quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

JOSÉ MOURINHO UM PORTUGUÊS DE QUINHENTOS

Publicado no jornal "O Diabo" de 25 de Janeiro de 2011

“Deus deu aos portugueses, um leito estreito para nascer e o mundo inteiro para morrer”
Padre António Vieira

Quem acompanha os meus escritos sabe que gosto de futebol, mas sou muito crítico relativamente ao que se passa no futebol português.

Mas hoje ao ver José Mourinho (JM), ganhar o prémio da FIFA, de melhor treinador do mundo, confesso que fiquei muito contente. Contente, não só por ver o reconhecimento de uma excelência num determinado campo profissional de um compatriota mas, sobretudo, porque JM fez questão de agradecer o prémio na língua portuguesa e ter afirmado o orgulho na sua nacionalidade. Isto, nos tempos que correm, não tem preço! É um gesto semelhante àquele do General Rocha Vieira, quando encostou ao peito a última bandeira portuguesa que tremulou em Macau. E os gestos são tanto mais importantes quanto mais espontaneidade revelam.

JM não parece um português de agora, tristonho, desmoralizado, descrente das suas capacidades e da vida, sem garra, corrompido nos seus valores; JM parece um português de 1500, inebriado pelas façanhas de Gamas, Albuquerques, Almeidas e Cabrais, pujante, cheio de confiança em si, sem medo de enfrentar Adamastores, fossem eles quais fossem, com Fé no seu destino e cônscio de uma missão que o ultrapassava.

O português de 1500, não receava os estrangeiros e impôs-se-lhes, tal como JM, a quem as fronteiras nacionais um dia constrangeram.

Dizem que JM é arrogante. Não sei se será nem o conheço pessoalmente para ter uma ideia definitiva. Mas não creio que seja. Direi que parece arrogante, mas que o faz por táctica. Uma táctica, aliás, arriscada. Mas o gosto do risco está-lhe na massa do sangue…

Quem por outro lado se emociona com gestos ou palavras, não me parece que seja arrogante. Quem sabe ouvir, também não pode ser arrogante. O que as pessoas se desabituaram foi de assumir a sua auto confiança em público, a encobrirem as suas convicções, a adaptarem o discurso a conveniências.

Por isso, afirmações de JM podem chocar e destoam. A sociedade habituou-se a que a hipocrisia fosse o juro que o vício paga à virtude…

JM só tem de ter a modéstia interior de não se julgar superior a ninguém (pecado que feriu alguns portugueses, século XVI fora) e isso não é incompatível com ser o “special one”.

A inveja vai ser o seu pior inimigo e terá que se blindar contra isso. A aparência da arrogância pode ser parte do processo.

JM é um bálsamo para o país, mesmo quando abraçou aquela ideia absurda, da Federação Portuguesa de Futebol, de o pedir emprestado, por umas semanas, ao Real Madrid para retirar a selecção nacional de apuros. Ele o fez, aparentemente, por patriotismo e por acreditar que poderia ajudar o “onze” português a não ser eliminado do próximo mundial. Mesmo correndo o perigo de ser acusado de ingénuo e de possíveis más reacções dos castelhanos. Estamos em crer que treinar a equipa das quinas é um objectivo muito desejado (não lhe chamaria obsessão), que um dia se realizará e que se deve encarar como natural e não com expectativas sobrelevadas.

JM foi bafejado com dotes de liderança e devia ser exemplo para políticos, sobretudo para aqueles que são falhos de uma Ideia de Portugal; que não respondem à letra a ataques ou indelicadezas de chefes estrangeiros; que genuflectem a cerviz perante Bruxelas ou quaisquer outros interesses estrangeiros; que se afirmam publicamente iberistas (o que configura até, um crime de traição à Pátria), que insistem em falar “castelhanês”, e daqueles que se consagram à guerra civil permanente político – partidária.

E deve também ser um exemplo para todos nós, pois encara a vida de frente, subiu a pulso e soube aproveitar as oportunidades surgidas. Possui carácter e valores e não se lhe conhecem vícios nem vilanias.

Devíamos promover a emergência de Mourinhos em todas as áreas da vida nacional e valorizá-los.

Virou moda em Portugal, afirmar-se que “a minha Pátria é a língua portuguesa” (invocando Pessoa – normalmente só no que lhes interessa). Não concordo nada com esta afirmação, já que a “Pátria” é muito mais do que a língua.

Mas ao ouvir esta última expressão de Mourinho, em bom português, vou esquecer, por esta vez, essa minha convicção.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

MALANGATANA E PORTUGAL

Malhas que o Império teceu...
Malangatana Ngwenya Valente
  Malangatana, artista plástico e poeta moçambicano de envergadura internacional, faleceu em Portugal, a 5 de Janeiro. Paz à sua alma.

Malangatana (M), nasceu português, em 6 de Junho de 1936, na vila moçambicana de Matalana, uma povoação do distrito de Marracuene. Aprendeu a ler e escrever numa missão suíça protestante e acabou a instrução primária na escola da missão católica, em 1948.

Com 12 anos mudou-se para Lourenço Marques onde ganhou a vida em diferentes trabalhos humildes. Acabou sendo criado no Clube de elite da capital provincial, o que lhe permitiu estudar à noite, nascendo aqui o seu gosto pelas artes e tendo como mestre Garizo do Carmo. Um dos membros do Clube de Ténis, Augusto Cabral ofereceu-lhe o material de pintura.

