11 cidades e 27 estaleiros. Destes foram destruídos 764, tendo morrido 30.003 homens! No fim da guerra foram autodestruídos 238 submarinos. Os restantes ter-se-ão rendido. São números impressionantes!

           Existem, porém, suspeitas de que muitos destes submarinos, ou outros não contabilizados, possam ter desaparecido sem deixar rasto.

            Ninguém sabia disto até que, em 15/1/1947, uma grande expedição militar americana, comandada pelo Almirante Byrd – célebre explorador dos pólos - a operação Hihg Jump, que compreendia 13 navios e 4.700 homens e muitas aeronaves, chegou à Antárctica, perto da costa oeste da Neu-Schwabenland.

            Ao fim de poucas semanas (fim de Fevereiro de 1947) as forças retiraram, quando estava previsto permanecerem seis meses. Oficialmente tratou-se de uma expedição científica e para construir a base de “Little América IV”; oficiosamente conhecida pela “guerra dos pinguins”, já que apenas existem pinguins na Antártida…

            Em 1955 os americanos voltaram à Antárctida com uma task force de 12 navios, 3000 homens, 200 aviões e 300 veículos. Operação “Deep Freeze I e II”, tendo construído várias bases.

    Existem notícias de que, em 1958 (em Ago/Set.), os EUA dispararam três mísseis com ogivas nucleares no Atlântico Sul (operação “Argus”), entre os paralelos 38º e 50º S, na longitude da República da África do Sul, o que tem sido negado oficialmente (e pode estar na origem do “buraco” de ozono).

            A República Federal Alemã que, recordo, é uma criação da Comissão de Controle dos Aliados, em 1949, que é uma “estrutura provisória sem Constituição, apenas com uma Lei - Base, aderiu ao Tratado da Antárctida, em 5/2/1979, como membro consultivo. Possui actualmente, desde 1981, uma estação científica – a estação Neumayer – no antigo território da Nova Suábia.

          O programa de desnazificação posto em prática na Alemanha, após o termo oficial da IIGM, confiscou todas as publicações relativas aos eventos antárcticos alemães, no período considerado. E silenciou o assunto.

          Quem na Alemanha, hoje em dia, falar sobre este tema arrisca-se a ser preso.

          E disse.

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Bibliografia
Bischoff, Valter - “Antárctica”, trabalho de pesquisa apresentado Colégio Interamericano de Defesa, Washington, DC, Maio de 1996.
Daenhardt, Rainer - “Dos Açores à Antárctida”, Publicações Quipu, Lisboa, 1998.
Gaspar, Pedro J. da Mata - “As reivindicações Territoriais na Antárctida”, Mar de Letras Editora, Ericeira, Outubro de 2010.
Almeida, Valente de Políbio  - “Ensaios de Geopolítica”, ISCSP, Lisboa, 1994.

Revistas
Chacón, Manuel Trigo - “Presencia de La Armada Espanola en La Antárctida – antecedentes Históricos. La Naturaleza Jurídica de La Antárctida”, Revista General de Marina, Maio de 2011.
Sachetti, António E. - “Os Mares Antárcticos”, Anais do Clube Militar, Vol. CXXIV, Abril/Junho, 1994, pág. 245-346.
Ferreira, João J. Brandão - “Os Espaços Estratégicos de Interesse para Portugal”, Revista Militar, n.º 2510 e 2511, Março e Abril de 2011.
            - “Capacidade e Vulnerabilidades no Âmbito da Estratégia Militar, Revista Militar, Maio de 1995.
Sousa, José E, Borges de - “O Brasil na Antárctida – o Programa Antárctico Brasileiro “Proentar”, Revista de Marinha, Out/Nov 2009.
Centro de Comunicação Social da Marinha. “Poder Naval” – A Marinha do “Brasil”, Action Editora, Rio de Janeiro, 2006.

Conferências
Afonso, Paulo Manuel J. - “Antárctida – Uma Estratégia para Portugal”, Escola Naval, 25 a 29 de Novembro de 2002.

Documentos Oficiais
Tratado da Antárctida - Diário da República, 1ª Série Nº 217 de 9 Novembro de 2009.
Protocolo Adicional ao Tratado da Antárctida – Tratado de Madrid de 1991.
Memorando de Entendimento entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior da República Portuguesa e o Ministério da ciência e Inovação do Reino de Espanha, para a participação conjunta em investigação polar, 22/11/2009.
Ministério dos Negócios Estrangeiros (1985). Convenção da Nações Unidas sobre o Direito do Mar, Biblioteca Diplomática, série C, 1985, Lisboa.

Internet

sábado, 12 de novembro de 2011

A IMPORTÂNCIA DE EXISTIR UMA ACADEMIA AERO-ESPACIAL

“A toupeira não pode ter do mundo a mesma visão da águia”
Séneca

Apesar da sabedoria popular afirmar que “ninguém é bom juiz em causa própria”, não hesito em considerar esta ideia boa, pertinente e urgente.