Em 1958 “M” ingressa no “Núcleo de Arte”, uma organização artística local, onde teve o apoio do pintor Zé Júlio. No ano seguinte faz a sua primeira exposição e passa a artista profissional, o que só foi possível devido ao apoio e incentivo do arquitecto Miranda Guedes, que disponibiliza a sua garagem para atelier e lhe compra dois quadros por mês. Como era cruel a colonização portuguesa…

A carreira de “M” prossegue e tem outro marco importante na sua primeira exposição individual, no Banco Nacional Ultramarino, em 1961. Tinha 25 anos. Em 1963 publicou os primeiros poemas no jornal “Orfeu Negro”, sendo incluído na Antologia da Poesia Moderna Africana.

Por esta época surgem rumores da ligação de “M” à Frelimo, movimento que combatia a integração de Moçambique na Pátria portuguesa. “M” acaba por ser preso pela PIDE mas, não se provando o seu envolvimento foi absolvido, em 23 de Março de 1966. Os seus quadros, de forte cariz social, continham simbologia de conteúdo político, embora não explícita. Por via disso “M” é novamente detido, em 4 de Janeiro de 1971, para ser interrogado. Mas tal não veio a impedir a sua vinda para Lisboa, onde tinha obtido uma bolsa de estudo na Gulbenkian.

Como era cruel a colonização portuguesa…

Durante os tempos que passou na Metrópole trabalhou, estudou e expôs em vários locais, empresas e instituições e, em 1973, vai para a Suiça a convite de amigos, começando, assim, a sua internacionalização.

Com a independência de Moçambique, em 25 de Setembro de 1975, “M” volta à sua terra natal e envolve-se na actividade política e social, chegando a ser eleito deputado pela Frelimo, em 1990, e para a Assembleia Municipal de Maputo, em 1998 e 2003. A sua actividade cultural no novo país também foi relevante. Algumas das suas actividades exteriores estiveram, porém, muito ligadas a regimes marxistas, como foi o caso da URSS, Cuba, Zimbabué e RAS. Esteve também ligado à UNICEF. Está representado em vários museus do mundo e colecções particulares e a sua obra foi objecto de diversos filmes e documentários. Possui vários prémios e distinções, incluindo o Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e o de Doutor “Honoris Causa”, pela Universidade de Évora.

Não deixa de ser curioso que “M” tenha vindo acabar os seus dias a Portugal, onde dava aulas no Porto, e onde se tratou na sua doença. Como foi cruel a colonização portuguesa…

O governo da “Nação Fidelíssima”, decidiu prestar-lhe uma homenagem póstuma, logo a seguir ao seu passamento. E deu-lhe honras de Jerónimos, “catedral” que simboliza a missão consubstanciada pela esfera armilar e que, justamente, acolheu o nascituro “M”, em Matalana.

Compreendia-se que os altos representantes da capital ex-imperial sufragassem “M” como nascido português (viveu até mais de metade da sua vida nessa condição), e como fruto da portugalidade, expoente futuro da Lusofonia.

Homenageá-lo apenas como Moçambicano parece menos acertado.

Menos se compreende quando por parte das autoridades daquele país, não existe reciprocidade. Pelo contrário existem até, alguns actos hostis, como foram os da postura relativamente à barragem de Cabora Bassa e falta de “agradecimento” pelas “cedências” em toda a linha das autoridades portuguesas; pelo fraco empenhamento na CPLP; por manterem as estátuas de uma história comum, apeadas; por levaram décadas a quererem colaborar no arranjo e manutenção das campas dos militares portugueses espalhados pelo território moçambicano; por pagarem tarde e a más horas às empresas portuguesas que lá labutam e pela inqualificável atitude do ex-presidente Chissano que, após ter sido distinguido com o título “honoris causa” pela Universidade do Minho, a única coisa que entendeu dizer, quando entrevistado após a cerimónia – em que estava ladeado pelo presidente português e pelo seu antecessor – foi a de que os portugueses deviam pedir desculpa, pela escravatura. Ninguém lhe respondeu à letra! Isto só para citar alguns exemplos.

Finalmente não ficaria mal ao executivo desta nação portuguesa, cantada por Camões, dedicar alguma atenção a faustos lusos. Seria sensato e equilibrado. Neste âmbito bem fariam em defender e acarinhar os moçambicanos de todas as cores, que lutaram nas Forças Armadas portuguesas, em vez de agraciarem traidores e desertores. Seria da mais elementar decência.

Esqueceram-se, ainda como exemplo, do Herculano e da passagem dos 200 anos do seu nascimento e Couto Viana que foi excelente poeta, mas gozando do infeliz título de “patriota”, a AR recusou-se a um simples voto de pesar. Não temos que nos admirar, pois que dizer dos representantes do Estado, que se recusam a comemorar, sequer a lembrar, a Restauração da Independência, a 1 de Dezembro?

Os políticos poderão alegar ter a legitimidade de votações maioritárias, mas perdem-na constantemente pelos seus actos, profundamente ilegítimos, por anti-nacionais.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O DESAPARECIMENTO DE ARMAS NO EXÉRCITO

Espingarda Semi-automática G3 de 7,62mm
O recente e aparente roubo de armas no Centro de Instrução de Comandos é, sem dúvida, um acontecimento muito grave.

É grave porque configura uma falha de segurança que não pode ser admissível em caso algum; porque pode ser indício de uma tipologia de crimes ainda inéditos ou a “subida de patamar” de outros já existentes e porque representa uma mancha séria na imagem e credibilidade do Exército e, por arrastamento, nas Forças Armadas.