A “causa do Ar/Espaço” está mal arrumada e dispersa na sociedade portuguesa e nunca ninguém lhe deu uma visão de conjunto. Não existe uma ideia consolidada do “Poder Aeroespacial” nos meios políticos, académicos, científicos e empresariais da Nação e a grande maioria da população tem destas coisas uma ideia pouco mais do que vaga.

Eis pois os fundamentos, área de acção e âmbito de uma futura Academia Aeroespacial (AA).

A Armada anda, neste âmbito, muito mais à frente do que outros, já que dispõe de uma Academia de Marinha, desde 1978, mas que tem origem, em 1969, no “Grupo de Estudos de História Marítima”, criado pelo Almirante Sarmento Rodrigues.

Sem ter que andar a “inventar a pólvora” a Futura AA poderia, facilmente, ser organizada em moldes semelhantes à Academia de Marinha, isto é (resumidamente):

Depender do Chefe do Estado Maior da Força Aérea (em Portugal é muito difícil um organismo deste tipo sobreviver sem apoios de entidades já existentes);

Ter na sua estrutura dirigente oficiais na reserva ou reforma, bem como outros membros civis de reconhecida idoneidade;

Estar instalada em unidade militar;

Estar aberta a membros do meio científico, académico e profissional, de algum modo ligado às actividades aeroespaciais, quer civis ou militares;

Ser alargada a membros correspondentes estrangeiros;

O acesso a membro estar condicionado a um número condicionado de vagas e regras definidas.

Apesar da aviação civil ser anterior à militar (o Aeroclube de Portugal foi fundado em 1909, enquanto a Aeronáutica Militar só foi fundada por lei de 1914), e de hoje em dia haver um conjunto de empresas de aviação comercial e outras associadas, aeroclubes, escolas de aviação, etc., cuja actividade e importância correm a par com a Força Aérea, sou de opinião de que a AA deve ficar inserida no seio desta. Não por qualquer espírito corporativo, mas por pensar que o Ramo militar tem maior capacidade para organizar e manter um órgão deste tipo e, sobretudo, por estar vocacionado para, no âmbito da ciência da Estratégia, fazer o estudo integrado do “Poder Nacional” de que o vector aeroespacial representa uma importante fatia. Ora as entidades civis, com o devido respeito, estão muito longe de reunirem o conhecimento e a motivação para tratarem este tema.

A AA constituir-se-ia, deste modo, numa academia de saber em que todos os assuntos relacionados com o Ar e o Espaço pudessem ser estudados, comentados e divulgados; um centro de reflexão estratégica sobre o poder aeroespacial e um repositório de conhecimento que poderia ser útil não só às Forças Armadas, como à sociedade civil e ao Estado.

A sua estrutura seria simples: uma presidência (direcção), uma secretaria, um órgão de apoio técnico, uma assembleia de académicos e um conselho científico.

Como órgãos de execução haveria secções de estudo, a começar por uma de História e outra de Tecnologia e, à medida que da sua consolidação, ir-se-iam constituir outras secções relacionadas com todas as matérias relevantes no âmbito aeroespacial: meteorologia, medicina, tráfego aéreo, estratégia, direito/legislação, aeródromos, etc. A partir daqui é todo um mundo que se abre.

Como particularidade, defendo que a AA deveria albergar também, ressuscitando-o, o “Cenáculo dos Carcaças”, um “clube/tertúlia” nascido, em 8 de Fevereiro de 1956, e que reunia, na altura, todos os pilotos do activo com 20 anos de brevet. Tal “cenáculo” deixou de existir a seguir à Revolução de Abril, sem que para tal houvesse alguma razão ponderosa.

Quanto às instalações propomos a Base Aérea 1, em Sintra, nomeadamente aproveitando as antigas instalações do Instituto de Altos Estudos da Força Aérea. Existe espaço, bibliotecas, messes, anfiteatros, bons acessos e amplo parqueamento, pessoal e outras estruturas de apoio.

Está-se lado a lado com a Academia da Força Aérea com as suas multi-capacidades, nomeadamente os laboratórios e capacidade de investigação. Além de que não é despiciendo poder-se contar com todo o seu corpo docente e discente a quem a maioria das actividades a desenvolver, certamente interessará.

Nas instalações da base existe ainda o novo Museu do Ar, transferido de Alverca e remodelado, e a que se teve a boa ideia de incluir, em espaços separados, mas contíguos, os museus da TAP e da ANA.

Numa palavra, trata-se de um espaço alargado onde se vive e se respira uma atmosfera aeronáutica!

Como alternativa pode ainda considerar-se as instalações do Estado Maior da Força Aérea, em Alfragide, que têm a vantagem de estar mais perto e Lisboa.

Cada realização tem um início, um começo, nasce com uma ideia; senão for agora, alguém que a corporize mais tarde.