Vamos tentar fugir a duas coisas, uma comum e outra menos: a primeira tem a ver com fazer aproveitamentos demagógicos de questões sérias e de atacar efeitos em vez de causas; a outra em falar de coisas que devem ter um carácter de confidencialidade (discorrer sobre procedimentos de segurança, por exemplo) ou substituir-me a quem, por dever de hierarquia ou de função, deve assumir posições oficiais – e por isso definitivas – sobre o assunto.

Vamos antes tentar discernir, sucintamente, as razões profundas (que davam uma tese!), que nos trouxeram a este ponto.

As consequências para as FAs, do 25 de Abril, do PREC, do 25 de Novembro de 75 e da “Descolonização”, foram muito traumáticas e gravosas.

Tendo-se descido muito baixo (no PREC) houve ainda energia para fazer uma recuperação rápida - efeito do princípio da física, da acção e reacção - mais rápida do que o resto do país (em razão das especificidades próprias da Instituição Militar (IM). Mas esta recuperação apenas se verificou, quase na sua plenitude, no âmbito digamos “material” da Instituição. Isto é, no restabelecimento da hierarquia e da disciplina, na organização, na melhoria das instalações, na doutrina e no treino. A “coisa” entrou nos carris.

Mas aquilo onde ficou longe de recuperar foi no seu âmbito digamos “espiritual” (a mais importante de todos), dado que os aspectos da ética, deontologia, confiança, lealdade, espírito de corpo e restantes virtudes militares, ficou muito por fazer. O golpes foram profundos e deixaram sequelas, que só o tempo e uma boa prática sanarão. As relações e a imagem entre as FAs e a Nação também sofreu e, por uma razão ou outra, acabou por deixar mágoas em todos os sectores da sociedade. O mesmo aconteceu com as relações político-militares: o conflito, o desajuste, o passo trocado e a desconfiança mútua, são uma constante dos últimos 30 anos.

As águas mornas e as declarações institucionais em que tudo se tem passado e tentado iludir os problemas, não resistem à análise mais sumária. A piorar as coisas em vez de se sanear as fileiras de quem se tinha portado mal durante o período revolucionário – e portado mal não tem a ver com ideologia política, mas sim com os preceitos da virtude e da honra – resolveu-se passar um pano por cima de tudo e meter tudo no mesmo saco, promovendo-se todo o mau comportamento a coronel ou sargento chefe/mor, e distribuindo-se subsídios a esmo. De facto as pessoas calaram-se, na sua grande maioria, as tensões aparentemente atenuaram-se, mas a injustiça, essa, permaneceu.

A injustiça revolta e desmoraliza. A IM, no seu conjunto, ficou gravemente ferida. Perdeu a capacidade de se dar ao respeito e quem não se dá ao respeito não será respeitado.

Passando-se as coisas assim, foi-se assistindo a uma guerra surda e de sombras, em que os políticos na sua avaliação (errada), acharam a IM dispensável em termos geopolíticos e geoestratégicos, uma maçada político/social e uma despesa que eles gostariam de poder passar a usar no seu circo político/demagógico para manter/alcançar o Poder. Numa palavra, os militares estavam a mais. A prudência, porém, não aconselhava, acções precipitadas, de grande visibilidade, ou radicais. O desaparecimento da IM teria que ser indolor e gradual para não provocar reacções menos controláveis.

O ataque a sério começou no primeiro governo do Prof. Cavaco Silva, com constrangimentos financeiros, em pessoal e administrativos. Nunca mais parou.

Por seu lado, a mais alta hierarquia militar, sempre a tentar recuperar do quadro atrás apontado e com uma cromossomática incapacidade em se entender e, por isso, em andar à frente dos acontecimentos (e alguma falta de coragem à mistura), passou a encaixar danos, a fazer “acções de retardamento”, a explorar falhas alheias e a esperar melhores dias.

Não tem sido suficiente, nem bonito de se ver.

Cumulativamente e aproveitando o resvalar da sociedade (comum ao chamado Ocidente), para veredas menos próprias em termos de valores dominantes e a falta deles, os políticos passaram ao exercício de desconstruir e sabotar a IM nos seus fundamentos.

Acabaram com o serviço militar obrigatório, um erro trágico em termos nacionais; quase acabaram com a Justiça Militar e fecharam os seus tribunais; tentam “civilizar” constantemente o ensino militar; deram uma machada terrível na disciplina, com a reforma do RDM; obrigaram ao fim de praxes e tradições; retiraram sistematicamente a possibilidade a militares do quadro permanente em ocuparem outras funções fora das FAs; restringiram, enormemente, a expressão pública por parte dos militares; durante décadas impediram que as FAs participassem nas festividades do Dia de Portugal; a escolha dos chefes militares passou a ser exclusivamente por critério político e retiraram-nos da escala indiciária dos vencimentos – ou seja, tentaram separar a cabeça do resto do corpo; retiraram, constantemente, competências à cadeia hierárquica e coarctaram a capacidade dos chefes defenderem os seus homens o que levou ao aparecimento de “Associações” que podem evoluir para sindicatos o que transformaria a tropa num bando armado sem qualquer valor militar; abriram-se as fileiras ao ingresso de mulheres, decisão perfeitamente demagógica e escusada cuja única consequência foi aumentar os problemas sem qualquer contrapartida em mais valias e, agora, pretendem acabar com o Sistema de Saúde Militar e com o Fundo de Pensões.