Os tempos de crise não podem ser desculpa para a inacção. São tempos propícios à revelação de líderes; tempos para arregaçar as mangas e ultrapassar obstáculos; tempos, ainda, em que não havendo meios para expandir – ou sequer manter – as actividades aeroespaciais existentes, sejam elas quais forem, são tempos propícios ao estudo e reflexão do porvir, de exaltação e lembrança de feitos passados e de correcção de erros de percurso.

Para tal nada melhor, para o âmbito em questão, do que uma AA que, sem embargo de não possuir poderes executivos, pode ter a mais-valia de ajudar a colocar os problemas em perspectiva.

A AA não é uma duplicação de esforços, nem tira/ocupa o lugar de ninguém. Será uma “ferramenta”útil aos diferentes actores da causa do Ar e do Espaço, que em breve se transformaria numa verdadeira instituição.

A Defesa e Segurança é uma preocupação e exigência de sempre, sem a qual o desenvolvimento não é possível; a Aviação Comercial e as empresas de trabalho aéreo representam um sector muito importante do desenvolvimento económico e uma mais-valia social; o Espaço é uma das fronteiras do futuro, à qual não podemos ficar indiferentes, ou afastados.

Portugal tem muitos talentos e gente capaz, mas andam normalmente dispersos e o seu esforço não resulta, por norma, complementar, quando não se zangam ou antagonizam.

Os tempos (qualquer tempo), não se coadunam com semelhante estado de coisas. Há que harmonizar e dar corpo às boas ideias e intenções.

Aqui fica a ideia; aqui deixo o repto.

domingo, 6 de novembro de 2011

ALMOÇO DOS 40 ANOS DE ENTRADA NA ACADEMIA MILITAR DO CURSO ALVES ROÇADAS

28/10/2011

Dei algumas voltas à cabeça para me decidir sobre a maneira de vos dirigir neste dia (embora, ao contrário do Prof. Vidal, não tenha qualquer preocupação em não vos maçar…), mas, vendo bem, achei não haver grande dificuldade: bastava fazer uns avisos!

Mas, se porventura, a minha fala para vós bastaria assim, não posso, nem devo, colocar os ilustres convidados em tão estrito âmbito. É mister pois, saudá-los respeitosa e amigavelmente, realçar a sua presença, que nos distingue e confunde, evocar os ausentes e agradecer, penhorados, toda a contribuição que deram como mestres, conselheiros e camaradas mais antigos, para a nossa formação e para aquilo que somos hoje.

Aos oficiais cuja missão é a de continuar a gesta desta casa, um bem-haja pela disponibilidade e hospitalidade com que acolheram o curso Alves Roçadas.

Evocámos, de manhã, a excelsa figura de Sá da Bandeira, que apesar de ser dos mais ilustres do século XIX, ficou em marquês enquanto outros foram a duque! Queria ainda evocar o nosso patrono, o General Alves Roçadas e para isso vou ler-vos um pequeno trecho da “Ilustração Portuguesa” de 7/9/1914…

Quero, então, convidá-los a uma viagem atrás no tempo.

Quando entrei para esta casa, há 40 anos, o meu País – o nosso País – estava e em guerra e batia-se com galhardia.

Enquanto a rapaziada da nossa geração, universitária e não só, fazia greves, abanava os quadris pelas discotecas e curtia charros e baladas, os “tolos” que, por razões várias, tinham vindo parar à Amadora, entravam num ambiente austero e cheio de rituais e referências.

À porta do gabinete do oficial de dia estava um monge cavaleiro (a interpretação é literal), que, com ar façanhudo dizia: “Eu sou o vosso comandante de companhia”.

E logo o “candidato” mono estrelado destacado para receber “os abaixo de cão”, recém chegados, e perfeitamente apardalados (não tem nada a ver com o Prof. Pardal…), lá ia explicando, a caminho da camarata, que: a distância mais curta para o “infra” (nome pelo qual passaríamos a ser tratados), era a linha curva; que o devíamos tratar por “candidato” antecedido da palavra “senhor”; que os infras só tinham direito a uma coisa que era não terem direito a nada; elaborava sobre uma quantidade enorme de autorizações necessárias: para entrar, para sair, para deitar, para levantar, para falar, para retirar, para fumar, e outras tantas proibições. Enfim, a lista de enormidades prosseguia para gáudio e boa disposição daquela “autoridade”!

Foto de grupo
A acção psicológica e respectivo condicionamento tinha começado. Uma acção que os amigos do peito dos militares chamam, entre outros mimos, de “lavagem ao cérebro”… A mim, por ex., deu-me de tal maneira que nunca mais atinei! …

A seguir fez-se tudo em passo de corrida: fardamento, cantina, barbeiro, refeições, etc. A máquina de fazer “chouriços” tinha entrado em acção… Mas o pior ainda estava para vir. Como dizia Moniz Barreto “A um toque de corneta levantavam-se para obedecer; a outro toque de corneta se deitavam, obedecendo”. O problema maior é que, independentemente da corneta, o pessoal levantava-se e deitava-se a esmo.