Enfim o rol de asneiras e malfeitorias é extenso e quase ininterrupto.

Pelo meio os órgãos do Estado descredibilizam-se pois não cumprem leis que aprovam (contam-se cerca de 40), fazem letra morta da Lei de Programação Militar, impedindo a modernização e o reequipamento; mudam de critérios a meio do jogo (por exemplo as condições relativas a contratados), inventam engenharias financeiras que resultaram no “case study” dos submarinos e passaram a obrigar os militares, que faziam gala em ter as suas contas sempre certas e a honrar compromissos, a entrar na bandalheira do Estado que não paga a horas e faz dilações nos compromissos.

Resultou de tudo isto para as FAs uma impossibilidade de gerir o seu pessoal, dar carreira condigna seja a quem for, incapacidade para reter especialistas em várias áreas; mal-estar; desmoralização; obter adequados níveis de instrução e treino; exiguidade de equipamentos modernos e impossibilidade da sua manutenção adequada; inexistência de um mínimo de factores estáveis de planeamento; falta crítica de munições; esgotamento de stocks e inexistência de reservas de guerra.

O dia a dia das unidades degradou-se. Os laços de disciplina estão relaxados, fecha-se os olhos a uma quantidade de coisas e deixou-se de cumprir uma elevada soma de procedimentos que são o ABC de qualquer IM que se preze e estão inventados desde o tempo dos Romanos.

Enfim, havendo dificuldade de recrutamento, especialmente para praças no Exército – apesar dos quantitativos diminutos necessários! – existe uma falta de informação terrível sobre quem se recruta. Nem um registo criminal se consegue e durante a instrução um instrutor que se distraia e “grite” algo mais alto a um instruendo, arrisca-se a que o mesmo se queixe dele e chame um advogado. Parece que é tudo contra os direitos humanos!...

A situação é insustentável e ninguém está para aturar isto.

Falta um pouco de tudo e está tudo preso por fios.

Querem que diga mais?

Pois vou dizer. Numa local do Correio da Manhã que deu a notícia, lia-se: “muitos dos militares retidos no quartel têm outros empregos, estão no Exército em regime de contrato. E ontem estavam revoltados porque não podem ir trabalhar nem estar com a família”.

Tirando a demagogia da notícia, e a ser verdade o relatado, é gritante a falta de preparação dos militares e a sua interiorização da condição e do dever militar. Ter outro “trabalho” carece de autorização e nunca pode ser invocado face ao serviço e que este também prefere à família. Ou seja estaríamos perante uma situação de autêntica “peluda”!

Perante todo este cenário que descrevi e que é real, perguntar-se-á porque é que a cadeia hierárquica não actua.

Bom, há de tudo um pouco a saber: por receio de verem as suas carreiras prejudicadas; por cansaço de verem as suas informações ignoradas; por não haver informação/feedback; por não se querer encarar a realidade; por sentimento de impotência; não quererem ser portadores de más notícias, por... Procure-se na natureza humana e descobre-se. A nível superior, ainda, porque as chefias políticas têm a autoridade de despedir um chefe militar e mandá-lo para casa com uma mão à frente e outra atrás, o que não tem paralelo em mais nenhuma profissão e porque, não querem tomar algumas decisões (desejadas pelos políticos mas não assumidas) de fechar unidades ou diminuir capacidades, que sabem não irem recuperar jamais.

Por tudo isto, caros leitores, nós não temos de nos admirar do que aconteceu nos Comandos. Face às barbaridades cometidas nós só temos de dar graças, por as coisas, apesar de tudo, terem corrido tão bem!

Mas podem deixar de correr.

domingo, 9 de janeiro de 2011

A “CRISE” E A SOCIEDADE

Temos para nós que a actual crise económica e financeira, tanto em Portugal como no restante “Ocidente”, tem origem numa crise moral e de valores, servidas por vagas sucessivas de medíocres lideranças políticas, que dão corpo a um sistema político, tido por democrático, cheio de vulnerabilidades que não param de se agravar.

A superação das dificuldades do presente, que fazem prever ainda maiores dificuldades futuras, será primordialmente do âmbito político e depois estratégico.

As medidas que vierem a ser adoptadas terão que ter em conta as pessoas que as vão ter que implementar e sofrer. Ou seja toda a população. E o grau de sucesso vai depender muito de como a nação no seu todo, acreditar nas medidas, decidir arregaçar as mangas e passar a trabalhar, isto é a produzir (pode-se trabalhar muito e não produzir nada…), de preferência com algum entusiasmo e alegria. Vão ser precisas doses maciças de boa liderança para conseguir isto. Porquê? Porque as políticas dos últimos 30 anos acabaram por criar um clima social e uma psicologia individual, muito pouco propícias a que as pessoas queiram trabalhar. Muito menos com alegria.

Vamos tentar dilucidar, sucintamente, como chegámos a este ponto.

O 25 de Abril foi como que se tivessem rebentado com o paredão de uma barragem, a água jorrou e espalhou-se anarquicamente por onde calhou. Até hoje ainda não se conseguiu reconstruir os diques da “barragem”.

Cada um reivindicou o que quis e pode, as regras de convivência, quer sociais quer laborais, estilhaçaram-se, experimentou-se de tudo um pouco, atomizou-se o poder e fez-se tábua rasa da hierarquia.

E criou-se na mente das pessoas, muito imprudentemente, que toda a gente tem direito a tudo e não tem deveres a nada.

Instituiu-se, até, tal estado de coisas, na própria Constituição, pai e mãe de todas as leis. Nela, existe um capítulo enorme, que tem por título “Direitos, Liberdades, e Garantias”, que é um autêntico maná, como se a anunciação do céu, fosse garantia de o atingir. Mesmo quando falam em deveres (por ex. “direitos e deveres económicos, sociais e culturais”), só lá aparecem direitos…
Existem duas excepções: Deveres (dos deputados), art.º 159 “comparecer às reuniões do Plenário e às comissões a que pertençam; desempenhar os cargos na Assembleia…; participar nas votações” – e o país tem assistido a como isto tem sido cumprido; e o artº 276,1 “a defesa da Pátria é direito e dever fundamental de todos os portugueses” – o que deixou de ser verdade por terem acabado com o serviço militar obrigatório.

A piorar as coisas, não se equilibrou o dito capítulo com outro, cujo título poderia ser “Responsabilidades, Deveres e Obrigações”…

A seguir restringiu-se a autoridade das forças de segurança, inundou-se o Direito de um excesso de cláusulas de salvaguarda de direitos que têm beneficiado objectivamente os que se portam mal e emperrado o sistema judicial; em vez de se procurar a harmonia entre “patrões” e “trabalhadores”, fomentou-se a conflitualidade, proibiu-se o “lockout”, mas facilitou-se a greve, dando ainda por cima, aos sindicatos um extenso conjunto de poderes e regalias.

Acabou-se com o serviço militar obrigatório e com qualquer espírito de serviço à Nação; a boa educação passou a ser excepção e a Honra um resquício pré-histórico, que só os tolos tinha em linha de conta. O único dever que restou foi o de pagar impostos!...

O trabalho deixou de ter um carácter nobre e passou a ser uma “chatice”, ao passo que a folgança passou a ter direitos de cidade.

Acabaram-se com as escolas técnicas e procurou-se que todo o mundo obtivesse uma licenciatura. Pior, incutiu-se a noção idiota, de que todo o cidadão tinha direito a uma. Resultou que ficámos com uma quantidade de encartados medíocres (até porque o facilitismo é mais que muito), encheu-se a sociedade de licenciados no desemprego e ficámos sem ninguém para uma quantidade enorme de ofícios. Importámos doses maciças de emigrantes para fazer o trabalho que ninguém quis passar a fazer…

Com a entrada para a CEE, aniquilou-se a agricultura, a pecuária, a pesca e as pequenas empresas. Pagou-se para as pessoas deixarem de trabalhar e espalharam-se subsídios a esmo que se esvaíram nos bolsos dos contribuintes, sem mais valia que se visse ou perspectivasse. Isto teve consequências desastrosas.

A seguir implantou-se na sociedade uma “ditadura” ideológica, misto de jacobinismo e de ideias serôdias derivadas do Maio de 68, em França, propagandeadas aos quatro ventos – qual lavagem ao cérebro! - pela generalidade da comunicação social, e que ganhou um momento de crescimento exponencial com a liberalização das televisões privadas. Nela abunda o relativismo moral, que virou as referências e o Norte de pernas para o ar; a teoria do bom selvagem, do Rousseau, que criou uma desresponsabilização colectiva e a ideia de não colocar todos os “ovos no mesmo cesto”, o que estilhaçou a autoridade e a capacidade de se obter resultantes na vida individual e colectiva. Em complemento fomentou-se um individualismo e egoísmo feroz, centrando-se a vida da sociedade e a própria existência, no “eu”, acompanhado de conceitos animalescos sobre a cultura do prazer. E, claro, de propaganda avassaladora relativa a consumismo.

Tudo isto teve um contraponto no desaparecimento dos conceitos de honradez, lealdade, necessidades colectivas, solidariedade, esforço, poupança, probidade, prudência, etc. Claramente também, no bom senso e na falta de vergonha.

Todos os aspectos aqui referenciados afectaram sobretudo a família e a educação, a instrução e a justiça. Também a vida nas empresas. Teve uma origem e desenvolvimento essencialmente político, mas para a sua resolução ou ultrapassagem, já não vão chegar as forças políticas – elas próprias agora condicionadas pelo “monstro” que geraram.

Vamos ter que apelar a todas as forças “telúricas” da Nação. Não vai ser fácil e nem vai durar dois dias.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

PRIORIDADES NACIONAIS

Publicado no jornal "O Público" de 11 de Janeiro de 2011

O Presidente da República promulgou, a 30 de Dezembro último, o Orçamento do Estado para 2011. Foi um orçamento que teve um parto difícil, de difícil discussão e aprovação, havendo ainda que ultrapassar negociações complicadas entre os dois principais partidos com assento parlamentar, que mais se assemelharam a um “teatro de sombras”.

Tal foi originado pela agudíssima crise económico/financeira que atravessamos (derivada da falta de valores e relativização dos mesmos) e na composição minoritária do governo.

A dramatização das coisas foi consequência das pressões internacionais (leia-se UE e FMI) para se tomarem medidas de austeridade e da constante “chantagem” dos mercados financeiros (leia-se Wallstreet), sobre o “rating” do país e as taxas de juro a aplicar a empréstimos (sabendo-se que as agências de rating não são de confiança).