As razões eram as mais diversas e, de resto, assaz louváveis: tratava-se de convites para visitar as “cagadeiras”; o campo de obstáculos, onde pontificava a vala; ou a encosta da carreira de tiro; verificar a higiene dos apêndices pedunculares de modo a garantir que ninguém dormia de botas; evitar que o pessoal dormisse de bexiga cheia, para o que se inquiria o Himalaia de caca se já tinha urinado; mais tarde, num gesto que se pode entender como de grande fraternidade e profilático, confrontavam-se aqueles pedaços de asno, com o número de vezes que tinham sacudido a gaita: por um lado para se ter a certeza que nenhum resquício infeccioso pudesse vir a afectar a glande; por outro, para prevenir qualquer libido menos própria de tão monástico ambiente. Uma mãe extremosa não chegaria a tanto!

Em simultâneo, serviam-nos uma instrução militar intensiva onde nos chocalharam os ossos e as entranhas e, até, uma carga a cavalo nos atiraram para cima.

Na segunda semana fomos presenteados com a visita dos nossos colegas, perdão camaradas mais velhos, perdão, mais antigos, que habitavam no palácio da sede e que nos vieram trazer o seu calor fraternal. Tudo rapaziada do mais fino recorte, como que acabados de sair de uma escola fundada pelo saudoso Padre Américo. Parecidos, até, com aquela gesta de fidalgos, tudo gente escorreita e limpinha, que acompanhou o João da Nova à Índia, em 1501…

Resultado, o infralhão andava esgazeado e mais parecia um conjunto de laparotos acossados pelos lobos que lhes tinham comido a mãe!

Naquela noite fatídica, resolvi baldar-me, mas a natureza foi madrasta para comigo e não me favoreceu os dotes no sentido de passar despercebido como o elefante de óculos escuros no Rossio. Resultado, fui contemplado com uma “completa de 30”. Da segunda vez o Sr. Candidato Roca apanhou-me a roncar na “sala das botas”, atrás de umas malas que lá estavam arrumadas. Aprendi a lição e nunca mais me baldei! Aliás, quando algum de vocês me telefona encontra-me sempre no meu posto de sentinela, pronto a defender a Pátria!

A gente divertia-se muito. Estou a lembrar-me da primeira vez que o infra Obus 14, foi tomar banho (estávamos para aí no sexto mês de casa…), toda a camarata o seguiu até ao duche!

E aquela do infra Pepélegal? Lembram-se era do Porto e mais gago do que permitia o regulamento. Azar dele, como tinha o número mais baixo (era o 18), ia quase sempre para a frente da formatura. Certa vez, num daqueles dias em que o pessoal estava “de # 3 sem nada por baixo, ai do último”, um dos nossos mais queridos educadores, vá-se lá saber porquê (talvez por pensar que assim aliviaria a pressão dos sacos testiculares), virou-se para o Pepelegal e ordenou-lhe:”Ó infra mande a formatura ir F….!

O desgraçado obedeceu: deu os passos da ordenança e disse, “A…aten-ção in…in…fra…lhão. Vão-se F….! E ficou a aguardar.

Célere, veio um vozeirão:”Ó infra você é uma besta, então você manda os seus camaradas irem F…. e você não vai? Mande lá isso outra vez!

Então o nosso Pepelegal voltou-se e disparou, “in…fra…lhão, va…va…mo-nos F….! A formatura não aguentou mais e desatou tudo a rir e, claro, F….-se mesmo.

Quando o comando entendeu que a mole infrática já estava suficientemente amassada, mandaram-nos jurar um decálogo, conhecido por “Código de Honra do Cadete”. No estado em que estavam, de resto, jurariam qualquer coisa…O primeiro passo importante.

E lá começaram as aulas. Agora é que a porca torcia o rabo! Juntar ao desbaste físico e psicológico acresciam doses maciças de derivadas, integrais triplos, correntes induzidas, geometrias espaciais, espreitadelas por teodolitos, eu sei lá que mais. Enfim, esoterismos!

Havia aqui um problema insanável, porém, que era o de manter as tropas acordadas. Qualquer esforço professoral era improfícuo: as pálpebras pesavam chumbo! As últimas filas do anfiteatro de física eram altamente disputadas, já que permitiam um rebatimento horizontal que ficava desenfiado das vistas do “IN”. Os professores, calejados por muitas recrutas, eram assaz condescendentes. Mas as notas no fim do ano não podiam evitar reflectir a usura causada. Quem sobrevivesse a isto, porém, estaria apto para tudo. Era essa, aliás, a intenção.

Ah é verdade, já me esquecia, no intuito de nos inculcarem preocupações ecológicas (verdadeira antecipação do Exército verde!), de nos plasmarem com a natureza e seus habitantes não primatas, enfiavam-nos num tugúrio, que em tempos tinha servido de antro aos “gloriosos malucos das máquinas voadoras”, convenientemente rebaptizado com o termo monárquico – marialva, de “Picadeiro”.