Daqui resultou que, desde a maioria da classe política, com excepção do PC e BE, da esmagadora maioria da opinião publicada, comentadores, empresários e financeiros, todos juntos, se passou a ouvir um clamor em que era necessário aprovar o orçamento (leia-se, qualquer orçamento), a fim de “acalmar” os credores e os nossos parceiros comunitários (leia-se a Sr.ª Merkel e nórdicos). Não o fazer seria mesmo um crime de lesa – Pátria – e como este último termo os incomoda, substituíram-no por “bater com a cara na parede”…

Do mesmo modo choveram os debates nos “media” e em muitas instituições do País sobre os problemas existentes, desde a educação à saúde; da segurança social, à segurança interna, e até se passou a discutir o Mar, esquecido que estava dos adiantados mentais que nos têm governado nos últimos 30 e picos anos, os quais entretidos que andaram a correr para Bruxelas, aferiam apenas a sua importância pela temperatura da água quando iam à praia molhar os pés. Todos os sectores, dizíamos, menos a Defesa, que como se sabe não existe, a não ser para criticar a compra dos submarinos, inventando-se, até, uma nova medida financeira padrão: o submarino! Por ex., aquela empresa tem um deficit equivalente a dois submarinos…

Em tudo, porém, pairou sempre a sombra da economia e, sobretudo das finanças.

Assistimos a vários destes debates e deles restou-nos a ideia geral da falta de noção do conjunto, a inexistência de uma Ideia de Portugal, o primado do sectorial, muita ignorância de coisas básicas, alguns preconceitos e, sobretudo, uma ampla carência da noção da hierarquia das prioridades. Talvez porque o termo “hierarquia” e o que ele comporta, fosse um dos vários termos que foram banidos do léxico político e cultural português e que muita falta nos fazem.

E é, justamente, esta questão da hierarquia das prioridades que, mais uma vez, faz com que me encontre em discordância com a generalidade das ideias vindas a público, ou seja da necessidade de acordo sobre o orçamento e sobre a indesejabilidade de uma crise política. Expliquemo-nos.

Nós não temos uma crise económica, financeira e social, nós temos uma crise política. Isto é, nós temos crises em todos aqueles sectores, mas todas elas derivam de uma crise política grave e sem se resolver esta, não se resolverá mais nenhum outro problema a jusante. Aliás, nós vivemos em crise política e de valores há muito; foram, aliás a ganância, a corrupção, a falta de ética e de escrúpulos e, por outro lado, a falta de carácter, de coragem, de liderança, etc., que originaram a “crise” (já foram ver o filme “Inside Job”?).

Por isso, caros compatriotas, aprovar o orçamento, prolongar artificialmente o “status quo” político é continuar a viver uma realidade virtual e a adiar por mais tempo o que necessita ser feito, o que apenas vai piorar a situação e agravar os custos. E quanto mais nos quisermos enganar mais iremos sofrer.

Aparentemente não queremos, individual e colectivamente, encarar a realidade o que se trata de uma aberração da natureza que a Psicologia explica.

Concluindo, torna-se imperioso resolver o problema político que, por sinal, é bem mais profundo do que aparenta ou do que nos querem fazer crer. Tem três vertentes: o sistema em si mesmo, que deve ser revisto de alto a baixo; o modo como se aplicam as regras do sistema e a escolha/formação dos cidadãos que o tornam operativo.

Por estranho que pareça ninguém quer ou está preocupado em discutir tudo isto. Muitos dos responsáveis do que se passa hoje em dia, eram muito críticos em relação aos detentores do Poder anteriormente a 1974, por estes afirmarem amiúde que “a Pátria não se discute”, o que me parece, até, um conceito sensato.

O que dizer então de não se querer discutir um simples sistema político que, por definição, carece de actualização permanente e que está (ou será que não está?), sem sombra de dúvida muito abaixo da Pátria?

domingo, 2 de janeiro de 2011

A PAZ

A propósito do dia 1/1, dia mundial da Paz. Cumpts e bom ano!

Sim é um belo programa de vida. Outra coisa queria eu fazer senão viver vida despreocupada de paixões e bens mundanos. Andar por aí ao acaso, sem cuidados, a trocar sorrisos e gestos de bondade com outras criaturas, mas isso é um sonho. Enquanto olhamos os lírios descarnados e inertes, os lobos vêm e nos devoram… Odeio a violência mas como não exercê-la contra aqueles que não conhecem outros meios senão os da agressão e da brutalidade”.
Erico Veríssimo, in “Olhai os Lírios do Campo

A Paz é um tema de sempre, pois sempre o homem procurou a paz; mas, por outro lado, também sempre procurou a guerra. Dá ideia até, que Paz e Guerra existem em contraponto. A Paz é o contrário da Guerra, ou só nos preocupamos com a Paz porque existe Guerra. Talvez a Paz e a Guerra representem uma das faces da eterna luta entre o Bem e o Mal…

E esta (luta) tem a ver com a dimensão humana e com a Paz interior. Comecemos pela primeira.

Convém definir o termo (o que é a Paz), e para tal socorremo-nos de Santo Agostinho (civ: 10,13), que afirmou que a “Paz é a tranquilidade na ordem”. É, pois, viver sereno mediante um conjunto de regras. Resulta assim um equilíbrio que se pode desfazer facilmente caso quem impõe ou escolhe as regras, não o faça adequadamente face às pessoas e às situações…

Por outro lado podemos convir em que a Paz sem Direito não é Paz e que a Paz na injustiça é opressão. De tudo resulta o corolário de que a Paz não pode e não deve ser obtida a qualquer preço e de qualquer maneira. A Paz não pode ser uma abdicação como é exemplo o slogan existente no auge da campanha pacifista levada a cabo pela União Soviética contra o Ocidente nos anos 80 do século XX: “vale mais vermelho do que morto”.

Recordo as palavras de Raoul Girardet: “Os sucessos pacifistas, enfraquecendo a capacidade de resistência das sociedades ocidentais, podem precipitar os riscos de guerra, em vez de a evitar”.

*****
A origem da Guerra está descrita na bíblia “brota no coração de Caim, vítima da semente do pecado de seus pais”. E, como afirma João Seabra em “Os Cristãos face à violência”: “todas as formas de violência que houve, há; e nenhum mal pertence definitivamente ao passado”.

A Guerra é, pois, um fenómeno social, que mais de perto tem acompanhado a vida da Humanidade e não se vislumbra a sua erradicação da face da terra.

O centro do fenómeno é o Homem!...

A dissuasão, exemplarmente ilustrada no aforismo latino “se vis pacem para bellum”, tem sido até à actualidade o único meio eficaz para evitar conflitos directos e o melhor exemplo disso foi a Paz na Europa durante 50 anos após a II Guerra Mundial, facto inédito na sua História.

No entanto, se a dissuasão evita a guerra não promove, de per si, a Paz já que, baseada na ameaça impede a confiança. Obriga ainda à imobilização de recursos avultados para ser eficaz e, por outro lado, a dissuasão nuclear entre países ou blocos não evitou a deflagração de dezenas e dezenas de guerras civis e entre estados e coligações de estados enquanto vigorou.

*****
O tema da Paz é recorrente no 5.º Mandamento da Lei de Deus: “Não matarás”, Êxodo 20,13 e Mateus 5,21-22.

No Sermão da Montanha o Senhor lembra o preceito (não matarás), e acrescenta-lhe a proibição da Ira, do Ódio e da Vingança. E exige dos seus discípulos que “ofereçam a outra face”, e que amem os seus inimigos. "Felizes os obreiros da paz, porque serão chamados filhos de Deus”, disse S. Mateus, (5,9).

A Cólera é um desejo de vingança. “Desejar a vingança, para mal daquele que deve ser castigado, é ilícito”; mas impor uma reparação para correcção do vício e manutenção da Justiça, isso é louvável, no dizer de S. Tomás de Aquino – Suma Theológica (2-2-158,1,adz). Se a cólera for até ao desejo deliberado de matar seja quem for ou de o ferir gravemente, ofende de modo grave a caridade e é pecado mortal. O Senhor diz: “quem se irar contra o seu irmão, será sujeito a julgamento”, Mateus (5,22).

*****
A defesa legítima das pessoas e das sociedades não é uma excepção à proibição de matar o inocente, a que se chama homicídio voluntário. “O acto de defesa pode ter dupla consequência: uma, a conservação da própria vida; outra, a morte do agressor. Das duas só uma se tem em vista, a outra não”. Pode ler-se na “Suma Theológica” (2-2,64,7), de S. Tomás de Aquino. E ainda: “Se, para nos defendermos, usarmos duma violência maior do que a necessária, isso será ilícito. Mas se repelirmos a violência com moderação, isso será lícito. E não é necessário à salvação que se deixe de praticar tal acto de defesa moderada para evitar a morte do outro; porque se está mais obrigado a velar pela própria vida do que pela dos outros”.

Por outro lado, a legitima defesa pode ser, não somente um direito como um dever grave, para aquele que é responsável pele vida de outrem, do bem comum, da família ou da sociedade.

*****
O respeito e o crescimento da vida humana exigem a Paz. A Paz não é só a ausência da Guerra, nem se limita a manter o equilíbrio das forças contrárias. A Paz não é possível na terra sem a garantia dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os homens, o respeito da dignidade das pessoas e dos povos e a prática assídua da fraternidade. A Paz é fruto da Justiça e efeito da caridade.

O 5.º Mandamento proíbe a destruição voluntária da vida humana. Por causa dos males e injustiças que toda a guerra trás consigo, a Igreja pressiona constantemente cada um dos seus filhos para que ore e tudo faça de modo que a bondade divina nos livre da velha escravidão da guerra (Gaudium et Spes, 81,§4).

No entanto enquanto subsistir o perigo da guerra e não houver uma autoridade internacional competente, dotada dos convenientes meios, não se pode negar aos governos, uma vez esgotados todos os recursos de negociações pacíficas, o direito de legitima defesa (Gaudium et Spes, 79, §4).
*****
Deve-se ainda a S. Agostinho, bispo de Hipona, a primeira definição de Guerra Justa: “Costumam definir-se guerras justas as que vingam injustiças”. E S. Tomás de Aquino apresenta três requisitos para a guerra justa: ser declarada por autoridade legitima, com justa causa e recta intenção. Esta teorização manteve-se até ao Concilio Vaticano II, com achegas doutrinárias elaboradas no século XVI por Victória (1487-1546), e Suarez (1548-1617), em que se dizia que “Guerra Justa é aquela que é declarada por uma autoridade legitima, com justa causa, em último recurso, com recta intenção e usando dos meios proporcionados”. Os quatro primeiros elementos constituem o chamado “jus ad bellum”, o direito de fazer a guerra; o último constitui o “jus in bello”, o direito no fazer da guerra. Tais normas serviram de base ao Direito Internacional Público e à moral política.