Nele, aguardava o Zé cadete uma pequena manada de ungulados, ainda por cima bestialmente chateados por os terem afastado da palha. Ao som de “aos seus destinos em frente marche, a cavalo”, um grupo de “baratas tontas”, tentava alçar a perna para cima das alimárias. Ao princípio levava algum tempo a conseguir formar bicha pirilau. Era um autêntico bailado para cadete: quando estes iam para cima vinha, normalmente o bicho para baixo e vice-versa. Ganhou notoriedade nesta especialidade, o infra Cueca.

O instrutor, personagem invariavelmente dotado da mais maviosa voz distribuía, constantemente, conselhos da mais elevada pedagogia, como eram os do pessoal dever guardar os “tomates” numa caixinha; não sair pela garupa do animal sem pedir autorização para desmontar; não se chegar demasiado à frente para evitar que o quadrúpede magoasse a pata quando intentasse algum contacto da sua ferradura com um dos membros do cavaleiro, etc. E tudo isto acompanhado de gestos corteses a que o brandir do chicote se assemelhava à batuta de um maestro!

Eu quero deixar bem claro, que a Equitação (era assim que se chamava àquelas aulas – certamente inspiradas no antigo coliseu romano), provocava um fenómeno interessantíssimo: eram as únicas aulas a que o pessoal ia assistir quando tinha algum furo! Que outra disciplina se pode orgulhar disto?

Na Educação Física e Militar o lema era “braços que nem trancas” (um dos lemas do nosso saudoso professor Vilar Moreira) e “a aplicação militar é linda” (é linda, é linda!); na instrução militar havia fogachada de bala de salva que fervia, não se poupavam joelhos ou cotovelos, nas “quedas na máscara” e não eram permitidas “mulheres grávidas”…

Na Ordem Unida ninguém mexia nem que chovesse picaretas ou passasse um carro puxado por mil pi--- pela boca (juro que não sei como se pode dar instrução, hoje em dia, às fêmeas…).

Jamais poderei esquecer, também, a aula de IMG (instrução militar geral) dada pelo “IN” cuja alcunha era a do Cap. Curado (aquele que só repetia as coisas uma vez), sobre a espingarda Mauser, cujo calibre era de 7,9m/m, repita – 7,9m/m, repita – 7,9m/m…

Com as aulas estabeleceu-se uma rotina: às 07:00L (escuso-me de falar em horas “Zulu”, já que o pessoal do Exército jamais atinará com isso), o homem mais odiado, no momento, soprava no clarim, provocando um choque sonoro nos tímpanos, desmoralizador de qualquer monge beneditino!

Depois a formatura do almoço: 1º, 2º e 3º pelotões prontos; 2ª Companhia pronta, 1ªCompanhia pronta; 1º Batalhão pronto….seguia-se desfile e deglutição.

A educação era primorosa, sendo o objectivo final conseguir que os “Apeninos de porcaria” ali chegados se pudessem vir a sentar à mesa no Palácio de Buckingam, com o à vontade de um príncipe!

Não se poupavam esforços: comer a sopa com a colher ao contrário; engolir 48 croquetes ou apenas uma azeitona (não esquecendo o palito); aguentar firme, uma súbita e catastrófica abundância de especiarias; trocar garrafas de leite vazias por outras cheias, sem o oficial de dia desconfiar; fazer provas de esforço com a ingestão de líquidos que na gíria da Manutenção Militar tomavam o nome de vinho, e mil e um outros exercícios retirados do manual de boas maneiras, eram uma prática diária.

Leiloava-se, ainda, qualquer aracnídeo que aparecesse no prato, no salutar intuito de melhorar a dieta proteica e chegava-se, até, (como nós devíamos estar agradecidos), a simular inícios de incêndio (imediatamente apagados), destinados a testar a capacidade de reacção do “candidatal”.

À noite havia a formatura de recolher. Era assim: o “Senhor aluno” Canelas, com ar muito sério, dizia,”Camarata, firme sê…op (ainda hoje estou para perceber porque é que nenhuma parte da camarata se movia e o infralhão se punha em sentido), “Camarata Pronta!”; feita a meia volta da praxe, a sopeira de dia (aluno de dia), ciciava: “Academia Militar, Amadora, o General Comandante determina e manda publicar”, e seguia-se o Canelas, “Camarata descan….çar,…à vontade”. Prosseguia a sopeira:”Detalhe de serviço, blá, blá, blá, e calava-se. Retomava o Canelas “Camarata, firme sê…op”; era a vez do infra “O Segundo Comandante João de Deus Mendes Quintela, Brigadeiro Piloto Aviador”.

E logo o Canelas (para o oficial de dia) “Dá licença?..., Camarata direita…er, destro…çar!”.

Os que estavam iam estudar, isto é pôr-se em frente ao estirador; os desenfiados seguiam o seu caminho, sempre com aquele sagrado lema que reza assim: todo o militar tem direito ao golpe, mas se for apanhado, lixa-se!