Assim, e ainda seguindo a Doutrina oficial da Igreja, a legitima defesa pela força das armas deve ter em conta:
- Que o prejuízo causado pelo agressor à nação ou comunidades de nações seja duradouro, grave e certo;
- Que todos os outros meios de o evitar se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes;
- Que estejam reunidas as condições sérias de êxito;
- Que o emprego das armas não traga consigo males e desordens mais graves que o mal que se pretendia afastar. O poder de destruição dos meios modernos pesa muito sériamente na apreciação desta condição.

Os poderes públicos têm, neste caso, o direito e o dever de impor aos cidadãos as obrigações necessárias à defesa nacional.

O Concilio Vaticano II afirma na Constituição Pastoral “A Igreja no Mundo actual”, (Gaudium et Spes, n.º 79), “aqueles que se dedicam ao serviço da pátria no Exercito consideram-se servidores da segurança e da liberdade dos povos na medida em que se desempenham como convém desta tarefa, contribuem verdadeiramente para o estabelecimento da paz”. E ainda: “o direito de legitima defesa não pode ser negado aos governos uma vez esgotados todos os meios de solução pacífica pois eles têm o dever de proteger o bem-estar do povo confiado ao seu cuidado”.

E Paulo VI chegou a afirmar na sua intervenção na ONU, em 4 de Outubro de 1965, “enquanto o homem continuar a ser esta criatura fraca, mutável e mesmo perversa que tantas vezes mostra ser, as armas de defesa continuarão, desgraçadamente, a ser necessárias”.

É certo que desde sempre a guerra aparece ligada ao fenómeno religioso, podendo afirmar-se que todas as grandes religiões exceptuando-se, porventura, o Budismo, valorizam o culto da violência bélica e exaltaram o valor guerreiro.

Chegamos assim às causas da Guerra e seus remédios: “As injustiças, as excessivas desigualdades de ordem económica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que grassam entre os homens e as nações, são uma constante ameaça à Paz e provocam as guerras. Tudo o que se faz para combater estas desordens contribuem para edificar a Paz e evitar a guerra. A guerra é uma consequência do pecado e por isso só cessará com a vinda de Cristo”.

Na medida em que superem o pecado, unidos na caridade poderão ficar superadas as lutas e pode-se então realizar a palavra: “com as espadas forjarão os arados e foice com as lanças. Nenhum povo levantará a espada contra outro e jamais se exercitarão para a guerra”, pode ler-se em I S 2,4,e G S 78§6.

A procura da paz é, pois, um imperativo moral.

*****
O dia 1.º de Janeiro é anualmente consagrado como dia Mundial da Paz. Por isso não é de estranhar que Sua Santidade o Papa evoque esta data com uma mensagem. Foi o que sucedeu em 2005 em que João Paulo II escolheu como lema “Não te deixes vencer pelo Mal, vence antes o Mal com o Bem”, que não é mais que uma exortação de São Paulo aos Romanos (12,21). E, aqui, podemos ver como voltamos à eterna luta entre o Bem e o Mal.

E o Santo Padre urge aos responsáveis pelas nações e aos homens e mulheres de boa vontade para promoverem a paz no mundo através da prática do Bem e a não se deixarem vencer pelo Mal. E ambos (o Bem e o Mal) passam pela liberdade humana ou se quisermos, pelo livre arbítrio.

E clama que “o mal é, em última análise um trágico esquivar-se às exigências do amor”. E que o “bem moral, pelo contrário, nasce do amor e é orientado pelo amor”. Chega até, se o quisermos levar às últimas consequências ao amor pelos inimigos, como descrito no Evangelho: “se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede, dá-lhe de beber” (R M 12,20).

E é sobre este prisma que o Santo Padre falou sobre os conflitos no mundo. E alerta para as visões redutoras da realidade humana que transformam o bem comum em simples bem-estar económico, privado de qualquer finalização transcendente, porque Deus é o fim último das suas criaturas (João Paulo II, carta enc. Centesimus annus, 41: AA S 83 1991). Isto tem como corolário, pôr o Bem Comum ao serviço do desenvolvimento dos povos que constituem a Humanidade, de modo a erradicar a pobreza em que vivem um bilião de seres humanos, e tal facto estar intimamente ligado ao bem da Paz.

E com isto afirma a esperança Cristã: “apoiado na certeza de que o mal não prevalecerá, o cristão cultiva uma indómita esperança, que o sustenta na promoção da justiça e da paz”. E se “no mundo está presente e actua o mistério da iniquidade (Ts 2,7), não se deve esquecer que o homem redimido tem em si energias suficientes para contrastá-lo”. E, assim, conclui que nenhum homem ou mulher de boa vontade se pode esquivar ao compromisso de lutar para vencer o mal com o bem. Sendo que é uma batalha que só se trava verdadeiramente com as armas do amor. Quando o Bem vence o Mal reina o amor e onde reina o amor reina a Paz.

*****
Com tudo isto dito podemos partir para uma última reflexão e que é esta: parece seguro que tudo começa no indivíduo, que é membro de uma família e indissociável desta, o que se reflecte em seguida na sociedade e depois desta, nas nações e, finalmente, na comunidade internacional.

Parece pois que para se atingir a paz no mundo teremos que estar em primeiro lugar, em paz com nós mesmos e no seio das nossas famílias. Saber e conseguir estar em paz com o nosso eu e com os que nos rodeiam, eis a tarefa primordial e a dificuldade maior.

Para se atingir este estádio não há fórmulas matemáticas, receitas absolutas, acções imutáveis. Cada um tem que encontrar o seu equilibro e os outros com ele. É um desafio permanente da vida. É o desafio que temos.