Os arredores da Amadora eram objecto, aliás, de frequentes “RVIS”. Quem é que não se lembra do “Lord Jim” e do “Bagdad”? Havia, no entanto, instruções estritas aos mais novos sobre o modo como se comportarem em público, que eram, de um modo geral, cumpridas. Havia, também, as habituais conivências académicas relativamente aos locais de desfardar e fardar, bem como ao melhor buraco que substituía a Porta D’Armas e, ainda, aquela coisa notável de camaradagem e espírito de corpo, que representava a proibição de se entrar no café Lubélia e que vinha de 1961, por causa de um incidente ocorrido naquela altura (o que era cumprido religiosamente).

De vez em quando era necessário tomar algumas medidas “pedagógicas” face a alguns comportamentos menos amistosos para com as fardas, aquela coesão funcionava às mil maravilhas. Pena foi que não se tivesse mantido pela vida fora, como devia ser timbre.

Por falar em aluno Canelas, lembram-se daquela vez em que o infra Porco-espinho, numa atitude de auto – flagelação, inspirada por um candidato, certamente para desconto dos seus pecados, veio anunciar, durante o silêncio da hora de estudo, que era…pane.….! (já por aqui se pode ver o pioneirismo do curso Alves Roçadas, quando antecipava o assumir actual de diversas figuras públicas da sua condição de pederastas…).

No seu covil, o aluno Canelas (chefe da camarata), soou-lhe mal esta frase e, mandando apresentar o dito cujo, submeteu-o a um processo alquímico, de resultados espantosos e rápidos. Pouco depois o Porco-espinho, qual Egas Moniz, de corda ao pescoço, clamava “eu já não sou pane…..!”.

À medida que o tempo ia passando as aulas iam-se tornando mais difíceis e os horizontes alargando-se a pouco e pouco, por meio de visitas, conferências, convívios, intercâmbios desportivos, actividades circum - escolares, etc. Trabalhava-se uma média de 10-12 horas por dia, isto claro fora as aulas e trabalhos práticos da 1000ª cadeira…

Por exemplo, a Direcção da Arma de Cavalaria ficava altamente agradecida quando lhe aparecia a contagem das porcas do carro de combate que “vigiava” a parada (permitia, desde logo, dispensar o sargento do esquadrão por uns dias e poupar uns garrafões de tinto…); a CHERET muito aprendeu na sua arte de decifração, com as cartas do Mouzinho escritas do fim para o princípio; os alunos mais antigos treinavam-se nas artes do Estado – Maior ao analisarem variadas ementas a cores que iam sendo produzidas a um ritmo diário, bem como outros trabalhos de alto coturno sobre temas variados como “o emprego do arame farpado na pesca do bacalhau”, ou “a importância do morteiro 81, em tiro tenso, na conquista dos pontos de cota mais elevada”, etc.

Os mais modernos treinavam-se nas técnicas das escolas regimentais, contando carneiros debaixo da cama; a engenharia militar deve parte dos seus sucessos na construção de edifícios militares às experiências feitas para se saber quantos infras cabiam dentro do espaço da casa de banho destinado a defecar; finalmente, a escola de limitação de avarias da Armada, muito beneficiou com as sucessivas experiências feitas e que, por qualquer razão estranha, tomaram o nome de “banho japonês”.

O nosso curso, caros camaradas, foi sempre muito aplicado. O exemplo supremo disso deve considerar-se o infra Pedregulho, o qual podia ser visto a altas horas da noite, qual D. Afonso VI, prisioneiro, passeando-se de um lado para o outro, em pijama, nas cagadeiras, de livro na mão, estudando. Ainda lá se deve poder vislumbrar a laje gasta (o rapaz nunca mais recuperou do esforço…).

Estas actividades paralelas, quando bem-feitas, eram um auxiliar precioso do comando e de toda a instrução.

Quando, por ex., a altas horas da madrugada, nos recônditos de uma camarata, um senhor aluno, cujo nome esqueci, perorava aos que ocupavam a posição de “homos érectus por uma aberração da natureza”, se ouviu um soldado gritar “sentinela alerta”, e outro responder “alerta está”, tal foi aproveitado para vincar aos infráticos que uma unidade militar nunca dorme, há sempre alguém de serviço e sempre alguém de vigia. A infralhada estava de rastos, mais morta que viva, mas estas coisas ficavam…

Hoje já quase não há infralhão e, porventura, rareiam aqueles que digam estas coisas e quanto às sentinelas, Vexas concluirão.

As cerimónias oficiais alternavam com as praxes académicas e, na verdade, complementavam-se. Felizmente nunca houve abusos ou exageros, como em várias outras alturas aconteceram. Assim, a Abertura Solene das Aulas, o Dia da Academia, as visitas oficiais, as guardas de honra, a apresentação de um novo comd., etc., alternavam com a apresentação de S. Exª o Marechal de Praxe, o S. Martinho, o Natal e o Carnaval do infra, etc.

Finalmente o Juramento de Bandeira (que, no nosso caso, foi algo escondido, em S. Margarida, ao contrário da tradição da casa), as manobras finais e o “banho infrático”.

Aquelas cerimónias representavam o culminar de uma ano de trabalho, para nós com algum ineditismo, pois fomos presenteados com alguma instrução tipo “comandos” (não fossem alguns dos nossos instrutores daquela especialidade), mas só se perderam as que caíram ao lado. No fim dos exercícios se nos tivessem mandado subir o Himalaia, a malta arrancava para lá.

O banho infrático simbolizava a aceitação da nossa integração plena no Corpo de Alunos por parte de todos os outros e tinha um significado importante, hoje também muito esquecido: é que a antiguidade é um posto e os direitos adquirem-se, não devem ser dados de mão beijada.

O Juramento de Bandeira foi o compromisso assumido para com a Nação e para toda a vida, ao mesmo tempo que passámos a ser um dos deles, sendo “eles” os militares de Terra, Mar e Ar.

Tudo fizemos com sacrifícios e muitos ficaram pelo caminho. Preparávamo-nos para integrar e, mais tarde, vir a comandar umas magníficas Forças Armadas de cerca de 250.000 H, espalhados por quatro continentes e outros tantos mares, que realizavam a campanha militar mais bem sucedida desde os tempos do Senhor D. Afonso de Albuquerque. Passados 40 anos estamos reduzidos a menos de 40000H; três a quatro pequenas unidades no exterior esgotam quase por completo as nossas capacidades. Estamos a entrar em falência técnica e, há muito – mesmo há muito - que deixámos de ser considerados como “os melhores de todos nós”…

Tenho esperança que venhamos a ficar bem piores…

Aliás, o que se pode esperar que aconteça a umas FAs que têm as suas promoções congeladas, sine die, sem qualquer justificação – que, de resto, não é possível existir – e ninguém reage?

É por isso que o nosso curso pretende dar o seu contributo para a resolução da “crise” e, após consideração pelo soberano chanceler do Conselho Majestático das Ordens e Veneras do Curso Alves Roçadas, Exº infra Doninha Fedorenta, devidamente acolitado pelo Vice-chanceler, EXº infra Maconde, decidiu por unanimidade – após engalfinhamento violento, físico e verbal, atribuir pelos (des) serviços prestados, aos DRs Teixeirinha dos Santos e Santinhos Silva, a medalha da merda de 1ª classe, sem palma, (feita com as mais finas merdas e odoríficos dejectos), destinada a galardoar os cidadãos que mais porcaria causam com os seus ditos e obras;

E, ainda, condecorar os DRs. Carlinhos Gaspar e Aguiar Branquinho, com a ordem paisana da tristíssima figura, do caga agora, tira e põe – grau peonagem – (fabricada com os mais escolhidos despojos das estrumeiras a céu aberto), destinada a premiar os cidadãos que inventam, ou propõem coisas que não lembrariam ao Estado-Maior. (Vai autenticado com o selo branco).

Peço a vossa indulgência por ter feito este parêntesis mais sério. Mas 40 anos são, também, uma data séria: se, por um lado, nos dá alguns pergaminhos, por outro, acrescenta-nos responsabilidades.

A engrenagem das organizações costuma triturar os mais fortes ideais e a roda da vida provoca um grande desgaste, que aos 18 anos não se suspeita.

O que conseguirmos deixar aos vindouros será fruto do modo como conseguirmos ultrapassar o atrás citado e o que nos restar de força anímica depois disso.

Faltam 10 anos para os 50.

Fica a promessa de vos vir ler novamente este texto, e de gritar agora e sempre


“Academia, Academia, Academia ………………Militar”.

João J. Brandão Ferreira
TCorPilAv (Ref.)
(Das mui antigas, nobres, por vezes gloriosas, mas… quase extintas FAs Portuguesas)

Fotos cortesia da Academia Militar

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

XX COLÓQUIO DE HISTÓRIA MILITAR

De 15 a 18 de Novembro, no Palácio da Independência, sede da SHIP-Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no Largo de São Domingos, 11, ao Rossio, em Lisboa (tlf. 21 324 14 70).

Clique AQUI para ver o PROGRAMA.

ENTRADA LIVRE

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

PORQUE É QUE NÃO NOS REVOLTAMOS?

Maria da Fonte
“Um povo que tenha a coragem de se manter pobre, é invencível”
Oliveira Salazar

A citação encerra uma profunda e antiga sabedoria, mas depara-se com um problema sério derivado da natureza humana: é que toda a gente – à parte uns quantos “franciscanos” – o que pretende, é ser rica. E, quanto aos povos, aplica-se aquele trecho do Antigo Testamento que reza assim: “nenhuma cidade cercada resiste a uma mula carregada de ouro”…

Este último libelo explica, em parte, o facto da Nobreza e do Alto Clero terem cedido tão facilmente às teses de Filipe I, e é contumaz aos actuais iberistas e fascinados pelas teses de Bruxelas!

No fundo, a sempre presente dualidade entre os bens e os valores espirituais e os materiais; ou se quisermos, a eterna luta entre o Bem e o Mal. É a adoração do “Deus Mamon” (o dinheiro), em detrimento do Deus dos crentes, da Justiça e do Amor, o qual não se cinge à Troposfera mas está, sobretudo, para além dela.

O Deus Mamon apoderou-se da sociedade portuguesa, do mesmo modo que, do anterior, se tinha apoderado de todo o Ocidente, e com muito poucas peias.

A actuação dos políticos, ignorantes ou comprometidos, ávidos de votos, e a acção da propaganda e dos “média” atearam os eventos a um ritmo alucinante.

Hoje o sonho do crescimento económico constante e imparável acabou e o mito do crédito fácil e barato, para sempre, terminou da pior forma. Como é da natureza das coisas.

As pessoas estão a acordar de um pesadelo súbito (embora mais do que anunciado), e não abriram bem os olhos de estremunhadas que estão. Esta é a primeira razão porque não se revoltam.

A segunda razão tem a ver com a ignorância, a falta de informação e a desorientação dos espíritos. Numa primeira fase, os cidadãos, estão a ver se percebem o que se passa e como vão ser afectados e sobreviver. Enquanto o mal for só, ou maioritariamente, dos outros e, ou, não atingir proporções calamitosas, a prioridade irá para a acomodação e para a limitação de estragos. Quem tem algo a perder, quer perder o menos possível e isso inibe-os de actuar. É uma atitude egoísta, certamente mas, sem embargo, muito típica do género humano.

Em terceiro lugar existem ainda muitas “almofadas” que, apesar de estarem a ser exauridas rapidamente, ainda dão aconchego e esperança a muitos. Quero referir-me a reservas existentes (apesar da poupança interna ter descido a mínimos históricos); aos subsídios de desemprego e do rendimento mínimo garantido; à “casa dos pais”; à diminuição do fluxo imigratório e ao abandono de muitos imigrantes do território nacional; ao aumento da emigração (os portugueses voltaram a emigrar às dezenas de milhar), etc.

A perda de hábitos de trabalho, organização e disciplina, bem como a falta de qualificações e a falta de interesse por muitos mesteres essenciais vai, também, levar o seu tempo a resolver.

Finalmente, e mais importante, as pessoas estão, aparentemente, “mansas” e pouco activas na indignação, por uma questão psicológica ponderosa: estão de consciência pesada!

Isto apesar da grande fatia da responsabilidade não lhes caber.

Porquê aquele sentir?

Porque, simplesmente, durante mais de 30 anos (não são 30 dias), viram este “filme” correr frente aos seus olhos e fingiram que não viram. Levaram demasiado tempo a perceber que os políticos actuavam demagogicamente, mentiam e não cumpriam as promessas que faziam. Isso era, porém, adequado às suas ilusões. Que diabo, quem é que gosta que o confrontem com a dureza da verdade? E, a partir de certa altura, em quem votar?

Por isso enquanto se verificou o “venha a nós o vosso reino”, quase todos se acomodaram e muitos bateram palmas: havia que usufruir dos subsídios a esmo; dos fundos de coesão, aproveitados para tudo menos para o que deviam; do cartão de plástico. O futuro que se danasse!

Ora se “todos” faziam assim, era agora “eu” que me ia opor, ou não seguir o exemplo? Maria vai com as outras, eis o ditado popular no seu esplendor; se os outros têm, eu também quero ter…Deixar andar, etc.

Um “etc.”que até fez com que se fechasse os olhos ao aumento exponencial da roubalheira, da corrupção, do crime organizado, da bandalheira. Andar para trás nisto não vai ser fácil, mas vai ser essencial.

Daí que, os poucos que alertaram para o desvario e o descalabro, fossem ignorados, ofendidos e apelidados de “profetas da desgraça”. “Tremendista” era outro dos termos usados.

Por tudo isto as pessoas que, no fundo, não são burras e têm consciência, estão de monco caído e muitas à beira de um ataque de nervos.

Lembram-se da desgraça da “Descolonização”? Pois ela deu-se e quase todos nós ficámos, outrossim, de má consciência. A libertação de Timor do domínio indonésio e a reacção do País, funcionou como uma espécie de catarse colectiva de expiação de culpas, a essa má consciência. Lembram-se?

Assim nos desgraçámos e nos deixámos desgraçar, agravado pelo facto de sermos relapsos a aprender, de que não temos de nos queixar a não ser de nós próprios.

As pessoas, de um modo geral, não gostam de ouvir estas coisas – razão primeira pela qual ninguém as diz na televisão – mas são verdades cristalinas e incontornáveis.

A próxima catarse colectiva vem a caminho, só não se sabe é como nem quando.